François Villon

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 2, 2008

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“Que pensar bem é mais prudente,

Como Vegécio assim discorre,

Sábio romano previdente,

Ou alto risco então se corre.”

Nasci quinhentos anos depois de trazida ao mundo essa poesia, e tive como profissão ser salva-vidas. É verdade que observei de um posto camuflado; um só, não o troquei como fizeram outros, para mudar a perspectiva, ou conhecer o mundo. Resolvi, melhor dizendo, resolveram por mim, ficar no mesmo lugar, e mudei a maneira de ver; o que dará o mesmo resultado. Mudar o posto ou o ponto de vista dá no mesmo.

O menor esforço que poderia fazer era ir do catre à cadeira e o fazia cotidianamente quatro vezes. Numa delas, numa fria manhã encontrei no caminho lá pelo meu canto direito, rente à calçada, uma carroça. De madeira, sem nada de excepcional: desconjuntada, com duas rodas cobertas de borracha, cor indefinida pela passagem do tempo, dois varões de madeira. Era puxada por um homem. Magro, digno, com sua roupa velha, não muito limpa, possuía certa nobreza no andar. Fazia o movimento de tração como normalmente se observa, e de vez em quando o peso do conjunto o suspendia no ar, ele se aproveitava disso para tomar impulso para baixo e para frente, e fazia o seu trajeto. Poupava suas energias.

Carregava na caçamba uma mulher. A sua. Ela se acomodou como pode lá dentro, as pernas caindo para fora, segurava com uma mão a borda e com a outra a bolsa. Estava vestida com mais apuro, asseada passada e pronta para o trabalho. Eu o acompanhei até que ele parasse num ponto de ônibus, lotado, onde ela o deixaria com um beijo de despedida. Ele seguiu seu caminho acompanhado por um olhar de ternura dela, até desaparecer da vista.

Estava quase chegando ao meu posto e pondo em dia os meus pensamentos. Acompanhava distraidamente essas lagartas à diesel, articuladas e comprimidas de pessoas até não mais poder.

Numa esquina antes do meu posto, fui abordado por um senhor, velho, alto, com uns óculos redondos de tartaruga, rosto com barba de dois dias, uma camisa que foi imaculadamente branca um dia, abotoada até o pescoço, um colete que dançava em seu corpo, coberto por um paletó desaparelhado com a calça, um remendado, a outra cerzida. Cobria a cabeça com um gorro de lã à marinheira, desbotado e trazia à mão um coador de pano.Branco e sem uso, com aro de metal e o estendeu em minha direção dizendo:

- Será que o senhor pode me auxiliar nesse momento de dificuldade?

Olhei-o fixamente. E fiquei quieto. Estava sem ação, sem saber o que fazer.

- O senhor deve estar feliz, o Santos ganhou ontem. Sete a zero. Parecia primeiro de abril, não é?

Tinha no bolso uma nota de cinco. Ela trocou de dono. Ambos traçamos um sorriso longo, longitudinal, de orelha a orelha como de agradecimento mútuo.

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