Ruud

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Saturday November 17, 2007

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Ruud nasceu destinado ao silêncio. Falava pouco, o indispensável, sabia que nada de útil pode ser ensinado. Seus pais fugiram da pobreza européia, do darwinismo social que imperava, chegaram separadamente; um da Holanda outro da Alemanha. Casaram-se aqui. A família de sua mãe voltou; a de seu pai se aclimatou, criou raízes.

Acreditava tremendamente na palavra. Sua diversão preferida era procurar palavras que se encaixavam completamente na definição pedida. Sem dúvidas, sem outros sentidos. Conhecia as mais estranhas palavras e as mais exóticas ações. Zorro para ele significava andar de gatinhas; aquele período que sucede o despertar pela manhã, misto de sonho e a realidade, se chama hipnopômpico. Tinha facilidades com línguas estrangeiras, aprendia a música  do idioma rapidamente, e falava várias línguas e dialetos.

Acreditava no trabalho por herança familiar e social. Tudo girava em torno do trabalho. De outro lado, ao sair para a rua, sentia muita dificuldade em compreender o lugar onde havia nascido. Tudo era mais solto, leve, não tão comprometido com a eficiência, com a rigidez. Cresceu e viveu nessa contradição entre a casa e a rua. Ambos eram antagônicos em princípios e comportamento.

Sua mãe era fervorosa devota de Lutero. Sentia saudades de algo que não sabia bem o que era, ao ver um filme, um documentário da sua terra. Matavam as saudades através da língua. Conversavam apenas em alemão em casa, traziam muito de perto a cultura e os hábitos da terra natal. Sua casa era um pequeno estado alemão. Tinham constituição, direitos, deveres, horários, escalas e tudo mais, um completo sistema legal paralelo.

Casou-se contra a vontade de todos com uma nativa. Brasileirinha da Silva. Filha de imigrantes árabes e colonizadores portugueses, uma reminiscência da invasão árabe na península. Logo após o casamento viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar numa empresa do seu pai.

Sua mulher era completamente despreparada para a casa. Emancipada, moderna ou pobre, trabalhava fora, preferiu aprender tudo com a família que adotou, para atender aos não ditos desejos do marido. Essa inexperiência foi lida, vista e entendida como ignorância.

Tiveram o primeiro fruto, filho parecido com o avô paterno, loiro, forte, olho azul; parecia que tudo caminhava para uma acomodação dos costumes quando a cidade e o casal enfrentaram uma epidemia silenciosa de poliomielite, a maior conhecida até então. Não saíram ilesos; o filho contraiu o vírus. Sobreviveu à febre intensa. Sobraram as seqüelas físicas, emocionais e conjugais.Fizeram de tudo que a emoção pedia e podia sugerir para voltar no tempo. Nada o vírus veio para ficar.

O filho cresceu, claudicou muitas vezes, olhava para o pai que, por sua vez, observava o carinho inestimável da mãe;  e ele parecia sempre insatisfeito, aliás, a palavra correta é preocupado.

Sobre os seus sentimentos falou algumas vezes, duas marcantes. Foi com o filho assistir a uma partida de futebol. Uma paixão de ambos. O filho caiu, numa tentativa de sentar-se na arquibancada. Todos correram para acudi-lo, e o pai disse severamente:

- Pode deixar, obrigado; ele caiu, ele levanta.

- Mas ele pode ter se machucado – retrucou alguém.

- Creio que não, ele precisa aprender a se defender sozinho.  A vida seguiu normalmente, o filho começou a trabalhar ao precisar do primeiro dinheiro; aprendeu a ganhar sua vida, ter uma vida regular, alegre, saudável e prosperou ao lado do pai. Quieto, sério, sempre fazendo suas palavras cruzadas.Passado o tempo, a família enfrentou uma segunda grande crise. Enfisema. O pai adquiriu, e mesmo assim jamais perdeu o hábito de fumar. Foi aconselhado pelo médico para deixar o vício. Respondeu:

- Prefiro viver meu tempo com alegria, seja ele quanto for; não quero passar anos que me foram reservados, tristes como os carneiros.

Após vários pneumotóraces, já exausto; numa das visitas do filho, disse:

- Não quero trabalhar mais, meu filho.

- Claro pai, considere-se desempregado e feliz.

O filho saiu feliz dessa conversa, pela intimidade com que foi tratado, com o fato de poder pela primeira vez, ajudar ao seu pai; que parecia ter recomeçado outra vida no hospital, assistindo às mais incríveis partidas pela TV, relembrando a várzea, adorava a gelatina que lhe era servida. Um homem forte, após tantos anos de trabalho, começou a gozar a vida como sempre vira acontecer nas ruas em que andava.

Algumas noites depois, no meio de uma, o filho recebeu um telefonema do hospital pedindo sua presença. Saiu rapidamente, talvez seu pai houvesse esquecido algo, talvez precisasse de algo mais, chegou rapidamente, encontrou sua mãe, sua irmã e foi informado de que ele não suportara a doença. Descansou. Sem minha ajuda 

2 Responses to “Ruud”

  1. Anny Says:

    Oi Djabal:
    Um pouco de sua história?
    Estou atenta…

    Abraço.

  2. Elfen Queen Says:

    pq sua resposta nunca chegou?

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