Suburbano

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday April 16, 2008

Subúrbio. Rua Rosa e Silva. Grajaú. Rio de Janeiro. Essa é a melhor introdução para apresentar essa pessoa. Distante do centro, filho de um Rosa e de uma Silva, com influências indígenas, morando numa cidade com o nome de rio que não era rio, parecia um. Assim era ele. Emergiu de uma peste com algumas seqüelas, saiu dali para São Paulo. Cresceu. E nunca mais saiu.

Sancho foi seu primeiro amigo. Trabalhador; incansavelmente atrapalhado em tudo que fazia. Pronto em todas as horas. Trabalhavam juntos. Uma liberdade integral, em tempo integral. Conheceram as primeiras namoradas. Sancho foi traído pelo amigo. O suburbano não resistiu à tentação, ao mel do sexo, à luxúria. Caiu sem trinta dinheiros.

Voltou ao estudo. E na faculdade encontrou seu segundo amigo. Nascido em Caxambu, filho de família dona de muitas terras que despachou seu filho para estudar na capital do seu mundo. Sempre com sua maleta de executivo, possuía uma expressão desconfiada que não o abandonava, em nenhuma circunstância. Conheceram as segundas e outras namoradas, agora mais reservadamente. Cada um no eu canto. Os encontros conjuntos escassearam. Tinham mais o que fazer. Conheceram todos os motéis da barra.

Estudavam e trabalhavam quando necessário. Passeavam todo o tempo disponível. Voltaram ao Rio. O suburbano conheceu uma cidade desconhecida. Encantou-se com Copacabana. Túnel dois irmãos.

Repentinamente lembrou de Sancho e prometeu-se jamais cometer outra traição. Talvez motivado pelos olhares femininos, ou pelo olhar do enviesado do amigo. Ou ambos.

O segundo amigo conseguiu trancar a matrícula e se mudou para a Suécia. Foi trabalhar. Numa fábrica de papel em Göteborg. Deixou a namorada da ocasião, para o suburbano cuidar; ficaria apenas alguns meses e, estava profundamente apaixonado.

Assim fizeram e combinaram. Suburbano pediu ajuda ao Sancho e viveram alguns meses passeando pelos teatros da cidade. Conviveram sempre em três. E, ainda assim, na correspondência trocada tiveram uma briga tremenda. Essa situação de passeio era suspeita. O amigo sabia da vida, essa balela de amizade e passeio em três era conversa pra boi dormir.

Terminou o compromisso por carta assim como deu um basta na amizade.

Voltou depois de tempos, após passear pelo interior da França, gastar todas as economias num cassino clandestino em Londres; procurou seu amigo do subúrbio e o convidou para sua casa e apresentou sua primeira mulher. Uma paraense que encontrou na vindima.

Brigou com ela também, ruidosamente, atabalhoadamente. Saiu para estudar na América; durante sete anos, licenciado, mestre, doutor na filosofia da coisa. Casou novamente. Precisou de dinheiro para isso tudo e pediu ao amigo. Quando voltasse tudo iria se arranjar. Como de fato se arranjou.

Agora de volta, retomaram a amizade de antigamente. Acertaram os ponteiros, ouviu e concordou com a versão do amigo suburbano. Não se sentiu mais traído. Aquiesceu.

Assim que tivesse uma folga nas finanças devolveria todo o dinheiro que emprestou. Estava tudo anotado. Não havia motivo de preocupação, afinal de contas a dívida era em dólares, não desmancharia com o tempo.

Encontraram-se para conhecer as mulheres. Trocar impressões familiares. Afinal de contas, agora eram homens. Conseguiu um emprego de professor doutor numa universidade, aliás, em várias, para poder manter um padrão digno de vida. Demitiu-se de uma quando se viu obrigado a aprovar um aluno autista. Trocou por outra no interior.

Passou a ser um taxista do ensino, levava o conhecimento para os mais distantes pontos e recebia por isso.

Retomaram o ritmo de anos atrás, mas conversavam sozinhos; contou toda a sua aventura em Nova York, das amizades que fez, dos lugares que estudou, das dificuldades que enfrentou. Ao final de cada conversa, retomava a questão da dívida, e o amigo dizia que não se preocupasse com isso.

Falou do seu frágil inglês, apropriado para aulas em sindicatos, nunca em escolas. Contou da beleza das mulheres no verão norte-americano. Na quinta avenida, por exemplo, ele se lembrava de Ipanema. As roupas eram apenas um detalhe esvoaçante cobrindo os corpos semidespidos. E, como de regra, a dívida era retomada e o assunto afastado pelo amigo.

Conseguiu participar e depois promover congressos ao redor do mundo, Inglaterra, Índia, Estados Unidos; e almoçava com o amigo. Trazia o vinho e conversavam, trocavam reminiscências, do clima entre professores. Das disputas. Dos concursos feitos para que um só ganhasse.

Os vinhos que tomavam vinham das vinhas da África do Sul, local do seu último congresso. Aquele ar de desconfiança aos poucos desapareceu.

Nunca mais falaram do assunto da dívida.

3 Responses to “Suburbano”

  1. DaniCast Says:

    Para suas leituras:
    http://www.taxitramas.blogger.com.br/

    É um dos mais antigos blogs do país, um dos melhores e pertence a um taxista. Ele escreve muitíssimo bem e o blog já rendeu um livro. Eu leio o blog dele há anos.

  2. Anny Says:

    Escrever, escrever, ecrever… É como desenhar, desenhar, desenhar. Todos os dias. Até que tudo acontece. Mágica? Sim, de estar vivo para fazer tudo isto. Não é incrível?
    Bjos

  3. Lady Cronopio Says:

    Causou-me uma sucessão de pensares, esta leitura.
    Mais ainda gosto deste seu estilo que nos leva a este ponto de pôr em cheque as conclusões várias a que se chega.
    Bonito ver alguém escrever com tanto esmero, e ao mesmo tempo com a desenvoltura dos que escrevem de súbito.
    Frase cáustica, aquela que diz que a dívida em dólares não se desmancharia com o tempo.
    Brilhante.
    Beijos e aquela coisa toda

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