Cristal Aperiódico Gigante
“Seriam necessárias cerca de duas mil páginas para mostrar a cadeia básica de uma única célula E.coli e cerca de um milhão de páginas para mostrar a cadeia básica do ADN de uma única célula humana.” in Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstader, pág. 190.
Como será possível descobrir o entrelaçamento do dialeto ladino com os retres romanos ou germânicos ou do Sacro Império Romano Germânico?
Começo dizendo que a boa acolhida, a busca da tolerância entre todos os povos gera um florescimento indescritível da cultura, da economia, da técnica. Gera uma prosperidade imensa.
O grotesco da história toda é apesar do descomunal desenvolvimento tecnológico que o homem alcançou, essa pequena verdade é impossível de ser colocada em prática, a não ser em determinados períodos.
Pequenos períodos, frutíferos períodos, que logo, logo, se perdem nas noites dos tempos. Como se perdeu aquela presença, com a forma de um lugar, aquele buraco na poltrona em que nosso pai moldou ao se sentar para ler.Como se perdeu o ladino e se perdeu o iídiche. Idiomas ou dialetos próprios de um povo que num determinado momento convivendo com outro se fundiu de uma maneira criando uma língua onde se expressava a fusão do seu passado com o seu presente.
Devemos aos árabes o conhecimento sobre a civilização grego-romana. Após a queima da Biblioteca de Alexandria, tudo que nos restava de memória escrita foi destruído. Originais de Aristóteles, de Platão, de Plotino, e de muitos outros se perderam.Vários foram os motivos. Várias as circunstâncias. Nenhuma explicável.Felizmente os povos árabes conseguiram avaliar a importância daqueles pensadores. Conseguiram imaginar a sua importância e originalidade. Fizeram a tradução para o árabe de tudo isso. Com competência, regularidade e curiosidade.
Curiosidade que, felizmente, também é humana. Muito humana.Por obra e graça do Mediterrâneo os árabes carregaram isso consigo até a Espanha.A península Ibérica acolheu integralmente esse povo e o entrelaçamento entre as culturas se tornou algo diferente, algo totalmente peculiar. O Magreb (Ocidente) passou a ter o seu lugar na civilização árabe, até então totalmente voltada e ensimesmada no Oriente Médio e seu cotidiano.Desse acolhimento e dessa bonomia floresceu a cultura árabe. Cultura que se extraiu de uma força econômica considerável. A abundância dos árabes sempre foi compartilhada por seus primos-irmãos os judeus. Esses povos sempre se respeitaram e trabalhavam ombro a ombro.
A abundância gera o ócio.
O ócio produtivo se dá na indagação dos problemas do homem. E nos problemas do homem, o melhor a se fazer é buscar a experiência dos antepassados.
Ócio que poupa o esforço de se chegar ao mesmo resultado pensando.E não foi por mágica que somente quem conhecia o árabe, o grego e o espanhol, poderia fazer a leitura e tentar uma tradução daquele tesouro cultural.E os primos judeus que sempre se dedicaram à leitura e à reflexão se incumbiram de assim o fazer.E devemos esse resgate a essa época.
Época de bonomia.Época de congraçamento, que foi considerada por todos aqueles que li e freqüentei como o apogeu da cultura árabe, o apogeu da cultura judaica. Apogeu que ainda não foi toldado por nenhum outro período. Gerou Avicena, Averrois, Maimônides e outros grandes que a memória e a ignorância não me faz repetir, como se isso pudesse provar algo a mais.
Com as traduções e as tradições se forjou um idioma próprio o Ladino. Língua que homenageava a sociedade em que se vive, e não permite esquecer as tradições que a sua cultura legou. Esse misto de hebraico, árabe e espanhol é, talvez, a maior prova da conciliação dos homens, do resultado de ser bem quisto, amado e respeitado.
Os séculos forjaram comerciantes, cientistas, banqueiros, escritores, diplomatas, filósofos, árabes e judeus.Num determinado momento, momento de crise, de escassez, de expurgo, todos aqueles diferentes foram expulsos. Sem pão para repartir é muito difícil fazer prevalecer o bom senso.E os banqueiros, filósofos, comerciantes judeus foram expulsos para Milão, Florença, Veneza e Amsterdã. Levaram consigo sua língua. Levaram suas histórias e suas técnicas.E por mais que se tente ficar com o tesouro de alguém, não se consegue ficar com o ensinamento.
E o cesteiro que faz um cesto fará um cento.Do norte da Europa e do norte da Itália, os judeus erraram até o Império Otomano. Encontraram casa e comida. Encontraram acolhimento.Contribuíram para o florescimento e crescimento daquele império. Tornaram-se além de tudo soldados, condes. E repetiram coletivamente a história de José e seus irmãos. Não tinham motivos para esquecer de sua língua e de suas histórias.Conheceram o café e o exportaram para o Ocidente. Lutaram para conquistar os Bálcãs para Selim, o Magnífico, para Suleiman e Saladino. Fundaram grandes comunidades na Romênia, Bulgária, Trácia e Romélia, assim afora. Falando o seu idioma. Conviveram intensamente com os restos do Grande Império Romano Germânico, que talvez existisse apenas num pedaço de papel.
Para lembrança das glórias passadas e agora inexistentes. Império que gerou os retres. Retres que lutaram por cama e comida, para defender os príncipes germânicos contra os católicos espanhóis. Príncipes que adotaram Martinho Lutero como líder espiritual. Príncipes que descendiam dos godos e visigodos e que de sutil tinham apenas os cabelos e olhos claros, pouca experiência a vida havia dado. Experiência apenas como guerreiros.
E quem sabe se esses guerreiros, retres, um dia tomaram conhecimento do ladino, falado por aqueles soldados?
Quem sabe aqueles soldados descobriram por conta própria que a guerra não é natural do homem e é motivada por valores estranhos?
Tomaram conhecimento duma nova língua, novos valores e nova cultura e passaram a dividi-la conjuntamente?
Infelizmente só posso terminar a questão com perguntas.
Por essas perguntas e esses entrelaçamentos é que fiz a epígrafe desse texto. Muito temos ainda que aprender para saber o quanto somos e sempre seremos ignorantes.O que vale e sempre valerá, indepentemente do conhecimento, é o otimismo.
May 10th, 2007 at 12:56 am
Parabéns ,
um abraço afetuoso
virgínia
Vc. conhece a babel de Poemas ?
http://vicamf.multiply.com/journal/item/57
May 11th, 2007 at 5:07 pm
Olha que bonito o DNA do meu blog.
São quatro anos de palavras transformadas em uma imagem. É isso que é DNA. Sabe, eu tive uma vez uma gata chamada Bibi que era o meu amorzinho. Ela teve um filhote chamado Chiquinho que foi dado pra mãe do meu ex-marido quando o gato tinha apenas dois meses. Anos depois, eu vi o gato. Além de ser a cara da Bibi, tinha o mesmo modo de cismar olhando o nada, bufar quando ficava de mau humor com alguma coisa. DNA é misterioso. Coisas misteriosas não podem ser explicadas com palavras.