Reino dos Mil Anos

Escrever sobre o amor é coisa para Stendhal. Não é coisa para uma manhã inóspita de terça feira, comum como todos nós. Assim mesmo, aquele que não gosta de jogos de azar, arriscará uma ficha numa casa onde jogando sempre se vencerá. Explico: jogando a terça inteira num quadrado vermelho ou negro, sempre o mesmo valor - ao fim e ao cabo - ganharemos.
Amor e mar. Ambos são verdadeiros. Apresentam-se em mil faces, cada uma delas guarda a lembrança daquela forma original. Mas o cinzento do mar e a beleza da face escondem muitas coisas. O que está oculto é maior do que é aparente. Somos três quartos de água e um quarto de terra.
Coisas que são aprendidas são depois desprezadas. Como terra conquistada ao mar. Portanto é melhor ignorar. A ignorância é a certeza da felicidade? Não apenas isso. Mas a ignorância nos dará o prazer contínuo da descoberta. Tornará uma friorenta terça num festivo sábado à noite. Ainda que o sábado seja uma simples quarta. Nunca teremos um domingo fim de prazer. A mudança do mar e do rosto será sempre contínua e renovaremos nossa esperança e entusiasmo. Sempre seremos viajantes descobridores. Sem eles não se consegue viver.
Viver é vontade.
Viver é intuição.
Viver é ignorar.
Viver é sentimento.
Portanto amar é obra de uma vida inteira, pode significar o próximo ou o distante. Pode significar o sexo oposto ou o mesmo sexo. Amar, hoje, é significado de loucura. Quer saber?
Se agora mesmo, você sair para a rua e olhar para a primeira pessoa que passar e dizer:
- Eu amo você! Sorria docemente.
Ele pensará que você é um louco manso que não oferece perigo. Com um olhar de piedade e tristeza continuará seu caminho, balançando a cabeça suavemente. Tenha cuidado de não aliar à frase um gesto. Qualquer. Arriscar-se-á a ser jogado no chão para se evitar qualquer outra ameaça.
Ao passo que, vencida essa primeira situação, se você continuar o seu trajeto e depois de alguns instantes, ao passar o próximo, se encha de coragem e diga:
Eu ODEIO você!
Ele o olhará assustado e o identificará como pertencente a algum partido de oposição, ou partidário da situação, viu nele algum sinal contrário. Seguirá adiante e dirá a um colega do trabalho:
- Cara; encontrei um militante que pensou que eu era seu adversário. Que maluquice, não?
Arrisco dizer que jamais se compreenderá racionalmente o que é o sentimento de amor. Ele não pode ser contado, achado e dividido. Ele pode ser sentido e intuído, jamais será explicado. Hoje ele passa por um período de desprezo tão grande que corre o risco da extinção. Poderá ser exibido nos futuros Museus de História Sentimental. O reino dos mil anos se distancia a passos rápidos e seguros.
Quem viver verá.
August 28th, 2007 at 8:42 am
sempre passo por aqui, gosto da sua página.
de tempos em tempos suas palavras emocionam.
obrigada pela emoção da terça.
August 28th, 2007 at 10:17 am
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
Carlos Drumond de Andrade.
August 28th, 2007 at 4:47 pm
Descobri quem era o escritor. Era John Steinbeck. Eu tinha vários livros dele, adorava “Ratos e Homens”, acho que eu tinha uns oito livros dele. Não estão mais no meu armário, o Google que me ajudou a lembrar. Lembrei o que aconteceu com os livros: foram embora com várias das outras coisas preciosas da minha vida passada. Acho que tenho uma vaga lembrança de estar no auge da depressão, logo depois do meu divórcio e minha mãe falando alguma coisa sobre como não gostava dos livros dele porque ele sempre falava de miséria e pobreza e de como a grande quantidade de livros que eu tinha estavam atulhando o apartamento dela, onde eu estava morando, por falta de opção. Ficou a memória condensada, eu adorava ler Steinbeck porque sempre me pareceu que ele tinha uma conhecimento iluminado sobre a natureza humana. Faz sentido, depois de mais de 20 anos, minha mãe, que foi quem me comprou o primeiro livro dele, passar a detestá-lo, afinal, ela passou a se identificar com os miseráveis retratados por ele. Faz sentido para mim, eu ter jogado os livros fora. Era uma naufrágio, eu salvei o que eu pude. Garcia Marquez está salvo, mais de 12 livros, aqui no meu armário.
August 29th, 2007 at 4:11 pm
Ler coisas sobre amor, ódio e mar hj é um pouco estranho para mim. E esse papo de amor e mar me deixa nervosa. É como comparar o mar com a verdade 9cvc sabe como é, né?!).
bem, esqueça! Hj estou esquisita.
August 30th, 2007 at 8:50 am
Cara, suas reflexões são poderosas, não dá pra desgrudar o olho.
September 4th, 2007 at 7:34 am
Cara - na boa mas você chupou o O homem sem qualidades do Musil não é verdade? Admitir a referência é um tipo de honestidade que o escritor deveria considerar sempre…
September 4th, 2007 at 10:29 am
Depois que li Robert Musil, não sei se conseguirei escrever algo sem prestar homenagem a esse grande escritor. Já fiz algumas citações ao longo deste blog. Espero que tenha gostado da minha homenagem. Agradeço sua lembrança.