Zelig
Sou uma espécie de zelador de um clube. O clube dos desconfiados. Foi apresentado nele por Carlos, e obtive o emprego. Um clube com um número enorme de associados e com uma freqüência baixíssima. E pela maciça ausência acabei por criar um emprego que completasse as minhas parcas moedas. Eu vivo de contar histórias aqui.
As histórias mais contadas são aquelas referentes aos bens materiais. São essas as mais procuradas e as mais repetidas, rendem as melhores gorjetas. Afinal de contas temos a sina de nos repetir e de acumular. Isso não é novidade para ninguém. Entretanto, as que mais gosto de contar são aquelas das coisas imateriais. Eu as acumulo, elas acabam puxando as umas às outras. Ficam se enovelando.
Ontem à noite sonhei que havia encontrado uma amiga desconhecida que mora em Northumberland e no sonho fui indagado do significado de alguns números, o dois, o cinco, no que me saí bem, até encontrar o número dez. Ele foi o motivo do meu despertar. Não sabia dar a nenhuma resposta e envergonhado, acordei.
Acordei, dia de folga, sentei-me e comecei a ler uma história de outro zelador, e ele me contou que jogou durante muitos anos pôquer com cinco parceiros, e dentre eles o mais próximo faleceu em onze de setembro. Chamava-se Rumsey e tinha o hábito de ver os pés descobertos das mulheres enquanto andava, e sempre os via contando até o número dez. Encontrava repetidamente o mesmo resultado e disse que buscava o número onze, não queria o seis. Naquele momento pediria a moça do número onze em casamento.
Falando em onze.Parece que o barro que me construiu foi feito de pó enamorado. Um pó que serve para o ofício de zelador e de homem-bomba.O terrorista ao explodir deixa naqueles que sobrevivem pequenos pedaços de si no corpo dos outros, descobertos dias depois, quando aparecerem os primeiros calombos nos corpos. São os chamados estilhaços orgânicos.
Não foi a alternativa de emprego que me atraiu, foi a história desses estilhaços; o verdadeiro contador de histórias espalha seus estilhaços orgânicos nas mentes dos ouvintes, sem nenhuma violência, sem nenhum calombo ou rejeição. Pena que a minha profissão de zelador de um clube sem presenças, não me dará muito chance de espalhar grande coisa. Mas o acúmulo não é algo que se deve buscar incessantemente.

October 15th, 2007 at 7:35 pm
Acredito que faço parte do clube dos desconfiados também… isso dificulta a vida, mas acho que faz parte daqueles que possuem consciência. Não aquela que fica o tempo todo nos tentando, dizendo que temos que fazer parte do mundo e que temos que nos encaixar na sociedade. A consciência que tenho é a que nos faz agir impulsivamente, por incrível que pareça. E esse primeiro impulso é sempre cercado de desconfiança. Lembrei-me sobre o que você falou sobre egoísmo x equilíbrio. Escrevi rapidamente sobre o assunto. Acho que desconfiamos demais porque sabemos que alguém sempre vai querer pensar somente em si. E como não somos assim, automaticamente desconfiamos.