Adaptada

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday February 22, 2008

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Faz muito frio. Inverno. Margem do Mediterrâneo ou Mare Nostrum ou Orbis Tertius. Ainda assim algo insondável me chamou para o mar. Tive tempo para colocar algo sobre o corpo e desci.

Havia acabado de ler “Paris não tem fim”. As suas frases, reflexões, aquele despedaçar do homem refletido no escritor e sua obra, não saiam da minha cabeça. Encontrar um motivo que não fosse aleatório para explicar o ofício de escritor restou como um espectro.

Jamais poderia ser um deles. Estava do outro lado da cerca das descrições. Não convivi com pessoas que escreviam, liam ou se interessavam de qualquer daquelas formas de cultura. Tudo girava em torno da praticidade das coisas. “Para quê serve isso, menina?” “O quê você vai ganhar com isso?” “Você fica perdendo tempo com coisas sem uso, depois se arrependerá. Vai ver só”.

Não consegui viajar. Não me interessei por isso. Qual a graça? Ninguém consegue escrever sem viajar disse um húngaro antiquado e romântico e amigo. Nossa amizade se coloriu de um sexo que apesar de violento e interesseiro abriu-me outras portas, enquanto eu abria minhas pernas. Aprendi que a generosidade sem interesse não existe. E viajei com ele, sem sair do lugar.

Outro paradigma na vida dos escritores: uma negra miséria material, uma vida de necessidades não atendidas. Trabalhar por um maço de cigarros, viver num sótão e fazer do almoço a sua janta. Da sua janta o café da manhã e o almoço dos dias seguintes. Escrever um artigo com um toco de lápis para conseguir uns trocados em Cristiânia, depois de três dias sem por nada na boca e vê-lo recusado por inadptado ao tema. Vender jornais num dia, ser despachante no outro, colher uvas, carregar caixas, trabalhar como garçonete, prostituir-se na Conchinchina para ajudar a mãe e ver a sua ajuda ir parar no bolso do irmão drogado.

Desde cedo trabalhei como vendedora, num único lugar; ganhei o suficiente para viver. Sempre teve o suficiente para o que necessitasse. Nunca precisei de muita coisa. Agora, namorando Xip, pensei em fazer o meu terceiro casamento.  Eu pensava se devia conhecer sua família. Já conhecia famílias suficientemente para sabê-las iguais. Talvez aquela, tivesse outro tipo de infelicidade. Mas, no mais, iguais. Monotonamente iguais.

Entrei em meus casamentos como quem vai a uma festa. Aliás, ele geralmente começa com uma. Percebi que essa instituição esqueceu-se de prever que as pessoas continuam em movimento; e ela só é para paralíticos. Queria passar toda minha vida descobrindo, aos poucos, o meu parceiro. Mas, decorridos alguns meses já havia visto tudo. Perdia o interesse. O que fazer com o sólido papel que unia nossos tênues sentidos?  Caía fora. O primeiro com uma tremenda discussão, o segundo com um tépido suspiro como já disse o poeta ao descrever o fim do mundo.

Xip?

Gostaria muito de continuar sim, com ele. Viajei pela primeira vez por vinte dias seguidos. Nada para fazer além de ver paisagens. Ler. Amar. Estávamos passando com metódica paz o período de encantamento.

Sabia não ser escritora; não conseguia acreditar que teria nele material para continuar apaixonada ao longo dos tempos; não conseguia explicar nada que me rodeava, vivia num quieto desespero sem nenhuma válvula de escape, sempre me senti ultrajada, usada e abusada em um determinado ponto das minhas relações e das minhas situações.

E foi com esses pensamentos em minha cabeça, que me abaixei e toquei a água fria daquele mar, mar de onde partiu meus ancestrais e que me chamou como se eu fosse uma espécie de sacerdotisa.

Aquele meu toque me fez entrar dentro dele, com toda a minha disposição, desconhecida até aquele momento. Sofri um aperto de frio no corpo todo. Abraço. Aquele frio pulsou na minha mente e acelerou o batimento do meu coração. Entrei até sentir que não tinha mais pé. Mexi-me para conseguir algum calor e voltei. Não agüentava mais.

Saí e o encontrei, me esperando com uma toalha. Cobriu-me toda, esfregou-me, queria saber se precisávamos ir ao pronto socorro. Preocupado comigo, coitado.

“Por que fez isso?”

“Descobri que existem dois tipos de pessoas: as adaptadas e as inadaptadas. Faço parte dessas últimas”.

Olhamo-nos com dois olhares; um de ternura e outro de perplexidade. A lua ainda aparecia no pálido céu azul e distante sem nuvens. E foi dela que recebi o sinal para comprar meu bilhete de volta.

 

8 Responses to “Adaptada”

  1. DaniCast Says:

    Vários escritores homens já tentaram escrever através de uma voz feminina. Só conheço uns dois que foram bem sucedidos - e ambos são gays.
    O texto ficou muito interessante, mas não é uma mulher falando, tem várias expressões que as mulheres não usam quando se referem a si mesmas, especialmente quando o assunto é sexo ou o homem com quem elas estão. É um texto masculino.

  2. Fabrício Says:

    Preciso me concentrar.

  3. Cristina Sampaio Says:

    Os rótulos ainda são muito fortes em nosso mundo (será que algum dia deixarão de ser?). Ao pensar nisso me pergunto se as mulheres são todas iguais, se desejam isso. A personagem não representa uma mulher adaptada, igual a todas as outras, que diz apenas o que cabe a uma mulher dizer, com uma voz pré-determinada. A fala mais agressiva sobre sexo se refere a um homem que a fez aprender que a generosidade sem interesse não existe, então está totalmente adequada; já quando se refere a um possível amor, capaz de trazê-la de volta à vida, com um olhar terno ou perplexo, mesmo que com a ajuda da lua, a fala é sensual, referente também ao mar, ao abraço da morte, que a atrai como um amante; adequadíssima essa fala. E as reflexões sobre o ofício do escritor também estão muito adequadas, assim como as sobre o desencontro entre casais “paralíticos”, engessados numa relação sem movimento, sem possibilidade alguma de descobertas. Gostei muito! Beijo

  4. Anny Says:

    Na minha opinião, mulher não fala assim de si mesma. Mas… este texto parece da Daisy.
    E ai?

  5. Elfen Queen Says:

    eu falo assim de mim constantemente. Já fugi desses rótulos faz tempo. Ainda bem que descobri tal liberdade na casa dos 20.

  6. Dai Says:

    He-he-he!… Ah, Anny…
    É claro que é uma personagem feminina. Ousada e terna, mas sabedora de sua posição que não é acima tampouco abaixo de nada ou ninguém.
    Esta é uma rica personagem que nota-se vida e pulsação entre as pernas e na cabeça pensante. Uma mulher atual em conflito com o ato de escrever e casar sempre, mas sempre sabedora da paralisia do casamento. Perfeito!
    Eu AMEI, mas não parece um texto meu não, gente. Embora tenha ficado orgulhosa, seria muita pretensão de minha parte.
    Djabal, querido. Parabéns! Belíssimo conto. Amei a narrativa e a personagem muito fêmea e feminina.

    Beijos, queridos amigos.

  7. Dai Says:

    Porém devo acrescentar sinceramente que respeito as opiniões contrárias como a da nossa amiga DaniCast ;)

  8. Dai Says:

    Ai, desculpa o aluguel do espaço, mas esqueci de comentar que a foto é linda e perfeita. Fala por si só.

    Bjs!

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