Caracóis
Ao contrário das fagulhas, que são os hóspedes das cinzas quentes, os caracóis gostam da terra úmida. Go on, avançam colados a ela com todo o seu corpo. Carregam-na, comem-na, excrementam-na. Ela os atravessa. Eles a atravessam. É uma interpenetração do melhor bom gosto, pois por assim dizer de uma mesma tonalidade matizada - com um elemento passivo, um elemento ativo, onde o passivo banha a um tempo só e nutre o ativo - que se desloca enquanto come.
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Nada é tão belo como esse modo de avançar tão lento e tão seguro e tão discreto, à custa de que esforços esse deslizar perfeito com que honram a terra! Tal qual um longo navio, de esteira prateada.Esse modo de proceder é majestoso, sobretudo se se leva em conta uma vez mais essa vulnerabilidade, esses globos de olhos tão sensíveis.
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Mas é aqui que toco num dos pontos principais de sua lição, que, aliás, não lhes é exclusiva, mas que possuem em comum com todos os seres providos de conchas: essa concha, parte de seu ser é ao mesmo tempo obra de arte, monumento. ela perdura mais tempo que eles.
E é este o exemplo que nos dão. Santos, fazem obra de arte de sua vida, - obra de arte de seu aperfeiçoamento. Sua própria secreção se produz de modo a se enformar. Nada de exterior a eles, a sua necessidade, a sua precisão, é obra sua. Nada de desproporcional - por outro lado - a seu ser físico. Nada que não lhe seja necessário, obrigatório.
Assim traçam aos homens seu dever. Os grandes pensamentos vêm do coração. Aperfeiçoa-te moralmente e farás belos versos.
A moral e a retórica se encontram na ambição e no desejodo sábio.
Mas santos em quê: obedecendo precisamente à sua natureza. Conhece-te, pois, primeiro a ti mesmo. E aceita-te tal qual és. Em consonância com teus vícios. Em proporção com tua medida.
Mas qual é a noção própria do homem: a palavra e a moral. O humanismo.
Francis Ponge em O Partido das Coisas, através de Adalberto Müller Jr., Carlos Loria, Ignacio Antonio Neis, Júlio Castañon Guimarães, Michel Peterson.
