Dobras do tempo
Existe coisa mais intragável que festa de criança? Não conheço. Estou numa delas. Escondi-me ficando num canto. A casa, parece, puxa uma conversa comigo; sentamos nós três, eu, ela e o tempo. Esse último se apresenta como um tecido com várias dobras. E estas não permitem uma leitura completa.
Saí da estrada para encontrá-la; situa-se numa clareira de um bosque, construída com muitos, harmoniosos e recortados detalhes em nogueira formando um brusco contraste com o branco da alvenaria. Com telhados altos, mansardas, terraços com balcões, num estilo alpino.
Entramos numa sala de estar ampla e alta, o forro e o piso com tábuas agora de mogno, natural e sonoro, as colunas que separam os ambientes estão adornadas com gravuras, mostrando cada uma um casal. Os pisos e as paredes estão forrados com tapetes, de lã, com motivos variados, geométricos, abstratos, nenhuma forma humana. A decoração ficou acolhedora, aconchegante, despertando em mim uma emoção, uma reminiscência, uma vontade de lembrar.
Aos poucos fui chamado pelo tempo para um outro lugar. Como um toque suave e amistoso no ombro. Talvez a lembrança da antiga história contada pela minha avó, contando que éramos descendentes dos nórdicos – soube depois que houve uma invasão sueca nas terras alemãs – que saqueavam de sobejo a região. “Mas não, não; não eram bandidos comuns, eram ‘bons ladrões’, roubavam para si o necessário e distribuíam o excesso aos pobres”.
E dessa história estabeleci a conexão entre o lugar onde ela contava com este onde eu estava. Eram muito parecidos. Sim poderia ser isso. As madeiras como lembranças da floresta sempre lembrada por ela, que abrigou meus antepassados por muitos anos, a nogueira, o mogno e o bosque de pinheiros restaram como um símbolo daquela era, que agora piscava sobre mim. Assim como a lã daqueles tapetes. Era o memento das ovelhas com sua pele de astracã atuando como coadjuvantes. Madeira e lã são lembranças de um tempo que não conheci, mas ficou em mim o mimo acolhedor de um lugar, escondido num canto que floresce agora com vigor e êxtase. Esse mesmo que precisava de reparos para torná-lo mais claro e luminoso. Foi dele que recebi a sensação de que pertencera ao rol dos meus sonhos também. Eu sabia de antemão quem o idealizou, conhecia a sua história e ela se entrelaçava com a minha.
Dentro da minha floresta e junto aos meus animais; soube então que havia sido um ovelheiro, guardando e cuidando para que não se perdessem ou fossem roubados; a prova ficou gravada como meu sobrenome. Estava já solidamente instalado na terra.
E fazia o que faço agora nas horas vagas, teço com o fio de lã o tapete com as imagens das minhas lembranças.
Detive-me para olhar as gravuras consegui ler: Macedônia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Croácia, Montenegro, Eslovênia. A descrição escrita no alfabeto latino indicava que provieram da Bósnia ou da Croácia, já que as demais regiões escreviam em cirílico. Casais em trajes típicos de cada país posando antes do início da dança.
Segui para a sala de refeições e encontrei como elemento decorativo duas gravatas com nós duplos presas à parede, com motivos quadriculados da mesma cor, em tons diferentes, e a minha dúvida se desfez. Estava numa casa de croatas.
Ao mesmo tempo ouvi uma conversa contando que o pai do dono da casa era iugoslavo. E assim o meu fio encontrou a sua agulha. E alguém de pais croatas, nascido na Bósnia, apareceu para contar uma história que também foi minha: Ivo Andric.
Ano Intranqüilo é o nome dela e narra a saga do patrão Ievrem que viveu numa cidade provincial da Bósnia, num tempo impreciso. Próspero agiota que dominava o comércio local, com poucas palavras, muitas informações, dinheiro e inteligência. Perdeu o movimento de metade de seu corpo e do andar superior de sua casa comandava seus múltiplos interesses, sentado sobre seu tapete. Entre os serviçais encontrou Gága. Uma ciganinha deixada para trás num êxodo provocado pela fome; recolhida, cuidada e treinada por sua mulher e por sua filha.
Encontrou nela a beleza. Desconhecida para ele até então. Passou a observar a mudança das cores da natureza, saber o nome dos pássaros, plantas e flores. Sabia que tudo se move e esvoaça para longe. Sabia também que tudo era passageiro. E apesar disso tudo, nutriu esperanças - jamais ditas - de retê-la consigo.
Esperanças desfeitas pela requisição do exército imperial, na pessoa do bei, de sua Gága para casamento. Pedido irrecusável, irreversível e imediato. Atrasou o quanto pode, o quanto permitia a sua reputação. Havia aprendido a lição na teoria e na prática; a entregou.
Esclareço: isso tudo se passou comigo, entretanto sem o ingrediente da sabedoria. Não entreguei a minha Gága, tentei prendê-la, sem perguntar da sua vontade. E ela fugiu. Aprendi sem a reflexão, com a experiência; e é esse o signo dos tempos atuais?
Restam pontos a esclarecer nessas dobras do tempo. Quanto mais fino o tecido mais ilegível a dobra. Saio da festa, vou a um barbeiro. Entrei no primeiro que encontro. Encontrei Pedro das Alagoas. Pergunto se é de Palmeira, lembrando de Graciliano, diz-me ser natural de Pão de Açúcar. Pergunto se tem notícias de Corisco. “Tenho” – diz – “mataram o filho dele a mando do Cel. Maria”. “Coisa de mulher”. Depois de tanto tempo, parece que nada mudou. Parece. Olho ao meu redor, um cafarnaum de objetos, dentre os quais uma fotografia com casal idoso sentado num banco, olhando os que passam. Reconheci a Aquitânia pelas suas torres oitavadas e pela flâmula com seu leão rompante. Perguntei de onde veio. “Ah! Um rapaz de Piracicaba passou vendendo. Bonito, né?”

July 11th, 2008 at 11:57 am
Ainda que apressadamente, preciso dizer antes que o tempo passe sua navalha na memória…
Que escrito, este!
Releitura obrigatória.
“E fazia o que faço agora nas horas vagas, teço com o fio de lã o tapete com as imagens das minhas lembranças”.
Evohé, caríssimo.
Beijos
July 11th, 2008 at 10:51 pm
O tempo… Ele tem estado presente nos seus escritos. Ah, essas dobras que nos envelhecem…
Tudo se move e esvoaça para longe, parece ser esse o signo dos tempos atuais, quase impossível reter o que tem vontade própria, mas ainda assim queremos reter, nutrir esperanças, evitar que seja passageiro.
Conto maduro. Muito bonito. Beijos
July 13th, 2008 at 3:30 pm
Que lindo. O tempo é a poesia neste texto. Sutilmente ele se transportou pelo mundo, em meio a personagens fantásticos.
Li em preto e branco e estou aqui, muito emocionada com esse belíssimo texto.
Eu nem sei como expressar o que sinto ao ler você, meu querido.
Acho que pela primeira vez senti que o tempo é que é a vítima das coisas. Pobre tempo… tão sábio e tão só.
Beijão Erwin, bem no seu coração.
July 15th, 2008 at 2:22 pm
É curioso como as pessoas estão sempre procurando uma origem. A vida é insuportável - ao menos a minha é - então as pessoas procuram origens encantadas, alguma memória inexistente onde se apegar. Eu fiz isso por muito tempo, vi meus irmãos fazerem a mesma coisa, “inventarem” memórias e fatos inexistentes sobre família, origem, sonhos de que em algum lugar perdido e inacessível do passado existiram encantamentos e dragões que tornassem o presente mais leve.
Nada existe, claro, é tudo fumaça de sonhos.
O presente continua presente e insuportável.
O tempo não existe e as coisas que existiram não existem mais. Memórias reais ou inventadas, é tudo a mesma coisa. Mostra-se um objeto ou uma fotografia e conta-se uma história como se fosse um conto de fadas, só para fazer o tempo presente ficar mais bonito e justificado.
O presente é feio. A vida é insuportável. E contos de fadas existem apenas para que as pessoas não sintam o peso do fardo que são obrigadas a carregar.
July 15th, 2008 at 3:30 pm
6 de agosto de 1914, no Antologia de Páginas Íntimas.Franz Kafka: “Considerado do ponto de vista da literatura, o meu destino é muito simples. O talento que tenho para descrever a minha vida íntima, vida que se aparenta com o sonho, fez cair tudo mais no acessório, e tudo o mais mirrou horrorosamente, não cessa de mirrrar. Nada mais além disso poderia jamais satisfazer-me. Ora, a energia de que disponho para realizar essa descrição é inteiramente imprevisível, talvez já me tenha deixado definitivamente, talvez ainda me volte e aparecer, se bem que certamente as circunstâncias em que vivo a não favoreçam nada. Estou portanto flutuante, atiro-me sem descanso para o alto da montanha, mas é com dificuldade ali posso ficar um instante.”