Pombinha

Decorridos quarenta dias do seu primeiro dia de trabalho recebeu o salário do mês. Quatro notas novinhas tiradas do bolso do patrão, depois de uma pergunta encabulada. Todo o seu empenho coube num bolso de uma calça. Pela primeira vez conseguiu compreender o significado da expressão: falta mês no fim do salário.
Esse conto começou num pedido de alguns contos para o seu pai. Ele ouviu o pedido num misto de surpreso e alegre. Dando toda a impressão que o atenderia. Convidou o filho para tomar café da manhã, no dia seguinte, antes que ele saísse para o trabalho. O rapaz antes de dormir lembrava-se de ter esfregado as mãos de contentamento. Estava cansado de fazer escambo. Trocava os seus brinquedos por livros de bolso no jornaleiro da esquina. Desenvolveu, por cobiça à leitura, seu senso comercial. Trocou uma pista de carros de corrida pela coleção completa de uma espiã nua que abalou Paris. Seu melhor negócio. O brinquedo foi entregue sem a embalagem que serviu como sua primeira estante e esconderijo. Histórias escritas por David Nasser disfarçado sob um pseudônimo. Dali pulou para a cama de Pombinha, personagem de Aluísio Azevedo. A sua iniciação se deu na literatura. Uma grande fuga, provocada pela proibição paterna, por ser literatura adulta. Proibir foi o primeiro degrau, os demais a qualidade do texto e contexto ajudaram a subir.
Tomou o café, comeu sua torrada, café com leite. Nada. O pai não deu um pio a respeito do assunto material e principal. Terminado, ofereceu uma carona ao filho e o levou a um escritório próximo e o apresentou para o seu patrão.
“Decorridos trinta dias você receberá o seu salário e o gastará da melhor maneira possível. Você é uma pessoa de sorte, nem todos conseguem emprego assim tão fácil.”
Com seu salário no bolso, convidou o velho para tomar uma cerveja. Foram a uma choperia alemã muito famosa, e que sabia ser do gosto dele. O velho era um grande conhecedor de cerveja. Ficaram bebendo uma boa parte da noite, contando as novidades. Aliás, o filho só bebeu água mineral. Abstinente. O pai de temperamento austero e de pouco falar, assim permaneceu durante todo tempo. Apenas abanando a cabeça, parecia compartilhar do entusiasmo do filho.
February 15th, 2008 at 4:41 pm
Ah, lembrança de minhas leituras escondida embaixo da cama, lendo Giselle, a espiã nua que abalou Paris…
Que coincidência!
Bjs
February 15th, 2008 at 5:59 pm
experimentarei.
February 17th, 2008 at 10:27 am
Muito bom esse conto. Nos tornamos frios em relação a algumas situações, elas não nos chocam mais, nem atentamos para elas. E quem em nosso mundo pensaria em trocar um carro por livros? Só um “alienado” apaixonado por leituras, que não tenha sido feito para a vida material e mercadológica, que sempre deixa a impressão de que fizemos um “mau negócio”, de que ficamos devendo algo à existência. Abraço!
February 20th, 2008 at 6:32 pm
Impressionou-me a tranqüilidade, tanto do pai quanto do filho. Ambos em seus mundos separados. Mas o mundo do rapaz é fascinante. Eu também li coisas proibidas e me encantei. Lembro d’O último tango em Paris, eu era tão pequena… e nesta época nada poderia valer mais que ler e ler… de preferência os proibidos, he-he…
Muito bom o conto. Aliás, seus contos têm um perfil único.
Parabéns, amigo.
Beijos a todos!