Amusia

João conversava animadamente com Gaspar, saíam para cumprir um compromisso de negócios. Este último o convidara para um encontro com Madame Boyer, viúva de um grande amigo e sócio de seu pai. Esse sócio descobriu uma doença que o exterminaria dentro de pouco tempo. E, por isso mesmo, planejou uma viagem de seis meses ao redor do mundo, para poder aproveitar, pela última vez, das coisas boas da vida. Gaspar foi escolhido para acompanhá-lo, à época, jovem e médico. Seria além intérprete, conselheiro nas consultas que pretendia fazer nos melhores especialistas e estudiosos ao redor do mundo. João ouvia atento aos conceitos das boas coisas e como se deve viver a vida sob a pressão do prazo de validade se vencendo. Soube também das dificuldades de se marcar consulta com médicos famosos; como fazer para não perder uma consulta marcada com anos de antecedência, com corridas dignas de filmes de aventura. Em resumo, morreu no Crillon de Paris, tomando seu querido champanhe: Rosé, ao chegar da temporada no “Palais Garnier”.
Chegaram à residência do encontro marcado.
Foram conduzidos a uma ampla sala de estar com uma janela balcão que dava para um jardim inglês. Havia uma luminosidade como uma segunda moldura duma tela dominante em todo ambiente. Nela havia uma nova Lady Agnew de John Sargent. Era a Madame quando jovem.
Homens maduros, vividos, habituados a tudo, trocaram impressões sobre a qualidade da obra e a beleza da retratada, quando foram interrompidos pela sua chegada. Alta, esguia, amena, clara, serenidade nos passos e falando com acentuado sotaque, estendeu a mão para Gaspar e para João. Fora amavelmente entrando pelas eras, contornando os abismos, até aquele momento; fazia-se acompanhar por uma jovem que era muito parecida com ela. Morena, entretanto, pele trigueira, cabelos arrepanhados num rabo-de-cavalo preso muito alto e mostrava a linha sinuosa e elegante do seu colo, fazendo um sinuoso contraponto com a linha dos seios. Arrogantemente aprisionados numa blusa branca e finíssima. Um rosto simétrico, testa alta, com olhos grandes, negros, delineados naturalmente, sobre um nariz delgado, arrebitado, uma boca desenhada a cinzel. Um conjunto perfeito. Uma manifestação acabada da inteligência da natureza.
A conversa agora girou em torno de Genebra, onde ela vivia durante certo período do ano, e sobre a violência no Brasil, e na alegria que era passar o inverno de lá, aqui. E o inverno daqui, lá.
A presença da jovem exerceu tremenda agitação em João, principalmente percebendo que a sua também não havia lhe ficado indiferente. Ele não conseguia despregar o seu olhar dela. Ela não olhava diretamente para ele, apenas olhava perifericamente, mas sempre, todo o tempo. Com aquele olhar de soslaio da Capitu. Mas insistentemente, furtivamente, timidamente. Após aqueles minutos de alta voltagem no ambiente, elas pediram licença para providenciar um café para os visitantes.
João nem precisou contar a Gaspar. Ele percebera tudo. E segredou, a propósito, que estava apaixonado pela sua professora de dança. Perdidamente apaixonado. Ao ponto de quase não conseguir dançar mais com ela. Os toques de suas mãos os deixavam perturbados como se tivessem levado um choque elétrico, ele sabia disso e havia conseguido sair para jantar com ela. Nada mais. E conversaram durante horas sobre os seus interesses, descobertos mútuos. Estava com um drama de consciência pelo fato da religião dela ser outra. Tinha receio de ofender a memória de seu pai. Apesar de dizer: “Meu pai sempre me disse que o importante não é a religião, sim o caráter.” Não conseguia agir assim. Estava desnorteado, em conflito profundo entre sua razão e sua sensação. Estava cansado de relações frias; como talheres de mesa sem uso. Queria emoção. Essa emoção também para si.
Tomaram o seu café, João gostaria de ter prolongado o café por muito mais tempo, mais que a educação permitia. Não conseguiu. Mas conseguiu acertar todas as condições contratuais do negócio que lhe foi sugerido inicialmente por Gaspar e aceito pela Mme. Boyer para poder voltar mais e mais vezes àquela casa.
E saiu com a impressão de que saia de uma bolha em cujo interior se executava uma música que não seria compreendida fora dali. Havia saído de dentro da história de Dorian Gray.
October 9th, 2007 at 1:04 pm
Eu adoro esse livro do Oscar Wilde. De fato, adoro também Fausto, de Goethe e por derivação, o maravilhoso filme Mephisto:
http://www.imdb.com/title/tt0082736/