Ferreirinho-de-cara-canela
‘Mei que’ de paciência estourada. Saúde debilitada. Física e mental. Procuro abrigo nos sonhos. Junto meus pedaços, tento fazer um roteiro compreensível dos meus dias. Para tanto, deixo suavemente o meu corpo e, assim, relato o presenciado por ele em alguns momentos em que se pensava acordado:
“Fiquei tão feliz ao saber que a sua raiva passou. Agora as coisas vão caminhar. Você verá. Eu não tenho raiva, tenho angústia. Quero ficar mirando o nada. Olhando pro céu. Impossível. Impassível.”
(Não consigo. Não há céu, não há brigadeiro em Sampa. Há cinza. Escuro. Burro. E humanos.
O máximo que a razão conseguiu: Guerra. Morte. Liberalismo. Nomes. Conseguiu denominar.
Homens tornando-se mulheres para ganhar competições e vice-versa. Desde que não seja vice. Banho de gelo para nadar mais rápido. Urrando feito urso para pendurar uma caçoleta no peito nu e sem pêlos. Ou atirá-la no chão por bronze. Tudo tão banal. Triste, repetitivo. Eterno outono melancólico do Rubem Braga.
No Brasil, as estações se instalam no interior do ser. Exteriormente, nunca sabemos quando começa e quando termina uma estação. É sempre verão. As estações estão em nossas almas.)
Ouve uma palestra de um escritor tomado pelo espírito de Kafka. Oitenta anos após a morte de Kafka, sentiu como se fosse ele, encontrou-se inteiro em suas narrativas de deslocado integral, genuíno. Acordou Kafka. Na audiência, alguém disse: “Você é a cara do Donald Sutherland em 1900”. Franz olhou totalmente desconcertado (desconfortável), mas encontrou um resto de fôlego para responder: “Já me disseram que pareço mesmo é com o Kiefer, filho dele”.
Recusou uma aguardente húngara feita de ameixa, oferecida como sinal de boas vindas. “Estou sob efeito de medicamentos”, explicou.
Agora, pediu ao anfitrião que o servisse de um cálice. “O medicamento que se dane, afinal”, disse, embaraçado. Confessou-se atônito. Receber um rótulo assim de pronto. Ele não estava preparado para isso. Foi brutalmente catalogado, incluído num escaninho desconhecido.
Humano, ah, o humano.
Abandono o recinto após ouvir, de forma indisciplinada (mas atenta), o espírito recidivo do infeliz boêmio. Recolho-me. Lembro da história contada, dos momentos em que o espírito de Omar ben Ibrahim, nascido na Pérsia, volta em outro, sete séculos depois, alguém nascido na Inglaterra e chamado Edward Fitzgerald. E faço os meus votos para que isso tenha, novamente, acontecido com estes dois: Joseph K. e o professor Viroso.
Acordo. Procuro pelo meu melhor amigo. Ele não veio hoje. Dei por ele no estrangeiro, ao ouvir um canto diferente. Algo me incomodou durante toda a viagem. Não sabia o que ou quem era. Descobri agora ao voltar à rotina.
Estou enamorado pelo som, voz, canto de um pássaro. Não consigo saber o nome desse meu companheiro diário. Todas as manhãs, desde as quatro. Sempre acorda uma hora depois de mim. Ele vem à mata aqui ao lado e canta. Alto, estentóreo, ritmado. Sei que não é grande. O som é forte, mas agudo, e os meus sentidos indicam um ser miúdo e livre.
Ritmado sem ser monótono. O fragor da araponga, por exemplo, é conhecido como um martelo na bigorna. Mas esse tem melodia, é fulgurante. A seqüência das notas tem esplendor e beleza, liberdade e autonomia.
Sei que não é sabiá, sei que não é bem-te-vi. Tem uma melodia composta por algumas notas, pontual. Não é, tampouco, um João-teneném. Ele não diz ‘bemtereré’. Não é uma maitaca com sua voz coletiva. Ele é único, solo, soprano.
Estou cismado: é um cuco. Folheio um livro das aves que habitam a nossa grande pequena capital. Fotos de todos. Descrições. Separações entre os machos e as fêmeas. Tamanhos. Mas nem todos têm o seu canto gravado ou descrito. Será que com eles acontece como os humanos? A sua voz não importa. Não é suficientemente diferente, autêntica, bela para ser reproduzida ou mencionada. Não tenho chance de ser um ‘pavó’ e seu ‘buuuuu-buuuu’ característico. Talvez um parvo cujo canto seja ouvido só de muito perto?
A leitura me anima. Tenho uma palmeira próxima, e cuco se alimenta do buriti. Não. Infelizmente, o último registro data de noventa e três, no extremo nordeste do estado. Está ameaçado de extinção. Destruíram seu ambiente. Vive em grupos no Bacurizal.
(Lembro de ter ouvido do médico o seguinte: “Afinal de contas, a motilidade e o sexo não são tudo na vida”.)
Se eu fosse um pássaro, estaria reduzido a recolher insetos que passam por perto, como o arapaçu. Sentiria o sabor da vida escoando e, com alguma emoção, presenciaria o momento. Viveria de colecioná-los.
Achei.
“Ferreirinho-de-cara-canela – Poecilotriccus plumbeiceps ou Todirostrum plumbeiceps. Ao contrário do Relógio (Todirostrum cinereum), esta espécie está restrita às áreas de mata, sendo mais abundante em florestas perturbadas. Vive escondida no meio da ramaria, a pouca altura do solo. É de difícil observação. No entanto, sua presença na área é facilmente detectada por meio de sua vocalização, constituída de chamadas curtas e rápidas ‘prru, pruu’. Pode criar filhote de Peixe-frito-voador, uma ave da mesma família dos chupins e que pesa, quando adulto, oito vezes mais do que ele.”
É isso aí. Segura a onda. Estou surfando. Ouvindo Channels and Winds com Philip Glass e Ravi Shankar. Deitado numa banheira olhando detidamente para a imagem da luz sobre a água quente que balança no mesmo ritmo da música.
Desperto cansado de carregar o meu anu preto com oito vezes mais problemas que eu. Confesso que meu amigo poderá ser outro. Fiquei encantado e dominado pela descrição vívida. Não tenho mais tempo disponível para nada. A não ser para encontrá-lo.

August 18th, 2008 at 9:07 pm
Que belo conto, tão sensível quanto você (ou quanto imagino que é). Sonhos são bons abrigos. Não vou falar muito porque não consigo descrever as impressões que me causou. Deu-me vontade de ter escrito junto com você, formar um dueto de vozes distintas, mas sintônicas, harmoniosas.
Beijo grande.
August 18th, 2008 at 10:31 pm
Yeah!
August 22nd, 2008 at 8:19 am
Este me fez ver as cores das palavras e ouvir o canto da ave
procurada.
Ponto para o escritor que consegue transcrever a sensação.
Deliciosas transgressões… Kafka, Sutherland…
Você deve sonhar todos os dias.
Ou não.
Beijos
August 25th, 2008 at 1:10 pm
‘Se eu fosse um pássaro, estaria reduzido a recolher insetos que passam por perto, como o arapaçu. Sentiria o sabor da vida escoando e, com alguma emoção, presenciaria o momento. Viveria de colecioná-los.’
Ao destacar um de tantos momentos de prazer neste texto, sinto-me trapaceando neste conto/reflexão que simplesmente me acertou em cheio. No coração. E veja que coincidência: onde estou, ando enamorada de um Melro e um Coleiro. Cantar a vida como você, e dando mérito às aves, só posso dizer que és, querido Erwin, um gênio com asas infinitas. Você é o pássaro das palavras. E coleciona emoções.
Beijão!
October 27th, 2008 at 3:22 pm
Que texto lindo! Parabéns! Há muito tempo não passeio por suas palavras encantadas. Na verdade, todos os sonhos me encantam.
Bjs