Monte Deus

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday February 6, 2008

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Daniel Foe cumpriu sua missão. Saiu da casa dos seus pais e veio para o Brasil. Numa vila de pescadores, Monte Deus, onde não havia nada. Só céu, sol, mar, peixe, pinga e alguns casebres; muita falta. Falta de tudo, desde escola até água potável.

Moço, alto, loiro, forte, dezessete anos, com um rosto parecido com aqueles talhados em Rushmore; falando todo o inglês e nenhum português. Não conseguia sequer ser chamado pelo nome. O confundiam com religiosos mórmons, pela camisa de manga curta e a gravata. O traje de estilo era obrigatório, coisa de americano.

Afundou-se pelo interior, levou corrida de lavradores em Campos dos Goytacazes. Escondeu-se em Igrejas, andou pelo mato, ajudou a vacinar, medicar e enterrar. Pescou, armazenou, vendeu e negociou. Fundou uma cooperativa. Encontrou sua mulher, numa filha de pai português e mãe puri, chamada Jacira.

Casaram-se.

Voltaram à América.

Jacira aprendeu a falar inglês com seu sogro, médico que atendia aos necessitados sem cobrar consulta. E se orgulha de falar sem sotaque. Daniel fez universidade, aprendeu a administrar empresas. Algo havia nele que não o descansava nas terras americanas. Era a caninha brasileira, não havia igual, em nenhum lugar.

Depois de trabalhar em muitas empresas, enriquecer,  de fazer poucas amizades e muitos contatos, voltou para seu lugar de origem: Espírito Santo.

Comprou um belo terreno, construiu sua casa. Casa de pedra no alto de um morro, cercada de jardins, bananeiras, cães de guarda, pastos e gado; e de onde em dias claros se podia vislumbrar Angola, exagerava ele.

Chamou seu amigo brasileiro – Kofi – para passar o carnaval e tratar de alguns negócios também. A cidade que normalmente possuía quinze mil habitantes, somava ao redor de duzentos mil turistas. Contou que havia um descendente de orientais que passeava todos os dias numa das praias e de tarde escrevia. Escrevia um livro de bolso, por semana, e era vendido em bancas de jornais pelo país todo.

Presenciaram um senhor de paletó, gravata e chapéu, parado diante do mar, olhando, olhando com um olhar perdido e admirado.

A música de carnaval também seria ouvida na costa da África, e o tempo não precisava estar limpo.

Sentados à beira de sua piscina e sob duas bandeiras, a brasileira e a americana, conversavam sobre a sua terra.

- Aqui, dizia ele, é uma cidade peculiar, nela existe um exemplar de cada. Nada nos assusta. Todos têm um representante aqui. Quer um homem com onze dedos nas mãos, nós temos? Quer alguém com o pé virado pra trás, também? Você pode escolher, e eu encontrarei.

- De fato, respondeu o amigo, quando fui fazer a sua escritura no cartório, o escrevente lavrou o documento no computador e o passou para o livro através do estêncil.

- Mas o lugar é maraviloso. Você está vendo todas aquelas ilhas? Eu vou a nado, a cada uma delas, sou muito bem recebido; como e bebo, volto à noitinha, trêbado e vou dormir. Adoro calor. Adoro o Brasil. Quero que você me ajude a comprar mais um lote de terras logo ali adiante. Quero fazer um espécie de loteamento com vista para o mar. E tomar conta de um bar exclusivo que ficará eternamente de frente para uma praia selvagem, o que você acha?

-Não creio que você consiga sucesso nas vendas. Estamos longe da Capital, as estradas são precárias, o turismo é eventual e de baixa renda.

- Você sabia – retrucou – que o Espírito Santo é o maior exportador de frutas do país? A indústria moveleira é a principal fornecedora para os países Nórdicos?  Nem vou falar do granito, hein.

- Não, não tinha a menor idéia. Ainda assim, não consigo ver mercado para lotes residenciais.

- Quer saber? Proibi meu filho Matt de se casar com americana. O mais novo não sai do meu lado, e já está namorando uma menina daqui.

- Bem, não sei em que isso pode ter relação com o os lotes.

 - Acontece que já vendi desde calcinha, até aviões. Morei em muitos países, e sei que esse é o meu lugar.

Pegou seu carro, uma Veraneio totalmente reformada, e saiu com o amigo, feito um rojão meio descontrolado pela estrada de terra e foi mostrar o pedaço onde faria o seu empreendimento. O lugar era cercado por um grande portão de madeira com duas folhas entreabertas. Ele confiou no seu golpe de vista e foi: raspou a lateral esquerda inteira e sorrindo, encabulado e determinado.

- Não problemo.

Desceram e puderam ver um cenário agreste, intocado, cercado por palmeiras e uma faixa de areia que segurava o mar que rugia. Bateu uma chuva de verão e descobriram que o automóvel não conseguia subir. Pediu ajuda de caiçara, pegaram numa pá, e construíram o seu caminho de volta,  completamente molhados. 

4 Responses to “Monte Deus”

  1. DaniCast Says:

    Gostei. E essa é a vida que eu queria para mim. Foi exatamente isso que eu senti quando passei um mês em Salvador. Não à toa, ele se chama Daniel.

  2. Cristina Sampaio Says:

    Maravilha de história. Bar exclusivo eternamente de frente para uma praia selvagem é o máximo, muito bom esse amor que o Brasil despertou: terra agreste, intocada, acalorada… Belo cenário, fascinante! Envolvente o conto. Beijão

  3. Anny Says:

    Uma história. Não sei contar histórias. Muito menos inventar. o máximo que sei fazer são colagens. Pedaços de vida aqui e um vazio lá. Formam aquarelas abstratas. Nem sempre podem ser devidamente apreciadas. Então gosto de ler histórias…

  4. Dai Says:

    Como sempre, vc é genial e infinitamente criativo. É mais que um conto, mais que estória… Isto dá um belo dum filme!

    Amei. Senti-me tão brasileira. E ES é tudo de bom mesm ;)

    Beijo, grande escritor.

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