Sobretudo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday July 7, 2008

Seu nome: Ecídio Jorge Butina; tem cinqüenta anos, trabalha em São Paulo há trinta anos fazendo exatos e mesmos negócios. Talvez a sua denominação mais eficaz seja a de um burocrata mercantil. Não encontra neles nada além do meio de sobrevivência. Faz os seus como se escrevesse uma carta, entretanto com a caligrafia mais elegante possível.

Desenha-os de antemão, como se quisesse que aqueles dessem algum tipo de alegria, beleza ou serenidade para aqueles que participassem. Passava ao largo do mundo empresarial.

Teve um amigo de escola que ocupou um cargo muito importante. Era agora, como se diz uma pessoa graúda. Como naquele momento atravessava dificuldades foi pedir ajuda. Quem sabe poderia melhorar o seu desempenho com alguns pedidos novos. Não queria claro, nada demais, nada de menos. Ou talvez quisesse, não é possível saber nesse momento, ou em outro qualquer, face à impossibilidade de se penetrar na alma alheia. O mais apropriado para descrever seu desejo é relatar a sua frase ensaiada: “Quando tiver um pedido lembre do meu nome”.

Mentalizando esse percurso iniciou sua busca.

- Sim, Butina, senhorita. Nem Bolina, nem Botina.

Foi recebido no gabinete privativo e convidado para participar do café da manhã. Aceitou prontamente, mesmo já tendo tomado o seu, jamais cometeria essa indelicadeza.

Tiveram uma conversa amena, compartilhou das suas agruras num determinado momento; ganhou um gesto afetuoso de mão do amigo, que pegou num telefone e pediu uma ligação, para um publicitário famoso. Recebeu o aviso da secretária, colocou o aparelho em viva voz, após as preliminares de praxe, soltou o verbo:

- Estou aqui com o Ecídio meu amigo de escola, que faliu. Quebrou. Precisa de sua ajuda. Veja o que você pode fazer por ele.

Teve vontade de parar a conversa para explicar melhor, não, não era bem isso; teve vontade de enfiar a cabeça no chão. Teve vontade imediata de sair. Encerrou delicadamente a conversa. Despediu-se e saiu; surpreso com tal poder de síntese.

Foi ouvir o que o destino lhe reservara. Marcou a entrevista com o amigo do amigo. Ouviu um plano mirabolante que envolvia o investimento em propaganda muito acima de qualquer número razoável que lhe poderia passar pela cabeça; esse lhe pareceu o esboço da rota da sua ruína.

Ao ganhar a rua tomou a decisão de se trajar de forma diferente. Aboliu o uso da gravata. Foi a sua carta de alforria. Depois de anos servindo a ela, abdicou por inútil.

Recebeu, dias depois, um pedido do exterior. Dos Estados Unidos da América. Dessa vez de um novo cliente, indicado por um outro costumeiro e há mais de trinta anos. Esse novo cliente tem todo interesse em surfar a onda responsável no Brasil. E fez uma gigantesca proposta de compra. Valores fabulosos.

Marcou compromissos com pessoas do setor. Todas suas conhecidas. Ele sempre foi designado como alguém com um perfil suave, não destacado da maioria. Era essa a sua reputação. Estava muito em moda dizer: “Low Profile”

Notou os olhares desconfiados em suas entrevistas. Será o traje? Será a postura? Será que o pedido envolvia mesmo aqueles valores? Não seria apenas um sonho, um mito daquele representante?

Não. Não. Agora era a vez do Butina. Sentia-se bem. Ele estava agasalhado contra o pior inverno. Havia chegado à sua hora.

Percebeu na última visita daquele dia um interesse inusual daquele fabricante. O olhar era desconfiado também. Mas fez questão de mandar seu valete acompanhá-lo até o estacionamento, para abrir-lhe a porta do auto. Tudo indicava que ele aceitaria o pedido, no preço e nas condições indicadas. Chegou até o seu carro, um Honda “Civic” Preto, aprendera com seu pai que carro deve ser discreto, ano 90.

Foi almoçar feliz e voltou ao escritório, mandou um email para o fabricante, agradecendo a atenção, o tempo e desejando abrir caminho para novos e eventuais pedidos.

Quase sem surpresa recebeu uma mensagem do servidor que aquele endereço havia sido bloqueado e que a mensagem foi excluída sem leitura. Imediatamente veio-lhe o desejo de reler Gogol.

6 Responses to “Sobretudo”

  1. Dai Says:

    As burocráticas auguras de um homem.
    O lado surreal remete a Gogol mesmo. Aliás, esses russos, não?
    Ficou lindão com Gogol no desfecho, Erwin. Você é mesmo genial.
    Beijos saudosos, meu amor.

  2. Dai Says:

    ps- ‘auguras’ eu nunca gosto de usar por ser confundido com ‘agruras’. Já tomei pau em prova por isso hehe. Mas aqui foi tranqüilo, tirou-me um trauma.
    Beijinho…

  3. Dai Says:

    … porém, creio que ‘augúrios’ seria mais adequado, né?

  4. DaniCast Says:

    O problema é quando o casaco velho não é um casaco, um simples casaco pode ser descartado, pode-se comprar um novo, pode-se dar um jeito. Meu problema é que o que é velho em mim é a pele - e essa eu não tenho como trocar.

    Eu olho essa minha pele envelhecendo dia após dia diante dos meus olhos - e passei a olhar com inveja a pele fresca das mais jovens. Tenho vontade de devorá-las do mesmo modo que o monstro marinho que assolava as costas da Etiópia. Perseus acabou com a festa, cortou a cabeça da Górgona e usou-a para transformar o monstro em pedra e ficar com a mocinha, já apropriadamente acorrentada para virar refeição do monstro, casou com ela e reinou em Micenas, não se pode mesmo confiar nesses gregos. Atualmente, me identifico mais com a Górgona do que com os heróis, meu olhar transforma os outros em pedra - e para meu espanto, as pessoas dizem gostar de mim, é um mistério, eu sou e sempre serei, como tão bem definiu um antigo ex-affair, uma “monstra de olhos verdes”. Yeah, a cada dia mais monstra com olhos de Górgona.

    Sobre os russos nem falo mais nada, você sabe o que penso deles mas confesso recentemente encantada além da conta com os japoneses. Estou lendo literatura japonesa não-convencional, só leio mulheres - porque, óbvio, se eu vou ler alguma coisa tem que ser não-convencional ainda mais que já sou fã de Yukio Mishima há anos, o que já diz muita coisa sobre mim, especialmente quando se recorda de que gosto também de Camus e daquele delicioso depravado André Gide.

    Estou mesmo ficando velha, só leio atualmente os depravados, é um claro sintoma de velhice. Você devia tentar, porque você só lê moralistas, meu querido, e de moralismo já bastam esses idiotas que acham que um casaco velho é alguma coisa que defina um ser humano.

    Aguardo nosso almoço, que está fazendo falta.

  5. Cristina Sampaio Says:

    Esse sobretudo dá o que pensar. Gosto da constância dos seus ritmos. Não o conheço pessoalmente, não sei se algum dia conhecerei, mas o imagino tão discreto quanto seus contos, e talvez nem seja. Gostei muito do comentário da DaniCast, um casaco velho não define um ser humano, não expõe o íntimo de quem o veste.
    Beijos

  6. Dai Says:

    Por outro lado, eu diria que conheço um ser humano exótico, que se veste exatamente como pensa. E não raro, suas vestes são velhas e até medíocres. Mas ele tem ligações antigas com um reino de Salazar, e neste momento sinto mesmo o quão seu sobretudo velho lhe cai bem. Como se fosse um símbolo sindical, e é real e verdadeiro. Afinal, a fome se alastra e o capitalismo empresarial engole trabalhadores e micros. Dani, desculpe não lhe tenho intimidade, mas é na velhice que rejuvenescemos ante a filosofia da eternidade, nossa pele tem a aparência da sabedoria, e sábios são velhos.

    A literatura japonesa começa a ficar famosa por aqui, eu amo alguns diretores de cinema, Hirokazu, Shozo Makino… E na verdade é hora de misturar clássicos com os pós-modernos e ver no que dá, não?
    E que inveja de ti, não desfrutar um almoço com o nosso Djabal.

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