O avesso do cheiro
Sonhando através de um texto que comentava uma história, o argumento dela me chamou a atenção. É a história de um homem que num dia saiu de casa para fazer uma pequena viajem. Despediu-se de sua mulher e demorou vinte anos para voltar. Nesse período morou numa rua próxima da sua morada antiga. Não cabe aqui discutir o argumento, apenas salientar o sistema rigoroso, misterioso e interior de cada ser, talvez para compensar a confusa desordem do exterior; e sair dele, é se tornar um pária, perder o seu lugar. Essa história conta que ele volta; existem outras variantes e dependem da hora e lugar.
Não tenho experiência suficiente para não me extasiar com as coincidências que me são concedidas. Desperto e banhado ouço essa história:
A família de Ian Fleming, autor do personagem James Bond, encontrou uma nova voz que continuará a obra do seu patrono. Não pôde esperar os séculos transcorridos entre a primeira melodia cantada em persa no Rubaiyat de Omar ben Ibrahim al-Khayyam e a sua volta orgânica e contínua na voz inglesa de Edward FitzGerald. Acreditam os herdeiros que podem ver o futuro do personagem James; ele se chama Sebastian Faulks. Talvez imaginem que tenham resolvido o enigma da voz que passa de um para o outro; ou ainda que o tempo lhes foi cronicamente favorável; tudo a fim de evitar que a história se transformasse naquele pária, caso não tornasse ao prelo. Lembro que essa tentativa foi frustrada antes por outros trinta e dois escritores que escreveram exatamente como o original Ian. Agora, explica Sebastian, escreve inspirado por ele, não faz um simples pastiche. Ele conseguiu, por artes desconhecidas, fazer uma composição entre o antigo e o novo, em estimadas proporções de cinqüenta e cinco e quarenta e cinco por cento entre um e outro.
Agora em Libourne, sob as suas antigas arcadas, peço um café e olho. Sou inclinado quase à queda por cenas de amor. Amor insólito. Na forma, no conteúdo. Mas a forma… Ela é uma música. Uma nota dissonante faz com que toda melodia que percorre a partitura toda se levante.
Um pai passa com seus dois filhos. Numa lambreta completamente desarranjada com os fios à mostra, vem puxando um carrinho de madeira, em formato de caixote de madeira barata, igualmente mambembe que contém as duas crianças, em equilíbrio precário. Queimado pelo sol; rugas em profusão e profissão e um sorriso tímido em U, do mesmo formato da gola da sua camiseta, antiquada, vazada e suja. Instala-se mais adiante e fica sob o sol, brincando com os filhos. Despreocupado.
O que faz um homem vestir uma calça e camisa, colocar uma gravata listrada e atada rente ao pescoço forte e completar o traje com uma jaqueta de gabardine, com zíper? Coroa a sua vestimenta um mal equilibrado chapéu Panamá. Esse é o traje do mestre cuca da “Brasserie des Arcades”. Será o branco da cor?
Ouço, agora, três jovens moças, altas, cantando uma canção que não consigo identificar. Aproximam-se de braços dados, como as jovens fazem em qualquer lugar, ocupam toda a largura da arcada, passos sonoros que incomodam uma senhora vestida em seu traje pesado, claudicando num castão e que não responde ao meu cumprimento. O alto e bom francês das meninas, e seus acordes falaram em mim, talvez para mostrar e afirmar a alegria e desinibição do espírito, a inteligência da mente, e vocação musical do idioma. Que faz de um canto de praça um coral. Repentinamente aparece um aliado: o toque do sino daquela catedral gótica; louvando-as, a mim, ao dia e ao seu deus.
Alguém, um homem, passa e senta ao meu lado. Quieto, calvo, sobressaem-lhe os óculos, pensativo e risonho. Ri muito, das suas próprias situações, desditas ou benditas. Jamais saberemos, ele não pretende dividi-las com ninguém mais, procurou um canto isolado, simetricamente oposto ao meu, para brindar mentalmente. E esboça esse sorriso-risada como puro reflexo do pensamento. Ameaça um gargalhar com o movimento do ombro.
Talvez ainda esteja rindo dessas inúteis notas tomadas por um alguém que ele desconhece. Mas sabe que todos e tudo materialmente definido pelos sentidos não existe. É uma obra da mais pura imaginação. Talvez veja ainda a alegria causada pelas pernas à mostra de uma Lolita que passa, parecendo recém saída das páginas de Vladimir, naquele andar provocante e quase infantil.
O episódio se encerra. Alguém se sentou com ele e puxou conversa, tirando-o do êxtase em que se encontrava, brincando no seu mundo interior bagunçado e feliz.

June 13th, 2008 at 8:09 am
Que bela descrição de interiores a partir da observação exterior.
Você voltou puro êxtase, sua sensibilidade comove. Sei que maravilhosos textos virão por aí.
“É bom descobrir o porquê sentimo-nos lisonjeados, em que se satisfaz nossa vaidade; isso nos mostrará os fundamentos sobre os quais nos apoiamos.” (Samael Weor)
… Sinto-me lisonjeada em tê-lo como amigo e inspiração
Beijos. Bem vindo de volta.
June 15th, 2008 at 11:12 am
Djabal, que delícia de leitura, que bela imagem (sei que não é, mas me lembrou Turim, a cidade das arcadas). É uma pena que não haja mais blogs assim.
June 18th, 2008 at 7:33 pm
Djabal, um texto cuidadoso e rico, pura literatura do mais alto nível. Acho que o Diego está certo. É uma pena termos tão poucos blogs com este conteúdo.