Um banal pardal

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday June 27, 2008

Acompanhou o almoço, sentou-se como um cão e pediu de comer. Apesar de não estar habituado a essa forma de pedido, dei-lhe um pedaço minúsculo de miolo de pão, que foi recolhido; imediatamente o identifiquei como fêmea, por atravessar voando à meia altura no salão de refeições do hotel onde nós estávamos ir até o canto oposto e no chão, local do seu ninho e dividir o pedaço entre os filhos.

Enquanto escrevo, creio necessário defender-me das eventuais acusações de machismo; desculpo-me perante meus iguais, por não conhecer nada dos costumes desses pássaros e em minha mente existencialista, os que alimentam os filhotes são as fêmeas. Também devo mesmo desculpar-me com os próprios pássaros pela minha simplista visão antropomórfica.

Mas fiquei absolutamente feliz, sentia já falta do canto matinal do bem-te-vi que me acompanha em todos os meus dias; não sabia identificar o canto daquele pássaro francês, melodioso é verdade, mas que chamava tanto a minha atenção que não conseguia ler, a música me distraía. Cheguei à grande cidade – Paris - a presença daquele bichinho, me lembrou o canto do outro.

Por nossas bandas, ele não é bem cotado, sempre ouvi relatos pejorativos a respeito do pardejo, conta-se também que na China se promoveu um massacre deles, com varas flexíveis de bambu agitadas em conjunto pelos habitantes; sei também que são comidos tostadinhos no sudoeste de algum continente.

Ele, ali, me lembrou de coisas amigas e próximas. Principalmente porque consegui ver no olhar dele, um olhar pidão. De qualquer forma fiquei também desconfiado desse olhar, tudo poderia ser uma tremenda coincidência; e se tudo fosse obra da minha imaginação?

Fiz o gesto novamente de jogar algo no chão, ele pensou que fosse o pão, mas eu havia jogado uma semente do gergelim que acompanhava o pão. Ele procurou inutilmente, por vários lugares, até desistir e me interrogar novamente. Dei-lhe outro e mais outro.

Até que fui aconselhado a não fazer mais isso, pelos problemas que lhe causaria. De excesso de açúcar, dificuldades na digestão, e do desequilíbrio em sua dieta de frutas e sementes.

A argumentação de que ele não encontrara as sementes que eu tinha disponível, e colocado à disposição, não foi suficiente para serenar os ânimos. Ele foi embora durante essa distração. Imagino que tenha perdido a paciência.

Deixei de lado o amigo e pedi uma salada para comer. Mais do que nunca devo ser vegetariano. As emoções que possuímos são compartilhadas ou transmitidas também pelos animais. Cada espécie deles nos ensina alguma coisa.

A ordem que presumivelmente nos coloca numa posição central deveria ter morrido junto com Lineu. Um livro de História Natural é algo tão fora do comum para os urbanos, como ver uma simples e honesta mula excitada – admirada e cantada por Elias Canetti – ou um mísero passerídeo.

Dividi minhas dúvidas com o amigo. Longe de ficar atônito, surpreso, me disse que em Montmartre, perto da Basílica de ‘Sacré Cœur’, viu um senhor com um saquinho de pão numa mão e na outra um ‘moineau’. Por uma parte de um Euro ele fornecia o pão para que o turista o alimentasse. Se a fração fosse muito pequena, o pedaço de pão seria também proporcionalmente menor. Depois de uma reclamação de um turista, pelo pedaço recebido, não se acanhou de dizer:

- Pelo que você me deu, estou sendo muito generoso.

Parece que os sentimentos que me atravessaram não são originais. Os pardais estão domesticados na França. Talvez também o estejam no Brasil. Vou consultar e descubro o seu nome científico: “Passer domesticus”. E com isso o meu ânimo por ele, se revelou atrasado no tempo e no espaço.

Voltei à minha salada e expliquei à pessoa que sou vegetariano. Esperando que com essa definição tudo estivesse resolvido e poderia ficar em paz.

A resposta da dedicada e sorridente moça anotando o meu pedido foi a seguinte:

- Bem, o senhor é “Végétalien” ou “Végétarien?”

- Como assim?

- ‘Végetalien’ é aquele que não come produtos de origem animal, incluindo o mel; e ‘Végétarien’ é aquele que não come carne de animais de qualquer espécie, contudo consome produtos derivados.

- Ah, sim. Eu compreendi, quero apenas uma salada com folhas verdes.

- Tenho essa aqui: com cebolas, tomates, funcho e repolho.

Eu que pensava que as palavras facilitassem tudo. Acabei por me acomodar com a minha falta de folhas verdes naquele dia. Dei uma entrada errada numa conversa, aprendi a diferença entre os vegetarianos, e não consegui comer a salada que eu queria.

Walser

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday April 28, 2008

Não é comum escrever pedindo notícias suas. E não o faço agora. Escrevo para pedir-lhe que na próxima folga visite Berlim e investigue uma fortaleza remanescente da segunda grande guerra, na região norte, a antiga Berlim Oriental. Afinal de contas você está na Eslavônia, não tem nenhum problema com o idioma, e você, meu irmão, está infinitamente mais perto do que eu.

Ontem assisti um documentário mostrando as colinas da cidade. Aquela que costumava ser plana e com solo arenoso, agora tem várias colinas espalhadas. Fiquei intrigado com isso. Aos poucos fui informado que após o final da guerra os aliados após destruírem oitenta por cento da cidade, tiveram problemas com o entulho. Milhões de metros cúbicos de areia, cimento, argila, ferro em pequenos pedaços e blocos tinham que desaparecer. O que fazer com isso? Naquelas quantidades estratosféricas?

Tiveram uma idéia, a mesma que tínhamos quando pequenos, levar a sujeira para debaixo do tapete. Assim amontoaram os escombros em terrenos baldios e fizeram um monte; o cobriram de uma grande quantidade de terra. Sobre a terra plantaram árvores e plantas. Aí está, depois de algum tempo, tiveram uma belo cerro sobre a qual puderam contemplar a sua obra. A de reconstrução, quero dizer.

Entretanto na parte oriental da cidade existia uma fortaleza construída em local estratégico, para observar os movimentos dos inimigos quando viessem pelo oriente. Ela foi construída com tais requintes de arquitetura e engenharia para ser indestrutível. Possuía uma quantidade de ferro e cimento simplesmente inimaginável. Com capacidade para resistir a qualquer intempérie. Mesmo uma guerra.

Com o desenrolar dos acontecimentos, o forte foi também transformado em escombros?

Não. Esse não. Apenas em parte. Os aliados tentaram destruir de todas as maneiras possíveis a construção. Gastaram toneladas de TNT. Nada. Atingiram a parte sul, puseram-na no chão. Pararam para refletir e concluíram que o esforço para demolição não seria compatível com o resultado. E, para evitar problemas com desmoronamentos posteriores, deixaram o remanescente em pé, cobrindo o restante. O resultado foi um morro atrás de um portal de entrada, parcialmente arruinado.

Os repórteres conseguiram entrar, encontraram sapatos, cenouras em lata, passearam por alguns corredores, concluíram que estavam dentro de uma pequena cidade onde habitavam cerca de três mil habitantes. E prometeram voltar, para saber dos seus segredos. Previram que daqui dez anos, teríamos muito mais notícias sobre a construção e seus segredos.

Esta noite não consegui dormir. Fiquei angustiado com essa notícia. E com a imagem que não mais saiu da minha mente.

O pensamento de uma era - a arquitetura física e mental - foi completamente transformado em ruínas; em pequenos pedaços e enterrados? Cobertos para que aprendêssemos a lição.

A inteligência que construiu essa fortificação conseguiu transformá-la, pelo menos em parte, como idéia indestrutível? Não conseguiremos jamais destruí-la? Apesar dos avisos, indenizações, livros, filmes e novelas?

Verifique se isso tudo é verdade, por favor, ou se os fatos não estão deturpados.

Por aqui – o deserto de hábito. Não temos ruínas. Mas, tive duas boas, aliás, ótimas notícias. Foi publicado “De verdade” do Sándor Márai e amanhã pego “Austerlitz” do W.G.Sebald.

Abraços,

Robert.

Cobrador

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday April 7, 2008

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Solitário, constantemente passeava com Jéssica, que conhecera na entrada de um salão de beleza. Loura com algumas raízes, busto empinado e vulgarmente agressivo, alta, pernas longas, rosto simétrico, estudante de direito. As conversas eram sempre de coisas sem importância. Ela querendo saber mais, ele querendo saber menos. Quando ela insistia em sair do carro e passear um pouco a pé, ele escolhia um shopping distante e pouco freqüentado. O que ele gostava mesmo era da segurança do carro, passeavam pelas ruas do bairro onde ela morava. Faziam ou fazia um sexo oral e seguia para casa dormir. Feliz, satisfeito por encontrar uma competência silenciosa como essa, resumida num par de lábios cheios, gulosos e mendazes.

Como solitário e herdeiro, passava os dias contando seus interesses, procurando melhores oportunidades de investimento. Nessas andanças conheceu um rapaz ruivo, cabelo curto e espetado; vestido sempre com calça de brim e camisa xadrez, botas com bicos extremamente finos e prateados denunciado sua chegada, uma síntese: vaqueiro urbano. Barba sempre por fazer, dava um aspecto enevoado ao seu rosto fino comprido, os seus traços pareciam espremidos dentro daquele espaço. Cobrava. Fazia cobrança de faturas para seus clientes, e apresentou seus serviços. Máicon.

Recebeu um telefonema de Zuleika, pedindo ajuda. Um imóvel de seu tio – um tio muito querido, no fim da vida, e sem outros herdeiros - estava ocupado por estranhos. Ela não sabia como resolver, e preocupada com isso, lembrou-se de ligar.  Ficara viúva muito cedo, mãe de único filho, sem nenhuma prática comercial. Gabava-se de ter boas relações e de não ter jamais jogado nenhum tostão no lixo. Fazia todas as suas viagens, gastando um mínimo e aproveitando o máximo. Conhecia cinqüenta e seis países do mundo, só fazia compras no exterior, onde houvesse magazine com itens XG no estoque; em síntese, era impossível comprar mais barato do que ela fazia. E, mesmo com todas essas habilidades, não tinha a menor idéia de como fazer para evacuar um imóvel ocupado por alienígenas.

(Que saco. - Pensou. Apenas pensou. E se lembrou do Máicon. )

- Vou tentar resolver, falarei com um conhecido. Quem sabe ele resolve a questão. Me dá o endereço.

Conversou com o vaqueiro. E combinaram de passar no local para ver o que poderia ser feito. Assim foi feito. Encontraram o imóvel com a aparência absolutamente normal, precisando de uma pintura. Com suas colunas e mansardas, lembrava tempos de opulência. Desceram e caminharam, deram uma volta, não ouviram nada. Pegaram a chave e entraram. Uma arma entrou na história. Foi empunhada, fosca, assustadora. Ao entrarem, encontraram alguns mendigos deitados no chão, naquela mistura de cobertores, roupas, trapos e odores que lembravam um ninho de ratos.

- Vamu sainu!! Agora, já!! – disse o vaqueiro, colocando a arma no cós da calça.

Ouviu-se um resmungo qualquer. Não chegava a ser uma resistência. Espanto? Medo? Sonolência? 

Identificando-se como policial; imediatamente aplicou uma surra memorável em todos os que estavam lá. Chutou e bateu; um deles não conseguindo se levantar a contento, apanhava, caia no chão e lá ia ele novamente, batia de novo até que ficasse de pé. Afinal, todos em pé, foram conduzidos para fora aos pontapés. Enquanto não os jogou a todos no olho da rua, não sossegou. O fato de não haver resistência deveria acalmá-lo, entretanto, a fúria redobrou, procurava um clima de desvario, descontrole, loucura.

Com todos do lado de fora rodou a chave na fechadura, colocou tábuas com pregos sem cabeça, em todas as portas externas, tiradas do porta-malas e deu por encerrado o seu trabalho.

Entraram no carro, ele e o seu acompanhante, e ouviu dele, entre feliz e assustado.

-Escute. Tenho alguns débitos vencidos, e quero saber quanto você cobra para recebê-los para mim?

- Trinta por cento e despesas. - respondeu - Esse serviço, fica como demo e não vou te cobrar nada - amizade.

O avesso

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday April 3, 2008

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Depois de haver lido uma, duas ou três vezes a folha desamassada, papel com um título “François Villon”, percebi que no verso existia um manuscrito à lápis, e creio – a letra é horrível – que diz: 

“ Saquei uma foto de uma cena na vida da minha cidade. Estamos marcados pelo desamor. Uma cena de amor é, geralmente, desprezada. Presenciei uma dessa, mas ela foi vivida por um casal pobre, numa rua da cidade. Uma cena imprevista hoje em dia; uma mulher que escolhe um catador de papel para seu marido, e não se importa de ser carregada por ele e deixada num ponto de ônibus.

Os pobres são esquecidos e desprezados por viverem ainda na Idade Média. E vivem mesmo, se considerarmos que não sabem nada, quase nada, o suficiente para comer, às vezes. Mas sentem. Algo que nós outros – os que sabem - temos saudades; fiquei maravilhado.

Logo em seguida encontro uma pessoa que me pede uma esmola. Jamais fiz isso porque eu sei que é um incentivo à vagabundagem. Mas ele é velho, fala bem, parece um poeta, e, por fim, vende sua alma com um elogio. Sabia que tinha um quinto de chance de acertar, assim mesmo relatou um resultado do futebol. Devia estar desesperado.

Reconheci-me nessa pessoa, tive amor por ela – ou por mim – e dei algum dinheiro para aliviar minha consciência e a sua fome. Deixei de saber por um instante. Senti que estava mais vivo que antes.

E lembrei do poeta Villon que viveu na Idade Média, foi pobre, estudou, soube muito, até não conseguir suportar o lugar onde viveu e desapareceu sem deixar vestígio.

E por alguns instantes revivi a Idade dele na primeira cena, o reencontrei na segunda e tentei deixar esse instantâneo gravado.Por saber que tudo isso é uma bobagem sem tamanho, amassei e joguei fora.” 

Senti que precisava deixar isso registrado. 

Frágil

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday March 31, 2008

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Acabara de ler Petrônio, Boccaccio e Casanova; o seu pensamento passeou ao longo de dois mil anos; estava contente por conhecer uma cena do império Romano, outra dos anos da peste, e uma última de Veneza. Todas na meridional Itália. Todas ensinando que é bom viver o seu dia. Os homens sabem o bom senso.

Recebeu uma foto da Via Láctea, mostrando o planeta Terra como um pequeno ponto, assinalado por uma imensa marca circular, a imagem também mostrava o tamanho relativo dos planetas desse sistema solar. Copérnico sabia.

Leu um artigo científico sobre as épocas glaciais e soube também que é impossível determinar quando será a próxima. Os cientistas sabem das que já passaram; e a temperatura média de cada uma delas. Groenlândia e as geleiras também sabem.

Saiu do café, acendeu um cigarro, queimou a garganta com a quantidade de fumaça que tragou, olhou-se e descobriu a identidade cores entre a sua roupa e o prédio ao lado. Sabia que não conseguiria suportar o frio, sabia também que não conseguiria suportar o calor do copo em suas desabrigadas mãos.Afinal de contas sabia de tudo que lhe interessava.

Ouviu “O Fortuna, velut luna” da Carmina Burana, tocada ao longe.

Saber não é nada.

Tudo é orgulho, apego e vaidade.Apagou o cigarro, deixou o copo no chão. Andou circulando por todas as ruas mais ou menos sem direção, até encontrar sua casa.

Deitou para dormir.

Adaptada

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday February 22, 2008

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Faz muito frio. Inverno. Margem do Mediterrâneo ou Mare Nostrum ou Orbis Tertius. Ainda assim algo insondável me chamou para o mar. Tive tempo para colocar algo sobre o corpo e desci.

Havia acabado de ler “Paris não tem fim”. As suas frases, reflexões, aquele despedaçar do homem refletido no escritor e sua obra, não saiam da minha cabeça. Encontrar um motivo que não fosse aleatório para explicar o ofício de escritor restou como um espectro.

Jamais poderia ser um deles. Estava do outro lado da cerca das descrições. Não convivi com pessoas que escreviam, liam ou se interessavam de qualquer daquelas formas de cultura. Tudo girava em torno da praticidade das coisas. “Para quê serve isso, menina?” “O quê você vai ganhar com isso?” “Você fica perdendo tempo com coisas sem uso, depois se arrependerá. Vai ver só”.

Não consegui viajar. Não me interessei por isso. Qual a graça? Ninguém consegue escrever sem viajar disse um húngaro antiquado e romântico e amigo. Nossa amizade se coloriu de um sexo que apesar de violento e interesseiro abriu-me outras portas, enquanto eu abria minhas pernas. Aprendi que a generosidade sem interesse não existe. E viajei com ele, sem sair do lugar.

Outro paradigma na vida dos escritores: uma negra miséria material, uma vida de necessidades não atendidas. Trabalhar por um maço de cigarros, viver num sótão e fazer do almoço a sua janta. Da sua janta o café da manhã e o almoço dos dias seguintes. Escrever um artigo com um toco de lápis para conseguir uns trocados em Cristiânia, depois de três dias sem por nada na boca e vê-lo recusado por inadptado ao tema. Vender jornais num dia, ser despachante no outro, colher uvas, carregar caixas, trabalhar como garçonete, prostituir-se na Conchinchina para ajudar a mãe e ver a sua ajuda ir parar no bolso do irmão drogado.

Desde cedo trabalhei como vendedora, num único lugar; ganhei o suficiente para viver. Sempre teve o suficiente para o que necessitasse. Nunca precisei de muita coisa. Agora, namorando Xip, pensei em fazer o meu terceiro casamento.  Eu pensava se devia conhecer sua família. Já conhecia famílias suficientemente para sabê-las iguais. Talvez aquela, tivesse outro tipo de infelicidade. Mas, no mais, iguais. Monotonamente iguais.

Entrei em meus casamentos como quem vai a uma festa. Aliás, ele geralmente começa com uma. Percebi que essa instituição esqueceu-se de prever que as pessoas continuam em movimento; e ela só é para paralíticos. Queria passar toda minha vida descobrindo, aos poucos, o meu parceiro. Mas, decorridos alguns meses já havia visto tudo. Perdia o interesse. O que fazer com o sólido papel que unia nossos tênues sentidos?  Caía fora. O primeiro com uma tremenda discussão, o segundo com um tépido suspiro como já disse o poeta ao descrever o fim do mundo.

Xip?

Gostaria muito de continuar sim, com ele. Viajei pela primeira vez por vinte dias seguidos. Nada para fazer além de ver paisagens. Ler. Amar. Estávamos passando com metódica paz o período de encantamento.

Sabia não ser escritora; não conseguia acreditar que teria nele material para continuar apaixonada ao longo dos tempos; não conseguia explicar nada que me rodeava, vivia num quieto desespero sem nenhuma válvula de escape, sempre me senti ultrajada, usada e abusada em um determinado ponto das minhas relações e das minhas situações.

E foi com esses pensamentos em minha cabeça, que me abaixei e toquei a água fria daquele mar, mar de onde partiu meus ancestrais e que me chamou como se eu fosse uma espécie de sacerdotisa.

Aquele meu toque me fez entrar dentro dele, com toda a minha disposição, desconhecida até aquele momento. Sofri um aperto de frio no corpo todo. Abraço. Aquele frio pulsou na minha mente e acelerou o batimento do meu coração. Entrei até sentir que não tinha mais pé. Mexi-me para conseguir algum calor e voltei. Não agüentava mais.

Saí e o encontrei, me esperando com uma toalha. Cobriu-me toda, esfregou-me, queria saber se precisávamos ir ao pronto socorro. Preocupado comigo, coitado.

“Por que fez isso?”

“Descobri que existem dois tipos de pessoas: as adaptadas e as inadaptadas. Faço parte dessas últimas”.

Olhamo-nos com dois olhares; um de ternura e outro de perplexidade. A lua ainda aparecia no pálido céu azul e distante sem nuvens. E foi dela que recebi o sinal para comprar meu bilhete de volta.

 

Miranda

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday January 28, 2008

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Caminhou até encontrar um banco. Estava muito frio, um lugar inóspito, alto, nevado. Estava com dor de cabeça. Ficou defronte uma cadeia de picos uniformes, obra de mão desconhecida. Meditava naquele silêncio propício. Até ouvir uns passos, botas que esmagavam os cascalhos ou faziam ruídos como se. Avistou um vulto muito vestido, e no qual se destacava uma faixa escura no rosto, na altura dos olhos.

O vulto se aproximou até invadir seu espaço aéreo e pedir-lhe licença para sentar. Tratava-se de uma mulher, da sua terra, voltando de uma excursão à Cordilheira Blanca no Peru.

Interrompeu seu nada, tão logo observou o movimento de quem tira os óculos. Procurou pelos olhos dela. Sem aquele aparato, que lhe dava um ar agressivo e selvagem, viu um par de meigas castanhas arredondadas e indefesas.

Conversaram amenidades e tudo se tornou ameno, morno, calmo e sossegado. Miranda gostava de praticar alpinismo, e tinha freqüentado desde o Himalaia, passando pelos Alpes, Montanhas Rochosas, México e finalmente, Callejón de Huaylas.

Ambos trabalhavam na mesma grande cidade. Integrados no sistema dominante, naquele misto de capitalismo selvagem com assistencialismo jeca, cujo resultado poderia ser descrito como um iogurte social.

Agora ambos estavam nos Andes da Patagônia. Uma espécie de parada de descanso. Depois daquele primeiro encontro, marcaram sem perceber mais dois no mesmo lugar. E continuaram a conversar. No segundo se conversou sobre as tendências do mundo, sobre a finalidade da vida, do percurso do homem e mais particularmente, do percurso deles mesmos. Miranda formou-se e especializou-se em sociologia. Trabalhava chefiando o departamento de marketing de grandes companhias. Tinha essa facilidade de trabalhar com monturos. Disse que toda má idéia acaba se transformando em sucesso de publicidade. Havia acabado de sair da última. Estava sem emprego.

João se apresentou formalmente, com dupla graduação em administração de empresas e direito. Era vendedor de automóveis. Seminovos. Hoje nada pode ser usado ou velho.No terceiro fizeram apenas confissões. Ela começou: recentemente terminara com seu caso com um suíço.  Namoro rápido, como todos os demais. Ela poderia ser uma versão feminina de Giácomo Casanova, solitariamente acompanhada sempre. Resgatava o homem de sua solidão, dando-lhe cor e companhia. Ela, contudo, continuava vazia como um bambu.

Ele percebeu que seus olhos estavam brilhando mais do que. A conversa parava no momento em que uma lágrima insistia em aparecer.

Algo se arranjou lá por dentro deles; e ela continuou:

- Eu fui seqüestrada quando criança, com nove anos. Meu pai trabalhava como gerente de banco e minha mãe, como professora. Sempre insistiram para que eu jamais conversasse com estranhos. Insistiram muito nesse ponto. E ficaram tranqüilos. Um dia fui fazer compras na esquina de casa. Um pão. E ao sair dali encontrei um moço que me perguntou do pai, perguntou da tia e da mãe. Disse mais. Que possuía uma escola de dança e que poderia fazer um teste comigo, caso eu quisesse. Esse era o meu sonho, tudo que desejava ouvir. Entrei no carro. Passamos primeiro num grande mercado, na garagem dele. Observei que porta do carona estava trancada. Senti um temor inquieto. Ele passou as mãos na minha perna, dizendo que eram bonitas e seriam perfeitas para uma apresentação. O antigo temor se tornou um terror alucinante e desandei a gritar. Apareceu alguém, alertado pelos meus gritos para saber o que estava acontecendo, e me salvou; o seqüestrador foi obrigado a abrir a porta. Saí correndo pra minha casa, e só consegui falar alguma coisa, depois de três dias. Desde aquele carro até a minha cama o medo me dominou, completo e inteiro;  mostrava-se na minha incontinência. Passei a ter nele um parceiro constante por toda minha vida. Depois de narrar o acontecido, meu pai pediu-me que voltasse à rua, com o mesmo traje, para pegar o infeliz. Assim fiz, tendo no rabo do olho, a imagem dele, com uma arma no bolso. Não sei bem se fui protegida, ou lançada novamente naquela jaula.

João e Miranda se abraçaram e trocaram um abraço e soluços convulsivos.Ele não conseguiu fazer ou falar mais nada. Tudo perdera a importância e o significado. 

Sou

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday December 20, 2007

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“Sou… Como madeira que queima. A madeira queima, mas não tem consciência de ter sido tronco intacto, não tem como saber o que foi e quando começou a pegar fogo. E assim ela se consome e basta. Vivo em pura perda…Eu não sou como homem acabado, mas gostaria de me tornar. Fazer de sua fúria bibliomaníaca a minha possibilidade de fuga não conventual do mundo. Construir-me um mundo todo meu.”. Umberto Eco. 

Passei ao longo da vida enredado com as cousas, lousas e mariposas. Essa vontade de construir um mundo surpreendeu-me, como uma explicação de um terapeuta.Será que é isso que faz alguém que lê ou que escreve. Sonhar e depois construiu um mundo todo seu?Num cantinho da memória deixei-o guardado. Um guardado matuto, desconfiado. Tudo o que o homem põe a mão se corrompe; lembrei da deusa Bona Dea que cuidava da fertilidade, da mulher e da cura, que acabou tendo suas sacerdotisas sacrificadas em nome de não sei qual ideal. Também da deusa Puta, que presidia as colheitas e quem diria, acabou se prostituindo lá no Irajá.

O tempo passou e acabei por falar cada vez menos, entender menos, conhecer o medo e a covardia, descobrindo suas manifestações nas mais variadas formas.E que todas as explicações que dava, tudo o que observava, eram um mecanismo que me afastava de mim próprio. A fuga de si mesmo.

Ontem conheci o avesso do pensamento de Gustave Flaubert: “O artista deve estar em sua obra como Deus na criação, invisível e todo-poderoso.” “Acho inclusive que um romancista não tem o direito de exprimir sua opinião sobre o que quer que seja. Teria o Bom Deus alguma vez emitido uma opinião?”

Tiro agora o guardado da memória e o apresento inteiro e com papel de presente, Esse exílio criativo ainda procurava dominar o mundo através da palavra, vence a corrupção do comportamento pela perfeição imutável da letra.

Talvez seja esse o motivo pelo qual os repórteres teimam em pedir a opinião dos escritores a respeito de tudo. Sempre vivemos num mundo de trevas, quando caçávamos olhávamos para o céu, e dele é que vinha a resposta. Depois quando plantávamos, olhávamos para a terra, e dela vinha a resposta. Todas falhas.  Hoje olhamos para nós mesmos, como a máxima criação da natureza, e dessa criação sairá a resposta. Os deuses de hoje são os escritores. A grande maioria esqueceu da lição do mestre. E dão palpites. Pena.

Não tenho chancela de escritor, falo menos, entendo menos, não me interesso por nada, estou muito ocupado em me entender. Desocupado de saber o porquê das coisas. Despreocupado de entender alguma coisa. Entretanto conheço mais sentimentos interiores e consigo ficar feliz e confortável. Sem ser refém de nenhuma correria. Apenas essa dos dedos sobre um teclado (que nem sempre obedece).  Uma forma de agradecimento:“I never felt at Home – Below –

And in the Handsome Skies

I shall not fell at Home – I know –

I don’t like Paradise –

Emily Dickinson 

Ártico e antártico

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday December 13, 2007

 

 

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Desço. Estou livre. Logo adiante encontro um menino perdido. Alto, muito vestido, estupidamente vestido para uma ocasião como essa, que não era ocasião alguma. Coroado por um boné, escondendo o seu rosto, levava uma mochila. Uma barba rala, inversamente proporcional à sua força.

Apenas o vazio. O vento e uma estrada apontando para o norte ou para o sul. Estou indeciso.

Aproximamos-nos simultaneamente. Sentamos, olhando ora para um lado, ora para outro. Muito tempo depois:

- O que você faz? – pergunto.

- Sou filho, sou sobrinho, sou namorado, sou outro.

- Ah… .

- Tenho vinte e três anos, moro com meus pais. Estudo para agradá-los, trabalho para agradar meu tio, faço dieta para agradar minha namorada.

- E o que você está fazendo aqui?

- Caiu a ficha. Tenho casa e comida. Em pagamento perco meu eu. Pelo medo do desconhecido, o conhecido se deita sobre mim, me violenta silenciosa e suavemente. Resolvi cair fora. Agradar a mim.

- A sua opção não é muito radical?

- Fiz duas tentativas frustradas, dentro do sistema, a primeira simulando um curso de inglês. Fiquei numa outra casa, adotei uma outra família, e me senti inteiramente familiarizado. Passei a maior parte do tempo andando. Vagando, sem gerar nenhuma expectativa. Sem ser expectativa de ninguém. Gostei do ‘fish and chips’. A segunda foi uma viagem a negócios de um amigo. Apesar de não ter negócio nenhum, fui mesmo assim, no vácuo, aproveitando a vaga dum hotel pago pela companhia onde ele trabalha. Voltei à casa familiar. A família temporária se mudou os vizinhos não sabem aonde. Tudo é transitório. Eles não têm medo. Não esse. Aprendi, pô.

- E você? Retrucou com aquele ar cansado e imperativo do jovem submetido à interrogatório.

- A minha opção é pegar a minha carteira de sete léguas e viver a aventura descrita nos livros que li, ao longo da vida. Buscar o vazio, após lutar pelas minhas idéias, após combater os bons combates, após perder, após rir e chorar. Entre a sua jornada e a minha existem vinte e nove invernos. Não pretendo mais voltar. Já vi de tudo. Nunca foi homem de ação. Vivi para me defender. Levei tanto tempo para descobrir a minha vocação, a sua geração é muito mais rápida. É digital. Sim ou não. Sou analógico. Criei um mundo que ainda está inexplorado.

- E pra que lado você vai? Falou abrindo a mochila.

- Vou para o sul, e você?

- Norte. Quero conhecer a vida das baleias Narval e sei que vivem no Ártico, lá será minha ilha. Falou simultaneamente ao ato de esvaziar o conteúdo dela.

O homem da multidão: o regresso

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Saturday December 1, 2007

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O deserto é uma experiência. Aparentemente nada de excepcional, a não ser o calor, a secura, e o spray de água que é vendido para dar alguma umidade para a pele; e as pedras que nos cercam, datadas de doze milhões de anos.

O mar é outra. Sempre tive uma relação amistosa com ele. Mas uma amizade distante, ele lá e eu aqui. O mais próximo que cheguei dele foi numa armadura de aço com trezentos metros de comprimento, dentro de uma biblioteca com estantes quase vazias, emoldurada por um quadro retratando Edvard Grieg.

Uma terceira, diferente, uma cordilheira com oito mil quilômetros de extensão, que na extremidade sul - Patagônia - forma com suas planícies desérticas e uma infinidade de lagos, um cenário espantosamente belo. Eu me lembrei de uma palavra para descrever a cor da água dos lagos: lápis-lázuli. O primeiro antepassado que viu esse mineral há sete mil anos, teria tido a mesma impressão.

Existem coisas em comum nas três descrições. A primeira delas é o vento. Uma poesia descreve o vento como: invencível, vasto e vão. Ficar sujeito a ele, ao seu poder de tirá-lo do lugar, trará inesperadamente o seu verdadeiro valor no universo.Conduzido pelos ventos e submergido nas águas, consegui compreender o meu processo de integração com a natureza. O abraço que lhe dá a água é morno, amigo e inconstante, porém, audível, sonoro. Com a mesma sonoridade do vento que o abraça, bate, puxa e afasta. É o mesmo som. Dessa maneira fiz uma perfeita transição entre o deserto incompreensível, e o distante mar; encontrei o meu caminho, numa planície desértica e num pequeno, frio e azul olho da natureza.

Em comum com todos os cenários foi a ausência de semelhantes. Essa ausência foi explicada por um amigo que escreveu ‘O homem da multidão’; lá é explicado que o coração do homem é livro muito espesso e que não pode ser lido. Dada essa impossibilidade busquei outro para ler. Encontrei-o. Porém, adianto-lhes que a natureza também é um livro imenso, que distraídos, esquecemos de ler. Comecei as primeiras páginas para saber o tamanho, estou compreendendo-o pouco e pouco e sentindo certo tom de ironia. 

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