Filidor

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday July 10, 2007

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Encontramo-nos num dos melhores lugares da cidade, apresentado por um amigo comum. Absolutamente simpático, falando calma e fluentemente, mostrava seus raciocínios de maneira clara, lógica, límpida. Mostrou uma imbatível capacidade de análise e um preocupante poder de síntese. Parecia ter ao seu dispor todos os dados pertinentes para o assunto objeto de suas impressões.

A sua figura lembra muito o Henry James. Acrescido dos óculos. Robusto, íntegro, sem fissuras, sempre impecavelmente vestido. As cores da sua roupa conversam amigavelmente entre si. O seu lenço sempre nos sorri com classe e delicadeza, um pouco caído, como se estivesse colocado ali por descuido de alguém, não dele. Qualquer que seja o horário dos nossos encontros sempre parece ter saído do banho naquele momento. Sente-se o mesmo aroma das áreas públicas americanas dedicadas ao comércio. Não se permite o mais leve sinal de descontrole. Civilizado no último grau, segundo Mencken. Aparentemente sempre está disposto, pronto para fazer negócios com o seu interlocutor. Afinal de contas, formou-se nas melhores escolas da América; trabalha na capital mundial do capital financeiro.

O seu único deslize foi fumar um belo Cohiba. Logo acrescentou que o embargo  estava delimitado ao território americano. E que a compra fora efetuada aqui no Brasil.

Escolheu um prato de feição francesa; apesar de me oferecer uma taça de vinho, não se permitiu a esse excesso, pois estávamos na hora do almoço, e isso não é de bom tom nos negócios. Acanhado e influenciado também me apressei a recusar.

Pediu desculpas por não falar o nosso idioma, mas apressou-se a esclarecer que fazia escola de idiomas e  brevemente estaria em nossa companhia também no idioma. Avisou-me também que não era muito fluente em línguas, que provavelmente demoraria mais que seis meses para acompanhar-me razoavelmente em português. Em sua última viagem demorou dois anos para falar chinês suficiente para auxiliar na reformulação do cenário atual do canato da China.

Gostaria de saber onde e quando poderia ouvir algum Mozart na cidade.

Perguntando-me a respeito dos meus planos de futuro, disse-lhe que pretendia ficar num lugar calmo e tranqüilo; Campos do Jordão seria a primeira alternativa se não estivesse, já hoje, degradada.  Ele preferiu Nova Iorque.

Enfim uma figura monolítica.

Participamos de uma longa rodada de negociações, horas de interminável apresentação de planos, projetos, taxas, índices. Conversamos sobre o presente, sobre o futuro e sobre o passado.

Ao final de um breve intervalo, sorriu para mim -  amistosamente - tirou de dentro de sua pasta um exemplar de ‘Lauren Bacall: by Myself’.

Explicando-me calmamente ao abrir o volume e exibir a assinatura da autora:

- Esse é meu hobby.  Coleciono livros autografados pelos autores.

-Ah. E é muito difícil encontrá-los?

-Não, faço isso pela internet. É fácil, rápido e barato.

Olhei o vermelho rubro da capa e a assinatura dela. Inteiriça, firme e formando um único bloco.

Também.

One Response to “Filidor”

  1. DaniCast Says:

    Henry James de óculos.
    Agora até eu quero casar com ele.

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