Iólipo
Finis. Fim. Lipo. Iólipo. Deitado e descarnado. A pele olivácea coloriu-se do tom do pó. Foi conhecido durante a sua vida por Lipo. Jazia ali como um dejeto de rio, aqueles que ficam na curva do caminho, sem seu fim natural: a foz e o mar. O ambiente que deveria aparentar tristeza, aparentava indiferença. Os poucos parentes sentados de costas para as paredes recebiam os seus poucos amigos.
Não que o Lipo não tivesse amigos, os tinha e em grande número, mas todos eles, sem exceção, não se conectavam com a sua família. Ele durante sua vida viveu em diferentes conjuntos sendo o único ponto de contato entre eles.
Filho caçula de uma viúva de vinte e sete anos, com mais quatro irmãos. Fruto de um casamento proibido entre um dentista comunista - morto na prisão por subversivo - e uma mocinha sonhadora de pai imigrante e sírio.
Recebeu da mãe todo o carinho destinado a si e aos outros. Todos tiveram que trabalhar desde cedo para prover o seu próprio sustento, sem tempo para cafuné; menos ele; não tinha idade.Todos o tachavam: mimado.
Os irmãos seguiam suas carreiras: o mais velho de jornaleiro se tornou funcionário público, a irmã casou-se logo e se excluiu do rol das despesas, o outro se tornou, na falta de tempo, dinheiro e disposição para estudar, político da situação, daquela situação subserviente, dos cretinos fundamentais, dos ‘sim senhor’.
Ele cresceu e viveu à margem; uma terceira margem. Não conseguia compreender aquela hostilidade, aquela avareza, aquele rancor que se distribuía ao seu redor. Aprendeu a conhecer Noel Rosa, sabia quase todo o seu repertório de cor, inclusive ‘Sai da tua alcova’. Passava horas ouvindo suas músicas, aprendeu a beber.
Com a bebida ele se tornava mais leve, as pessoas perdiam aquela dureza, os sorrisos afloravam mais facilmente, via grandes momentos de ternura e amor, o medo saía dali e o fundo triste daquelas almas aparecia, boiava. Um ou outro ficava valente e era deixado de lado. Não aborreciam ninguém, eram tratados como professores e deixados de lado.
O político lhe arranjou um emprego estável, onde não precisava trabalhar, não ganhava quase nada, mas deixou para sempre afastado o rótulo de vagabundo. A mãe arranjou um casamento com uma moça que praticava ‘johrei’; o pai chamado Von Zurück havia sido um grande grileiro de terras e mãe, dona-de-casa, cuidava de ambos. Marido e genro. Nada poderia ser mais diferente dele do que essa família. Em comum tinham apenas o gosto pela caninha e pelo filme ‘O Crepúsculo dos Deuses’, que assistiam diariamente. Mas essa congruência era com o sogro, não com a menina. Passaram juntos infindáveis seis meses. Aumentou a bebida até encontrar o nível insuportável para todos. O sogro foi o primeiro que caiu em coma alcoólica, finalmente, quando ele caiu, a noiva também caiu…fora.
Mudou-se para o centro da cidade. Vivia com motoristas de praça, biscateiros de uma forma geral, companheiro de bebida nos bilhares, lia João Antonio às vezes.
Encontrou muito amor, carinho, compreensão e isolamento. Ficou doente, muito doente, com úlcera. Teve tempo de dizer para o sobrinho empedernido:
- Ta vendo? Nada de cirrose. Isso é que é saúde. Não te falei?
Morreu sem receber alta.
De repente dentro do silêncio um murmúrio, um clamor, um alvoroço digno de velório, sem fúria, lotado de olhares enviesados. Três moças entraram silenciosamente, olhando para o corpo e para o chão. Vestidas com capas de chuvas, ao se movimentar desnudavam suas carnes, seus rostos tinham ainda restos das cores da noite, do amor comprado, exagerado, fácil de receber, difícil de dar.
Recatadas. Olharam e viram apenas homem com um sorriso no rosto, dirigiram-se para ele. E uma delas disse baixinho:
- Você pode me emprestar as chaves do apartamento dele, pra gente tirar nossas coisas?
O tio - funcionário público - se aproximou para ouvir a conversa, se intrometeu:
- Infelizmente não podemos.
O sobrinho - o do sorriso -, respondeu:
- Tio, me dê as chaves, eu me responsabilizo. Po’ deixar.
De posse do molho, entregou às moças e pediu que elas as devolvessem em sua casa.
E o Lipo foi embora com quatro declarações de amor ao natural, sem álcool, para sedimentar sua parte neste mundo, vasto mundo.

February 28th, 2008 at 10:31 am
Tem gosto de clássico. Suas estórias tocam fundo. A gente entra lá e fica a observar os personagens, passamos a conviver com eles e quando me dou conta, passam-se dias e eu ainda penso na estória, como fosse um ‘caso’ que alguém me contou, mas com um certo ar de romance e mistério. Não sei bem explicar. Seu estilo é único.
Maravilha de conto.
Não se sente náusea pela bebedeira porque ela é subjetiva. O que salienta são os personagens com suas tristezas e crenças (descrenças) pela vida.
Parabéns!!!
Bjs.
February 28th, 2008 at 8:48 pm
Dizem que indiferença é falta de sentimentos, ocorre quando o ambiente não afeta a(s) pessoa(s), que nada sente(m), mesmo perante situações de forte apelo emocional. Nosso mundo parece se tornar cada vez mais indiferente, as pessoas reagem com frieza aos maiores horrores, não sentem falta das pessoas com quem já conviveram quando estas se afastam, porque os laços são frágeis, as relações são de uso, não formam vínculos. Muito significativo esse conto. Abraço!