Morlock

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 30, 2008

 

Sol queimando sobre a Califórnia. O bar estava no topo de uma ladeira em cujo final se avistava a faixa de praia como um colar para o mar azul e majestoso; mais ao longe uma baleia saltava e se exibia circense para os banhistas que se apinhavam no local. Um salva-vidas que havia feito uma ponta num seriado de tevê e reinava sobre os jovens, contando suas peripécias.

No bar a claridade não penetrava foi deixada lá fora; talvez obstruída pelas persianas ou por sua dimensão exagerada. Um odor azedo pairava no ambiente. Bem no centro uma mesa com quatro pessoas, que formavam dois pares. Um homem aparentando vinte anos mais da mulher loira, de pele muito branca e sardenta que o acompanhava. Um rapaz de seus vinte anos, magro, tatuado, com cabelo azul; e, finalmente, outro menino com cabelo vermelho, piercing na língua, um boné de lã, meio mole, largado no topo da cabeça, desafiando a gravidade; no máximo dezoito.

“Acho uma tremenda sacanagem perder o emprego por isso”, disse o azul “afinal de contas qual o problema das pessoas com o sexo, com transa, com ele?”

“Essa história é muito complicada”, disse a moça, “todos nós temos algum problema com o exibir pura e simples, eu mesma, só consigo tirar a minha roupa com ele – apontando, com o queixo, o homem– no escuro. Nele vale tudo”.

Retrucou o azul: “Mas ele não faz parte do corpo? Ele é tão bonito quanto um braço, um baço, um queixo, pinta ou uma bu…da, não há nada demais. O perigo vem da cabeça e do pensamento”.

“Olha aí, gente”, falou agora o vermelho, “não adianta nada ficar falando dessa me..da, o bonitinho aí, perdeu o emprego. Pra carreira, isso não conta nada, era um trabalho de boy, num lugar vagabundo, cheio de gente chata e burra, tudo, periferia -  tá sabendo?”

“É, e todas as meninas me ajudaram. Pensei que elas estavam gostando da brincadeira. Tiramos um monte de fotos dele, bem durinho, exibido,de todos os ângulos e pusemos num arquivo, na rede, com o nome “Histórias do Zézinho”. Todos viam e gostavam. Riram um monte, me incentivaram. Aproveitei para colocar uma foto do nosso – olhou apaixonado para o vermelho – beijo, e outras dando um rolê. Aquelas que tiramos aqui, olhando na direção do banheiro.”

“Como é que a coisa estourou?” perguntou a loira.

“O carinha que cuida da tecnologia, pegou e mostrou pro chefe. E aí, já viu né? Fui chamado pra explicar. E prometi não publicar mais isso. Meu acesso aos computadores foi cortado. E tudo bem. Aí, sem que eu soubesse … direito, meio na moita, alguém republicou com o nome Príapro, o regresso; foi a conta. Reincidência.”

“Já te falei que isso não é nada. Deixa de onda, consegui um teste num estúdio pra você. É na marra que você vai virar modelo ou ator, qualquer um dos dois. Ou ambos. É bonito, musculoso, se cuida, e sabe cuidar como ninguém. A receita é de sucesso. Eu, vermelho, você azul, a Giovana branca, juntos formamos a bandeira da América, e todos adoram, beijam e lambem, por aqui, a bandeira.”

O homem, que assistia a conversa serenamente, foi interrogado com os olhares para dar uma opinião. E o fez assim:

“Tenho temperamento feminino e preciso ser amado. Sofreria muito com isso. Vocês são masculinos gostam do hostil. A pulsão do sexo em mim também é forte demais, mas felizmente ela se manifestou como na maioria. Não creio que seja pornografia o que você fez, também não tenho nenhuma atração por corpo masculino, vejo beleza nele, mas se alguém mais estiver olhando comigo, passo rapidamente pelas imagens e me concentro naquelas que além de belas, me atraem, despertam em mim o desejo. O corpo da mulher. E assim você deverá proceder. Faça o que manda seu coração, e não compartilhe com ninguém mais, até ter a certeza de que ele é igual a você, ou respeita as opiniões alheias. Aqui, ou mesmo, de onde viemos, o respeito a opinião alheia não é muito a moda. Quem sabe isso muda.”

Abriu o livro, grosso, capa dura, papel acetinado,  que tinha consigo e mostrou uma página.

Regra dos quatro padres – séc. V: Se alguém for descoberto rindo ou fazendo piadas (…) ordenamos que, por duas semanas, este homem, em nome do Senhor, seja reprimido, de todos os modos com o látego da humildade.”

Fechou-o. Levantou-se; e convidando Giovana:

“Vamos para o Hotel, meu amor?”

Recebeu como resposta uma piscada de olhos.

 

 

2 Responses to “Morlock”

  1. DaniCast Says:

    Eu acho curiosíssimo que numa cultura onde a pornografia é liberada sem muita repressão, o órgão masculino seja tabu, mas é tabu em todas as culturas, muito mais que qualquer nudez feminina. Não é a toa que Peter Greenaway enche a tela de seu filme de pênis e todos flácidos, para questionar o tabu ainda mais.
    Particularmente, acho tão bonito, e acho injusto que seja tão fácil aceitar a nudez feminina e reprimir tanto a nudez masculina. Não é a toa que tem tanto homem reprimido. A nudez masculina é tão bonita quanto a feminina, eu gosto de olhar as duas, se a criatura nua, for bonita.

  2. Dai Says:

    Em Luz del Fuego há uma cena, uma festa numa ilha onde os convidados estão nus. Acontece que aparecem vários homens com ereção ou semi. Fantástico. Os padres q me desculpem mas um pênis é algo maravilhoso. Uma das mais belas criações do corpo humano.
    Bom ter Djabal, inteligentíssimo, a nos fazer refletir sobre coisas q a maioria das pessoas prefere encarar como tabu.
    Muito bom o texto. Excelente!
    Obrigada.

Leave a Reply

24 queries. 0.193 seconds.
Powered by Wordpress
theme by evil.bert
modificado por DaniCast