El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles de Porciúncula

Sempre gostei de Bons Ares. Esta cidade bem próxima de nós, de todas é a mais atraente, talvez pela urbanização, talvez pela localização ou pelo fato de possuir não notáveis acidentes geográficos, se tirarmos o rio da dessa classificação.
As pessoas são agradáveis de conviver, parecem próximas a nós. Mas a grande atração, a minha grande paixão é Astor Piazzolla e o tango. Essa música é inebriante para mim. Vou ouvir um tango e ver pessoas dançando é uma experiência e tanto. Levamos para a vida toda. Mesmo aqueles espetáculos montados para o turista têm o seu encanto. Encanto mascarado pela maquiagem e pela roupa, mas quem tem olhos para ver e coração para sentir terá emoção em doses insuportavelmente agradáveis.
Existe um hotel novo que oferece um show toda tarde. Acompanhamos o pôr do sol ouvindo a música e vendo um par de dançarinos, apenas para você é alguma coisa inesquecível. Provavelmente você sentirá vontade namorar e compartilhar tudo que você possui como nunca em sua vida. A hora e o local do espetáculo são propícios.
De todos os locais da cidade, o Parque Palermo é um dos mais extraordinários pelo tamanho e pela facilidade e equipamento que eles colocam à disposição do leitor. Muito sol, bancos confortáveis e paz de espírito. As pessoas parecem treinadas para não perturbar o leitor. Ao contrário de outros lugares onde o leitor é tido como um solitário precisando de ajuda ou auxílio.
Fui informado que na cidade existe um belo restaurante que serve comida francesa de qualidade indiscutível. Aproveitei a dica e os recursos que dispunha. Encaminhei-me para um hotel do século passado, início do século passado. Com apresentação, decoração e pompa que indicavam muito bem o que me esperava. Apesar de ser muito bem recebido, pela leitura da carta percebi que os preços eram imbatíveis e a escolha dos pratos não era digna dos preços que estavam ao lado, bem ali à direita.Veio à minha cabeça uma conversa que tivera com um especialista - Laurent - a respeito daquele restaurante e sua qualidade.
Tive a idéia de chamar o ‘chef’ para me apresentar. Dito e feito.
Conversamos bastante e me apresentei dando vasta interpretação aquele simples bate papo, imaginando e dizendo que era por recomendação dele que fazia a minha visita. Que, certamente, seria recebido como ele o seria se viesse até a minha cidade. Percebi que ele ficou impressionadíssimo, não sei se com o meu espanhol, ou com o conteúdo da conversa.Paguei para ver. Ele me disse que faria uma apresentação de sua habilidade com todos os pratos que conhecera numa última viagem à França.
Todos em pequenas porções para que pudesse apreender o sabor e a dificuldade de execução em cada um deles.E foi assim que viajei por:
. Caviar osciètres d’Iran, langoustine rafraichies, nage réduite, bouillon parfumé
.Volaille de Bresse, écrevisses et girolles em fricassée
. Araignée de mer decortiquée, émulsion coraillée
. Legumes et fruits cuits/crus, sirop de tomate épicé
. Pressé de pintade de Challans et foie gras, vinaigrette truffée
. Bar de ligne agrumes/poivres, verte t blanc de blette
. Sole de petit bateau, marinière de coquillages, suc de persil
. Turbot de Bretagne em matelote
. Agneau de nos régions rôti (Lyon), artichauts et févettes confits au sautoir
. Pigeonneau laquê, garniture Montmorency, pommes gaufrettes
. Pomme de ris de veau à la florentine et girolles dorées
. Fromages affines por vous
Se você não entendeu muita coisa não se lastime. Não entendi nada, apenas apreciei as terrinas que chegavam de tempo em tempo com precisão admirável. Terminava de apreciar uma, chegava outra.Pensei que deixaria o dinheiro do resto da viagem por lá. Uma outra surpresa, o mestre que tinha porte e bigode dos gauleses se revelou um semi deus anfitrião e nos cobrou o preço do prato do dia.
Depois disso tudo peguei um táxi indicado pelo hotel, por segurança, e me encaminhei para o parque. Pensava em ler pelo resto do dia que me restara. Levei comigo uma única nota de cem dólares.
Peguei um carro com um motorista extremamente amistoso, e que pensava que eu era italiano, veio conversando comigo naquele idioma, que também não falo, apesar de entender um pouco, ensinando-me como se fazia massa em casa, e discorria sobre ovos, farinha e quantidades.
Chegamos ao meu destino.Pedi-lhe se era possível me aguardar até o final da tarde, ou se não fosse possível, se ele poderia me pegar ao cabo de três horas?
- Claro, não se preocupe.- Você quer que eu lhe pague agora? - Sim, pode ser.
- Quanto é?
- Cinco dólares.
Dei-lhe o dinheiro e ele foi buscar o troco, logo mais adiante. Voltou depois de alguns minutos e deu-me uma cédula de cinco dólares.
- ?!
- Faltam noventa dólares.
- Não, claro que não, o senhor me deu dez dólares.