Debuxo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday October 1, 2008

O coração do homem é um abismo!

Giácomo Casanova

A casa se lança sobre mim. Construída num bloco único de concreto, lembra uma casamata, mas não é feia. Transmite uma impressão de leveza contrabalançando o cinza pretérito e presente no concreto.

Sou atendido prontamente e conduzido à presença dele: homem de estatura média, extraordinariamente comum, exceto pelo olhar. Manso. Pacífico. Penetrante. Não sei dizer. Sentamos para conversar. Percebo-o manco.

Apresento-me: Sou Felipe Alcofibras, estudo jornalismo na Faculdade da Zona Oeste há sete anos, estou no final do curso, filho do seu funcionário, o Freitas (lembra dele?), me perdi para chegar aqui, desculpe-me, o ônibus parou longe, faço meu trabalho de conclusão de curso, imaginei-o como uma entrevista com o senhor, afinal, segundo meu pai, o senhor é uma personalidade e tanto.

- O que eu posso dizer a meu respeito que seja do seu interesse de mais alguém?

- Bem, o senhor foi empresário de êxito na região. Teve fama de um grande conquistador, um Casanova. Isso chama a atenção do leitor em geral.

- Tudo isso é bobagem. Seu pai divulgou essa história. Empresário? Tive um negócio para ganhar a vida. Casanova? Não, você está enganado. Espere um pouco, lembro-me de um episódio ocorrido entre nós. Em tempos diferentes, namoramos a mesma moça. Ele deve ter concluído e espalhado muitas coisas por aí, eu não sei. Que posso declarar? Construí esta casa para morar. Planejei tudo, desde o local do terreno, o tamanho das dependências, tudo conforme as minhas necessidades. Fiz o projeto, desenhei a fachada. Levei uma vida para isso.

Dizendo isso, levantou-se e me levou para sua biblioteca. Uma grande sala, forrada com livros em todas as paredes. Não havia espaço para mais nada, além da janela dando para um jardim, um tapete vermelho e o teto azul celeste com dissimuladas nuvens.

- O senhor quer falar sobre a sua carreira?

- Não, obrigado. Não existe nada que eu possa ensinar a ninguém nesse assunto. Peço a você que converse com algumas pessoas amigas e conhecidas. Depois disso, conversaremos para esclareceu suas dúvidas e terminar o seu trabalho. Que tal?

Percebi que não tinha alternativa, apesar do tom e da expressão gentis. Concordei.

-Agradeço sua visita e seu interesse. Encaminharei alguns nomes e endereços. Dê o seu endereço, por favor.

- Claro: felipe.alcofibras@gmail.com.

E encerramos a entrevista.

Quando saíamos, perguntei-lhe:

- E seus livros? Tantos assim, o senhor já leu tudo?

- Os livros são a razão de ser da casa. Tudo foi construído e projetado em torno deles.

Olhou para os lados com orgulho.

-Agradeço sua visita e seu interesse. Um abraço.

Recebi alguns nomes com telefones e endereços e fui à luta. Bolei o seguinte questionário para poupar tempo e trabalho:

“Sou jornalista-estagiário do Popular da Tarde. Escrevo uma matéria sobre o Sr. Seingalt. Como ando sem grana, pretendo entrevistá-lo (a), por e-mail. É possível? O senhor (a) foi-me indicado (a) pelo próprio Sr. Seingalt.

A questão é simples: como o senhor (a) vê o entrevistado? Uma fonte segura (meu pai) me confidenciou que ele é um garanhão. É verdade?

Aqui estão as respostas:

A amiga.

Caro Felipe,

O trabalho de jornalista deveria ser um trabalho sério. Infelizmente, no nosso país, não é. Só num país como o Brasil um estudante de jornalismo resolve fazer seu trabalho de conclusão de curso, que supostamente deveria ser um trabalho de grande relevância em seu curriculum universitário, por email, enviando perguntas para um completo estranho (no caso, eu).

Mas isso condiz com o contexto cultural do país. O brasileiro tem por hábito fazer tudo do jeito mais fácil, menos trabalhoso, mesmo que isso comprometa o resultado. Ninguém no Brasil se preocupa com qualidade. E eu sei que isso não vai fazer diferença na sua nota final porque as faculdades pagas não estão preocupadas com a qualidade do ensino e, sim, em receber o dinheiro dos alunos.

Mas eu digresso.

Eu já dei entrevistas por email, uma delas bastante agradável, sobre chá, que é uma das minhas paixões, assim como gatos. Mas, no caso da sua entrevista, isso não vai acontecer.

Sabe por quê? Porque eu não falo sobre meus amigos a estranhos.  Amizade é uma relação que eu valorizo. Eu sou uma pessoa que não se dá a conhecer facilmente. Eu reservo isso para poucos e considero um privilégio quando uma pessoa resolve me conceder sua amizade.

Eu não vou falar do meu amigo para você porque eu não lhe conheço.

E, com relação ao comentário do senhor seu pai, ao invés de se preocupar tanto com a vida sexual alheia (outro péssimo hábito do contexto cultural brasileiro), ele deveria estar preocupado com o nível de educação que o filho dele está recebendo na faculdade. Porque, em minha opinião, um candidato a jornalista que faz o que você está fazendo está na carreira errada.

Uma ex-namorada.

Ah, parece meio maluco, estranho, ausente, muito dedicado ao próprio mundo. Vivia me trocando pelo trabalho. Ele queria uma relação tranqüila, com uma mulher calma e paciente. Passou um conto para eu ler, acho que de um húngaro (sei lá de onde, daquelas bandas), descrevendo uma cena doméstica de amor. A protagonista, uma mulher de rosto branco, que sempre dizia sim. Concordava e apoiava o seu homem em tudo. Acabei me enchendo e perguntei: É isso que você quer de mim? Sabe o que ele respondeu? Sim; é isso. Que cara de pau. Saí, batendo a porta. Ah, quer saber? Não é isso que eu queria para mim. Escolhi entre dois pretendentes e me casei com o melhor. E fui viver na Alsácia.

A ex-mulher:

Fomos casados por quinze anos, dez dos quais sem filhos. O nosso casamento se deteriorou depois do nosso filho. Ele ficou distante. Cada vez mais. Fizemos terapia de casal. A silente, muda e surda. Consultamos médicos. Um dia descobri uma nota fiscal de um hotel do interior. Perguntei-lhe o que significava isso. Ele não resistiu muito e acabou por me contar que havia estado lá com outra mulher. Brigamos. Ele prometeu que a deixaria e voltaria para mim, desde que eu nunca mais tocasse nesse assunto. Fiz o trato. Depois de alguns meses, não resisti e perguntei chorando, numa noite, se ele continuava com outra pessoa. Ele simplesmente se levantou, trocou de roupa, saiu e nunca mais voltou. Creio que ele sempre me traiu, desde o início do casamento. Definitivamente, ele é um lobo em pele de cordeiro. Não presta.

O amigo:

Cara, nem te conto. É um “galinha”. Sempre com uma mulher diferente. Dizem que é muito bem dotado. Tem um apetite insaciável. Quando conversamos, percebo que seu olhar sempre se dirige para uma mulher bonita. O pessoal do escritório conta que ele comia todas as mulheres que conhecia: funcionárias, clientes, amigas. Não deu moleza para nenhuma. A mulherada me consultava muitas vezes sobre ele, queriam dicas, informações, detalhes. Eu sempre avisei. “Cuidado, o cara é foda. Te cuida! O jogo dele só tem um vencedor: ele.” Mas não adiantava nada.

A primeira namorada

Ele me deixou curiosa e excitada. Mistura de anjo com lobo mau Metrossexual. O gostosão que comia todas. Poderoso, simpático, inteligente, admirável, sutil, meigo, apaixonante, lindo. Causa admiração, devoção, respeito, adoração, paixão, amor. Creio que ele também me admira pelos traços deixados pelo nosso tempo juntos. Sou diferente das pessoas com quem ele convive. Ele gosta de uma maneira segura, sem amarras ou comprometimentos, e tem muita confiança. Ama o suficiente para jamais perder o controle. Não consigo conquistar algo nele o suficiente pra esperar mais do que já tenho dele.

O amigo íntimo.

Estudamos juntos. No meio do curso, viajei para a Suécia, fui trabalhar e conhecer o mundo. Fiquei dois anos fora. Deixei minha namorada para ele tomar conta. Tinha muitos ciúmes dela. Depois de quatro meses, ela me deixou. Eu me senti traído na minha confiança. Achei que ela tinha me deixado para ficar com ele. Fiquei um tempo sem falar com ele. Hoje, somos novamente muito amigos. É confiável e manipulador. Conversa muito. Tem um bico muito fino, muito doce.

O funcionário.

Ele é mais que patrão, é meu amigo. Trabalhei muito tempo com ele. Trabalhador, de poucas palavras. Começava a trabalhar muito cedo e terminava muito tarde. Sério. As pessoas tinham medo dele. Uma vez, estávamos conversando e percebi que ele estava muito preocupado. Pediu uma carona, para ir até a periferia da cidade. Tomei coragem e perguntei que diabo (desculpe a palavra) ele faria lá naquela hora da noite. Ele iria conversar com uma amiga que ameaçava se matar. Respondi-lhe: Que nada, doutor, é bobeira, não existe ameaça de suicídio, existe suicídio. Ele foi mesmo assim. Quando voltou, me deu razão.

Com esse emaranhado de respostas na mão, voltei a fazer contato e marquei data e hora para uma conversa.

Ele não se dignou a ler. Observei – durante o papo e com o rabo do olho – numa mesa redonda ao lado da sua poltrona um volume das Memórias de Giacomo Casanova, um pequeno livro do Cortázar, outro do Peter Handke e três grossos volumes, dois com o nome de Octavio Paz e outro de Musil.

- O senhor não vai ler as respostas?

- Não preciso, meu caro. Nós, quando sob o efeito da cólera ou do amor, não deveríamos dar opiniões. Mas, infelizmente, é exatamente quando submetidos a ambos que ficamos mais predispostos a raciocinar e falar. Mas eu gostaria de lhe mostrar uns versos que estou a ler agora e encerrar nossa entrevista. Persone, Ezra Pound.

“Meditatio

When I carefully consider the curious habits of dogs.

I am compelled to conclude

That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man

I confess, my friend, I am puzzled.”

Fiquei num mato sem cachorro. Ainda bem que existe a internet. E segui, forçando um pouco a mão.

- Posso pedir uma pequena biografia sua para o término do meu TCC?

- Fui namorador, na mesma medida de todo homem, ou da maioria deles. Bastante tímido. Minha aparência canhota contribuiu para isso. Acima de tudo, um apaixonado pela beleza. Atraído pelas mulheres. Um amante da ordem natural das coisas. Acima de tudo, um anarquista com uma natureza de esponja. Ao me aproximar de cada pessoa, ocorria uma fusão. Por osmose. Conseguia tirar dela tudo que encontrava apoio em mim mesmo. Sentimentos. Reações. Respostas. Experiências. Conhecida e desconhecidas. Eu a vivia a pessoa como ela mesma, como se fôssemos uma única pessoa, minha personalidade se fundia na dela. Perdia-me. Eu não precisava mais ser uma pessoa. Não precisava defender minhas próprias qualidades. Ansioso por conhecer o mundo, para extrair dele uma palavra resultante dessa fusão, iluminadora e fundadora de uma ordem anárquica e contraditória. Queria realmente ser poeta. Para cantar em palavras essa experiência. Infelizmente, a natureza não me criou com talento para o ofício. O anelo de nomear realizado unicamente na poesia. Uma poesia sem compromisso com autor, só com o som. Compromissada apenas com o humano. A minha singular experiência não me bastou para fazer-me poeta. E isso é indispensável. Apenas consegui um prazer nas palavras, algumas belas, num estertor romântico ultrapassado. Apenas incentivei a vaidade alheia. Cedendo em todos os pontos, entreguei tudo que tinha. Quando me foi pedido o terceiro braço, recusei. Perdi ou decepcionei aquele que se acostumara com as “concessões”. Encontrado o primeiro sentimento sem correspondência, ocorria uma fissura. O um se transformara em dois, isolados. Sós. Ficavam apenas os corpos e o hábito. Escrevo as minhas memórias, esparsas, soltas. Não encontrei uma resposta duradoura de alguém que se fundisse ou se complementasse naturalmente. Apenas esboços momentâneos. Sendo assim, relato a minha única. Uma experiência fadada e fanada.

- Mas o senhor sempre esteve acompanhado de mulheres diferentes, foi isso que ouvi?

- É verdade, é isso que eu acabei de dizer. Conheci muitas delas. Conversava e nunca me relacionei com nenhuma com profundidade. Tudo se passava num mundo absolutamente material. Trocas de carinhos. Desejo. Todas as palavras que vinham, voltavam refeitas e lustradas por mim. Enquanto havia matéria, a troca durou, a relação perdurou. Depois, a desconfiança. Depois, o silêncio. Falência, afinal. Fim: abandono.

Tomei o ônibus para casa. Passei defronte ao MacDonald’s. Em meio ao mar de pessoas, desci. Observei um homem caminhando pelo estacionamento, o andar trôpego. Foi caindo, caindo, fazendo uma espécie de estrela fanada ou cambalhota falha, resultando num tombo. Costas no chão. Duas meninas – no máximo com dezesseis ou dezessete anos, cada – pararam, tentaram inutilmente levantá-lo do chão. Compraram um café. Sentaram na guia da calçada e deram para que ele tomasse aos poucos, até se levantar.

5 Responses to “Debuxo”

  1. Wanessa says:

    Nossa. É impressionante o que você escreve por aqui. Simplesmente não dá para parar de ler! Pena que se eu não parar, é meu tcc que vai ficar empacadoo.rs
    grande abraço!

  2. Daisy says:

    Oi querido,
    Estou numa lan. Crianças zoam em volta. Volto amanhã com calma. Boa noite,
    Beijo

  3. Daisy says:

    Cara, isso é muito bom. Estou zonza, li duas vezes Erwin. Lembra quando te pedi consultoria sobre um texto seu? Pois é, gostaria que me desse o prazer de um papinho via e-mail. Excelente texto. First line. Aguardo.
    Um beijo, um abraço e tudo de bom Erwin! :)

    ps – Preciso saber mais sobre Casanova.

  4. Elfen_Queen says:

    Interessantíssimo, como sempre!

    Isso me fez lembrar uma entrevista que dei por email para uma estudante de jornalismo, veja só!
    Bem, ela precisava de uma psicóloga para responder perguntas sobre doenças psicossomáticas para sua matéria para o jornal da faculdade. Respondi a umas 5 questões, com muita seriedade, sem fazer consultas, apenas com meus conhecimentos. Fiz um apanhado histórico, expliquei sobre as diferentes correntes psicológicas porque, como muitos não sabem, há várias psicologias e eu não queria que as respostas ficassem muito restritas a minha linha. E modéstia parte as respostas ficaram muito boas, porque quando faço algo com interesse, faço com prazer. Ela, inclusive, revelou que sua professora gostou tanto que disse que queria estudar psicologia.
    Bem, quando ela mandou o resultado da matéria fiquei desapontada (e pensei o que meus antigos professores iriam pensar sobre mim ao ler aquilo). Minhas respostas foram hiper-resumidas e misturadas com outras informações. Ela me explicou que tinha pouco espaço para a matéria e por isso teve que resumir.
    Conclusão: toda minha linha de raciocíno científico ficou perdida na entrevista e ela usou apenas o senso comum (que é o que todos procuram com esse tipo de assunto).
    Com isso pude entender o porquê das entrevistas de psicólogos para revistas e sites não específicos são tão superficiais. Coitados, devem passar pelo mesmo que eu passei.

    Mais tarde ela mandou mais umas 10 questões sobre auto-estima para contribuir para um livro que ia escrever para o TCC acho. Não respondi.
    Uma porque não tenho muita base para falar sobre isso e teria que estudar mais algumas correntes psicológicas das quais não tenho profundo conhecimento e outra porque não coloco mais meu nome nem meu registro nessas coisas.

  5. Eduardo says:

    Perfeita a frase do Casanova.

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