Colar de Pérolas

João e Pérola. Amigos desde a universidade. Ele fazendo um segundo curso iludido pela possibilidade de ser mestre em alguma coisa. Ela cursando para se afirmar enquanto filha de alguém que acreditava que as meninas não precisavam estudar; afinal de contas, vão se casar mesmo.
Pérola é pessoa gentil e de educação muito rígida, sempre olhava com cuidados para todos os lados. Sentavam-se próximos durante as aulas.
João aceitou um convite para um almoço no primeiro sábado que foi conveniente. Um grande salão preparado para a refeição. Comida suficiente para alimentar uma dúzia de pessoas a mais; conversavam como respiravam, graças à ignorância que juventude dá; de repente, ouviu uma gaita de fole, soando pela casa aquela espécie de lamento melódico e inverossímel. No princípio não foi o verbo, foi o som. Som que só depois descobriu de onde saia e de que instrumento.
O irmão dela o estava estudando. E surpresa maior ainda foi quando ele apareceu: Benjamim. Com um metro e oitenta para qualquer lado que se corresse uma fita métrica. Loiro, estudante de engenharia, olhar matreiro, parecia avaliar as pessoas que estavam ao seu lado. Talvez essa forma de apresentação com roupa típica de regimento escocês diga muito mais do que qualquer descrição. Fazendo o curso por obrigação desde a morte do pai. Queria viver a vida. Rápida e alegremente.
João foi tratado condignamente, apreciou seus pratos prediletos. Como você sabia que eu gosto de comer quibe de peixe?
- Mulheres sabem tudo – foi o que ouviu.
E assim as coisas andaram. Muito convívio, muita presença. O contato se estreitou, a amizade também. Ele a convidou para ser sócia num escritório de advogados. As amizades comuns e as próprias de cada um serviriam como uma ótima base para o negócio. Ela ainda poderia provar cabalmente a sua capacidade.
- Ah, João. Não me interesso por isso, apenas quero ganhar a minha vida. Não pretendo fazer carreira. Pretendo mesmo é fazer um concurso para a Magistratura.
- Que nada, Pérola. Que nada. Isso é uma atividade para pessoas que querem se acomodar. Ganham um bom salário e não são desafiadas para mais nada na vida.
Nunca foram namorados. Tinham as personalidades muito diferentes. Tolerância sempre existiu, mas a convivência diária envolveria problemas insolúveis.
Porém o companheirismo, a sociedade, a convivência fizeram de João o suposto pai de um filho que ela não teve. Todos, aliás, pensavam, pela aparência, que fossem irmãos. Muitas vezes ele assim a denominou, acreditando muito mais na opção do que no compulsório do parentesco.
Ele a apresentou ao seu primeiro marido. Ele também participou intensa e ativamente no seu divórcio. No doloroso processo ela se orgulhava em dizer que ele entrou com um aparelho de som e saiu sem ele.
- Isso é para aprender.
Não conseguia entender o valor e o significado desse interesse.
Qualquer sofrimento causado à Pérola causava um desfiar de sentimentos no João. Passados uns anos apresentou-lhe o segundo marido e pai, finalmente, de seu filho.
Filho que lhe deu muitas alegrias. Estudioso, parecido fisicamente com ela. Pode-se dizer que tem personalidade parecida. Genioso.
João também se casou. Também se separou e o processo foi muito parecido. Casou novamente e teve mais dois filhos. Frutos tardios de um amor conturbado.
Durante um período de tempo João queria que o escritório ficasse maior. Pensava no futuro. Queria deixar o escritório como um início aos filhos. Início parecido com o que tiveram.
Pérola sempre afirmando que não. Que não. Que seu objetivo era de apenas tocar sua vida. Não queria tocar escritório nenhum. Apenas o fazia enquanto ele – João – quisesse.
- Mas – dizia João – a sua mãe sempre diz que eu trabalho em outras coisas, que você faz tudo sozinha. Se nós aumentássemos de tamanho, contrataríamos pessoas que pudessem fazer todo o trabalho e nós apenas daríamos as orientações. Que tal?
- Minha mãe, não entende destas coisas. Deixa pra lá.
As coisas continuaram andando como sempre andaram.
Com o tempo as longas conversas e desabafos que sempre ocorriam, não mais aconteciam. Ficavam longos tempos sem conversarem. Coisas da idade.
João era chamado para apagar “incêndios”. Administrativos, comerciais e pessoais. Costumava conseguir isso com facilidades. E logo depois, as coisas continuavam a andar da mesma forma.
- Esse é o meu jeito de administrar. Quando falta um homem, chamo você. E tudo fica bem, dizia com indisfarçado orgulho.
Os silêncios eram cada vez maiores, até que um dia Pérola se apresentou dizendo:
- João, chegou minha hora. Quero sair da sociedade.
- Que nada, que bobagem. Vamos ver o que se pode fazer para continuar com isso.
- Não, não. Não nasci para isso, você sabe. Estou cansada. As pessoas não nos dão valor. Os custos sobem, os lucros diminuem e quero montar apenas um pequeno escritório, para ter algo com que me ocupar.
- …Está bem então.
E assim tudo ficou acertado. Trataram dos papéis.
João tentou buscar outras pessoas, fazer outros arranjos, para que a sua idéia de crescimento prosperasse junto com o negócio.
Até que um dia, ela chegou ao João e perguntou:
- Pelo mesmo preço você me vende a sua parte?
- … Bem, eu não estava pensando nisso. Mas…. Claro.
- Então, está ótimo. Fico com a sua parte..
September 4th, 2007 at 12:20 pm
O texto está saboroso como bucho de peixe. Adorei, me sabe a Borges e Garcia Marques.
September 4th, 2007 at 7:29 pm
Djabal
Que história conturbada.Ela quiz separar a sociedade e depois quiz comprar a parte.
Associações e dissociassões em uma amizade que construiu-se e desconstruiu-se.
A vida se encarrega de mostrar a verdade.
September 4th, 2007 at 8:10 pm
Sentimentos embutidos - rs.

Às vezes o amor parece tão… Silencioso.
September 6th, 2007 at 8:40 am
Há muito to querendo te conhecer…
Volto mais tarde para ler você
Beijos!
September 9th, 2007 at 1:33 pm
Olá Djabal, quando eu não consigo postar no GO, também faço redirecionamento para meu outro blog no Blogspot. Li seu conto e justamente chamou-me a atenção, porque desde o início eu tive a impressão que os dois eram almas gêmeas, mas aí, a Pérola passou a vida em branco sem perceber que pertenciam um ao outro… E ainda por cima fez tudo errado no final. Assim como muitas vezes todo mundo faz. Parabéns! Beijos.