O homem da multidão: o regresso

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Saturday December 1, 2007

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O deserto é uma experiência. Aparentemente nada de excepcional, a não ser o calor, a secura, e o spray de água que é vendido para dar alguma umidade para a pele; e as pedras que nos cercam, datadas de doze milhões de anos.

O mar é outra. Sempre tive uma relação amistosa com ele. Mas uma amizade distante, ele lá e eu aqui. O mais próximo que cheguei dele foi numa armadura de aço com trezentos metros de comprimento, dentro de uma biblioteca com estantes quase vazias, emoldurada por um quadro retratando Edvard Grieg.

Uma terceira, diferente, uma cordilheira com oito mil quilômetros de extensão, que na extremidade sul - Patagônia - forma com suas planícies desérticas e uma infinidade de lagos, um cenário espantosamente belo. Eu me lembrei de uma palavra para descrever a cor da água dos lagos: lápis-lázuli. O primeiro antepassado que viu esse mineral há sete mil anos, teria tido a mesma impressão.

Existem coisas em comum nas três descrições. A primeira delas é o vento. Uma poesia descreve o vento como: invencível, vasto e vão. Ficar sujeito a ele, ao seu poder de tirá-lo do lugar, trará inesperadamente o seu verdadeiro valor no universo.Conduzido pelos ventos e submergido nas águas, consegui compreender o meu processo de integração com a natureza. O abraço que lhe dá a água é morno, amigo e inconstante, porém, audível, sonoro. Com a mesma sonoridade do vento que o abraça, bate, puxa e afasta. É o mesmo som. Dessa maneira fiz uma perfeita transição entre o deserto incompreensível, e o distante mar; encontrei o meu caminho, numa planície desértica e num pequeno, frio e azul olho da natureza.

Em comum com todos os cenários foi a ausência de semelhantes. Essa ausência foi explicada por um amigo que escreveu ‘O homem da multidão’; lá é explicado que o coração do homem é livro muito espesso e que não pode ser lido. Dada essa impossibilidade busquei outro para ler. Encontrei-o. Porém, adianto-lhes que a natureza também é um livro imenso, que distraídos, esquecemos de ler. Comecei as primeiras páginas para saber o tamanho, estou compreendendo-o pouco e pouco e sentindo certo tom de ironia. 

One Response to “O homem da multidão: o regresso”

  1. Anny Says:

    Leave a replay…
    Muito bem. Agora posso dizer com certeza de não errar. Seu melhor texto. E agora não vai mais parar. Só aprendemos fazendo. Impressionante. Estou orgulhosa de estar aqui fazendo este comentário. E vc sabe, não sei mentir…
    Bjos

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