Meu nome é MLO

Sei de um velho amigo que apenas relê. E argumenta de maneira muito razoável; reler algo da sua juventude é um prazer redobrado. Você sabe que é uma obra prima, tem certeza absoluta de que gostará.
Diante desta razão peguei o Enigma de Kaspar Hauser para rever.
É a história de um rapaz que foi abandonado e criado num porão, alimentado a pão e água, sem conhecer ninguém exceto aquele que o alimentou. Não teve nenhum conhecimento de língua, não sabia da existência de semelhantes, sequer aprendeu a andar, amarrado ao chão ao longo dos tempos.
Já havia tido notícias de experiências na Idade Média, onde pessoas foram submetidas a esse tratamento na curiosidade de saber qual o idioma que se falaria naturalmente, sem nenhuma outra influência. Acreditava-se que seria o latim. (“Penso, logo existo.”)
Ele é libertado numa praça da cidade de Nüremberg com uma carta na mão dirigida a autoridade local para que recebesse abrigo e alimentação como cidadão nascituro.
E o processo civilizador a que ele é submetido foi muito esclarecedor. Compreendi perfeitamente os sentimentos que foram surgindo dentro dele. A dor diante da queima da desconhecida flama; as lágrimas que surgiram ao ouvir uma música de Mozart ou a embalar um bebê.
Diversas hipóteses surgiram diante do desconhecido, nenhuma delas lhe deu o benefício da dúvida. Foi considerado desde filho de Napoleão a bastardo de uma nobreza local, ou mero vagabundo, esperto, a se alimentar gratuitamente da sociedade. Era apenas diferente.
Foi abrigado primeiramente por crianças que o ensinaram a comer e a se sentar, depois por um professor que o ensinou as letras e as noções mais básicas de humanidade. Aprendeu logo a temer o seu semelhante, dizendo que os homens lhe pareciam como lobos. Escreveu seu nome com sementes de lentilhas no seu jardim e tudo foi pisoteado por anônimos. Foi também adotado por um benfeitor inglês Lord Stanhope interessado em descobrir o seu segredo. Como se houvesse um digno de nota.
Teve contra si duas tentativas de homicídio, uma com pauladas e a outra bem sucedida através de um punhal, quando passeava pelo jardim de uma propriedade.No seu leito de morte quis contar uma história, porém aprendeu que ela só poderia ser contada se tivesse começo, meio e fim, nessa ordem; e essa, infelizmente, não preenchia essa condição.Foi autorizado pelas autoridades civis e eclesiásticas a contrariar essa regra e contou: “Num grande deserto passava uma caravana liderada por um velho cego. Eles numa determinada altura do trajeto se consideraram perdidos. Essa preocupação foi levada ao seu líder. Ao conhecer dela, levou à boca um bocado da areia para saber. Disse: ‘Estamos no caminho certo. A direção que estamos seguindo é o norte’. Ao ser informado das montanhas imensas que se erguiam nessa direção, objetou: ‘Elas são frutos da sua imaginação’. “
Descobriu-se também que, dos hemisférios do cérebro o menor era o esquerdo e seu cerebelo foi muito maior que a média. Disse um poeta: “Concebo que sejamos climas, sobre que pairam ameaças de tormenta, noutro ponto realizadas.” E revendo este filme compreendi perfeitamente o sentido dessas palavras. Ninguém jamais encontrou o seu assassino.
September 19th, 2007 at 1:56 pm
Comentei sobre esse filme em meu blog há algum tempo. É brilhante! Dá para ser analisado por diversos âmbitos, desde aspectos referentes à linguagem, psicologia, relações sociais, etc. Fiz uma análise sobre ele no tempo da faculdade e foi sem dúvida, um dos melhores trabalhos que fiz.
…e olha o mar aí denovo!
September 19th, 2007 at 9:01 pm
Ah, que bom que assinou a petição. Vc tbm gosta de Black Crowes?
September 21st, 2007 at 12:18 pm
Assisti esse filme uma vez, eu devia ter uns 14 anos. Me causou tamanha impressão, chorei tanto de compaixão do protagonista que nunca mais quis rever o filme. Não consigo assisti-lo, só consigo pensar na imensidão da crueldade humana.
September 21st, 2007 at 12:20 pm
Ah, sim, existe um paralelo interessante que dá para fazer entre Kaspar House e Frankenstein. A Criatura do Dr. Frankenstein é semelhante a Kaspar House, mas não lhe deram o benefício da tentativa de civilização. Gosto da versão de Keneth Branagh, mesmo com todos os defeitos que o filme tem.
May 24th, 2008 at 12:32 pm
gostaria que vc mim mandasse o seu trab da epoca da faculdade, serei muita grata a vc.
beijos!