Desassossego

Não consigo deixar de ler o livro do Desassossego. Até aonde consigo ver é mais alta celebração do pensamento. A soma de todas as possibilidades imaginadas: seus pensamentos que são sua literatura e arte. Imaginadas com perícia, pertinácia e tempo. E diante delas se chega à conclusão: Nada melhor que ficar à Rua dos Douradores, sem saber ao certo se pretende chegar ao cargo de contador chefe. Ele conseguiu ver toda a inutilidade do desejo. Saiu de dentro de si. Olhou para si mesmo sob outra perspectiva. Melhor dizendo sob várias perspectivas. Ocidental. Europeu. Conseguiu passear com esmero, pelo Médio Oriente, pelo Oriente distante, conseguiu explorar tantas possibilidades que ficamos atônitos. Sem sair do lugar. Encontrou outros mundos. Concretizou outras vidas.
No epicentro de toda nossa confusão cotidiana – na selva de caçadores que nos transformamos ao longo dos últimos mil e quinhentos anos - ele representou algo parecido com o que fez Aristamos de Samos (c.310-
Continuou o ensinamento de outros com a mesma poesia e com outro idioma:
“…somos da mesma substância
De que são feitos os sonhos, e nossa curta vida
Acaba em sono.”
Se o paralelo for aceito. Todos o celebraremos condignamente daqui mil anos. Não estaremos aqui para saber, mas quem sabe a palavra estará?