Ada
Numa península, um passeio pelas alamedas. Condomínio onde mora meu irmão. Estou com minha mãe, (estudar enfermagem aos setenta; tô boba, colega) minha filha e o mar.
- Olha uma alquemila; essas folhas são sanícula-dos-montes, conhecida como quebra-pedra. Chegaram num jardim com vinhas virgens, madressilvas, clematite e hera. Essa aí perto da fonte é uma saxífraga-dourada. Que cor, né? Parece ouro e só aparece perto das fontes d’água.
(Troquei minha liberdade por um emprego mecânico, bração, poucas horas, deixa a cabeça livre pra sonhar com o vento. A oferta de pagar bem por seis horas, me raptou. Arranjei um lugar onde não se trabalha aos domingos e dobro o meu horário na sexta, para folgar no sábado; dessa forma estou livre no final de semana para velejar. Essa é a minha verdadeira paixão.)
- Mãe, como você sabe tanto nome de planta?
(Estudar? Estudei. Mais do que o suficiente. Nada que fiz me deu algo de útil para aplicar na vida. Alguma dica de psicologia. Uns truques de educação física. Nunca me importei com a imagem. Aliás, me preocupei um pouco com o físico, tenho medo quando a idade me tirar de cima da prancha.)
(Se eu fosse enfermeira quem sabe ele não teria morrido. Também pudera; como um advogado tão bem sucedido poderia subir numa Ducati Desmosedici RR, e fazer trezentos e vinte oito quilômetros por hora em linha reta? É vício em adrenalina. A filha dele é igual. Que destino, o meu. Resta-me compreender.)
- Gosto de natureza não sirvo para viver na cidade.
(Sirvo pessoas e me carimbei disso. Posso ter me impressionado com a educação das pessoas, sorridentes e afáveis. Senti; o sorriso era para que a comida chegasse logo, para que talvez eu esquecesse de anotar o pedido, e durava até chegar a conta, e o raro que vencesse a barreira do terceiro fosso, para esse o prêmio deveria ser a cama, a minha, claro. Na maior parte do tempo atendi pessoas, aparentemente ricas, com dinheiro, mas sem educação e respeito. Com uma dose de prepotência que mexeu comigo como a onda do mar, não adianta ir contra ela, se subir, subo. Se descer, desço. Faço uma tarefa como o ponteiro do relógio. E isso não basta para o cliente. Ele sempre quer mais. Devo procurar alguma coisa que não existe. O talco até que é simples. Pedir um analgésico também. Porém, não pára por aqui. Agora devo comprar cigarros, sempre mais, saber nome daquele cliente, daquela mulher. Que saco! Tentei recusar educadamente. Sorrindo. Deu certo! Só até o pagamento da conta. Ela passou a voltar sem o serviço. Trabalhava por dez por cento. Era só por isso. E perdi. Diante desse dilema tive que optar. Antes, falei com o chefe. Expliquei a situação. Ele, felizmente, concordou comigo. E disse: “Assim é o nosso ramo. Não posso fazer nada. Por isso te ensinei a venda. Você é vendedora nata, nada além; trazer e levar é disfarce. Venda. Venda. Quem diz a verdade, merece castigo. Não fui eu que inventei a roda. O público pede, se não tem: minta. Em Roma, faça como os romanos”. Putz, virei do avesso. Fiquei p u t a da vida. Saí de lá. Na hora. Fui para um lugar melhor, mais chique, cismei de tratar com a nata. Não, com a nata da nata. Investi um pouco da minha economia em novas roupas, novo fiquei confiante. Só durante os primeiros meses. Logo depois percebi que mosca mudou, a m e r d a era a mesma. De tanto lidar com nata, aumentou o meu colesterol. E, perdi meu sábado tão querido. Ao trabalhar e ouvir o vento rugindo, sentia uma dor de estômago terrível; maior do que a causada pelo ambiente servil, abjeto. Sempre dez por cento. Se quisesse mais, teria que trabalhar mais. Eu quero uma vida decente. Não quero ganhar mais.)
- Ada, você é muito egoísta, deveria pensar na menina e ficar em São Paulo, a educação e as amizades são melhores.
(Namorei um cliente. Não consegui ultrapassar a barreira do preconceito. Lá servir é pecado. Não falou do meu ofício. Era velejadora, amiga de um campeão olímpico, cujo irmão é chamado de macarrão, e caía na risada. Sem roupa somos iguais. Com roupa, não. Prefiro os meninos da praia. Todos são meninos, em qualquer idade. Incrível.)
- Mãe, depois falamos, tá? ‘Tou conversando com ela.
Disse a filha:
- E o mar - mãe - é natureza? Ou natureza é só floresta?
- Mar é liberdade. No mar cada um vive só para si. A gente só compete consigo mesma.
(Voltei ao meu emprego. Olho de fora para a minha vida. De todas que eu sou descobri e identifiquei duas. Uma que é atriz durante seis horas. Sorriso plástico. Seja lá o que aconteça, ele aparece. Corro fisicamente para pegar alguma coisa, o espírito não sai do lugar. Só o necessário para receber meu pagamento. Não consegui nenhuma experiência realmente humana nisso tudo.)
De repente, minha filha se abaixa e pega um copo plástico que um menino deixou cair – propositalmente - no chão e grita:
- Pode deixar que eu jogo no lixo…
E saiu correndo, dizendo:
- Óh mãe, não gosto daqui não, aqui é bom pra passear. É gostoso nas férias.
O irmão vestido de branco, apareceu lá em cima, emoldurado por um portal de mogno, e acenou, chamando as três para o almoço.

April 25th, 2008 at 10:56 pm
ok, vou anotar. bjos
May 3rd, 2008 at 5:00 pm
Sempre pensei e continuo pensando que aquí só é bom para passar as férias.
Bjs