Miranda

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday January 28, 2008

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Caminhou até encontrar um banco. Estava muito frio, um lugar inóspito, alto, nevado. Estava com dor de cabeça. Ficou defronte uma cadeia de picos uniformes, obra de mão desconhecida. Meditava naquele silêncio propício. Até ouvir uns passos, botas que esmagavam os cascalhos ou faziam ruídos como se. Avistou um vulto muito vestido, e no qual se destacava uma faixa escura no rosto, na altura dos olhos.

O vulto se aproximou até invadir seu espaço aéreo e pedir-lhe licença para sentar. Tratava-se de uma mulher, da sua terra, voltando de uma excursão à Cordilheira Blanca no Peru.

Interrompeu seu nada, tão logo observou o movimento de quem tira os óculos. Procurou pelos olhos dela. Sem aquele aparato, que lhe dava um ar agressivo e selvagem, viu um par de meigas castanhas arredondadas e indefesas.

Conversaram amenidades e tudo se tornou ameno, morno, calmo e sossegado. Miranda gostava de praticar alpinismo, e tinha freqüentado desde o Himalaia, passando pelos Alpes, Montanhas Rochosas, México e finalmente, Callejón de Huaylas.

Ambos trabalhavam na mesma grande cidade. Integrados no sistema dominante, naquele misto de capitalismo selvagem com assistencialismo jeca, cujo resultado poderia ser descrito como um iogurte social.

Agora ambos estavam nos Andes da Patagônia. Uma espécie de parada de descanso. Depois daquele primeiro encontro, marcaram sem perceber mais dois no mesmo lugar. E continuaram a conversar. No segundo se conversou sobre as tendências do mundo, sobre a finalidade da vida, do percurso do homem e mais particularmente, do percurso deles mesmos. Miranda formou-se e especializou-se em sociologia. Trabalhava chefiando o departamento de marketing de grandes companhias. Tinha essa facilidade de trabalhar com monturos. Disse que toda má idéia acaba se transformando em sucesso de publicidade. Havia acabado de sair da última. Estava sem emprego.

João se apresentou formalmente, com dupla graduação em administração de empresas e direito. Era vendedor de automóveis. Seminovos. Hoje nada pode ser usado ou velho.No terceiro fizeram apenas confissões. Ela começou: recentemente terminara com seu caso com um suíço.  Namoro rápido, como todos os demais. Ela poderia ser uma versão feminina de Giácomo Casanova, solitariamente acompanhada sempre. Resgatava o homem de sua solidão, dando-lhe cor e companhia. Ela, contudo, continuava vazia como um bambu.

Ele percebeu que seus olhos estavam brilhando mais do que. A conversa parava no momento em que uma lágrima insistia em aparecer.

Algo se arranjou lá por dentro deles; e ela continuou:

- Eu fui seqüestrada quando criança, com nove anos. Meu pai trabalhava como gerente de banco e minha mãe, como professora. Sempre insistiram para que eu jamais conversasse com estranhos. Insistiram muito nesse ponto. E ficaram tranqüilos. Um dia fui fazer compras na esquina de casa. Um pão. E ao sair dali encontrei um moço que me perguntou do pai, perguntou da tia e da mãe. Disse mais. Que possuía uma escola de dança e que poderia fazer um teste comigo, caso eu quisesse. Esse era o meu sonho, tudo que desejava ouvir. Entrei no carro. Passamos primeiro num grande mercado, na garagem dele. Observei que porta do carona estava trancada. Senti um temor inquieto. Ele passou as mãos na minha perna, dizendo que eram bonitas e seriam perfeitas para uma apresentação. O antigo temor se tornou um terror alucinante e desandei a gritar. Apareceu alguém, alertado pelos meus gritos para saber o que estava acontecendo, e me salvou; o seqüestrador foi obrigado a abrir a porta. Saí correndo pra minha casa, e só consegui falar alguma coisa, depois de três dias. Desde aquele carro até a minha cama o medo me dominou, completo e inteiro;  mostrava-se na minha incontinência. Passei a ter nele um parceiro constante por toda minha vida. Depois de narrar o acontecido, meu pai pediu-me que voltasse à rua, com o mesmo traje, para pegar o infeliz. Assim fiz, tendo no rabo do olho, a imagem dele, com uma arma no bolso. Não sei bem se fui protegida, ou lançada novamente naquela jaula.

João e Miranda se abraçaram e trocaram um abraço e soluços convulsivos.Ele não conseguiu fazer ou falar mais nada. Tudo perdera a importância e o significado. 

3 Responses to “Miranda”

  1. Cristina Sampaio Says:

    Muito sensível essa narrativa. Com algumas amenidades tudo se torna calmo. Algumas pessoas conseguem essa façanha, descrita em seu conto, de nos curar as marcas de feridas antigas. Gostei demais da leitura. Beijos

  2. DaniCast Says:

    Ô louco, essa moça podia ter morrido. Esse tipo de psicopata geralmente se livra da vítima, para não ser pego.

  3. ful Says:

    hey thats one of my drawing! :)

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