João-Ninguém

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday December 28, 2007

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“Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas em sua imagem existe alguma coisa que se coaduna com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em diferentes latitudes e idades.“ Jorge Luis Borges, in O livro dos seres imaginários. 

Por que colocou no seu blog ser um João Ninguém? Credo! Fica parecendo que nem você mesmo acredita na sua existência. … Quando vi a primeira vez, levei um susto. Depois, estranheza… 

Ainda não sei exatamente como responder sua pergunta. Propositalmente não quero revisitar o texto em que isso está declarado.  Creio que a declaração feita, poderia ser remetida aos autores alemães do início da última centúria de tempo, adeptos da inclusão de todos nós numa única unidade, onde todos teriam que ser fraternos, iguais e livres.

Esse sonho foi, pouco a pouco, sendo materializado. Hoje nós temos a mostra mais acabada da nossa perfeição, harmonia e liberdade. Tudo aquilo que estava nos livros, tocado pelo humano, se tornou real. Nós tivemos os nossos Quixotes, quantos não sei, mas deles e da sua luta, restaram farrapos que conseguimos ver, letras que conseguimos ler e, realidades que conseguimos sentir.

E o sentido do joão-ninguém também se transformou, passando daquele ser integrante do formigueiro racional, ao fluido como a brisa. Tanto um como outro são absolutamente irreais. São formas pertencentes ao universo cujo sentido não sabemos.

Portanto, para responder a uma parte da sua questão, posso dizer que eu mesmo não acredito na minha existência, como algo que tenha um objetivo, ou sentido, escolhido por mim.

Passei por vários caminhos, sempre tentando permanecer, nunca isso me foi permitido. Algo maior que a minha vontade, fazia-me movimentar, quer física, quer espiritualmente. É verdade, estou apenas passando por uma fase temporária, onde me preocupei em deixar uma descendência, para que ela siga a minha busca. 

Que ela encontre a resposta daquilo tudo que não consegui. Não pretendo ensiná-la. Nem posso. Pretendo apenas dar o meu exemplo de leitor assíduo, do conquistador do Nada.

A matéria foi gradualmente mostrando o seu valor. Um valor que diminuía com o tempo, parece que inversamente proporcional à importância que todos os físicos e metafísicos lhe emprestam.

Um sábio chinês não conseguiu descobrir ao sonhar com uma borboleta, quem era ele; o homem que estava sonhando ou a borboleta que sonhou ser um homem dormindo. Esse é o ponto mais alto da fuga do real que consegui admirar.  Jamais consegui atingir.

Quem sabe conseguirei?Você poderá perceber que sou otimista. Quis deixar um legado que não fosse o da minha miséria. 

5 Responses to “João-Ninguém”

  1. Aline Says:

    Sim. E aqui encontro Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. O seu texto: que merecedor de tantas releituras!!! Hoje nós temos a mostra mais acabada da nossa perfeição, harmonia e liberdade. Tudo aquilo que estava nos livros, tocado pelo humano, se tornou real. Nós tivemos os nossos Quixotes, quantos não sei, mas deles e da sua luta, restaram farrapos que conseguimos ver, letras que conseguimos ler e, realidades que conseguimos sentir. E andamos fatigantes… queixosos… ou simplesmente crédulos e incrédulos quanto a nossa existência… um abraço,

  2. Anny Says:

    Oi Djabal:
    Fiz um indicação sua no blog de Dai. Vc viu?
    Obs.: Não vou comentar o texto…

  3. Cristina Sampaio Says:

    Texto complexo… após ler vem um silêncio, uma parada pra sentir, as palavras não surgem, parece que não há o que comentar, falar qualquer coisa seria um sacrilégio, macularia essa tensão que cala… Um texto do tipo para olhar no olho depois de senti-lo, dizer o que precisa ser dito apenas com o olhar. Mas como isso não é possível, não tenho seus olhos nos meus, então tentarei escrever, confirmar que somos mesmo uns ignorantes… Ignoramos muitas coisas sobre a vida e o ser humano, e muitas vezes nos achamos sábios, apesar da nossa imensa ignorância. Às vezes escolhemos, outras somos escolhidos, levados por uma brisa, que nos permite sentir os pés firmes no chão, ou por um vento forte, que não possibilita nenhuma permanência. João-Ninguém é mais um João tentando encontrar seu caminho, ocupar seu lugar no mundo, fincar raízes e poder afirmar a própria existência, a sua identidade única, que o nome por si só não pode afirmar; é a luta pela vida, pela dignidade em um trabalho, pelo amor de alguém, coisas que possam diferenciar um João do outro, pra que seja reconhecido entre tantos na mesma caminhada, onde todos teriam que ser fraternos, iguais e livres, mas não são, ainda tentam jogar alguns homens pra fora da estrada… Seu texto é um bom legado da sua riqueza interior, me disse um bocado de coisas…

  4. Elfen Queen Says:

    “Quis deixar um legado que não fosse o da minha miséria”
    disse tudo!

  5. _Maga Says:

    Lindo, texto, Djabal!

    O sentido da vida, o sentido das coisas. Sou uma Maria-ninguém, tentando me achar no mundo. Talvez assumir que não há achado, mas sim um fazer-se estar no mundo, é muito mais sábio.

    beijos

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