O desejo.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Sunday January 28, 2007

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Sentado à beira do dia-a-dia. Resolvendo os próprios e impróprios problemas afogando-se em números que crescem à medida que se referem ao necessário e miniaturizam-se no disponível.

Sentia um vazio tão grande, imenso como o saldo indisponível a seu dispor, e isso remexia lá dentro, provocando um não sei o que de falta, de escasso. Um negror inútil. Uma alba triste.

Uma vertigem ameaçadora, uma tentação insuportável de se deixar levar de roldão naquele caos incomensurável.

Como será apostar no caos e cair numa velocidade que mostra toda gravidade?

Quem sabe encontrará naquela infinda voragem a catapulta que joga contra a inércia?

Num instante tudo se despedaçou com a presença que inundou a sala. Um rosto fino, traços sutis, a boca imperceptível, com imaginários lábios, tudo imprevisível e impressionável apenas, não fosse o concreto da palidez do rosto e a cor dos cabelos.

Um verdadeiro Modigliani invadiu tudo.

Ofereceu-se tremulamente ao desejo ausente – desejo sábio que era o mesmo abissal com a redenção de volta - chamou-o para perto de si e sem coragem de pronunciar uma só palavra usou da língua para cuidar daquilo que sabia necessário cuidar.

A força da língua foi suficiente para a queda. E cuidou do prazer intenso que provocou e que serviu para alimentar sua alegria de estar viva e presente.

Oferecer o corpo frágil , redondo onde deve ser, fechar os olhos quando gostaria de os manterem abertos, e tremer por entre os dentes delicados e separados para mostrar espaço para se explorar e quartzo para ser retirado.

Eletrizou o ambiente puxou para perto de si tudo que lhe pertencia. O momento e a expansão das atitudes, do calor, do sangue percorrendo o corpo e se concentrando em suas extremidades, provocando grandes dores que prenunciavam grandes prazeres; tanto um como outro contidos, até que uma segunda feira próxima o suficiente para que acontecesse antes do final do mundo, segunda anunciadora da abertura da arca de Noé, onde apenas um casal de cada espécie permaneceria para assegurar continuidade.

Segunda feita de penetração. Segunda que sempre será melhor que a primeira pois novos caminhos serão abertos para a vida. Corpos enrolados, delirando de prazer.

Que se danem os números, que se danem os espaços. Um dia nos convenceremos que apenas com o imutável devemos nos preocupar. Eles são mutáveis.

O instante não o é. Viva muito. Aproveite. Goze e se libertará. O suor do seu corpo se transformará em prazer e atitude. Você se liquefará e ao se misturar naquele instante imutável do prazer e da atitude você se perpetuará.

O mistério da vida desenrola-se por alguns segundos que apagam todas as segundas, mostram todos os fios de um imaginário tapete que construímos ao decorrer dos minutos, horas, dias, séculos, milênios;e logo em seguida se contrai rapidamente, se enrola inteiro, desaparece sem deixar nenhum rastro ou sinal. Deixa apenas as marcas dos pés do bípede implume e todas as suas angústias que ficam ali, eternamente. Para todo o sempre, para perfeita visão dos seus semelhantes em tudo, exceto na sabedoria consagradora do instante.

Sabemos hoje que viemos da água. E eu posso apontar qual delas é a que nos dá lustro. Qual delas de fato é a verdadeira mãe. Qual será o um ou o zero.

Apontar é questão de sabedoria. Experimentar não.

WOMAN WITH BLACK CRAVAT - Amedeo Modigliani

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