Mulher dividida

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday August 25, 2008

Velhos e desiludidos, os meus pais. A mãe ainda acredita que pode parar o tempo. Não toma os remédios, embora consulte um médico sempre que uma novidade chegue ao mercado. Faz as listas de compras como se fosse partir para uma viagem. Meu pai contempla tudo como se estivesse à margem de um rio. Câncer na próstata. Está melhor que ela.

Tenho uma filha linda, estudiosa. Ginasta nas horas livres. Por ser minha amiga segue todos os meus conselhos. Agora, ao escrever, percebo o quanto ela se parece comigo. Sinto-me responsável por não lhe ter oferecido muitas alternativas.

Trabalho muito e ganho cada vez menos fazendo sempre o mesmo. Descasei-me após um longo suplício. Namoro virtualmente. Simples, prático, limpo, eficiente, sem possibilidades de mágoas físicas. As emocionais quando surgem fazem o computador desligar “automaticamente”.

Meu namorado é um conhecido da minha juventude. Foi o meu primeiro. Liguei por estar só. Folheando a minha memória encontrei seu nome no catálogo. Liguei. Fui bem atendida.

Conversamos e logo de cara ele me perguntou se ainda gostava de ler. “Claro. E você não perdeu esse hábito?” “Não, ainda não. E você o que está lendo?” “Leio Allan Kardec. Todo dia uma página.” “Eu também.”

Tenho aproximadamente mil e seiscentas mensagens trocadas. Tudo o que encontro no dia-a-dia, compartilho. No começo, as respostas eram muito longas, textos que eu lia várias vezes. Para compreender, para alcançar as sutilezas. Hoje ele responde cada vez menos. O mínimo. Deveria extrair preciosidades de cada pedregulho que recebo. Não vejo nem uma coisa, nem outra. Vejo algo vazio.

Mas estou bem. Nenhum interesse de conhecer quem quer que seja. Nada de trocas, nada de convivência. É tão gostoso viver com a minha filha. Nós nos entendemos muito bem. Fazemos nossos programas, rimos muito. Brigamos outro tanto, choramos juntas. Tenho um canário (herança do ex), um cão chihuahua chamado Guy e a Brigite, uma gatinha vira-latas - cria de uma siamesa e um gato galbo. De todas as relações afetivas que conheci, a melhor de todas é a que tem a Brigite e o Guy. Comando o casal e converso com o canário, brinco com a filha.

Gradualmente a troca de palavras escritas se tornou troca de palavras faladas. Conversamos ao telefone. Como a imagem dele é aquela antiga, ele não envelheceu. É moço, bonito, fala o que eu gosto de ouvir. Está sempre pronto para um conselho, e dos bons. Uma espécie de adivinho que, em vez de ler a borra do café ou as próprias vísceras, lê meus pensamentos. E conclui exatamente aquilo que quero ouvir. Existem momentos em que nos confundimos ao telefone, a voz dele entra em mim, penetra meus ouvidos e passeia lá pelo meio do meu miolo, relembrando coisas e loucuras da juventude, e parece que me transformo nele, e ele em mim. Nós nos embriagamos e nos amamos assim, a quilômetros de distância. Tudo com muita assepsia, fusão e furor. Um sexo alegre, novo, sádico, sadio e sem ameaças. Devo confessar que só assim consegui me libertar da vergonha na qual eu fui criada. Consegui extravasar e gozar em conjunto. Coisa que anos do casamento não conseguiram fazer. Anos de namoro real, tampouco. Consegui conversar sobre tudo. Não existe nenhum tabu, nenhuma chance de tocar em algo proibido. Assunto? Todo e qualquer assunto. Existe nele uma facilidade impressionante para discorrer sobre qualquer um deles. Não existe prática desconhecida, proibida, escondida. Consegui, finalmente, compreender o que ele sempre diz. Que não existe diferença entre a vida real e a vida sonhada. Sonho quase todos os dias com ele e faço amor. Não há nenhuma diferença. No telefone é uma voz que tem presença. Presença carnal. Ele consegue usar um tom de voz que desperta – exato e instantâneo - um mecanismo do desejo, algo penetrante, aciona todo o meu corpo. E o coloca em predisposto para o amor. Uma, duas, três vezes ao dia. Basta ligar.

Talvez isso tudo seja uma forma de desequilíbrio. (Esse pensamento me assalta durante as horas de folga, ou intervalos do trabalho.)

Esqueci de dizer. Trabalho ao telefone. Faço vendas por meio do telefone para clientes selecionados. Não sou aquela pessoa que repete o mesmo discurso milhares de vezes a um cliente desconhecido. Não, apenas telefono para clientes indicados. A minha conversa não é ensaiada. É real.

Ele deu alguns palpites na minha vida profissional. Alertou-me para uma série de fatos que, apesar de compreender não consegui seguir. Creio que ele ficou triste, sumiu por uns tempos. Dizendo que precisava viajar. Fiquei triste. Uma terrível sensação de abandono terrível, como eu nunca sentira antes. Incomparável. Para ajudar o meu trabalho aumentou, a renda caiu (como o desgraçado havia previsto) e fiquei sem dinheiro. Não faltava mais nada. Fiz aniversário sem ele. Comemoraríamos um ano de namoro. As duas datas coincidiriam. Nada. Só. Novamente.

Bem que ele me avisou. Disse exatamente quando voltaria. Precisava estar só. Sem ninguém. Não queria conversar. Pensei, é a mesma conversa de sempre. Relembrei momentos anteriores. A mesma coisa. Estou farta dessa falta. Falta do quê? Senti uma rejeição muito grande. Será isso mesmo? Afinal de contas tudo foi tão civilizado. Eu não represento nenhum perigo. Por que uma mentira?

Ele voltou. Agora conversa menos. Bem menos. Menos próximo. Mas com a mesma segurança, carinho e voz de antigamente. Consegui seguir seus conselhos. Troquei de empresa, troquei de ramo, troquei minha vida profissional. Ele estava certo. Estou começando tudo de novo. Parece ser a minha sina.

Agora estou pronta para recomeçar. Estou pronta para uma vida a dois. Quero muito mais de uma relação. Preciso dele fisicamente. Estamos conversando a respeito.

Ferreirinho-de-cara-canela

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday August 18, 2008

 

‘Mei que’ de paciência estourada. Saúde debilitada. Física e mental. Procuro abrigo nos sonhos. Junto meus pedaços, tento fazer um roteiro compreensível dos meus dias. Para tanto, deixo suavemente o meu corpo e, assim, relato o presenciado por ele em alguns momentos em que se pensava acordado:

“Fiquei tão feliz ao saber que a sua raiva passou. Agora as coisas vão caminhar. Você verá. Eu não tenho raiva, tenho angústia. Quero ficar mirando o nada. Olhando pro céu. Impossível. Impassível.”

(Não consigo. Não há céu, não há  brigadeiro em Sampa. Há cinza. Escuro. Burro. E humanos.

O máximo que a razão conseguiu: Guerra. Morte. Liberalismo. Nomes. Conseguiu denominar.

Homens tornando-se mulheres para ganhar competições e vice-versa. Desde que não seja vice. Banho de gelo para nadar mais rápido. Urrando feito urso para pendurar uma caçoleta no peito nu e sem pêlos. Ou atirá-la no chão por bronze. Tudo tão banal. Triste, repetitivo. Eterno outono melancólico do Rubem Braga.

No Brasil, as estações se instalam no interior do ser. Exteriormente, nunca sabemos quando começa e quando termina uma estação. É sempre verão. As estações estão em nossas almas.)

Ouve uma palestra de um escritor tomado pelo espírito de Kafka. Oitenta anos após a morte de Kafka, sentiu como se fosse ele, encontrou-se inteiro em suas narrativas de deslocado integral, genuíno. Acordou Kafka.  Na audiência, alguém disse: “Você é a cara do Donald Sutherland em 1900”. Franz olhou totalmente desconcertado (desconfortável), mas encontrou um resto de fôlego para responder: “Já me disseram que pareço mesmo é com o Kiefer, filho dele”.

Recusou uma aguardente húngara feita de ameixa, oferecida como sinal de boas vindas. “Estou sob efeito de medicamentos”, explicou.

Agora, pediu ao anfitrião que o servisse de um cálice. “O medicamento que se dane, afinal”, disse, embaraçado. Confessou-se atônito. Receber um rótulo assim de pronto. Ele não estava preparado para isso.  Foi brutalmente catalogado, incluído num escaninho desconhecido.

Humano, ah, o humano.

Abandono o recinto após ouvir, de forma indisciplinada (mas atenta), o espírito recidivo do infeliz boêmio. Recolho-me. Lembro da história contada, dos momentos em que o espírito de Omar ben Ibrahim, nascido na Pérsia, volta em outro, sete séculos depois, alguém nascido na Inglaterra e chamado Edward Fitzgerald. E faço os meus votos para que isso tenha, novamente, acontecido com estes dois: Joseph K. e o professor Viroso.

Acordo. Procuro pelo meu melhor amigo. Ele não veio hoje. Dei por ele no estrangeiro, ao ouvir um canto diferente. Algo me incomodou durante toda a viagem. Não sabia o que ou quem era. Descobri agora ao voltar à rotina.

Estou enamorado pelo som, voz, canto de um pássaro. Não consigo saber o nome desse meu companheiro diário. Todas as manhãs, desde as quatro. Sempre acorda uma hora depois de mim. Ele vem à mata aqui ao lado e canta. Alto, estentóreo, ritmado. Sei que não é grande. O som é forte, mas agudo, e os meus sentidos indicam um ser miúdo e livre.

Ritmado sem ser monótono. O fragor da araponga, por exemplo, é conhecido como um martelo na bigorna. Mas esse tem melodia, é fulgurante. A seqüência das notas tem esplendor e beleza, liberdade e autonomia.

Sei que não é sabiá, sei que não é bem-te-vi. Tem uma melodia composta por algumas notas, pontual. Não é, tampouco, um João-teneném. Ele não diz  ‘bemtereré’. Não é uma maitaca com sua voz coletiva. Ele é único, solo, soprano.

Estou cismado: é um cuco. Folheio um livro das aves que habitam a nossa grande pequena capital. Fotos de todos. Descrições. Separações entre os machos e as fêmeas. Tamanhos. Mas nem todos têm o seu canto gravado ou descrito. Será que com eles acontece como os humanos? A sua voz não importa. Não é suficientemente diferente, autêntica, bela para ser reproduzida ou mencionada. Não tenho chance de ser um ‘pavó’ e seu ‘buuuuu-buuuu’ característico. Talvez um parvo cujo canto seja ouvido só de muito perto?

 A leitura me anima. Tenho uma palmeira próxima, e cuco se alimenta do buriti. Não. Infelizmente, o último registro data de noventa e três, no extremo nordeste do estado. Está ameaçado de extinção. Destruíram seu ambiente. Vive em grupos no Bacurizal.

(Lembro de ter ouvido do médico o seguinte: “Afinal de contas, a motilidade e o sexo não são tudo na vida”.)

Se eu fosse um pássaro, estaria reduzido a recolher insetos que passam por perto, como o arapaçu. Sentiria o sabor da vida escoando e, com alguma emoção, presenciaria o momento. Viveria de colecioná-los.

Achei.

“Ferreirinho-de-cara-canela – Poecilotriccus plumbeiceps ou Todirostrum plumbeiceps. Ao contrário do Relógio (Todirostrum cinereum), esta espécie está restrita às áreas de mata, sendo mais abundante em florestas perturbadas. Vive escondida no meio da ramaria, a pouca altura do solo. É de difícil observação. No entanto, sua presença na área é facilmente detectada por meio de sua vocalização, constituída de chamadas curtas e rápidas ‘prru, pruu’. Pode criar filhote de Peixe-frito-voador, uma ave da mesma família dos chupins e que pesa, quando adulto, oito vezes mais do que ele.”

É isso aí. Segura a onda. Estou surfando. Ouvindo Channels and Winds com Philip Glass e Ravi Shankar. Deitado numa banheira olhando detidamente para a imagem da luz sobre a água quente que balança no mesmo ritmo da música.

Desperto cansado de carregar o meu anu preto com oito vezes mais problemas que eu. Confesso que meu amigo poderá ser outro. Fiquei encantado e dominado pela descrição vívida. Não tenho mais tempo disponível para nada. A não ser para encontrá-lo.

Sangue Negro

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday August 5, 2008

 

 

 

 

Um grande filme. Uma grande atuação, cercada de muitas-todas outras. Conta a história de um homem obstinado. Obcecado. Que confessa: odiar todos os seus semelhantes; saber deles - de cara - qual é sua intenção; ser um viciado em competição.

 

Não é muito diferente das demais obras que cuidam da vida e obra dos grandes “tycoons” americanos. Assistimos já muitos deles. Mas existe uma diferença, e essa diferença está no autor do roteiro e diretor Paul T. Anderson.

 

Ele já havia criado um personagem inesquecível em “Embriagados de Amor” e agora repete a dose.

 

Uma história dura, de um sucesso buscado a qualquer preço, com um esforço quase sobre humano, que nunca abandona o seu objeto. A primeira frase demora-se muito para se mostrar. São mostrados apenas – sem explicações - os atos formadores da educação sentimental do protagonista. Ao longo de todo filme acompanhamos, com interesse, surpresa, asco, todas as suas opções.

 

Podemos discordar de algumas delas, mas são indispensáveis ao seu sucesso. De um mineiro miserável e alquebrado a um magnata do petróleo. Sua história se confunde com a história da América. Uma como alegoria da outra. Tive a impressão de Mr. Plainview como uma das nascentes daquele Danúbio que foi a exploração do petróleo. A nascente da espoliação, da cobiça incomensurável, apenas sem o retoque do bom - mocismo. A visão é crua, não há um Tonto, um Sargento Garcia, para acompanhar o Zorro. A iluminação do filme é sombria e magnífica. “A treva e a luz sempre haviam coexistido, ignorando-se, e quando finalmente se viram a luz só olhou de relance e se desviou, mas a escuridão enamorada se apoderou do seu reflexo ou lembrança e esse foi o princípio do homem”.

 

Existe uma luta entre irmãos, entre a fé e o negócio, ambos visando o dinheiro.  São duas faces da mesma moeda da ambição, da vontade de poder.

 

O que dá um toque de beleza extraordinária ao filme é a habilidade com que o diretor dosa a complexidade do personagem, por um lado com um ódio inaudito e um amor filial incompreendido por todos, inclusive pelo filho e que fica escondido. Aparece de uma forma vacilante, envergonhada ou doida e embriagada.

 

Uma das cenas marcantes é a da explosão. Naquele local se encontra seu filho “H.W.” (Dillon Freasier). Imediatamente o pai sai em sua busca, encontra-o, aconchega-o no peito e corre com ele para uma distância segura. Constata que o filho está relativamente bem, e o deixa chorando, com os braços estendidos pedindo: fique. Não, ele vai tentar salvar algo do que resta. Volta para o seu negócio. O negócio, sempre o negócio.

 

Não há dúvida que Daniel é um apaixonado. Tanto de amor quanto de ódio. E essas manifestações são parecidas em seu antagonismo. A abjuração da fé do pastor, seu carrasco e agora vítima, é um grande clímax e desmascara qualquer poder religioso.

Enfim, é uma das histórias da América revisitada por um homem de grande talento. Ele resiste a comparações com qualquer filme. É único, diferente, cruel e sensível. Explica ao nosso tempo – o nascimento da força do petróleo; se trocarmos o protagonista por um país restará uma explanação didática do que é necessário se fazer para sair vencedor dessa competição.

 

Esta obra continua o diálogo iniciado com Cidadão Kane, Era uma vez na América, O Poderoso Chefão, com competência, dignidade e emoção.

 

 

 

 

 

 

 

 

Saint Emilion

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday July 30, 2008

Um lugar que desnorteia. Não se espera uma vila medieval, com um formato de pêra – como as peças de Satie – gruta de eremita, catacumbas, igreja monolítica, ruas estreitas, um interior moderno e equipamentos de última geração facilitando a vida de quem está vivo nesse momento. Vive-se ao mesmo tempo duas eras; a transição. Transição colorida, desde o ocre da uva sauternes, passando pelo cinza nítido, gótico e cinzelado dos campanários, e o indefinido e esmaecido, já comido pelo verde das ruínas do mundo galo romano. Restam muitas paredes, encimadas pela flâmula tricolor.

Um ciclista corado, esbaforido, com reserva de gordura para chegar até Perigueux, traja um agasalho preto e vermelho em tudo muito justo. Parece fazer questão de mostrar sua energia e valentia para todos; uma filmadora de última geração pendurada no pescoço suado e possante.  Mas algo revela que ele não é um esportista nato, é sim, um contador. Conta calorias ingeridas e tenta gastá-las, zerando uma conta impossível; quanto mais gasta mais fome têm. O seu cheque especial de calorias está sempre estourado.

É denunciado pelo seu animal de estimação. Tem piedade do seu cão. Poupa-o. Emprega nele toda a clemência que pede para si. Leva no bagageiro da sua bicicleta um cãozinho bege, sentado, olhando o mundo à sua volta, com olhar curioso e satisfeito por estar ao lado do dono. Não está com a língua de fora. Aspira e se delicia com o ar.

Cada lugar daqui tem o seu toque de horas. Diferente um do outro. O som do sino daqui é cavo sem reverberação e convoca para um coral que acontecerá mais tarde. O sol ilumina a água do rio não a tornando dourada, e sim verde. Mais amiga e evocativa. Também o barro da sua cor natural e foi invadido pelo verde.

Na praça principal defronte a Igreja e o Hotel, um pequeno ‘bistrot’. Estou em meio ao povo alemão. Eles andam sempre juntos, gabam-se de entender perfeitamente o francês, apesar de não conseguir pronunciá-lo. Atendendo ao sino, uma mesa repleta de espanhóis - educados, contidos - pedem apontando no cardápio uma quantidade pantagruélica de comida; a sua forma de homenagear a literatura francesa. Esqueço-me num olhar perdido.

O banheiro público é limpo e cobra trinta centavos para o necessitado e nada se você é despossuído, mas é obrigatória a volta de cento e oitenta graus e que se alivie protegido apenas por duas abas.

É um sinal do afeto dos franceses.

Um senhor pára na minha frente, com uma garrafa de ‘Château Ausone’ que ele carrega cuidadoso como um bebê, o rosto vermelho sob um chapéu todo grande e amarrotado denunciando seus cabelos escorridos e loiros, de bermuda. Furtivo, desconfiado. Olha para o lugar enquanto sua mão tateia, passeia pela garrafa como um cego imaginário lendo, não se resolve, está numa intensa atividade mental. Muitas opções. Acaba por entrar no café, conversar longamente e acaba por sentar-se. Pede seu almoço.

Resolvo entrar no hotel para almoçar.

Escolho pelo nome. Plaisance.

De fato, é um lugar imponente, com uma decoração clássica. Tonalidades de creme e carmim. Não quero nada em especial. Aproveitar o momento. Peço que o chefe faça a escolha.

Aprecio o lugar, os sabores e principalmente o cenário. Estou participando de uma missa solene. Muitos serviçais sacerdotes, poucos clientes ou fiéis. Uma divisão rígida das funções. Os movimentos de todos são calculados, as palavras são todas decoradas.

Tento descrever.

O sacerdote apresenta os pratos, com uma descrição breve da origem, do sabor e da intenção; assim como do molho, tudo adjetivado e com muitos advérbios, e é seguido por um auxiliar que em seguida o coloca à mesa; agora o escanção apresenta a uva, a safra e a vinícola, servindo o vinho indicado.

Abocanhado o primeiro pedaço, volta num passe de mágica, o sacerdote para saber da sua opinião. Se você se percebeu o sabor, se ele está inteiro dentro de você.

No primeiro prato ainda se é capaz de dar uma opinião, não isenta, mas se sabe se é verdade ou mentira o que sua boca denunciou. A partir do terceiro, prato e vinho, ninguém mais é são de consciência o suficiente pra dizer algo sensato.

Durante todo sacrifício ficam ao lado os efebos. Uma lembrança dos tempos clássicos. Mancebos assexuados, com roupa preta, colarinhos de padre, são magros, pequenos atletas de ginástica olímpica, trocando talheres, servindo água, buscando os pães, atentos ao menor sinal de satisfação ou necessidade. Terminada a refeição, trazem, descrevem e servem os queijos próprios; antegozando a sobremesa. A fala é titubeante, não aprendida integralmente. Ao serem interrogados por qualquer motivo, eles saem do ceráceo, passando pelo o rubro até o purpúreo, olhando desesperada e aflitamente ao sacerdote auxiliar num pedido de socorro.

Observo um casal de americanos, com seus dois filhos, em trajes esportivos, falando alto; um casal impassível de orientais, impossível de se perceber de onde, provavelmente do Japão, pelas máquinas fotográficas e pelo pedido da foto de cada prato; uma dupla francesa de calça e camisa, homens extremamente encabulados, barbas por fazer, rindo e olhando indiscretamente tudo, talvez fosse um riso nervoso; e uma trinca assim composta: Um casal de roupa muito nova, passada e empertigada, acompanhado de uma intérprete jovem, vestida como executiva, olhando muito para os lados. A mulher com um penteado muito alto e plastificado que tornaram seus cabelos louros como um algodão doce, foi muito bonita, hoje tem um cuidado exagerado de parar o tempo, plastificando o rosto e contendo a gravidade. O marido com uma gravata fina, tipo cadarço, como laço uma cabeça de touro e seus cornos, calça de brim, e um sapato de couro cru, tendo na pala uma rosa exagerada, em preocupante relevo. Tentei descobrir a nacionalidade ouvindo o som das palavras. Não consegui saber. Sabia apenas que eram europeus dos Bálcãs. Não resisti e perguntei ao auxiliar se eram franceses, disse-me que não, são russos, explicou condescendentemente.

Saímos simultaneamente o casal olhando para cima, enquanto a moça trocou um olhar vago comigo.

Termino minha expedição, visito a Igreja, aprecio o espaço iluminado tenuemente pelos vitrais: vazio. Aguardaria a apresentação da música do coral, mas não consegui; minha atenção foi chamada para um nicho iluminado. Poderia comprar uma história daquela igreja mediante pagamento de uma moeda. Não tinha a importância numa única, apenas trocados. Juntei quatro delas para completar o total indicado. Fiz a operação. … Nada. … Coloquei outras mais, e… .Nada, novamente. Li, no instante seguinte, o aviso que dizia. “Coloque somente uma moeda.  Equipamento programado”.

 

May return no more

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday July 28, 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

And, as the Cock crew, those who stood before

The Tavern shouted - “Open then the Door.

You know how little while we have to stay,

And, once departed, may return no more.”

 

Omar Khayyám, in The Rubaiayát, by Edward FitzGeral

Blade Runner

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday July 23, 2008

 

 

Alô, alô; daltônicos. Vou sair com luvas vermelhas. Optei ficar ou lembrar Sean “Rachael” Young em Blade Runner.  Tenho uma balada hoje. Devo sair depressa, não tenho tempo para mais nada. Gosto de fazer tudo rapidamente.

 Sou muito atrevida. Tenho vontade de dominar a situação. Não costumo esperar por nada. Avanço. Disfarço o tremendo medo que sinto, correndo, avançando, como se estivesse sendo empurrada por algo que não sei bem o que é, e para uma direção desconhecida. Antes de saber, ataco, termino, aprofundo, salto e sobrevivo dando a primeira pancada. Servindo ao meu vetor.

E agindo assim é justo concluir: os homens estão muito sensíveis. Como a mim tudo os assusta. Deve ser uma coisa do tempo, ou dos tempos. Mas eu vou em frente o ataque é a melhor defesa. Eles – os meus pelo menos – ficam tristes e saudosos. E a angústia me assalta, como se a morte estivesse muito próxima.

Tudo hoje é signo. Tudo é aparência. Estamos perdendo a capacidade de conversar. Cada um de nós conversa só, mesmo acompanhado de outras pessoas; as conversas são cortinas de água, verticais e paralelas, somente respingos se tocam.

Ouvi uma história sobre um carinha que solucionava questões de matemática antes mesmo que a calculadora o pudesse fazer. Rápido. Abissal. Abismal. Batia os olhos e o resultado, saltava como pipoca no micro-ondas. Como ele teve o infortúnio de nascer na Índia, foi levado para a matriz de então; lá depois de muito tempo de observação, foi liquidado. Nenhum de nós está – aparentemente - preparado para uma afronta dessa, muito menos um mistério desses.

Conversei com um mestre de xadrez. Aprendi que o talento natural para o jogo está naquele que vê o tabuleiro como um todo, e conforme a posição das peças sabe de imediato quem vai ganhar a partida, se tudo continuar naquela direção.

Assim procuro agir. Ouço bastante. Tento ver a paisagem completa, no menor tempo possível. E a nossa paisagem está caminhando para um mundo como o das formigas, especializado, lógico, inexorável como a globalização.

Percebo também que nós temos uma recordação viva do período anterior ao nascimento. A forma da orelha.  O lóbulo figura a cabeça. O contorno e as quinas do ouvido são representações da espinha da nossa posição fetal. Sei como fui enquanto feto. E sei disso do meu homem também, se nasceu mirradinho ou não. Escolho pelo sinal. Pelos feromônios?

O lugar das relações monogâmicas é o museu, ou laboratório de análise psicológica, talvez o apropriado  é um centro de estudos de paleontologia. Vivemos num período de mudança profunda. Caminhamos novamente para o matriarcado. Nessas rotineiras e constantes voltas que o universo dá.

Conversei com um entomologista, ouvi a sua admiração pelas formigas, pelas especializações que escolhem, pelo arranjo das cidades, mas fiquei impressionada com o fato do espécime macho da sociedade nascer apenas para fecundar a rainha, numa determinada época e depois morrer. Quando acordei a formiga em mim ainda estava lá. Eu sabia da história, mas ouvi-la agora prestes a sair, trouxe-me tudo de volta com muita força. Algo como gostar de um sapato de couro de crocodilo, não sabendo o porquê, colocar uma roupa de couro negra.

Sim, parece que é isso. Somos as mais fortes, temos mais senso prático, abominamos a violência, a não ser e verbal e eventual. E por isso mesmo. Depois do prazer mútuo, o macho vai deslizando suavemente rumo ao rio do esquecimento. Não o matamos mais, nem carece. Ele se suicida como presença na vida comum. É assim.

Esses meus pensamentos são, talvez, originais. Poderão causar a mesma repulsa que causa uma demonstração de mau humor. Uma resposta malcriada. Uma rejeição. Como algo feio, pernóstico ou doidivanas. Uma alucinação. Mas foi com esses pensamentos tirei do doutor “Hearsay” que pude concluir como se fosse uma jogadora talentosa; e, mais com esse pensamento pude entender a beleza dessa pequena maravilhosa, que se convencionou chamar de conto.

“Quando acordou,
o dinossauro ainda estava lá”.

Augusto Monterroso

 

Além dos explícitos, dou meus créditos: A fênix apoplética,

Alfred Schnittke,Bernard WerberCristina Sampaio, DaniCast, ElfenQueen, François RabelaisRenata Miloni, Thorstein Klapsch

 

Mas eu cada vez me despreendo mais*.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday July 18, 2008

 

 

“Senti-me, inquieto já. De repente, o silêncio deixara de respirar.

Súbito, de aço, um dia infinito estilhaçou-se.  Agachei-me, animal, sobre a mesa, com as mãos garras inúteis sobre a tábua lisa. Uma luz sem alma entrara nos recantos e nas almas, e um som de montanha próxima desabara do alto, rasgando num grito sedas do abismo. Meu coração parou. Bateu-me a garganta. A minha consciência viu só um borrão de tinta num papel”.

Fernando Pessoa

“Mas no momento em que minha imaginação chega ao êxtase com suas criações mais fantásticas, ocorre uma pausa, um divino intervalo, a meio caminho entre o nada e a ressurgência da vida…

É o silêncio único, impossível de se encontrar, no apogeu de sua história, no topo da sua fertilidade, de onde nascerá o ruído do mundo”.

Danilo Kis

 

 

* Carta de Clarice Lispector de 10,18,1956

Aflição

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday July 17, 2008

 

“Por estranho que pareça, gosto das criaturas da mesma espécie que eu: gosto de gente, gosto das pessoas”.

 

Heinrich Böll in Pontos de Vista de um Palhaço, através de Paulo Soethe

“Pois eu sabia que, para sobreviver e prosperar, era importante não sentir nada por ninguém nem por coisa alguma, e eu sabia que queria sobreviver e prosperar”.

 

Richard Flanagan in O livro dos peixes de William Gould Romance em Doze Peixes, através de Paulo Henriques Britto

 

Dobras do tempo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday July 11, 2008

 

 

 

Existe coisa mais intragável que festa de criança? Não conheço. Estou numa delas. Escondi-me ficando num canto. A casa, parece, puxa uma conversa comigo; sentamos nós três, eu, ela e o tempo. Esse último se apresenta como um tecido com várias dobras. E estas não permitem uma leitura completa.

 

Saí da estrada para encontrá-la; situa-se numa clareira de um bosque, construída com muitos, harmoniosos e recortados detalhes em nogueira formando um brusco contraste com o branco da alvenaria. Com telhados altos, mansardas, terraços com balcões, num estilo alpino.

 

Entramos numa sala de estar ampla e alta, o forro e o piso com tábuas agora de mogno, natural e sonoro, as colunas que separam os ambientes estão adornadas com gravuras, mostrando cada uma um casal. Os pisos e as paredes estão forrados com tapetes, de lã, com motivos variados, geométricos, abstratos, nenhuma forma humana. A decoração ficou acolhedora, aconchegante, despertando em mim uma emoção, uma reminiscência, uma vontade de lembrar.

 

Aos poucos fui chamado pelo tempo para um outro lugar. Como um toque suave e amistoso no ombro. Talvez a lembrança da antiga história contada pela minha avó, contando que éramos descendentes dos nórdicos – soube depois que houve uma invasão sueca nas terras alemãs – que saqueavam de sobejo a região. “Mas não, não; não eram bandidos comuns, eram ‘bons ladrões’, roubavam para si o necessário e distribuíam o excesso aos pobres”.

 

E dessa história estabeleci a conexão entre o lugar onde ela contava com este onde eu estava. Eram muito parecidos. Sim poderia ser isso.  As madeiras como lembranças da floresta sempre lembrada por ela, que abrigou meus antepassados por muitos anos, a nogueira, o mogno e o bosque de pinheiros restaram como um símbolo daquela era, que agora piscava sobre mim. Assim como a lã daqueles tapetes. Era o memento das ovelhas com sua pele de astracã atuando como coadjuvantes. Madeira e lã são lembranças de um tempo que não conheci, mas ficou em mim o mimo acolhedor de um lugar, escondido num canto que floresce agora com vigor e êxtase.  Esse mesmo que precisava de reparos para torná-lo mais claro e luminoso.  Foi dele que recebi a sensação de que pertencera ao rol dos meus sonhos também. Eu sabia de antemão quem o idealizou, conhecia a sua história e ela se entrelaçava com a minha.

Dentro da minha floresta e junto aos meus animais; soube então que havia sido um ovelheiro, guardando e cuidando para que não se perdessem ou fossem roubados; a prova ficou gravada como meu sobrenome. Estava já solidamente instalado na terra.

E fazia o que faço agora nas horas vagas, teço com o fio de lã o tapete com as imagens das minhas lembranças.

 

Detive-me para olhar as gravuras consegui ler: Macedônia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Croácia, Montenegro, Eslovênia. A descrição escrita no alfabeto latino indicava que provieram da Bósnia ou da Croácia, já que as demais regiões escreviam em cirílico. Casais em trajes típicos de cada país posando antes do início da dança.

 

Segui para a sala de refeições e encontrei como elemento decorativo duas gravatas com nós duplos presas à parede, com motivos quadriculados da mesma cor, em tons diferentes, e a minha dúvida se desfez. Estava numa casa de croatas.

 

Ao mesmo tempo ouvi uma conversa contando que o pai do dono da casa era iugoslavo. E assim o meu fio encontrou a sua agulha. E alguém de pais croatas, nascido na Bósnia, apareceu para contar uma história que também foi minha: Ivo Andric.

 

Ano Intranqüilo é o nome dela e narra a saga do patrão Ievrem que viveu numa cidade provincial da Bósnia, num tempo impreciso. Próspero agiota que dominava o comércio local, com poucas palavras, muitas informações, dinheiro e inteligência. Perdeu o movimento de metade de seu corpo e do andar superior de sua casa comandava seus múltiplos interesses, sentado sobre seu tapete. Entre os serviçais encontrou Gága. Uma ciganinha deixada para trás num êxodo provocado pela fome; recolhida, cuidada e treinada por sua mulher e por sua filha.

 

Encontrou nela a beleza. Desconhecida para ele até então. Passou a observar a mudança das cores da natureza, saber o nome dos pássaros, plantas e flores. Sabia que tudo se move e esvoaça para longe. Sabia também que tudo era passageiro. E apesar disso tudo, nutriu esperanças - jamais ditas - de retê-la consigo.

Esperanças desfeitas pela requisição do exército imperial, na pessoa do bei, de sua Gága para casamento. Pedido irrecusável, irreversível e imediato. Atrasou o quanto pode, o quanto permitia a sua reputação. Havia aprendido a lição na teoria e na prática; a entregou.

 

Esclareço: isso tudo se passou comigo, entretanto sem o ingrediente da sabedoria. Não entreguei a minha Gága, tentei prendê-la, sem perguntar da sua vontade. E ela fugiu. Aprendi sem a reflexão, com a experiência; e é esse o signo dos tempos atuais?

 

Restam pontos a esclarecer nessas dobras do tempo. Quanto mais fino o tecido mais ilegível a dobra. Saio da festa, vou a um barbeiro. Entrei no primeiro que encontro. Encontrei Pedro das Alagoas. Pergunto se é de Palmeira, lembrando de Graciliano, diz-me ser natural de Pão de Açúcar. Pergunto se tem notícias de Corisco. “Tenho” – diz – “mataram o filho dele a mando do Cel. Maria”. “Coisa de mulher”. Depois de tanto tempo, parece que nada mudou. Parece. Olho ao meu redor, um cafarnaum de objetos, dentre os quais uma fotografia com casal idoso sentado num banco, olhando os que passam. Reconheci a Aquitânia pelas suas torres oitavadas e pela flâmula com seu leão rompante. Perguntei de onde veio. “Ah! Um rapaz de Piracicaba passou vendendo. Bonito, né?”

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobretudo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday July 7, 2008

Seu nome: Ecídio Jorge Butina; tem cinqüenta anos, trabalha em São Paulo há trinta anos fazendo exatos e mesmos negócios. Talvez a sua denominação mais eficaz seja a de um burocrata mercantil. Não encontra neles nada além do meio de sobrevivência. Faz os seus como se escrevesse uma carta, entretanto com a caligrafia mais elegante possível.

Desenha-os de antemão, como se quisesse que aqueles dessem algum tipo de alegria, beleza ou serenidade para aqueles que participassem. Passava ao largo do mundo empresarial.

Teve um amigo de escola que ocupou um cargo muito importante. Era agora, como se diz uma pessoa graúda. Como naquele momento atravessava dificuldades foi pedir ajuda. Quem sabe poderia melhorar o seu desempenho com alguns pedidos novos. Não queria claro, nada demais, nada de menos. Ou talvez quisesse, não é possível saber nesse momento, ou em outro qualquer, face à impossibilidade de se penetrar na alma alheia. O mais apropriado para descrever seu desejo é relatar a sua frase ensaiada: “Quando tiver um pedido lembre do meu nome”.

Mentalizando esse percurso iniciou sua busca.

- Sim, Butina, senhorita. Nem Bolina, nem Botina.

Foi recebido no gabinete privativo e convidado para participar do café da manhã. Aceitou prontamente, mesmo já tendo tomado o seu, jamais cometeria essa indelicadeza.

Tiveram uma conversa amena, compartilhou das suas agruras num determinado momento; ganhou um gesto afetuoso de mão do amigo, que pegou num telefone e pediu uma ligação, para um publicitário famoso. Recebeu o aviso da secretária, colocou o aparelho em viva voz, após as preliminares de praxe, soltou o verbo:

- Estou aqui com o Ecídio meu amigo de escola, que faliu. Quebrou. Precisa de sua ajuda. Veja o que você pode fazer por ele.

Teve vontade de parar a conversa para explicar melhor, não, não era bem isso; teve vontade de enfiar a cabeça no chão. Teve vontade imediata de sair. Encerrou delicadamente a conversa. Despediu-se e saiu; surpreso com tal poder de síntese.

Foi ouvir o que o destino lhe reservara. Marcou a entrevista com o amigo do amigo. Ouviu um plano mirabolante que envolvia o investimento em propaganda muito acima de qualquer número razoável que lhe poderia passar pela cabeça; esse lhe pareceu o esboço da rota da sua ruína.

Ao ganhar a rua tomou a decisão de se trajar de forma diferente. Aboliu o uso da gravata. Foi a sua carta de alforria. Depois de anos servindo a ela, abdicou por inútil.

Recebeu, dias depois, um pedido do exterior. Dos Estados Unidos da América. Dessa vez de um novo cliente, indicado por um outro costumeiro e há mais de trinta anos. Esse novo cliente tem todo interesse em surfar a onda responsável no Brasil. E fez uma gigantesca proposta de compra. Valores fabulosos.

Marcou compromissos com pessoas do setor. Todas suas conhecidas. Ele sempre foi designado como alguém com um perfil suave, não destacado da maioria. Era essa a sua reputação. Estava muito em moda dizer: “Low Profile”

Notou os olhares desconfiados em suas entrevistas. Será o traje? Será a postura? Será que o pedido envolvia mesmo aqueles valores? Não seria apenas um sonho, um mito daquele representante?

Não. Não. Agora era a vez do Butina. Sentia-se bem. Ele estava agasalhado contra o pior inverno. Havia chegado à sua hora.

Percebeu na última visita daquele dia um interesse inusual daquele fabricante. O olhar era desconfiado também. Mas fez questão de mandar seu valete acompanhá-lo até o estacionamento, para abrir-lhe a porta do auto. Tudo indicava que ele aceitaria o pedido, no preço e nas condições indicadas. Chegou até o seu carro, um Honda “Civic” Preto, aprendera com seu pai que carro deve ser discreto, ano 90.

Foi almoçar feliz e voltou ao escritório, mandou um email para o fabricante, agradecendo a atenção, o tempo e desejando abrir caminho para novos e eventuais pedidos.

Quase sem surpresa recebeu uma mensagem do servidor que aquele endereço havia sido bloqueado e que a mensagem foi excluída sem leitura. Imediatamente veio-lhe o desejo de reler Gogol.

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