O moderno José
José não sabia decifrar os sinais enviados pelos sonhos, nem era belo o suficiente para atrair a atenção de alguém; mesmo assim foi vendido pelos irmãos. Exilado; restou empregar-se como cobrador de impostos, serviu-se deles para a melhor das finalidades: a própria e a do seu chefe; não resistiu às tentações da carne. Foi materialista demais para resistir aos apelos sensuais. Ter é poder. Tendo a tenda vale aprender a lenda?
Após seu sucesso inicial em terra estranha, chamou seus irmãos que vieram acompanhados por sua mãe. Deu-lhes uma oportunidade de fazer a sua vida também. Empregou-os. Deles continuou recebendo injúrias e desentendimentos. Não queriam oportunidades, queriam somente viver bem e sem problemas. Gostavam de aromas finos e de ar puro para encher os pneus de seus autos.
José - ah! José - após várias leituras equivocadas de sonhos e sucessivos fracassos em missões estatais, relegou-se ao convívio com os seus. Foi o que restou: as glórias imaginadas de um passado.
Cada vez mais compensava a distância do poder com as roupas caras e na moda. Precisava dos sinais exteriores de prestígio. Coninuou com companhia de feminina, uma após a outra.
Sintomaticamente passou a conviver com três simultaneamente. Sua vida transcorria nessa agitada acrobacia feminina. Uma trabalhava numa casa bancária; outra uma médica; e finalmente, uma que havia sido reservada para um futuro marido. Desde que ele tivesse poder e majestade suficiente. O futuro marido se revelou muito futuro. Num remoto e longínqüo lugar.
Assim que José soube que essa última houvera sido noiva de um ministro de Estado, ficou perdidamente apaixonado pela advogada.(Ela estudou por ser de bom tom.) Falava como se declamasse um acórdão de Tribunal. Rococó como Góngora. Cada frase poderia figurar numa Ordenação Manuelina.
Acabaram marcando o casamento, em dia e hora de conhecimento apenas dos parentes mais próximos. Temiam profundamente um escândalo das demais interessadas quando soubessem. Escândalo público eles não suportariam. Apesar dele não ter conversado com nenhuma delas a respeito do assunto. Deve-se mencionar: ao saber do ocorrido não se viu nenhuma lágrima vertida.
Os parentes ficaram em polvorosa, queriam saber do regime do casamento, afinal de contas, ele ao casar estava lidando com o seu patrimônio. Patrimônio que um dia seria deles. Ficaram desconsolados ao saber da comunhão total de bens e haveres. Foram deserdados. Tudo, tudo seria transferido para ela, a esposa. A lei.
Durante a breve vida de casado, adquiriu alguma paz de espírito. Deixou as roupas de lado, não comprou mais o carro novo todo ano. Não freqüentou mais os lugares da moda. Não queria ver, nem ser visto. E viveu em paz, sem filhos, até a que morte o encontrou. Lutou, mas já em agonia, não teve muita força. Parecia desanimado e feliz.
Após as cerimônias fúnebres, a família se reuniu para saber qual atitude tomar. Se havia alguma.
Um irmão lembrou de um fruto de aventura como solteiro. E todos correndo, foram buscar o filho, até então não reconhecido, para que abocanhasse o que lhe era devido. Encontraram um rapaz alto e bonito, formado engenheiro, e finalmente, com uma semelhança física impressionante.
Ele, o novo protagonista, após tomar conhecimento de todos os fatos, acompanhar atentamente o desenrolar dos dados e valores. Olhou bem para todos, um por um e disse, ao fim:
- Muito obrigado. Não tenho nenhum interesse em agir. Ele viveu o suficiente para me reconhecer. Não o fez. Ele não foi meu pai. Vocês estão enganados.

March 26th, 2008 at 12:46 pm
Você já viu quantas vezes eu vim aqui, desde que li a primeira vez este texto?
Pois é, mais ou menos isso.
E o silêncio persiste. Eu tenho mesmo que quebrá-lo agora, pois sei que será mesmo impossível dizer algo adequado sobre ele, O Moderno José.
Elegância. É a primeira coisa que me vem à mente ao lê-lo. Como se tivesse sido escrito (e deve mesmo ter sido) com esmero, com todo o cuidado que se deve ter ao juntar palavras pra formar um todo que diz tanto.
É um texto raro, pois consegue a um só tempo, ser mitológico e trivial; hermético e compreensível.
Tem aquele ar de história conhecida, arquetípica ou fábulística (?)- José traído por seus irmãos, está lá naquele grande livro…
E a insegurança toda de José, ao ter três tripés onde se apoia, e só ao perceber que uma delas poderia ser mais importante (ou querer alguém mais importante), decide enfim (no fim, ao que me pareceu) escolher a Lei. Em detrimento da Família, que se contorceu (bem feito!)
Aí tem coisa…
A morte foi para José uma agonia feliz. Gostava ele de viver?
(Penso, hesito…)
E o filho? De onde vem este fato comum para assinalar que os finais são assim mesmo? Até que nem previsível, mas que parece já visto, lido, ouvido. Filho recusando-se o direito de ser, pelo prazo de validade?
Material pra muita avaliação.
Seu estilo é bom. Muito bom.
E ainda hesito aqui, pensando se devo quebrar o silêncio, ou pensar mais no que dizer.
…
Pronto, postei e quebrei
Beijos e aquela coisa toda.
March 28th, 2008 at 11:55 am
Porra, você está finalmente ficando bom. Bom de verdade.
March 29th, 2008 at 2:57 pm
Encadeando palavras para construir textos que também gosta de ler e reler. Certo?
Bjs.
March 29th, 2008 at 3:11 pm
Concordo com a Lady Cronópio, também passei por aqui mais de uma vez sem ter a segurança suficiente para comentar. Um texto muito bom sem dúvida. Aproveite a fase criativa para produzir cada vez mais.