Cobrador

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday April 7, 2008

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Solitário, constantemente passeava com Jéssica, que conhecera na entrada de um salão de beleza. Loura com algumas raízes, busto empinado e vulgarmente agressivo, alta, pernas longas, rosto simétrico, estudante de direito. As conversas eram sempre de coisas sem importância. Ela querendo saber mais, ele querendo saber menos. Quando ela insistia em sair do carro e passear um pouco a pé, ele escolhia um shopping distante e pouco freqüentado. O que ele gostava mesmo era da segurança do carro, passeavam pelas ruas do bairro onde ela morava. Faziam ou fazia um sexo oral e seguia para casa dormir. Feliz, satisfeito por encontrar uma competência silenciosa como essa, resumida num par de lábios cheios, gulosos e mendazes.

Como solitário e herdeiro, passava os dias contando seus interesses, procurando melhores oportunidades de investimento. Nessas andanças conheceu um rapaz ruivo, cabelo curto e espetado; vestido sempre com calça de brim e camisa xadrez, botas com bicos extremamente finos e prateados denunciado sua chegada, uma síntese: vaqueiro urbano. Barba sempre por fazer, dava um aspecto enevoado ao seu rosto fino comprido, os seus traços pareciam espremidos dentro daquele espaço. Cobrava. Fazia cobrança de faturas para seus clientes, e apresentou seus serviços. Máicon.

Recebeu um telefonema de Zuleika, pedindo ajuda. Um imóvel de seu tio – um tio muito querido, no fim da vida, e sem outros herdeiros - estava ocupado por estranhos. Ela não sabia como resolver, e preocupada com isso, lembrou-se de ligar.  Ficara viúva muito cedo, mãe de único filho, sem nenhuma prática comercial. Gabava-se de ter boas relações e de não ter jamais jogado nenhum tostão no lixo. Fazia todas as suas viagens, gastando um mínimo e aproveitando o máximo. Conhecia cinqüenta e seis países do mundo, só fazia compras no exterior, onde houvesse magazine com itens XG no estoque; em síntese, era impossível comprar mais barato do que ela fazia. E, mesmo com todas essas habilidades, não tinha a menor idéia de como fazer para evacuar um imóvel ocupado por alienígenas.

(Que saco. - Pensou. Apenas pensou. E se lembrou do Máicon. )

- Vou tentar resolver, falarei com um conhecido. Quem sabe ele resolve a questão. Me dá o endereço.

Conversou com o vaqueiro. E combinaram de passar no local para ver o que poderia ser feito. Assim foi feito. Encontraram o imóvel com a aparência absolutamente normal, precisando de uma pintura. Com suas colunas e mansardas, lembrava tempos de opulência. Desceram e caminharam, deram uma volta, não ouviram nada. Pegaram a chave e entraram. Uma arma entrou na história. Foi empunhada, fosca, assustadora. Ao entrarem, encontraram alguns mendigos deitados no chão, naquela mistura de cobertores, roupas, trapos e odores que lembravam um ninho de ratos.

- Vamu sainu!! Agora, já!! – disse o vaqueiro, colocando a arma no cós da calça.

Ouviu-se um resmungo qualquer. Não chegava a ser uma resistência. Espanto? Medo? Sonolência? 

Identificando-se como policial; imediatamente aplicou uma surra memorável em todos os que estavam lá. Chutou e bateu; um deles não conseguindo se levantar a contento, apanhava, caia no chão e lá ia ele novamente, batia de novo até que ficasse de pé. Afinal, todos em pé, foram conduzidos para fora aos pontapés. Enquanto não os jogou a todos no olho da rua, não sossegou. O fato de não haver resistência deveria acalmá-lo, entretanto, a fúria redobrou, procurava um clima de desvario, descontrole, loucura.

Com todos do lado de fora rodou a chave na fechadura, colocou tábuas com pregos sem cabeça, em todas as portas externas, tiradas do porta-malas e deu por encerrado o seu trabalho.

Entraram no carro, ele e o seu acompanhante, e ouviu dele, entre feliz e assustado.

-Escute. Tenho alguns débitos vencidos, e quero saber quanto você cobra para recebê-los para mim?

- Trinta por cento e despesas. - respondeu - Esse serviço, fica como demo e não vou te cobrar nada - amizade.

2 Responses to “Cobrador”

  1. Elfen Queen Says:

    voltei pro weblogger. Inconstante.

  2. Dai Says:

    Agiotas e cobradores são como o câncer do capitalismo. Melhor que a menina de lábios carnudos é ter alguém levando dinheiro sem maiores dores de cabeça para o bolso dele.
    Moderno e bom.
    Beijo.

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