Estilhaço

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday July 3, 2007

forever.jpg

 

Magro. Veio do sertão das Minas Gerais. Trabalhou a partir dos oito anos na roça, ajudando o pai. Filho mais velho de oito, logo aprendeu a trapacear, ensinado pelo pai, que tomava todo o seu tempo para o trabalho. Eram pobres em demasia para poder estudar, portanto, freqüentou a escola por dois anos. Nada mais. Ao completar dezoito anos juntou-se ao irmão para poder fugir. Fugiu para São Paulo. Aprendeu a vender carnê. Receber primeiro e quem sabe entregar depois. Andou por todo o Estado. Houve lugar em que nunca mais pode apresentar a sua triste figura. Vendeu para comer, ficou com as prestações.

 

Alto. Logo percebeu que não era uma vida de futuro. Não sabia exatamente o que queria, mas sabia perfeitamente o que não. Veio para a Capital e se assentou numa pensão no Largo da Matriz. Dividiu com seu irmão o seu espaço alugado. Chamou outros amigos, para matar as saudades do seu lugar de origem. Considerado uma espécie de professor. De hábitos das cidade e dos cidadãos.  Todos sabiam a arte de capinar, arrotear, plantar e colher. Verbos que pareciam originários da Bíblia de antigos homens.

 

Avaro. Trabalhou num boteco, na zona. Vendia café, almoço e jantar. Todos os pratos feitos. Misturas insondáveis no pó, na colher e no garfo. Ganhava muito pouco, economizava tostões para comprar um carro. Observou o comportamento do dono, viu que ele pegava pouco no pesado. Sabia comandar, brigar, intrigar, dividir e usufruir. Não tinha marca na mão, só umidade. Afinal de contas, trocou um pai por outro, com a diferença que este segundo pagava um ‘bocadinho’. Deixava as suas noites para as fêmeas e para a conversa. Conversava muito. Conhecia pouco a língua da cidade, usava a sua própria. Apresentou uma pessoa para o patrão, achou que ambos combinavam. De fato, ganhou  uma boa grana pela venda do botequim. Intrigou-se pelo fato de apresentar dois amigos e ganhar dinheiro por isso. Dinheiro era uma espécie de sacramento para ele. Sagrado, estranho, misterioso poder conferido para tudo e sobre todos.

 

Inteligente. Apresentar pessoas umas às outras dava mais dinheiro que trabalhar. Faltava descobrir o que as ligava, as tornavam amigas uma das outras. Pensou nos interesses.  Uma pessoa seria amiga de outra quando tinha algum interesse nela. Grandes interesses, grandes amigos e grande recompensa. É isso. Foi trabalhar numa imobiliária. E, de fato, se deu muito bem. Foi reconhecido como uma pessoa capaz de unir os mais inimagináveis interesses. Tinha uma liberdade absoluta para sugerir. Apesar de ser objeto de chacota dos seus iguais, seus clientes, tinham seus interesses, e não se importavam com a língua, os trejeitos e a falta de conhecimento. Provou  que a inteligência não depende da educação. A inteligência depende do caminho traçado, do ideal. Ganhou e perdeu. Perdeu novamente e ganhou. Incessantemente.

 

Cambaio. Certa ocasião pegou seu chefe e foi com ele atender um grande amigo, industrial; gostaria de fazer amizade com outro do mesmo poder. Dessa vez não quis arriscar. Levou-o como garantia de um diálogo reconhecidamente redondo, sem nenhuma ponta que poderia arrancar junto com a daninha erva  a raiz. Mesmo sem marcar horário para a conversa, conseguiu se sair bem com sua estratégia. Afinal de contas o homem sabia contar histórias. E como. Apesar de não entender muito bem o sentido, gostou da música e o seu amigo também. Ótimo. Na saída, confidenciou que gostaria de conhecer uma ‘sexy-shop’ O chefe não respondeu, não negou, portanto, aceito a sugestão. Lá foram eles. Encontraram rapidamente. Estacionaram o carro e entraram. No meio daqueles artefatos, estranhou muito apesar de reconhecer algumas formas. Foram atendidos por uma senhora, entrada em anos. Ele pigarreou, traindo seu desconforto e perguntou:

“Onde estão as meninas?” “Podemos escolher?”

 

2 Responses to “Estilhaço”

  1. Daniela Lima Says:

    Adorei o pensamento, o comentário e adorei isso aqui. Voltarei mais vezes.

  2. DaniCast Says:

    Eu suspeito que você vai gostar desse blog aqui:
    http://www.rainhadeelfame.weblogger.terra.com.br/index.htm
    Ela é leitora do chá e minha amiga.

Leave a Reply

24 queries. 0.310 seconds.
Powered by Wordpress
theme by evil.bert
modificado por DaniCast