Mira, alvo ou instrumento?
Sexta feira passada Bernardo Soares explicou a vantagem da prosa sobre a poesia, ligou a palavra à sintática e à sintaxe. No mesmo dia, li as suas palavras que para mim diziam o mesmo. Respondi-lhe algo assim, e de acaso em acaso estamos aqui,agora.
A palavra como expressão do raciocínio serve de mira ou alvo. Com ela ora miramos algo, ora o atingimos, ora não. O uso do raciocínio é um tiro curto. Prático, rápido e para uso limitado. É um prazer o seu uso, o alvo é a vaidade que ela estimula na gente. A vaidade do reconhecimento da nossa razão. Razão que não serve para profundas indagações.
Já a palavra como expressão do sentimento serve de instrumento. Um de vários. Desvenda um outro Universo. Mostra a nossa sintática dentro daquela sintaxe do texto onde ela foi expressa. Tem um alcance maior, mais complexo. Apenas vai desvendando e ampliando seu significado com uma boa conversa. Um bom questionário esclarecedor. Gosto de pensar que ela é uma espécie de caminho para encontrar a beleza que nos foi reservada neste mundo. E é com ela que a mostramos ao nosso próximo.
Voltando ao Fernando, lembro que ele precisou de várias ‘personas’; precisou da prosa e da poesia para expor as belezas que encontrou; a sua forma de as exprimir foi através da sintaxe do verso e a sua sintática particular. Se trocar essa última por harmonia a compreensão ficará mais fácil.
Palavra é o nosso caminho para a harmonia entre a nossa vida e tudo que nos cerca. Jamais será a busca da verdade.
Soube de um amigo que encontrou um livro com uma propriedade singular. Cada vez que é aberto ele oferece um texto diferente do anterior. Com o seu manuseio constante ele perderá a sua propriedade e se tornará como os outros, com sentido único. Ele tratou de guardar seu exemplar. Com medo de ler aquela verdade destruidora, após o qual o mundo deixará de ser múltiplo e, portanto, de existir.
Somos uma espécie de sacerdotes delas e fazemos alguns sacrifícios em sua homenagem, sem datas fixas e horários certos. Cada um tem sua liturgia própria.
