Conto de fadas. Brasil. Varonil. Mil….

Entrei numa delegacia para prestar um depoimento e vi uma criança-menina ser espancada com um cassetete. A cena além de degradante era de uma violência estúpida, incontida, selvagem, na mesma proporção da resignação com que ela recebia as pancadas. Sentindo-me atingido perguntei ao guarda qual o motivo daquilo. Fui informado que ela roubava habitualmente naquela região. A mãe trabalhava fora e bastava passar em sua casa para pegá-la e efetuar a execução da sua pena.
Justiça limpa, sumária, rápida e eficaz.
Passados alguns anos estava almoçando quando recebi um sorriso e um pedido de dinheiro de outra criança-menino. Ela se parecia muito com meu filho. Na expressão, no olhar, nos gestos. Não sei identificar muito bem. O sentimento que me invadiu também não saberei jamais explicar, um misto de amor, compaixão, culpa e saudades. Imediatamente uma pessoa que estava no balcão, virou-se e entregou-lhe uma cédula de alguns dólares. Meu filho respondeu que não poderia aceitar esse tipo de coisa. Não conhecia isso. Expliquei-lhe que era um outro dinheiro, aliás, muito mais valioso. Retrucou-me que ele estava proibido disso, tinha que entregar algo claro e contado, todos os dias e isso não o ajudaria. Disse-lhe então que guardasse, e entreguei uma outra cédula, agora nacional com a efígie da insigne república. Limpa, contada e achada exata.
Ontem - idos anos - encontrei outro, crescido, por volta de oito anos que aprendeu o ofício de malabarista de circo, atuando na Avenida Faria Lima, entre o Shopping Iguatemi e o Edifício Iguatemi Plaza - Office Building. Eu aguardava bovinamente a autorização do sinal para seguir adiante e o reconheci pelo olhar. Era ele mesmo. Extasiado queria saber se era a mesma criança ou outra… Não,… Não. Era meu filho novamente. Aqueles olhos se espremeram, o seu rosto ficou descomposto e a boca se escancarou como qualquer criança por qualquer motivo agredida. A agressão foi a descompostura que uma moça sentada num outro carro à frente, lhe passou. Não consegui saber nada. Apenas vi. O sinal abriu, passei. Ele sentado na guia com suas bolinhas, não me viu e dei-lhe algum dinheiro que tinha no bolso.
“Seria bom não envelhecer, nem conhecer o mundo.” Cesare Pavese.
Na Inglaterra vitoriana soube-se de um escritor Jonathan Swift que publicou uma obra chamada: “A Modest Proposal For Preventing The Children of Poor People in Ireland.
From Being Aburden to Their Parents or Country, and For Making Them Beneficial to The Public.” Que encontrou abrigo e tradução em nossas letras. Cuja leitura recomendo, por sua utilidade e eficácia nos dias de hoje, trezentos anos depois. Bem, hoje estamos com a cidade limpa e despoluída, pela argúcia, presteza e senso de prioridade do burgomestre local.
July 13th, 2007 at 12:31 pm
Dickens. Todos os livros de Dickens permanecem atuais. A humanidade não evolui, devíamos ser extintos.