Jardim Zoológico

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday September 11, 2007

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Passei dez dias em Nova York. Gastei todo o meu tempo na biblioteca pública. Sempre tive a impressão que vivemos em agrupamentos. Os melhores e mais típicos exemplos são, pela forma de organização:  Jardins Zoológicos, Hospícios e Prisões.

 

Portanto, qualquer cidade para mim é parecida. Seja na Metrópole ou na Província. É verdade que gostaria de conhecer Praga, não a  moléstia, porém para saber como viveu alguém que escreveu muito bem, a despeito de tudo e de todos, até dele mesmo. Gostaria de conhecer o Père Lachaise, claro, mas faltaria a mão de Honório para recontar a sua fundação lá no longínquo século dezenove.

 

Todos esses desejos são apenas recordações de lugares em que nunca poderei estar por exigir deles pessoas que não são mais visíveis por mim. Quem sabe um dia, uma dessas mãos me puxará para esse passeio?

 

Enquanto isso me satisfiz com a Biblioteca. Essa foto que vi hoje me lembrou imediatamente os profundos, largos, marmóreos e silenciosos corredores. O silencio do lugar é digno de ser notado. Parece o ar úmido do interior do sul continente, pode ser cortado em fatias.

O respeito do semelhante pelo seu próximo me fez buscar alguma placa com multa de cinco mil dólares por quebra de sigilo, não encontrei, mas ainda penso que isso é reflexo condicionado por anos e anos de aplicação continuada. Ela caiu e ninguém notou.

Eu fiquei intimidado com ele – o silêncio -, e não pronunciava uma única palavra em qualquer que fosse o local.

Levei comigo um professor britânico que escreveu Cidadãos: Simon Schama. Foi assim introduzido na intimidade da revolução francesa, lembro-me também que fiquei impressionado com a violência e o temperamento de Georges Couthon, uma figura secundária até então, e que graças aos massacres ordenados (Lyon) ficou gravado nas minhas memórias inúteis.

 

Infelizmente ainda não conseguirei esclarecer o motivo pelo qual  fatos bizarros e  desordenados são os que me chamam a atenção, mas fica o registro como um pedido de auxílio, num lugar mais que inapropriado. Uma mensagem numa garrafa lançada ao éter.

Chegava invariavelmente antes de estar aberta, portanto conversava com alguns visitantes seriais ou oportunistas. A primeira funcionária a chegar era sempre a mesma e a troca de olhares, incomuns – parece – na América, nos tornou amigos o suficiente para sempre receber um sorriso como cumprimento e um leve aceno de cabeça.

 

Os bibliotecários passeavam pelo salão de leitura a fim de guardar os livros que eram utilizados, e o fato de levar o meu próprio livro comigo os intrigava bastante. A ponto de procurar saber o que estava lendo, e ao ver a língua estranha, tentavam adivinhar a minha nacionalidade. O meu rosto e o passaporte devem valer uma fortuna no mercado negro de documentos, pois posso me adaptar a qualquer nacionalidade sem muito sacrifício. Desde México à França, passando pela Argentina e Alemanha. Ninguém conseguiu descobrir. Mas, posso afirmar que dez dias de convivência diária faz uma grande diferença na relação entre as pessoas. E a nacionalidade perde completamente a importância. Descobri que a policial tinha uma neta e morava no Bronx, e que sua neta não tinha o mesmo carinho pela leitura que eu.  Tentei confortá-la dizendo que as pessoas têm as mais diversas formas de lidar com a vida, a leitura, a arte em si, era apenas uma delas. A que dava maior prazer para aqueles que tivessem olhos para ver.

 

O comportamento mais corriqueiro, hoje em dia, em qualquer parte, é o de olhar para si mesmo em pequenos detalhes, deixando de lado tudo o que um painel imenso de arte quer dizer e mostrar.

Estamos sempre preocupados com o fio da nossa meia, ou a casa do botão descasado, ou ainda querendo saber o porquê do Couthon ficar tão impregnado em nossas mentes.

Ela a avó, com seu rosto risonho,  ficou como uma eterna e boa recordação.

 

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