Las Vegas

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday July 26, 2007

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João Shao, esse é o meu nome. Meu pai é chinês e minha mãe é brasileira. Não falo uma palavra do idioma com o qual pareço fisicamente. E isso causa a maior confusão. Todos os chineses falam comigo sem que eu consiga responder. Todos brasileiros acham que sou japonês. Eu mesmo não sei quem sou ainda. Mas não queria visitar Las Vegas, queria visitar o Grand Canyon. Acabei visitando ambos. Vítima da minha ambiqüidade.
Morava, na época no Arizona, já que não sabia falar chinês, tentei aprender inglês, e lá fiquei um bom tempo, e de lá que resolvi partir. Scottsdale, via Sedona, cheguei ao monumento natural.


Coral é a cor que predomina. Uma vastidão imensa, essa expressão não consegue dar conta do efeito que nos é causado. Contemplar. Esse é o verbo. Nada mais fica seguro. Todas as explicações se desmaterializam, retornam ao pó de que foram construídas. Estava diante de uma interrupção não intencional da atividade espontânea da mente. Eu tive absoluta certeza da minha insignificância diante daquilo tudo. Construído apesar de nós.
Não respeitei o aviso de segurar nas cordas. Quase fui levado pelo vento. A natureza naquele local tem dimensões sobre-humanas e o vento não é exceção.
Como já disse você fita a eternidade, olho no olho. Ela não tem nada para dizer pra você. Você deveria ter alguma coisa para ela. Não tive. Hoje talvez tenha pra você, graças a esse instante.


Saí de lá em direção à Nevada. Fiz uma longa descida. Entrei na fase azul da viagem. Encontrei a represa Hoover e um espaço para estacionar, contemplei aquela imensidão de água, encerrada naquela cadeia. De um azul profundo, sem movimento aparente, calmo. Ar, água, terra e estrada. A minha presença acaba de ser notada, pelo asfalto que piso. É obra minha, de meus semelhantes. Logo mais adiante encontrei a barragem com impressionantes torres de concreto. Consegui vê-las  como uma tentativa de barrar além da água a passagem do tempo. Uma espécie de freio de mão. O tempo deveria ser controlado para não nos consumir. O melhor lugar do mundo para nossa fantasia é o deserto.

Las Vegas é cinza. Durante o dia ela é predominantemente cinza. A noite o cinza é substituído por luz, cores e intensidades. Existem hotéis para todos os bolsos. Obra totalmente humana. Não há natureza. Árida. Uma grande avenida (The Strip) com quase sete quilômetros, onde tudo acontece. Fantasia está para o deserto, assim como o jogo está para Las Vegas.
Você senta num bar para tomar alguma coisa, olhando as pessoas. Pronto. No balcão existe um jogo eletrônico sob o seu copo, basta colocar uma moeda. Os cassinos têm dimensões urbanas. Cada um deles é uma pequena vila, com quartos, diversões, restaurantes. Som e fúria. Fiquei hospedado num centro de compras onde o teto é um céu sempre azul, seja dia ou noite,  com poucas, raríssimas nuvens,  temperatura e umidade estáveis tudo controlado por computador, inclusive você. Saía pela manhã e sempre me encontrava com um cidadão (meu patrício) em pleno trabalho (jogo). Voltava à noite, e ele estava lá ainda. Dia, após dia. Encontrei caravanas com dezenas de orientais, todos em volta de um grão-mogol, com camisas brancas de seda sem gola, com os excessos de riqueza saltando nos pulsos e gargantas. Brilhando mais que as luzes de néon. Nunca me vi tão só.
A cidade é uma grande tentativa de parar o tempo. Uma vontade imensa e desesperada de que o nosso tempo na terra seja eterno, sempre feliz. Talvez por isso não tenha sorte no jogo. Não consigo esquecer que tudo é finito. Tudo é uma tentativa de retardar a ruína que o tempo exige para si.
Se me pedissem para fazer um resumo de tudo, escreveria. Coral, azul e cinza. Incessante de um para outro.
 

2 Responses to “Las Vegas”

  1. DaniCast Says:

    Cortázar tem um conto (não me lembro de qual livro dele) onde ele conta sobre um jovem que frequenta um local onde servem bebidas e tem moças para atender os jovens cavalheiros. Dentro da história começam notícias sobre um assassino que está a solta, que nunca aparece na história, só nas notícias de jornal e fofocas comentadas nesse lugar que o protagonista vai, um misto de bar, bordel e jogatina de cartas que tem um falso céu azul pintado no teto.
    Eu adoraria ver o Grand Canyon e visitar Las Vegas, mas talvez na ordem inversa.

  2. Elfen Queen Says:

    Raíces de America me traz lembrancas do que eu nunca vivi. Aliás, isso acontece sempre comigo.
    E obrigada pelas visitas, seu blog é fantástico! Eu o linkei em meu blog, tudo bem?!

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