Sumiço

Caminhou por aquela avenida ajardinada com um grande canteiro central, onde poderia por alguns momentos pensar em sua vida, preocupava-se cada vez mais com as notícias dos jornais, achava-as pessimistas, descrentes, e resolveu não mais tomar conhecimento delas, isso o afundava cada vez mais, não servia para nada, absolutamente nada de produtivo.
Se assim era a realidade, pois bem que se danasse a realidade.Sempre trabalhou, jamais deixou de ganhar o seu sustento com o suor do seu rosto - apesar de suor do rosto hoje significar muito mais desequilíbrio ecológico do que qualquer outra coisa - era um homem às antigas até nisso, portanto por pior que estivesse a situação teria que trabalhar, em síntese, nada se modificaria muito para ele.
Aprendeu com o tempo que deveria se mostrar sempre melhor do que realmente estivesse, como isso não era possível pela expressão do rosto, que sempre o denunciava, tratou com o tempo de se mostrar melhor pelo traje, o traje sempre correto, sempre bem cortado, limpo asseado e de bom gosto. Pelo menos dentro do gosto médio.E com isso sempre foi tomado como um bem sucedido, um vencedor.
Andava pela cidade para poder conhecer algum cheiro que não fosse de gás carbônico, para tomar algum ar, para encontrar suas saídas, se é que poderia existir alguma.
Foi seguido durante algum tempo por um carro preto ocupado por duas meninas, novas, lindas e curiosas por ver um executivo andando no canteiro central ajardinado de uma avenida numa grande cidade.
Finalmente, após algum tempo passaram por ele olhando longamente, querendo estabelecer alguma conversa, querendo matar aquela curiosidade mórbida e inútil que toma conta de quase todo citadino. Sem sucesso, viraram a primeira à direita, sem ter tempo para se frustrar, logo em seguida encontraram outro objetivo e outro alvo, célere como toda cidade é célere.
Logo após, um cidadão desceu de outro carro, também novo, e se aproximou do passeador encostou algo pontiagudo em suas costelas e exigiu que o seguisse, sem nenhum tipo de brincadeira ou falseta, seria muito pior para ele.Obedeceu prontamente as instruções, afinal de contas já estava acostumado a isso, não fazia muita diferença se o argumento fosse a força ou o dinheiro.Recebeu uma pancada na cabeça que o deixou totalmente grogue, e sentiu algo encobrindo a sua cabeça.
Em outro canto da mesma cidade havia acabado de acordar seu melhor amigo. Trabalhavam juntos há muito tempo haviam aprendido a se conhecer, dividiam tudo, preocupações alegrias, e por isso mesmo conviviam intensamente.Convívio que se restringia ao dia.Durante a noite tinham diversões diferentes. Talvez se pudesse dizer que justamente por ter se levantado no meio da manhã era um amante da noite.E essa era a única diferença entre ambos. Bem, falando em diferenças intrínsecas.Morava no melhor bairro da cidade. Vivia uma vida confortável e sem privações de qualquer espécie, exceto amor.
(Posso interferir diretamente na história, deixando de ser um ausente narrador, para fazer um comentário? Lembrei-me agora do João Antonio e posso dizer para esclarecer o eventual leitor: eram típicos representantes da classe mérdea.)
Saindo e em meio de suas ligações recebeu uma dizendo numa língua estranha quase um dialeto, que seria necessário que ele arranjasse uma grande soma em dinheiro, pois seu amigo estava em seu poder, e que se ele falasse com alguém ou colocasse a polícia na parada, os problemas só aumentariam.
- Que ficasse de bico calado; malandro num berra; boca fechada num entra mosca.- ?!
Havia entrado numa grande avenida de grande tráfego e que beirava um rio fétido e pútrido que por sua vez delimitava todos os seus trajetos pela cidade. Olhou para aquele telefone, e refletiu o quanto de problemas ele lhe trazia todos os dias, todos os momentos, uma intensa sensação de tristeza, uma pressão insuportável, o invadiu, e o tomou como refém de mais um seqüestro.Pegou do aparelho e o arremessou ao rio.