Um banal pardal

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday June 27, 2008

Acompanhou o almoço, sentou-se como um cão e pediu de comer. Apesar de não estar habituado a essa forma de pedido, dei-lhe um pedaço minúsculo de miolo de pão, que foi recolhido; imediatamente o identifiquei como fêmea, por atravessar voando à meia altura no salão de refeições do hotel onde nós estávamos ir até o canto oposto e no chão, local do seu ninho e dividir o pedaço entre os filhos.

Enquanto escrevo, creio necessário defender-me das eventuais acusações de machismo; desculpo-me perante meus iguais, por não conhecer nada dos costumes desses pássaros e em minha mente existencialista, os que alimentam os filhotes são as fêmeas. Também devo mesmo desculpar-me com os próprios pássaros pela minha simplista visão antropomórfica.

Mas fiquei absolutamente feliz, sentia já falta do canto matinal do bem-te-vi que me acompanha em todos os meus dias; não sabia identificar o canto daquele pássaro francês, melodioso é verdade, mas que chamava tanto a minha atenção que não conseguia ler, a música me distraía. Cheguei à grande cidade – Paris - a presença daquele bichinho, me lembrou o canto do outro.

Por nossas bandas, ele não é bem cotado, sempre ouvi relatos pejorativos a respeito do pardejo, conta-se também que na China se promoveu um massacre deles, com varas flexíveis de bambu agitadas em conjunto pelos habitantes; sei também que são comidos tostadinhos no sudoeste de algum continente.

Ele, ali, me lembrou de coisas amigas e próximas. Principalmente porque consegui ver no olhar dele, um olhar pidão. De qualquer forma fiquei também desconfiado desse olhar, tudo poderia ser uma tremenda coincidência; e se tudo fosse obra da minha imaginação?

Fiz o gesto novamente de jogar algo no chão, ele pensou que fosse o pão, mas eu havia jogado uma semente do gergelim que acompanhava o pão. Ele procurou inutilmente, por vários lugares, até desistir e me interrogar novamente. Dei-lhe outro e mais outro.

Até que fui aconselhado a não fazer mais isso, pelos problemas que lhe causaria. De excesso de açúcar, dificuldades na digestão, e do desequilíbrio em sua dieta de frutas e sementes.

A argumentação de que ele não encontrara as sementes que eu tinha disponível, e colocado à disposição, não foi suficiente para serenar os ânimos. Ele foi embora durante essa distração. Imagino que tenha perdido a paciência.

Deixei de lado o amigo e pedi uma salada para comer. Mais do que nunca devo ser vegetariano. As emoções que possuímos são compartilhadas ou transmitidas também pelos animais. Cada espécie deles nos ensina alguma coisa.

A ordem que presumivelmente nos coloca numa posição central deveria ter morrido junto com Lineu. Um livro de História Natural é algo tão fora do comum para os urbanos, como ver uma simples e honesta mula excitada – admirada e cantada por Elias Canetti – ou um mísero passerídeo.

Dividi minhas dúvidas com o amigo. Longe de ficar atônito, surpreso, me disse que em Montmartre, perto da Basílica de ‘Sacré Cœur’, viu um senhor com um saquinho de pão numa mão e na outra um ‘moineau’. Por uma parte de um Euro ele fornecia o pão para que o turista o alimentasse. Se a fração fosse muito pequena, o pedaço de pão seria também proporcionalmente menor. Depois de uma reclamação de um turista, pelo pedaço recebido, não se acanhou de dizer:

- Pelo que você me deu, estou sendo muito generoso.

Parece que os sentimentos que me atravessaram não são originais. Os pardais estão domesticados na França. Talvez também o estejam no Brasil. Vou consultar e descubro o seu nome científico: “Passer domesticus”. E com isso o meu ânimo por ele, se revelou atrasado no tempo e no espaço.

Voltei à minha salada e expliquei à pessoa que sou vegetariano. Esperando que com essa definição tudo estivesse resolvido e poderia ficar em paz.

A resposta da dedicada e sorridente moça anotando o meu pedido foi a seguinte:

- Bem, o senhor é “Végétalien” ou “Végétarien?”

- Como assim?

- ‘Végetalien’ é aquele que não come produtos de origem animal, incluindo o mel; e ‘Végétarien’ é aquele que não come carne de animais de qualquer espécie, contudo consome produtos derivados.

- Ah, sim. Eu compreendi, quero apenas uma salada com folhas verdes.

- Tenho essa aqui: com cebolas, tomates, funcho e repolho.

Eu que pensava que as palavras facilitassem tudo. Acabei por me acomodar com a minha falta de folhas verdes naquele dia. Dei uma entrada errada numa conversa, aprendi a diferença entre os vegetarianos, e não consegui comer a salada que eu queria.

3 Responses to “Um banal pardal”

  1. Dai Says:

    Amei esta crônica. Tão sublime, gostosa de ler. O amor repassado e lembrado aos pardais… que bonito.
    Achei que o desfecho não poderia ser mais suave: acabar com uma sutil e inofensiva diferença no vegetarianismo. Mais que uma crônica, eu me senti diante de uma moderna ode aos animais, à natureza.
    Belíssimo Erwin, belíssimo!

    Para ti com emoção,

    “Folha que cai num rio.
    Ainda que a leve o rio,
    Muda a visão do rio.” (Geir Campos)

    Notei que os pardais que cantavam em meu quintal duas vezes ao dia andam sumidos… e acho que faz tempo :(

    Beijos mil.

  2. Elfen Queen Says:

    Olá, estou aqui para avisar que meu blog principal será deletado. O endereço do novo blog agora é esse: http://elfenqueen.blogspot.com

  3. Cristina Sampaio Says:

    Como seria bom se as palavras facilitassem tudo. Não facilitam, por isso é sempre bom quando a comunicação flui num entendimento mútuo, onde cada pequeno detalhe é compreendido. Seu texto me fez sentir saudade do canto de pássaros, de observar a natureza, isso às vezes faz tanta falta na correria da vida. Perceber e ser percebido, coisa difícil em nossos tempos, em que os olhares são viciados, limitados, focados em pontos pré-definidos. Gostei de ver essa cena, de sentir esse apelo para ver o que não costumamos olhar. Mas acho que estou sendo muito subjetiva nesse comentário, posso estar vendo em suas palavras não o que você transmitiu e sim algo que é meu. Abraço!

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