Piada

Desde os tempos imemoriais nós temos a necessidade de viver outros ‘eus’. Vivemos intensamente a vida do outro, nos colocamos em seu lugar, sofremos com ele e por ele. Tentando aliviar a nossa dor, intensa e solitária, tornando-nos solidários. O fazemos deliberada ou intuitivamente.A tragédia grega e seu teatro, parece, tinham essa função. Estimular nossos sentimentos adormecidos ou irrefletidos. Aprendermos a sentir com e como o semelhante.
Mais tarde, o drama passou a ser exibido numa tela, no escuro, em muitos mais poderíamos desfrutar daquela história, em muitos lugares, e com muito mais apuro técnico. Hoje em dia o cinema nos faz voar em todos os sentidos da palavra.
Nossa era digital apressou tudo. Ganhamos em tempo, e em lugar. O drama, agora, passa na televisão, a rigor e como possibilidade, no mundo inteiro, e para que todos possam desfrutar, ao mesmo tempo. Todos vivemos o mesmo drama.Entretanto, perdemos pouco a pouco a noção do coletivo que o convívio nos dá. Ele também fazia parte da catarse, algo se transmitia de um para o outro no teatro, e no escurinho do cinema; hoje essa solidariedade é solitária, beirando um animal em extinção, sem o Ibama para podermos colocar a culpa.
Só conseguimos reavivar aquele sentimento fraterno que o drama nos causou, em rápidas ocasiões; pois como modernos adoramos a brevidade. E a conversa acabou. Assim como a pose de alguém na janela que dá para rua; lembrou Nelson Rodrigues.
A nossa conversa é digital, fruto do nosso pensamento. Perdemos aquele irrefletido gostoso da piada do momento, onde talvez se perca o amigo, mas não se perde a oportunidade.
Eu ainda a pratico, sempre que posso, sento com meus amigos e converso. Irrefletidamente. Refletidamente. Desde a textura da toalha, quando existe, até o sabor do pão daquela comunhão. Se ele é fresco, ou se é só o jeitão dele mesmo. O único assunto proibido é o cinema do Spielberg. É o receio do nosso vizinho, dele descobrir que somos descendentes do T-Rex.
February 13th, 2008 at 7:27 pm
tirando o penúltimo parágrafo, eu concordo.
February 17th, 2008 at 10:11 am
Ter receio dos vizinhos é bem ruim. Não poder ser de determinados modos por causa dos outros às vezes me parece algo cruel. E não falo das regras de boa convivência, que são necessárias, mas de modelos exclusivistas de comportamentos que o vizinho nos quer impor apenas para exercer um controle, não por ter uma boa noção do coletivo e desejar um melhor convívio. A brevidade dos contatos não possui força e nem proporciona motivos para a solidariedade. Interessante a expressão “o sabor do pão daquela comunhão”. Bjs