O avesso

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday April 3, 2008

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Depois de haver lido uma, duas ou três vezes a folha desamassada, papel com um título “François Villon”, percebi que no verso existia um manuscrito à lápis, e creio – a letra é horrível – que diz: 

“ Saquei uma foto de uma cena na vida da minha cidade. Estamos marcados pelo desamor. Uma cena de amor é, geralmente, desprezada. Presenciei uma dessa, mas ela foi vivida por um casal pobre, numa rua da cidade. Uma cena imprevista hoje em dia; uma mulher que escolhe um catador de papel para seu marido, e não se importa de ser carregada por ele e deixada num ponto de ônibus.

Os pobres são esquecidos e desprezados por viverem ainda na Idade Média. E vivem mesmo, se considerarmos que não sabem nada, quase nada, o suficiente para comer, às vezes. Mas sentem. Algo que nós outros – os que sabem - temos saudades; fiquei maravilhado.

Logo em seguida encontro uma pessoa que me pede uma esmola. Jamais fiz isso porque eu sei que é um incentivo à vagabundagem. Mas ele é velho, fala bem, parece um poeta, e, por fim, vende sua alma com um elogio. Sabia que tinha um quinto de chance de acertar, assim mesmo relatou um resultado do futebol. Devia estar desesperado.

Reconheci-me nessa pessoa, tive amor por ela – ou por mim – e dei algum dinheiro para aliviar minha consciência e a sua fome. Deixei de saber por um instante. Senti que estava mais vivo que antes.

E lembrei do poeta Villon que viveu na Idade Média, foi pobre, estudou, soube muito, até não conseguir suportar o lugar onde viveu e desapareceu sem deixar vestígio.

E por alguns instantes revivi a Idade dele na primeira cena, o reencontrei na segunda e tentei deixar esse instantâneo gravado.Por saber que tudo isso é uma bobagem sem tamanho, amassei e joguei fora.” 

Senti que precisava deixar isso registrado. 

4 Responses to “O avesso”

  1. Lady Cronopio Says:

    Segredo de poeta.
    Bipartir-se.
    Enovelar-se.
    Desconhecer-se.
    E até…
    Nunca mais o mesmo na frente do espelho que subverte a razão.
    Emoção que se nega vem.
    E nada mais há, a não ser.

    Cosa toda aquela e beijos
    Evohé, Djabal

  2. Anny Says:

    Sabe quem gosta do avesso das coisas?
    Critina…

    bjs

  3. Dai Says:

    Fez bem. Registros são o único suporte que transformam o tempo que faz a História.
    Beleza :)

  4. lilion Says:

    thank you…
    :)

    http://www.flickr.com/photos/lilion/2511796874/

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