Dança Ritual Urbana, III

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday July 3, 2009

hazaki2, osamu nakamura

Wabi Sabi, terceiro movimento

Ezê descobriu na dança a maneira mais sutil e eficiente para compartilhar  sentimentos. O gesto trai menos que a palavra: vago, mas definitivo, aberto para a interpretação de que você precisar. Após assistir ao espetáculo, saía flutuando, esperando encontrar os seus amores e lhes contar. Acabara de ver Susana Yamauchi no teatro da Dança e saiu dali, ainda sobre as nuvens, andando, pela avenida São Luís:

“Ao nascer, ele entra no reino dos sonhos apenas para despertar para a realidade na morte. Tempera o próprio brilho de modo a se fundir na obscuridade alheia. Ele “reluta como quem cruza um riacho no inverno; hesita como quem teme a vizinhança; é respeitoso como um convidado; trêmulo como gelo prestes a derreter; despretensioso como um pedaço de madeira por entalhar; vazio como um vale; disforme como águas revoltas”. Para ele, as três jóias da vida são piedade, parcimônia e modéstia. Kakuzo OKakura”

(…os tempos que correm ensinam a mirar o próximo. Jamais temos tempo ou disposição para mirar a nós próprios. Perdemos a capacidade de nos extasiarmos com os nossos sentidos. Capacidade despertada em mim ao ver centenas de pétalas vermelhas derrubadas no palco, caídas da cerejeira da minha mente. A imagem do outono veio súbita. Surgiu a chegada do inverno através da mudança da luz, tornando o vermelho em prata, algo imperceptível, mas  revelador. Lembrei de hoje pela manhã, ao sair de casa, daquela árvore tomada pelo mesmo tom de vermelho. A árvore me acudiu como amiga, explicando o wabi-sabi. Mas essas reminiscências não estavam solitárias. Incluiu as mãos e os gestos da artista e a complexa interação da permanência e da impermanência tornando-a dramática pela súbita transformação de um corpo em dois. Sobre os ombros, as máscaras ocupando um só corpo, todo feito de frente, sem as costas. Um de face alva, outro de face rubra, nos confundindo, fazendo-nos esquecer o eu, e se comportavam de forma a indagar em qual rosto  deveríamos nos reconhecer. Talvez fossem a mesma pessoa, segundo a tradição do Noh. O monge de face bárbara indicando um roteiro para a imóvel, branca face do ser.

Do palco, esvaía uma névoa, nos convidando para um mergulho naquela água em partículas, e mergulhados observaríamos. Os elementos naturais do vento feito gestos me estremeciam,  como se eu estivesse sendo golpeado. O frio, a caçada aos animais, o rio, todos mostrados com brevidade e leveza, entremeados com a cerimônia do chá. O rico quimono branco ritual, deixando à mostra as mangas, davam um tom erótico ao movimento, os cabelos que jamais foram cortados da cortesã, enfeixados por uma faixa vermelha, sinais que viajaram através de mil anos e me transportaram ao período Heian, ao tempo em que se respondia uma poesia com outra completando e ampliando o seu significado, ao tempo em que não se olhava nos olhos de ninguém do sexo oposto, e as mulheres estavam protegidas pelos pequenos biombos. O suave movimento das mãos mostrava como se raspava a pedra de chá.  Tudo preparando o espírito, para a culminância do ato de amor, praticado com ductilidade, centenas de vezes, com uma harmonia e um senso do frágil que eu pensava perdida para sempre. Relegada ao código genético do Dodô, e ela ressurgiu no palco, com um entrelaçar de mãos que jamais esquecerei. Um traje negro poderia ser o fim trágico daquela história, mas isso não importa. Eu passeei por todas as sensações inexploradas, percebi apenas esquecidas. Elas me revelaram. Para se entrar no recinto onde o chá é preparado, toma-se um caminho levemente tortuoso, preparando o espírito. A roupa flamejante de preto e vermelho, me alertou, durante a cerimônia, para que eu me preparasse para ver. A impermanência que torna tudo mais belo. Fugidio. Sei. Não consegui compreender tudo, mas sei também que consegui saber mais de mim do que em muitas e muitas leituras. Onde o nada me tocou, marcou.).

A avenida está deserta. Ando com um pé na calçada, outro no leito, para meditar.

Nono dia do mês de Av, finale

David caminhava pela Avenida São Luis, próximo ao teatro. Passou por um bar e ouviu:

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar
Deixe-me ir preciso andar

Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar…

Chegou ao máximo do desprezo por si mesmo. Acarinhava a arma a todo instante, como se estivesse testando a possibilidade dela também o abandonar. Queria encontrar algum caminhante solitário. Precisava dar fim àquele sofrimento. Sempre achou o samba um tédio, aquela poesia daquela música, chamou sua atenção agarrando seu casaco como se tivesse braços.

Dança Ritual Urbana II

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday June 29, 2009

Indifference, Frodig

Dança de rua, segundo movimento

David formou-se em jornalismo a pedido dos pais. Não sabia, ao se matricular, sua vocação. Até hoje não a encontrou. Homem de poucas palavras, ensimesmado. Passou curso todo, dez semestres, sem fazer amigos. Os contatos cordiais, diários, não conseguiam representar nada, ele não agradava ninguém. Simplesmente não compreendia aquela alegria toda, a vantagem de viver a vida sorrindo, estourando emoções esfuziantes, batendo nas costas dos outros, jogando bola e contando piadas. Não via a menor graça nisso. Foi considerado esnobe. “Rico não gosta das pessoas, sente-se superior.” Uma ilha sentimental. Em casa,  discutia-se muito o valor do dinheiro. Ele, não. Ele apenas ouvia. Orçamento baixo e contado. “Economia  é a  base da prosperidade.” Economia sempre. E a prosperidade?  Jamais. Os pais não conversavam entre si, se excluirmos as conversas utilitárias; ambos trabalhavam. David não conseguia dar valor ao dinheiro, não tinha ambição alguma. Pouco era suficiente; tentou trabalhar em diversos lugares, sempre o ambiente lhe parecia hostil e degradante. Odor insuportável de azoto.  Gás mostarda; em baixa concentração, vazando em algum lugar. Todas as relações entre as pessoas eram tóxicas, mediadas pelo dinheiro. Alguém queria algo de alguém, fazia amizade para conseguir. Via apenas valor de troca. Agora: estava adernado em um jornal. Só fazia pesquisa. Não conseguia ganhar a rua. Fazer uma reportagem? Não, não era esse um anseio, o escrever. O desejo era mesmo de ganhar a rua. Sair daquele cheiro insuportável. Como na faculdade, tampouco lá fez amigos na redação. Sentia-se só. Usava constantemente um boné, com a pala baixa, cobrindo os olhos e metade do rosto. Olhava com asco os carrões dos chefes na garagem. Sua vida era ler (odiava) e pesquisar (também). Guardava praticamente o salário inteiro. A sua história poderia ser resumida em dois grandes momentos: dois assaltos.  O primeiro ocorrera ainda criança, saindo da escola, tênis novo. Dois meninos o ameaçaram com facas e levaram seu tênis e toda a roupa. No segundo, anos depois, estava em um ponto de ônibus, voltando da faculdade, teve o dinheiro do bolso levado, uma arma apontada por dentro da jaqueta. “Sou trabalhador como você”, lembra de ter dito. Fora ultrajado. Sentia humilhação ao passar por isto, e uma tremenda raiva. Sentia medo, e vergonha, não conseguia reagir.  Afinal de contas, tinha tamanho para isso. Mas sua autoconfiança esvaia-se pelo ralo da sua vida. Passou sua existência para satisfazer os pais, não queria satisfazer mais ninguém. Esquecera-se de si próprio. Tinha apenas a posse da sua raiva. O cinismo crescia dia após dia. Era o emblema que o segurava à beira daquele ralo. Não queria ver lá por dentro. Olhava apenas para fora, apesar do tédio, enganava a dor. Doía muito. Lembrava-se também do último ano da faculdade. Fora assistir aos jogos universitários, com alguns amigos do tempo do colegial, hoje advogados, administradores, todos trabalhando e fazendo carreira. Uma agitação extraordinária para ele, não estava acostumado. Tomou muita cerveja e apagou. Lembrava-se de algumas meninas, toalhas molhadas, corpos nus, mas a lembrança era vaga. Apagou por dois dias. Acordou com muita dor de cabeça, um gosto de chumbo na boca. Um colega de classe perguntou se ele queria outra mais, para arrebentar na festa. “Não, obrigado.” Percebeu que tinha tomado alguma coisa. O cinismo explodiu em pânico. Voltou o mais rápido que pôde. Sabia agora que todos, sem exceção, eram cúmplices. Transavam drogas, ele participou de um ensaio geral. Seria abduzido. Fez ligações entre as conversas ouvidas na sala, na festa, lembrava dos gestos, dos sinais. Havia um complô. Comunicou aos pais e ficou uma semana sem sair de casa. Apenas se prevenindo para o golpe que havia de sair, não sabia de onde. “Você sabe o que é esperar algo, sem saber de quem, de onde, quando? Você tem a menor idéia do que é isso?” Lembrava que lhe perguntavam onde morava, qual o andar. Seria um assalto, viriam roubar novamente. Levou suas coisas para a casa de um parente próximo e de confiança. Não precisava explicar nada. Pediu um lugar para guardar algumas coisas no depósito da casa, levou um cadeado e trancou tudo. E esperou. Nada. Esperou um flagrante de estupro. Ou uma acusação de uso, consumo e tráfico de drogas. A dor aumentando, a culpa por freqüentar uma festa como aquela. Não ganhou nada, sempre estivera certo. Não gostara de ninguém e muito menos de si. Pensou na irrelevância de tudo. Nada mais fazia sentido. Largou o emprego também. Comprou uma arma. Pensava em emanar por lugares onde não era conhecido, encontrar pessoas solitárias, em lugares ermos, e matá-las. Uma por uma. Não havia erro. Sem nenhuma lógica, a esmo. Não queria ser alvo dos policiais. Um dia aqui. Outro dia ali. Não pretendia justiça. Não procurava bandidos. Procurava por solitários. Gente como ele. Conhecia uma jornalista  que escrevia sobre personagens dos bairros da cidade. Dava nomes, narrava coisas pitorescas. Iria num bairro daqueles, um dia, escolhia a esmo, sem testemunha, um tiro só. Para isso fez um curso de tiro. Tinha uma boa visão e mão firme. Foi aprovado com louvor. Casa Verde, Santo Amaro, Freguesia do Ó, Vila Olímpia, Jaguaré, Capão Redondo, Jardim Europa, Vila Carrão, Vila Matilde, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes e Centro. Aos poucos, a raiva daria lugar à confiança. Não sentia nada por ninguém. Tudo o que sentia era raiva. Raiva e mais nada. Uma raiva difusa, sem direção, contra o seu semelhante, contra si. A dor, quem sabe, se extinguiria. Não mais o incomodaria, não teria mais que freqüentar o médico psiquiatra. Afinal, aquele imbecil não falava nada mesmo. Dava um remédio. “Sossega leão, doutor?”. Transferência. Que nada. Mandar todos para o inferno. Viveria junto com os pais, para sempre. Pronto. Passava as noites imaginando o roteiro, os cuidados que teria que tomar, para não ser visto. Passeou pelos bairros todos. Lia a crônica e vagava pelo bairro. De manhã. Outro dia, à tarde. Ou à noite.

Dança Ritual Urbana

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday June 26, 2009

Dos mujeres desnudas, Jean Dubuffet

Caboclinho, primeiro movimento

Ezequiel era assíduo em um bordel onde as meninas se vestiam de comissárias de bordo, o uniforme justo e moldado ao corpo era embalagem a vácuo e os homens enlouqueciam com os trajes, trejeitos ou rejeitos. Formidava um cliente cego, que exigia o conjunto da Alitália, para atingir o máximo de prazer. Corria o boato que ele possuía onze penes.

Dali veio a idéia: colocar rapazes trajados de comandantes para vender cortes de cambraia, tweed, lã e linho. Escolhia um determinado tipo de cliente. Estudava seu comportamento, fazendo as primeiras vendas. Selecionava tecidos baratos, adicionava uma história triste da vida do vendedor e vendia tecido e história, como se os tivesse trazido da última escala.  As rotas: Milão – São Paulo, Berlim – Rio e Paris – São Paulo. Condoído pela história, vendo a oportunidade de fazer um bom negócio, o cliente ocupado, cobiça à solta, missão cumprida, venda feita. Explorar esse sentimento é muito lucrativo,  e é fundamental ser um bom ator. Teatro do Comércio.

Depois passou a vender imóveis perdidos pela cidade. Conseguiu contato na prefeitura para obter informações sobre terrenos com dois proprietários pagando impostos. Comprava documentos de identidade de pessoas homônimas a um dos donos e, pronto: colocava à venda por um preço entre trinta e quarenta por cento abaixo do mercado. Choviam compradores. Revelava pessoas e criava propriedades.

Para os clientes das feiras da cidade, possuía artigos de menor valor e de muita qualidade. Tijolos com dinheiro, bilhetes de loteria, ou alianças. O tijolão era o fascínio e tinha a maior aceitação. Colocava uma nota de um dólar por cima, outra por baixo, e um maço de papéis cortados no meio. Tamanho e peso calculados. Pacote fechado, amarrado fazendo marca, desanimando a abertura.

Para venda do bilhete é indispensável o jornal do sorteio. Comprovava-se que o prêmio se extinguia naquele mesmo dia, coisa urgente, fácil e rápida. Não requer prática ou habilidade. Lógica pura.

A aliança era o produto predileto. Com o certificado de garantia feito em gráfica de confiança, mostrava-se a peça pesadíssima, de ferro, revestida com verniz dourado a prova de unha. Atingia sempre o melhor preço: cem reais (custo: dois). Nas feiras são contadas as melhores histórias, de amor, traição, morte, perseguição, cobiça e castigo. Maior a desgraça, maior o prêmio. Mediante um bom lucro, a história condói a todos que têm algum dinheiro no bolso e alguma necessidade imediata.

Montou uma equipe amiga e profissional ao longo do tempo. Todos atuando sob cerrada supervisão. Ele era muito detalhista. O requisito principal para o trabalho era o rosto. Ferramenta de trabalho, confiável, amistoso. Do resultado bruto, ele ficava com quarenta por cento e custeava todas as despesas. O vendedor ficava com quarenta por cento e vinte por cento eram destinados ao departamento jurídico.

Ezê pertencia a uma antiga tribo de judeus caraítas, da sua crença ancestral guardava no peito, apenas o horário de Jerusalém; estivesse onde estivesse aquele era o seu.  A aversão pela idolatria o transformara num ateu. Não teve sorte com as mulheres; escolheu duas esposas.  A primeira sentia orgasmos apenas quando escovava os dentes, independentemente do tamanho da escova. Era um mistério.  A outra, pela força do pensamento e durante o dia.  À noite, estava cansada demais para tentar pela via tradicional. Diante do duplo fracasso, resolveu viver só. Recolhia as crianças doentes, em estado terminal, com até três anos de idade, abandonadas. Recolhia também os idosos no final da vida, retirados da rua.  Acolhia também os cães famélicos, sarnentos. Formou equipe para ajudá-lo e com ela consumia o seu rendimento.  Foi a sua maneira de encontrar o amor. Tanto nas crianças, que amam sem qualquer condição, extravasando amor da maneira mais grácil que se pode imaginar, como nos idosos, ele as via como crianças engelhadas. Os vizinhos próximos criavam sempre problemas, alegando que os cães latiam e atraíam outros animais, também a algazarra que faziam as crianças e o mau cheiro dos velhos, cães e talvez dele mesmo.

(continua…)

“Convém aos felizes ficar em casa.”

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday June 15, 2009

tumbleweed-on-a-bench

Enrique Vila-Matas em ‘Suicídios exemplares’.

Cultivo algumas plantas, flores e arbustos nos fundos de casa, capim barba de bode (por dois motivos: sem capim não poderá
subsistir a espécie humana; cuido, assim, da minha cota, e pelas flores que são lindas), lobélia (suas flores miúdas e intensas de azul), estévia (posso adoçar o chá preto com um galhinho seco) e a
minha predileta, a orquídea borboleta (cuja flor atrai borboletas e pássaros). Todo dia coloco algumas frutas para alimentar as aves. É o meu espaço verde e amistoso. O dia é fresco e agradável, o sol está apontando lá na linha do horizonte. Quando me perco admirando as plantas, ele aparece como uma gema.

Sou corretor. Pesquei um grande negócio. Recebi o nome de uma pessoa interessada na compra de uma grande casa. O presidente da companhia encarregou a secretária da tarefa. Ela me perguntou, gentil e afável, qual o valor a ser recebido em caso de sucesso. Concordamos. Encontrei algumas opções e as ofereci. Estávamos prestes a fazer o negócio quando recebi o telefonema de um antigo amigo. A amizade sólida exigia que saíssemos para jantar regularmente. Ele se colocou à disposição para me ajudar no atendimento ao executivo. Ele também é presidente de empresa, com conexões internacionais. O pai dele, banqueiro, homem de muitas relações, deixou como herança, além de uma bela fazenda e outros bens, essa rede de suporte social que antes se chamava rol de amigos. Os filhos deles frequentavam a mesma escola. É uma operação triangular de amigos. Ele, amigo do meu cliente e meu amigo, poderia perfeitamente ajustar tudo. São os dois catetos. Eu, a hipotenusa. Ele me pediu para informá-lo do preço de mercado de vários imóveis, para comparação. Felizmente, o melhor de todos foi o que apresentei. Essas compras são demoradas, as negociações são complexas, as pessoas envolvidas titubeiam, ficam inseguras, o valor envolvido é fruto de economia de muitos anos, muitos riscos envolvidos, mas acabamos por negociar um preço ainda menor. Essa redução final só foi conseguida após um abatimento no valor do meu cheque. Geralmente, para fazer uma redução de preço, o cliente exige a minha solidariedade. Eu não consigo recusar.

Hoje, devo me preparar para levar os documentos aos advogados. Meu amigo faz questão de levar e vai ao meu escritório para pegá-los. Durante a conversa, falou em dinheiro. Quanto ele receberia por ter me ajudado tanto? “Bem”, eu titubeei, “não posso pagar muito, já paguei pela indicação do nome dele e já reduzi o valor da comissão, você sabe como é, não?” “Sei, sim, mas cada um sabe do seu problema. Eu quero a metade do valor para mim, também tenho meus compromissos, e não posso trabalhar de graça.” E de nada adiantou qualquer ponderação, ele “preferia” que o negócio fosse realizado por alguém mais “compreensivo”.

Meu vira-latas se chama Giggio. Ele adora companhia, e talvez por esse motivo seja afastado do nosso convívio pela minha mulher. Ela detesta o cheiro do animal, que segundo ela se espalha pela casa. Sendo assim, ele fica confinado nos fundos. Ele é muito expressivo, o seu latido tem diversas variações, é quase uma fala, dependendo do ouvido disponível. Existe nele um dispositivo que dispara de vez em quando. Isolado e sem que ninguém lhe dê atenção, algo se
enche dentro dele. A partir das seis horas da manhã, começa a ganir, latir, grunhir e gemer em diversos tons, sem muita altura, mas com a intensidade suficiente para demonstrar sua insatisfação, sem incomodar. E lá ficam ele e suas fungadas prolongadas que passam pelo vão debaixo da porta. Gera uma compaixão enorme, mas a casa continua no ritmo normal de toda manhã. Eu abro a porta, deixo que ele morda um pouco meu calcanhar, sorria pelo rabo, dê alguns pulos, divido como ele parte da minha fatia de mamão. E vou trabalhar. Deixo a casa em silêncio.

Um faxineiro trabalha comigo por um salário mínimo. Uma figura pequena, escura, os olhos ávidos numa face mal barbeada, coberta de cerdas cerradas, grossas e lutando uma contra a outra, cerdas que, partindo em direções contrárias, cobrem todo rosto, como se o defendessem de algum ataque, até abaixo dos olhos. Calças cambaias de muito uso, com vários vincos horizontais em leque nos joelhos e virilha, cobrem suas pernas encolhidas e tortas. A camisa perdeu a cor original, o padrão parece ter sido um xadrez, resultante da briga entre o marrom e o negro. Um pequeno chapéu amassado coroa a cabeça, com uma aba minúscula, cobrindo, envergonhado, o monturo. Sua imagem lembra um torrão. Vive só com a mulher. Do seu salário, não gasta quase nada. Mora de favor, come pouco e acha boa a comida da companheira. Empresta a juros tudo o que ganha. Seus colegas vivem a sua felicidade no dia-a-dia. Ele, não. Ele guarda, coleciona seu dinheiro. Só o faz para os colegas próximos, para poder receber. Tem muito medo de perder suas notas. No dia do pagamento, faz a coleta. E guarda. Abriu uma conta no banco, venceu a vergonha de não saber escrever, a não ser desenhar o nome. A poupança rende algo mais sem precisar trabalhar. Um dia passou mal. Dor aguda, tontura. Levaram-no para o pronto socorro. Apendicite. Foi marcada cirurgia para dali a três meses. Fui avisado do caso e da história dele e pedi ao sistema de saúde uma antecipação, pois o caso era urgente.

Ao telefone, o advogado do comprador pergunta se eu conheço aquele nome de vendedor. “Sim, conheci na negociação. Ele vende o imóvel para receber o dinheiro gasto na educação dos sobrinhos. Ele é o tutor do casal.” “Pois, então. A moça matou o próprio pai, que era o dono da casa. Você não lê jornal?” ”Sinto muito, mas não liguei o nome à pessoa. Afinal, isso não tem muita importância. A casa está em perfeitas condições, foi revisada e analisada com muito cuidado. A casa não é da filha, é do tio dela. O seu cliente é estrangeiro, morou no exterior, e não se preocupará com isso. Estou certo disso.”

Almoço com meu filho, depois de muito tempo sem o ver. Tentamos nos aproximar, falamos banalidades, a comida não é boa. Ao sair, sou abordado por um homem, parecendo bêbado, que me diz: “Estou com fome. Quero comer, porra!” “Não tenho trocado.” “Como não tem?” “Não tenho. Cai fora.” Cheiro ódio saindo pelos poros.

Recebo, ao final do dia, o telefonema da secretária dizendo-se muito decepcionada com o meu comportamento. Eu deveria saber que a casa é impossível de ser vendida. Ela não permitirá que o patrão more em um local daqueles, com esse estigma. “Mas a casa não é … “

Volto à tarde, quase noite. O sol desaparece. Preguiçoso, sento numa poltrona. Diante de mim, duas vias de estrada, mais além o terreno sem acidentes de um amarelo profundo e ondulante, sem nenhuma planta para refrescar a visão. Asfalto, pedra e areia.

Primeiro, o sax executa todas as linhas melódicas doces, através de um arranjo repetitivo com ritmo rápido e amolecado, cantando as sílabas pronunciadas com o clarinete, e agora as cordas, fazendo
trio, rascam ao fundo as palhetas sobre os pratos da bateria; depois da primeira declamação, entra a segunda com a voz dela: Billie.

Clara, terna, adorável, refrescando o entardecer, tirando aquele calor excessivo e cansado (With each word your tenderness grows,/Tearing my fear apart…/And that laugh that wrinkles your nose,/It touches my foolish heart), tornando o cenário digno de filmes antigos, onde tudo acabava bem, para não expulsar os vivos medrosos através das janelas de primeiro andar.

Sopra um vento empurrando uma esfera vegetal e voante, a salsola, uma planta que, ao contrário do humano, o vento não enlouquece, passa e fica em um banco à minha frente, indiferente ao melhor olhar.

Anatomia

scriptu em Penso? by Djabal Monday June 8, 2009

wagah-border-warrior


Coloco um barrete para aprender a escrever melhor. Para o sorriso se espalhar para meu interior. Espalhando a tristeza para os ricos e bem aventurados e pobres em o espírito. Quem sabe? Quem sabe, dará certo e aquele buraco na agulha bastará aconchegar o camelo com compaixão e dignidade, e ouviremos o seu blaterar com os demais,
para se alinharem em cáfila. Em Bordéis, Bordéus ou Bornéu. Quem sabe?

Histórias Possíveis n.45. Com mais uma tentativa, agora na Índia, em um esforço de reportagem.

O amor

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday May 26, 2009

indigo-belly-dance-company-rachel-briceSe, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Gibran Kahlil Gibran

Jacqueline nascera sob o signo da independência e da alegria. Vivia só, cuidava bem de sua vida. Morava em um cômodo pequeno e arrumado na periferia da cidade. Separara-se da família, muito religiosa e vivendo numa seriedade e tristeza sem par. Não. Ela nascera alegre. Gostava de andar, de acompanhar a sua sombra, para certificar-se que era real. Brincava muito. Apreciava dar o que deu para dar-se a natureza. Enchia de prazer e dança a sua vida. Amava o canto dos pássaros. Devaneava. Seus orgasmos múltiplos eram um vendaval que a agitava para depois, aos poucos, voltar à paz, apaziguado o coração. Esta a sua ambição. Tinha, sim, seus momentos de melancolia, pelos quais passava sozinha. Guardava-os numa caixinha de jóias. Não queria homem para lhe dar suporte. Solitária. Gostava deles, porém muito mais da sua própria independência. Quanto mais admirava o seu parceiro eventual, mais ela se recolhia dentro de si. Tornava-se misteriosa e prendia a curiosidade e o coração do companheiro. Era aventureira do amor. Não admitia rodeio em seus desejos. Conheceu outro dia, um rapaz, permitiu que ele a acompanhasse até sua casa e ali mesmo se despediu. Talvez fosse tímido e precisasse de incentivo. Mandou sua foto deitada nua, fazendo um convite expresso, sem palavras.

Viveram intensamente muitos momentos. Ele também – percebera – se ajustava inteiro em sua sombra.

Um homem decidido, moreno, atarracado, de cabelos encaracolados, pele muito branca, olhos castanhos ensolarados, alguém poderia chamá-lo de italiano, os gestos intempestivos eram desmentidos pela delicadeza das palavras. Possuía um dom natural para escolher palavras, falava várias línguas, recebera uma boa quantidade de dinheiro do seu pai e fora aconselhado a sair, viajar para conhecer o mundo, ter mais experiência e poder, um dia, mais tarde, tocar os negócios da família. Apaixonou-se por ela. Não queria outra coisa senão estar com ela. Depois de aceitar o convite da foto, ela o atendeu nos pedidos mais extravagantes. Tudo era prazer, delícia, entrega e proximidade até o ponto de fusão. Entretanto, jamais moravam juntos, precisava de distância. O ciúme o corroia, passou a persegui-la, sorrateiro, em sua rotina, chegou a vê-la com outros parceiros, velhos, novos, dois ou três, ao sabor dos ventos, como ela dizia. Não conseguia encontrar a maneira de prendê-la. Foi embora por algum tempo, por não encontrar nenhuma solução viável, e para atender ao chamado do pai.

Na viagem, leu no jornal: “Pai assassina filha com tiro à queima-roupa”. O religioso (nome, idade) invadiu estabelecimento comercial onde trabalhava a filha (nome, idade) e depois de uma breve discussão, acusando-a de prostituição e de envergonhar o bom nome da família, sacou da cintura o revólver com o qual a fulminou ali mesmo.

Deixou de ler as demais informações. Estava estarrecido. Não conseguia compreender o que havia acontecido.

Encontrou seu pai. Ouviu dele um sermão daqueles, que o dinheiro que ele confiara fora desperdiçado, da forma mais vil, com pessoas de má índole. Mulheres, passeios, jogos, bebidas. Como era possível uma explicação? O que ele pensava da vida? Isso tudo leva a quê? “Eu quero que você se prepare para a vida, construa o seu futuro. Meu pai não me deu isso”.

O filho bem que tentava ouvir, não conseguia tirar Jackie da cabeça. Quanto mais pensava nela, mais se excitava e não conseguia compreender o rugido do pai. Estava excitado, lembrava da expressão angelical, da boca carnuda, do corpo pequeno, proporcional, da carne rija, dos seios empinados, sôfrego a ponto de tirar o pênis para fora e, antes que o estupor do pai se transformasse em ato, atacou rijo e se masturbou rápida, doce e languidamente. Com a mão servindo de concha, aparou e entregou o resultado ao pai.

“Aqui. Não lhe devo mais nada. Estamos quites.”

Amazônia

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday May 19, 2009

siberian-tit-elfis

Cada rua escancara-se como uma porta,

mas ninguém as explora. Aquele homem sentado

nem sequer se dá conta, tal como um mendigo,

das pessoas que vêm e que vão na manhã.

Cesare Pavese, em Trabalhar Cansa.

Acompanho um casal, meus patrões, em um passeio. Algo neles é diferente, certa bilateralidade cruzada. Ela tem um comportamento masculino, ríspido, brusco, e ele exerce o feminino, curioso, delicado.

A mulher nasceu para ficar parada. Odeia fazer passeios ao léu. Quer sair de um lugar e chegar a outro. Direta, sem rodeios. Descontrola-se a qualquer sinal de desorientação. Para, pede informações e as recebe contraditórias, mas não se importa de andar de um ponto a outro. A indicação alheia a tranqüiliza, até chegar ao ponto indicado, que não é o pretendido. Infantil, recomeça o processo do início, até o próximo ponto. Fica perdida, exasperada ao encontrar um sinal de ‘contramão’. Vou pela direita ou pela esquerda? Será que existe retorno? E agora? Ele nunca responde. Limita-se a olhar.

O homem não se importa. Parece gostar de errar por aí. Pergunta, qual é a pressa? Temos tempo, ninguém nos espera. Caminhemos e encontremos o lugar, vamos passear, observar. Não há necessidade de planejar nada. Ao encontrarmos algo interessante, paramos, vemos e pronto. Inicia-se uma discussão, interrompida por um silêncio espesso como neblina.

Obtém um dispositivo que traça o trajeto pedido, indica as ruas e o itinerário. Mostrando no mapa, com uma voz indicando o percurso, o tempo de viagem, a hora estimada da chegada. É mais um pacificador de casais que não conseguem se entender. Cessam as discussões. O objeto, é uma espécie de divindade, segue dando suas indicações.

Depois dele, não nos perdemos mais. Vamos de um lugar para o outro, com uma precisão matemática.

A cidade está coberta de boas estradas, aliás, está construída sobre boas estradas. Elas são subterrâneas, sinalizadas com regularidade. No teto a indicação de velocidade máxima. A iluminação é eficiente e dá a impressão de uma linha contínua, nas paredes laterais, côncavas, ameaçadoras, túneis infinitos, pintados até meia altura, com telefones de emergência gritando em amarelo cada quinhentos metros. A visão e a velocidade são de um jogo eletrônico, sempre as mesmas, fase após fase. Monótono e artificial. Não há tempo a perder.

De repente saímos dele e estamos ao ar livre. O outono com suas cores variadas nas árvores, situadas numa larga avenida, feito duas fronteira uma de cada lado. Lá adiante, olhamos no horizonte e duas linhas paralelas de árvores formam um corredor e, ao final, uma brusca montanha nevada aparece, dando um basta. Agressiva, com pico nevado, mostrando sua altura e eternidade. A terra é arenosa, cor de pedra, tufos verdes de moitas rareando aqui e ali. As folhas têm cores que passam do verde para o amarelo chegando ao vermelho, elas se penteiam ao sabor do vento que lhes dá direção. Um tapete de folhas marrom também se move ao sabor do mesmo vento, cobrindo espaços cinzentos de asfalto, fazendo um arranjo quase humano na paisagem. Observo uma folha presa em um bueiro, parecendo resistir ao vento, por pouco tempo, logo se reúne ao tecido. A cena está encoberta por um céu incerto, um teto escondido pela névoa espessa, parece que podemos tomá-la com as mãos, deixando tudo indefinido, após certa altura.

O primeiro sinal de humanidade está no longínquo mercado de pulgas, onde a calçada serve de banca de mercadorias. Nele não se mostra as babuchas marroquinas, ou imitações baratas chinesas, mas roupas usadas ainda impregnadas do último trabalho, livros, fascículos, móveis alquebrados, tudo separado meticulosamente em fileiras como aqueles fios de cordas com nós que os antepassados usavam para cálculo. A lógica da utilização até o final da vida útil, como se passasse do irmão mais velho para o mais novo ainda vigorava. Os proprietários das mercadorias ficam à distância cuidando dos filhos, fazendo suas tarefas e lembrando o tempo do Inca, quando os pobres recebiam as roupas para que não existissem mendicantes.

Olho rapidamente. Eles querem voltar para a casa onde estão hospedados, têm medo de assalto. A arquitetura dos bairros próximos ao centro é a mesma de Los Angeles, Xangai, São Paulo, Kuala Lumpur. Prédios espelhados refletem seus vizinhos e são repetidos sonolentamente. Tudo bem construído e sem qualquer vestígio de originalidade. A única construção que ousa chamar a atenção é chamada “Amazonía”. Está à venda e, aparentemente, ainda não encontrou compradores. Seus funcionários estão conversando ao sol do meio dia.

Pousada dos Ingleses: esse é o nome da casa que foi alugada apenas para o casal. Uma construção colonial espanhola, ampla, limpa, com lençóis trocados diariamente. Uma parede de vidro mostra a cordilheira cortando o céu como um serrote com dentes gigantescos, alguns brancos. Estamos cercados de jardins com rosas de pedras e coníferas.

A camareira Rosário vem ao nosso encontro. Simpática, falante, redonda, alegre. É colombiana, viveu durante quinze anos na Holanda, foi casada com um indonésio e tiveram três filhos, todos estudando em Amsterdã. Está separada e morava em Houston até perder o emprego. Procurava trabalho de tradutora. Fala holandês, espanhol, português e inglês. Encontrou nas vindimas em Santa Cruz e agora este. “Dou graças a Deus, por ter trabalho”, diz sem perder o sorriso. Viveu também por algum tempo no Maranhão, adora dançar e namorar. Lembra da Dança do Coco, Dança do Caroço e Dança de São Gonçalo. Lugar quente e de gente bonita. Rosário me ensinou a literatura dos leques, utilizadas pelas mulheres de Cádiz. Não havendo liberdade de se exprimir, as mulheres compunham suas obras utilizando-se dos leques e seus movimentos como mensagens. O leque aberto cobrindo o rosto: “Eu o amo”. O leque fechado empunhado com a mão esquerda e apoiado no lábio inferior da boca cerrada: “É tudo mentira”.

O seu namorado atual é chileno estuda engenharia de alimentos, enquanto cuida das folhas caídas e de regar o jardim. Parece determinado a se engajar nas Falanges Imortais, recrutadas por Pizarro, para treinar na América Central e combater no Oriente Médio.

“Para sus sacrifícios solemnes hacian pan de maiz, que llaman zancu. Y para su comer, no de ordinário sino de cuando em cuando por vía de regalo, hacian El mismo pan, que llamn huminta. Diferenciábase em los nombre no porque El pan fuese diferente sino porque uno era para sacrifícios y el outro para su comer simple”. Inca Garcilaso de la Vega.

Convidam-me para almoçar. Comemos “pan amasado”, um pão tradicional, feito com farinha e banha, cozido lentamente no calor da lenha. Servem também alguns deliciosos pastéis com as bordas rendilhadas. Queijo e porco completam a refeição. Bebemos um belo vinho, mas o patrão teima em dizer: “É bem feito, mas apenas uma cópia muito bem feita”.

No meu quarto as torneiras possuem um jato duplo, o quente e o frio. Eles não se misturam. A mão queima ou congela. Não há meio termo. As tomadas têm três furos paralelos esperando receber os cilindros que eu não levei. São as excentricidades do lugar.

Pessoas surgem da escada rolante como autômatos. Elas brotam do chão ou descem de cima. Cada pessoa parece um sinal ou letra. Cada letra é parte de uma palavra. Cada palavra forma uma sentença. O conjunto de períodos forma uma página, e o de páginas faz um livro, que é arquivado por tempo determinado na biblioteca de Babel. A leitura parece impossível. A construção dela e de seus labirintos apaixonam. Lembro que cadeia básica do ácido nucléico de uma célula ocupa um milhão de páginas. Desisto de ficar observando. Antes de sair, encontro um cavalheiro vetusto, com uma barba pontiaguda cinza, magríssimo, veste um costume antiquado e muito bem conservado. Um ar digno de superioridade. Utiliza um castão. Não fita ninguém, olha o infinito. Está só. Parece sonhar moinhos de vento.

Gastei todas as minhas economias na compra de uma manta de Mohair (Cabra Angorá). De peso quase inexistente, elaborada com fibra de vinte quatro ou vinte e cinco micros de diâmetro, capaz de reter o calor, resistente ao extremo, e de um toque extraordinariamente suave. Afaga e acaricia o corpo como nenhum outro toque é capaz. Um oásis e um alívio para pessoas cercadas de rigidez e frieza. Ela dá a noção exata de como o mundo deveria ser e não é.

Michiko

scriptu em Penso? by Djabal Saturday May 9, 2009

shimata

Histórias Possíveis sai com novo número (41). E nesse vocês encontrarão Michiko, de minha autoria. Além de outros excelentes. Visitem, comentem por aqui ou por lá. Ou não comentem, mas divirtam-se. Obrigado.

Pinga

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday April 22, 2009

michael-magin-and-breathe-out

“O epíteto era peculiar ao século XIX e tinha caído um pouco em desuso,

mas Matias, pelo porte e pelas leituras, continuava pertencendo

ao século XIX, e sua inteligência, de todos os ângulos,

era uma inteligência em desuso.”

Julio Ramón Rybeiro

Meu patrão pediu que eu fosse até Lima e designou o Sousa para me acompanhar. Queria vender sua casa de praia e arranjou um comprador limenho. Este se submetera a uma cirurgia no baixo ventre, não podia sequer descer da cama, e comprometeu-se a pagar todas as despesas da viagem. Assim, eu seria uma espécie de representante, ou agente de negócios. Mais tarde descobri meu papel efetivo: o de mula. Trouxe parte do dinheiro pela venda amarrado na cintura, distribuído em notas dentro do meu cinto.

Assim que soube da viagem, o Sousa veio me beijar. Estava alegre, contente, para ele estávamos indo passear na América. Poderíamos fazer compras, a nova namorada havia feito encomendas, estava ansioso, queria partir ontem. Talvez eu tenha contribuído para o clima de euforia, dizendo que Lima era considerada a “Cidade dos Reis.” Eu estava satisfeita, também gostava de viajar.

Embarcamos em um dia de sol envergonhado, com nuvens, cinzentas e ameaçadoras. Abafado às oito horas da manhã. Pegamos uma procissão de pessoas, esperando o exame dos documentos, outra para embarcar. Parecia que não estávamos documentados. O Sousa adorava fila. Conversava, contava anedotas, integrava-se, falando de tudo. Não conseguia ficar quieto. Moreno, cabelo liso e negro com topete, redondo, gozador. Despreocupado. Todos ficaram a par do nosso destino. A viagem foi tranqüila. Meu acompanhante, comeu ambas as refeições, a minha e a dele, sob o olhar de desdém da tripulação.

Ao chegar à cidade, encontramos um aeroporto como qualquer outro, uns azulejos caindo aqui e ali. Nada chamava a atenção das pessoas. As malas nos foram entregues por moças uniformizadas. Uma delas se engraçou com o Sousa. Conversaram com as mãos. Reservaram-nos um hotel no centro da cidade, com nome americano. Registramo-nos com um funcionário de aparência oriental. Dormi um sono agitado.

Primeira aventura.

Café da manhã. Uma mesa enorme, forrada de peixes, crustáceos, lagostins, aves e milho, das mais variadas formas, cores, tamanhos e sabores, como jamais poderíamos imaginar. Milho branco, negro, azul, e o nosso tradicional amarelo, estava lá num cantinho, desdenhado. Grãos grandes, lustrosos, ofereciam um porto seguro para nossas lembranças. Entretanto, fomos avisados pelo responsável de que era apimentado. Não perguntei mais nada. Fui pegar uma pamonha. Enfim. Pamonha com café e leite. Era uma maneira de se ancorar no gosto tradicional e confortável. Abri o pacote de palha, encontrei a massa da pamonha…negra. Cortei e comi. O gosto foi atacado pelo sabor da pimenta e não consegui distinguir mais nada. Pimenta queimando e só me restava apagar o incêndio com café com leite. Ainda mais quente, por sinal. O sabor quente, a temperatura hedionda. Aprendi a lição. Eles têm mais de trezentos tipos de milho. Por lá, milho é conhecido como maíz ou mahis, ou “aquele que sustenta a vida”. Souza fazia pirâmides no prato.

Segunda aventura.

Visitamos a “Estacion Central de Desamparados” a nossa rodoviária, “Plaza Mayor” e seus balcões de madeira escura, ricamente desenhado e esculpido. Cambistas trocando dólares entravam no carro, oferecendo a melhor taxa. Igrejas barrocas. Museu do Ouro. Sentamos no bar do hotel. Não bebi nada. O Sousa pediu uma pinga. Parecia incrível, mas ele não fala portunhol. Apenas português, e mal. O garçom olhava para os lados e lhe respondia: “Senhor, aqui não se fala isso. É muito feio”. E apontava para a braguilha da calça, encabulado, mostrando o punho cerrado e o antebraço erguido, na pose clássica. “Nome muito feio.” Agora ele aprende, pensei comigo. Ele dispara: “Pois bem, então me vê uma PINGA sauer.” Num tom de voz que toda recepção virou para olhá-lo. Funcionários, hóspedes, mulheres. (“La Chicha era el vehículo que unia a los hombres y a los dioses, a través de la fecundidad de la tierra.”) Para Souza, o passeio matinal acabou por desfazer o sonho de encontrar a Flórida. Aquele país lembrava-lhe o Brasil. O povo era muito feio. Aliás, os índios, muitos índios, todos mal encarados, mal humorados, em quantidade nunca vista nas cidades. Uns brancos, alguns negros e mulatos. Japoneses andando por todos os lados. Ele perguntou a uma guarda de trânsito: “Porque tem tantos japoneses aqui?” “Não temos japoneses, meu senhor, são chineses (chinos).” De fato, saímos para almoçar e descobrimos que Chifa é o nome que eles dão para os restaurantes daqui. São de peruanos de origem chinesa que montaram suas tendas de comida. Uma comida sino-peruana. Pensei que comeríamos um arroz shop-suey, ou frango xadrez. Que nada, era outra comida chinesa. O sabor, sem a pimenta, lembrava a comida sino-brasileira. Ficou curioso o laço que a China fez para unir os dois países. O motorista que nos acompanhava, um índio gigantesco, lacônico, de nariz quebrado e adunco, explicou que os chineses entraram no país, após a proibição do tráfico de escravos. Eles vieram ajudar na construção de uma ferrovia, como escravos disfarçados. Trabalhavam por comida e cama.

Terceira aventura.

Sousa convenceu a guarda de trânsito a conhecer o hotel. Fiquei na recepção até tarde. No dia seguinte, visitamos uma das feiras livres. Exatamente igual às brasileiras. A diferença estava na quantidade de pessoas que encontramos, esperando a feira ir embora, para conseguir apanhar a xepa. São alimentos que os feirantes deixaram na sarjeta. Sentei ao lado de uma mãe (índia) que pacificamente dava a mamadeira para seu filho. Como toda criança, puxava o bico com uma vontade gostosa, saborosa até de ouvir. O líquido não conferia com a cor, que estava acostumada a ver. A cor era amarela. Seria de milho? Não, ela se apressou a dizer. Era Inca-Cola. Uma bebida local. Um refrigerante produzido a partir de uma vaga memória da lúcia-lima ou limonete. Soube depois que é utilizada também como chá, para induzir ao sono. Percebia que o motorista não gostava de nos levar nesses lugares, seu olhar era de reprovação. Informou-nos que Cervantes fora proibido de viajar para a América, pois não tinha sangue puro. Estava escrito no muro: “No cagar. No orinar. Iconcha tu m…!”

Quarta aventura.

O amigo do patrão reside em Miraflores. Genro de um dos próceres da república. Prócer é uma palavra corrente. O patrão manda, obedece quem tem juízo. A palavra que mais se ouvia ali era dólar. Variações: “South beach” e “Boca Ratón”. Existe uma conexão direta entre o povo daqui e o de lá. Os chinos sumiram. Os índios, civilizados em seus uniformes. As ruas asfaltadas e limpas. A casa do genro é maravilhosamente grande, forrada de orquídeas em todos ambientes. Conversa comigo falando um português razoável e com outras pessoas no tradicional espanhol, rápido e cantante, quase incompreensível. Falava em francês e inglês, conforme o interlocutor. Assinou sem ler o contrato que exibi e me entregou o dinheiro em cédulas sequenciadas. Encabulada pela presença não contei. Para legalizar o documento, basta reconhecer a assinatura. Quinze dias para tanto. Férias burocráticas. Descemos até a costa do Pacífico para comer ceviche. Uma comida deliciosa. Um pescador mostrou um tipo de concha comestível e o Souza, não teve dúvida, engoliu o conteúdo da concha ali mesmo, crua e viva, sob o olhar de espanto do pescador. “Esse zevicho deles é cru também, que é que tá olhando? Além do mais, eu ainda estava com fome”. Explicou ao motorista que, no Brasil, quem nasce no Peru é pirulito. Não recebeu sequer um olhar. Um homem no carro ao lado do nosso pergunta de onde somos. Brasil, respondeu Sousa. “Ah, sim. Futebol, samba, e dançou sorridente.”

Quinta aventura

O nome do motorista era Athaualpa. Ficava conosco vinte quatro horas, se necessário. Limitava-se a seguir instruções e manter o carro em alguma direção no caos que é o trânsito da capital. Impossível identificar um táxi. As pessoas estendiam as mãos e um carro parava. Fui informada de que eram ilegais. Assim como os ônibus. Ao final de cada dia, a prefeitura mandava recolher os pedaços dos veículos que caíam pela rua. As cores não eram definidas. As portas dos automóveis lembravam obras de Jackson Pollock. Nada obriga que o resto da lataria seguisse um padrão. De vez em quando, a cidade ficava sem luz. Os apagões eram obra de guerrilheiros. Fiz um comentário e ouvi do motorista: “Senhora, as bocas aumentaram e o alimento não. Eles queimaram todos nossos livros, registros e tradições. Assassinaram nossas lideranças. Tudo que nos restou foram, além de escombros, receitas de comidas, folhas medicinais, costumes familiares, mitos e silêncio. Aqui o tempo é invariável, não muda. Sempre assim, desde aquele tempo. Somos estrangeiros em nossa terra”.

Sexta aventura.

Resolvemos tudo. Estávamos prontos para voltar. Descansando na recepção do hotel, vi um casal em lua de mel registrando-se. Entrou apressado, um homem de terno e mala executiva. O atendente do bar, já nosso amigo, disse, sorrindo, que era um alto funcionário do governo, visitando empresários estrangeiros. Entrou no hotel e logo pega o elevador. Esperamos o nosso motorista para nos levar de volta ao aeroporto. Ouvimos um estampido, forte, o vidro da recepção se quebrou, um tremor sacudiu o prédio. Terremoto? Minutos depois o hotel estava cercado. O casal tinha detonado uma bomba no último andar. Revista generalizada, olhares assustados, pessoas correndo, caos absoluto, como deverá ser o dia do juízo final. Dei a viagem de volta como perdida. Ficaríamos mais quantos dias? O Sousa me implorou: “Ligue pro homem, o próce. Ele nos tira daqui.” De fato. Saímos do hotel junto a um cholo com dois metros de altura, numa cadeira de rodas, precária, de madeira e lona, prestes a se quebrar. Dei uma nota de cem dólares a Athaualpa, como gorjeta. Ouvi: “Não, obrigado, senhora, sou muito bem pago pelo patrão.” Num espanhol claro, alto e muito bem falado. A viagem foi muito rápida. Sousa não comprou nada no aeroporto local, nem aqui. Sonhou tanto com o free-shop, e passou por ele correndo. Devia ter imaginado. Afinal, quando ele desceu do avião, ajoelhou-se e beijou o chão de cimento.

Essa viagem aconteceu faz algum tempo, numa terra estrangeira e lá eles fazem tudo diferente, assim como é no passado. Aquela Lima, não existe mais, ela só veio à tona lendo a correspondência entre dois amigos.

“Me inclua fora disso.”

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday April 15, 2009

resumo-da-viagem-a-franca

Não existe, de fato, essa coisa de causa e efeito. Trata-se de uma quimera popular, uma noção vaga que não suporta os golpes da razão pura; contém um conjunto inconsistente de idéias contraditórias e é de pouco ou nenhum valor no discurso científico. David Salsburg in Senhora tomando Chá.

Serra da Cantareira. Caminho. Agreste. Árvores. Animais. Ar. Aves. Jacus. Papagaios. Galinhas. Norte. Mairiporã. Resumindo, foi o lugar no qual passei uma das minhas folgas. Levei minha filha, afirmando que a diversão era garantida. E, de fato, logo ao chegarmos, encontramos um pula-pula. A cama elástica, cercada de rede, oferecia imediatamente a oportunidade da aventura. Entrou e ficou pulando e pulando, sozinha, sem nem mesmo esperar as outras crianças, que foram se achegando, e por um longo instante, ficaram apenas olhando, tomando coragem. Quanto mais as outras olhavam, mais a menina tomava coragem e pulava cada vez mais alto. Outra criança tomou coragem e entrou, pulou junto. Outra. E mais outra. Até que se atingiu um limite natural de pessoas e espaço livre para os pulos. Minha filha, diante de tantas pessoas, sentou-se bem no centro, isolada. Ficou ali, desfrutando do balanço causado pelas demais. Apesar de não fazer nada, a cama pulava por ela, fazendo-a subir e descer. Tentou ficar de pé, caiu. Teria que pular em sincronia com as outras crianças. Caiu algumas vezes, riram dela. Algo que a embaraçava. Quando percebeu que também perdia a independência da visão, entrou no ritmo, aos poucos, até conseguir segurança e firmeza e assim continuou junto, mas pulando mais alto. Usava suas pernas e o impulso alheio para atingir uma vista única. Olhava-me confiante e exultante lá de cima, com a cabecinha acima das demais. Olhava em torno, para a casa, para as árvores, e atingiu a altura do papagaio instalado no viveiro, bem lá no alto. E o olhava instante a instante. Ele havia saído de sua casinha e andava por um galho colocado ali artificialmente, exibindo-se. Com a chuva se exibia ainda mais. Tomando banho, abrindo as asas, oferecia-se.

O convite surgiu quase aleatoriamente. Não conhecia ninguém. Apenas algumas pessoas, de vista. Andando pelo terreno, encontrei um lugar próximo de outra convidada. Esposa de um piloto, com uma filha da idade da minha. Estava muito impressionada com a inteligência da filha. Explicou-me que as nossas crianças são da geração índigo. Como? É uma geração elevada espiritualmente, que sabe das coisas, mais evoluída que a nossa. Realista. Feliz de estar aqui. Chegou-se na conversa um senhor miúdo, de olhos e atitude oblíquos, vestindo uma camisa preta e vermelha. Aliás, metade preta e metade vermelha. Simetricamente. Desde o colarinho até a barra. Uma espécie de cartão de visitas, gritando algo incompreensível. A única mistura de cores deu-se nos botões pretos sobre o tecido vermelho. O impacto da camisa foi atenuado pelo colete preto sem mangas e desabotoado. Usava também uma boina preta cuja pala encobria o topo da cabeça e seus olhos. Seria um jóquei de jegue? Foi acompanhado da filha. Ouvia atentamente as explicações. Ela continuou, dizendo: “A filha dele” – apontando para o oriental – “também é. Outro dia, disse-lhe que a comida está boa pra cachorro, né? Não sei se é boa pra ele. Pra mim está ótima, é o que importa. A minha filha também, brinca com o computador desde os dois anos de idade, fazendo coisas que eu não faço até hoje. Não é incrível?”

Ouvia dentro de mim: “Idioteque”. Errei por ali.

Um casal de meia idade e acima do peso chegou trazendo sua filha, uma espécie de clone. A criança parecia mais ser a filha do Benjamim Button. Apresentou-se como empresário. Dirigia – além de outras coisas – uma ongue do terceiro setor, preocupada com o manuseio do crescente e incessante lixo industrial e seus efeitos na sociedade. Discorreu longamente sobre a toxicidade daqueles resíduos, do aumento das doenças degenerativas nas pessoas que mantinham contato com eles. A anfitriã o colocou ali por perto. A ongue não é lucrativa. Os lucros vêm da minha empresa de tratamento de lixo industrial. As duas têm uma sinergia interessante. De um lado nós pressionamos para que exista um controle muito rígido do tratamento, e de outro o fazemos com um custo muito competitivo. O meu filho mais velho dirige a ongue, eu cuido da companhia comercial. É uma dobradinha de sucesso. O segredo – disse, piscando um olho – é a falta de fiscalização crônica. O custo previsto pela lei do tratamento é alto e conseguimos barateá-lo drasticamente. Cortamos o custo cortando os caminhos. Temos muitos lugares para depósito, a um custo baixíssimo. Apenas o do transporte. O futuro está no lixo. Não é a água, não. É o lixo.

Afastei-me dali. Estava zonza. Efeito das caipirinhas de saquê? Quanto mais espaço em volta, mais estava oprimida, angustiada.

No canto da churrasqueira aproximei-me de um velho careca e de olhos doces, de um preto baço, apagado pelo tempo. Olhava e avaliava a todos. O pescoço de tartaruga encimado por um periscópio. Acheguei-me. Buscava um pouco de alento, um ar mais fresco. Apresentou-se: aposentado e jardineiro das redondezas. A época da primavera é a melhor época para se trabalhar, o crescimento das plantas é acelerado pela chuva, e a apara é necessária semanalmente. Trabalhou trinta e cinco anos numa tecelagem, jamais falou ou se atrasou um dia sequer. Sua aposentadoria é de um salário. Não dá pra quase nada. Fazendo do jardim um bico, a vida melhora um pouco. Afirmou que sua sorte mudou. Encontrou alguém que precisava de algum dinheiro emprestado. Fiquei apertado só no primeiro mês, ele queria o salário inteiro. Agora me ajeitei. Todo mês empresto minha grana pra ele, e ele me devolve no mês seguinte com vinte por cento de juro. Uma ótima. Ele me contou – também é aposentado – que vende uns pacotinhos por aí, e que todo dinheiro que consegue utiliza para seu comércio. Consegui que ele me deixasse os pacotinhos ao invés de me pagar de volta, para eu mesmo vender. O lucro nós dividimos meio a meio. E assim vou vivendo. Todos os meus amigos lá de Tiradentes emprestam o dinheiro do mês pra ele. Ganho pela indicação de amigos, ganho nas vendas. Quem sabe deixarei de jardinar? Pena que estou velho. “Quer ficar com um? Tenho um aqui. De uns tempos pra cá, saio mais, passeio, convivo com mais pessoas, e faço meus rolinhos, numa boa. Sem o jardim já estou com três salários mensais. Quando chegar aos cinco, paro esse bico. Tô cansado”.

“Não obrigada. Já experimentei, gostei não”.

Desordem festiva. Risadas. Casais. Buquê de festa: contando casos.

Um cidadão morador no interior do estado chamado Bento. Casado há dois anos com Lina, não conseguia ter filhos. Fez amizade com seu vizinho, o Ezê, casado com Sancha e pai de um casal de filhos. Ambos eram parecidos, tanto no físico, como nos hábitos. As crianças foram batizadas com os nomes do amigo e o da sua esposa, como homenagem. Dando tratos à bola, um dia, Bento, papeou com sua mulher e a convenceu de fazer uma tentativa de maternidade através do auxílio do vizinho. Tinha tanta vontade de ser pai. Depois de muita discussão, prevaleceu a vontade do marido. E Bento falou com Ezê explicando seus motivos. Combinaram e escreveram um contrato válido por seis meses. Três noites por semana, o vizinho deveria comparecer para, digamos, “depositar” sua semente na esposa de Bento. Combinou-se o pagamento equivalente a um salário mínimo mensal, exigidos antecipadamente pelo contratado. O tempo não passou calmo. Lina reclamava muito com o marido. Que aquilo não era coisa natural, não conseguia olhar para os outros vizinhos, sentia-se acusada. “Não quero dizer que é ruim, mas não consigo relaxar, não consigo”. Ditinho, era esse seu apelido, contemporizava. “Menina, você está até melhor. Pegou um jeito diferente. Mas isso, não importa nada, o nosso objetivo é que importa. Pense nisso. Deixe de sofrimento. O caminho para nós dois sempre foi o mais longo. Siga o exemplo da Sancha, ela nem liga”. Depois de setenta e duas tentativas completas e infrutíferas, Ditinho chamou Ezê e, mediante pagamento adicional, levou-o ao médico, para um teste. Teste que resultou na confirmação da esterilidade do paciente. Romperam o contrato. Ditinho queria o dinheiro de volta, mas Ezê se recusava terminantemente a devolver. O contrato era para o melhor esforço na tentativa. O sucesso não era sua responsabilidade. Ele fez o bom e o melhor. A balbúrdia foi geral. Diz-que-diz. Os comentários a respeito caminharam. Bento terminou a discussão, dando a sua última palavra: “Estamos tratando de um contrato comercial, não está em jogo a honra da minha Lina. Ela não me traiu. Tenho certeza disso.” “Como? E os fatos?”diziam os outros. “Os fatos que se danem.” E colocou a questão no pau, contratou advogado.

Sentia uma hostilidade. Uma nova era glacial se aproximando. Minha filha apareceu toda molhada. Queria ir embora. Não sabia voltar e o japonês me ofereceu carona. Peguei minha filha que estava com a filha dele e com a filha do empresário, ouvindo histórias do jardineiro e o segui até conseguir encontrar um lugar conhecido.

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