Ônibus
Acordou sentado num ônibus. Olhando de lado encontrou alguns semelhantes, outros à frente, muitos atrás. Não sabia para onde estava indo, parecia que a ansiedade de movimento tomava o pensamento de todos os presentes, a possibilidade de parar é aterrorizante. Em cada grupo de pessoas uma sempre predominava, tomando dos demais as palavras e os gestos, semelhava-se ao rival vencedor. Rei da mímica. Ficou assim estipulado, tínhamos várias federações que possuíam em comum o nada.
Levantou-se para percorrer, constatar, entender.
Encontrou o motorista atarefado em manter o volante e para isso precisava conversar com os que estavam próximos. Pedia que se mantivessem todos em paz, engendrava histórias para tal.
Também percebeu alguns passageiros hábeis em acumular seus objetos; outros que os trocavam, vendiam, compravam, mantinham-se muito ocupados. Tudo num espaço exíguo, finito e num equilíbrio instável. Talvez fosse algo necessário para escapar da inutilidade e do sem sentido da viagem.
Alguns outros sem muita habilidade para as coisas do comércio, fugiam dessa realidade com qualquer coisa que os mostrasse dignos de admiração, valor e de ação. A grande maioria não conseguia compreender os porquês. Imitava loucamente e não conseguia obter nada. Sentiram que não era apenas questão de imitação. Passaram a cobrar. Nascemos sem pedir; foi o máximo argumento que ouviu.
Alguns desocupados liam. Tentavam explicar, contar histórias, fazer parábolas e paralelos. Eram desconsoladamente ouvidos. Ganhavam alguns trocados e reduziam-se os ouvidos disponíveis, por falta de sentido prático.
Ouviu-se um disparo. Forte. Ensurdecedor. Espalhou-se uma névoa de pólvora. O motorista enviou um lugar tenente para tranqüilizar o ambiente de qualquer forma. A única foi liquidar o autor.
Todos ficaram em silêncio por alguns minutos, logo após, a conversa voltou pouco a pouco nos diversos aglomerados. A revolta foi abafada e não liquidada. Todos queriam tudo.
Pararam para comer. Todos desceram, houve uma única exceção. Depois de algum tempo gasto na digestão, o movimento recomeçou. A morte do líder foi o estopim de outra névoa - agora - de insatisfação. O clima se acirrou, o medo se alastrou. Tudo parecia se encaminhar para o rancor coletivo.
Para a exceção - o desperto - só restou uma alternativa: O exílio. Quem sabe poderia encontrar um lugar onde se abrigar do sol e da chuva e viver sem intenções, desejos e idéias? O seu cabelo cresceu foi abandonado suavemente por tudo, e o resultado disso foi – até agora – uma volta para uma forma original, despojada de tudo que lhe foi pespegado.
Ainda tem vontade de achar a direção do ônibus para contar. Foi a única posse remanescente; essa dia a dia vai também desaparecendo.
Desculpe-me.

December 6th, 2007 at 11:11 pm
Parar para observar as relações quando se está fora delas é desesperador. Tudo muito superficial. Ou assustador.
No fundo somos todos solitários. A diferença é que a maior parte do tempo estamos envolvidos em algo que de sentido a viagem.
beijos
December 7th, 2007 at 11:32 am
A solidão humana é mesmo assustadora às vezes. São metáforas e voltas, mas a verdade é e deve ser esta mesmo: um ônibus que parte, uma viagem interrompida depois de grande angústia existencial.
Há muito não lia algo tão verdadeiramente solitário. Localizar o homem no nada é difícil mas necessário.
Parabéns, baby.
Beijos.