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scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday November 27, 2007

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Assisti ontem ‘Tropa de Elite’, um sucesso de público dos últimos tempos. Gostaria de ter visto um grande filme. Não consegui. Uma história bem contada, num ritmo frenético, uma descrição do inferno, com atuações impecáveis, dignas de filme americano.Estamos sensibilizados por tudo que estamos passando (assaltos, homicídios, acidentes, roubos, e um marasmo de dar medo); ficaremos ainda mais assistindo ao filme. A quantidade de injustiças e agressões diárias cometidas é imensa. E por tudo isso que sofremos sem nenhuma alternativa de solução é que nos sentimos aliviados e vingados.Só não é exatamente um filme dantesco por nos dar uma esperança. Ainda que ilusória. Saímos deles com ela no coração. Temos um anjo vingador. Viva o Capitão Nascimento.O cotidiano mostra que essa história é irreal. Nos últimos anos, já perdi a conta, o final quase nunca é feliz. O bandido mata o mocinho sempre, quando isso não ocorre é notícia e acaba virando novela, filme ou romance.Quem financia o tráfico é o consumidor. Bem, qual a novidade? Escolhemos o estudante maconheiro como um dos maiores responsáveis? Será? A classe média, a classe baixa, a classe rica? Ou todos nós.Todos nós somos responsáveis para encontrar alguma solução viável, consumidores ou não. Por mim, posso declarar que a droga que consumo é o vinho de qualidade inferior, aliás, que não falta por aqui. A solução proposta pela história é a da especialização e profissionalização da polícia. Com polícia melhor, teríamos um grande passo adiante. Creio que sim, mas a solução para isso deve prever um longo, longuíssimo caminho, planos para os próximos anos. Devemos pensar seriamente em legalizar as drogas. Tirar o caráter clandestino delas. Não eliminar essa possibilidade antes de estudá-la, profunda e longamente.Mas não acredito que estejamos preparados para isso ainda. O período a que estamos sendo submetidos a essa guerra civil ignóbil é muito grande, as chagas causadas estão abertas. E enquanto isso perdurar justiça é vingança. Não é razoável esperar algo mais que vingança.  

Gaveta

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Saturday November 24, 2007

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Um agente estatístico perguntou para Carlos, ao fazer uma pesquisa sobre os hábitos sexuais dos brasileiros:

- Quantas mulheres passaram pela sua vida?

- Nenhuma. Eu passei na vida de algumas mulheres.

 

Nesse mesmo movimento, outro fez a mesma pergunta para Hilda e anotou:

 

- Nunca me casei. Hoje se vendesse algum dos meus livros, teria a companhia de um belo moço.

 

Dentre milhares de respostas convencionais, esses dois relatórios ficaram na mesa do analista supervisor. Ele estava em dúvida na classificação dessas respostas. Depois de pensar, cravou em ambos:

 

Solitário.

 

A partir dos seus pensamentos percebeu que cada palavra é uma gaveta entreaberta, com muitos significados embutidos, organizados, catalogados; nenhum deles separadamente, ou em conjunto, dá a idéia exata da realidade que o cerca. Riscou a resposta e aguarda instruções superiores.

Hápax

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday November 21, 2007

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“Jamais conseguiremos alcançar o verdadeiro valor da palavra. Quem chegou mais próximo disso foi Poe; paradoxalmente, mesmo sem sabermos ainda o seu poder, o ultrapassamos.  A luta que travamos para vencer o meu medo e a sua desconfiança alcançou o apogeu na declaração - Eu te amo. Depois disso o silêncio.

Todas as vezes que um ou outro aparecia, combatíamos bravamente. Atingimos o vazio. Aquilo que é superior à palavra. Não consegue mais ser descrito. Apenas sentido.

Falamos sobre a música, sobre a maneira ignorada com que ela apela aos nossos sentimentos. Lembra?  Agora posso dizer ‘nossos’, não? Conseguimos inalar o perfume de uma orquídea, ouvir o som do silêncio, sentir-se parte da natureza.

Diante da batalha travada pela conquista dos territórios afastados da nossa interioridade conseguimos um êxtase. Uma harmonia.

O desejo se tornou algo banal, indispensável, cotidiano. Um certo deslocamento do eixo da luta.  A primeira fase foi aquela em que queríamos saber quem é o outro.  Vencida a primeira, veio o inebriar.

A terceira fase deverá ser a construção de algo que seja comum aos dois. E o caminho não é suave. Tomará todo o tempo que nos resta. É o caminho só.

Ao invés de desconfiança: desejo. Ao invés de medo: desejo. Ao invés da poesia: desejo. Ao invés da cerveja: o desejo.

Essa é a equação para construir algo que é totalmente ignorado. Todas as formas de sinceridade serão usadas para incentivar a construção de um dique que nos proteja de tudo o mais. Todas as formas do medo serão usadas para proteger os passos seguintes.

Não há mais hipóteses a serem refutadas ou confirmadas.  Todas serão as nossas. O desafio que temos pela frente é não perder o foco, não travar batalhas inúteis que serão sempre um passo atrás.

O grande desafio é conseguir ver que seremos doravante sempre diferentes; conseguimos chegar ao ponto de concordar que o nosso raciocínio é vago, inútil e sem serventia nessa questão. A questão é sentir, trocar, dar, receber e …. pensar; apenas para organizar isso tudo nessa folha de papel inútil, agora.

 Não escreverei mais.” 

 Trecho imaginário de um múltiplo desabafo de Tom Waits, Charles Bukoswski, e Bruce Chatwin, encontrado em caracteres cuneiformes, numa caverna rupreste de sítio arqueológico na Patagônia. Temperatura ambiente: sete graus celsius. Ventos: oitenta quilômetros horários. Estação do ano: Primavera. Não é possível o uso de cartão de crédito, por problemas de comunicação. 

Medo

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday November 6, 2007

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Você não consegue acreditar em nada a não ser em seus medos. Ou melhor,  você acredita em algumas coisas, não o suficiente para que possa avançar naquela direção. Teme a entrega como se estivesse à beira, diante, de um abismo.  É o fim, o sinal de alerta, o farol do fim do mundo que acende o pânico pela falta de alternativas. 


Procura abrigo na família, na casa, em outro, para amainar a sua dor, confundi-la com outros pensamentos, problemas e convivências, é o seu narcótico.  Pensa que estando aparentemente no mesmo lugar, o seu risco diminui. Não. Creio que ele aumenta e muito.
Com isso adquiriu um prazer ao sentir medo. Precisa de alguém mais para afastar a solidão.  O medo enfrentado junto não muda ou diminui nada mais. Acrescenta ao seu, o rol de medos  daquele,  até então desconhecidos. Sofre confortado tendo alguém para se agarrar física ou mentalmente? Tanta tristeza o faz  um sonâmbulo, uma pessoa que vê fantasmas em tudo.  Totalmente afastado do mundo sem se conhecer, sem sentir-se parte integrante dele; e por isso mesmo nada há para ser temido.

 A busca real é a da harmonia.  A complexidade do nosso interior é igual ao do exterior. Não existe a barreira física entre você e o que o cerca.  Essa pele – fina e frágil - servirá como sensor, órgão recebedor, da ressonância do que ocorre lá fora; e como órgão emissor da sua ressonância ao mundo exterior. A solidão é também um desconhecimento disso tudo, um desperdício da experiência de Thoreau: “eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida… expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido”.  


Um amigo disse-me: ‘Devemos viver como se estivéssemos num bote, apenas usando o leme para corrigir levemente a rota, usando a força natural da corrente. Fazer muita força ao remar é sinal de que algo está errado,  estamos em desarmonia pelo curso que tomamos. Não culpe o barco, a corrente, apenas o rumo.
  Não sei se consigo ajudá-lo em algo.  Peço que se entregue ao seu medo completamente, mas esqueça-o logo após ele fazer todo o efeito; depois  saia do seu lugar. Seja um vagabundo. Um louco. Um desvairado.  Conviva com outros e principalmente consigo mesmo e com o que está ao seu redor, deixe a pressa de lado, dê valor ao que realmente tem valor, para que possa dizer no seu dia:

“Tive uma boa função.” 

Botrytis

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday October 26, 2007

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Joguei fora um envelope hoje. Grande e pardo com revestimento de bolhas para não danificar um CD contido no seu interior. Enviado de Londres, após uma mensagem incompreensível por e-mail. Nela o destinatário se apresentava com um nome desconhecido para mim, porém com algumas senhas, fatos e chaves que chamavam pela minha memória. 

A primeira senha era um xerox de um escrito-índice com a minha letra. Dando nome às músicas; entre elas: Jethro Tull, New York Dolls, Rolling Stones,Mozart, Liszt, Beethoven, Brahms, Aaron Copland e Stravinsky. 

 A segunda chave era o nome de uma colega do curso de direito: Silvana. E de fato, eu me sentava ao lado dela. Durante três quartas partes do curso. Ela sempre quietinha, miudinha, parecia ter muito medo de ocupar ou preocupar alguém, muito tímida, e de apurado gosto musical. Aos poucos, fui me lembrando do seu pedido de sugestões de músicas para ouvir e aprender.   

“Aprender?“

“Sim, aprender a dominar e entender as minhas emoções quando as escuto, se elas não aparecem, significa que a música não me pertence, não conheço a pessoa que as escreveu.”

 “!!??” 

Essa história completa me veio à memória hoje ao ler um amigo polonês ensinando, recomendando: devemos anotar os fatos e momentos que passam por nós, se temos o estímulo e o gosto de escrever. Se houver valor literário, ele será como a sumo da uva que fica depositada no barril de carvalho; ficará.

Depois de um tempo ao vermos o que ficou escrito, ele sairá do recipiente integralmente pronto para ser bebido como se fosse um vinho. A qualidade do vinho depende muito do gosto daquele que o bebe. Precisa haver, como na música, uma afinidade entre os sabores que ele oferece e o que gostaríamos de obter, naquele momento. 

Lembrei-me de todo o passado naqueles anos, sem ter nada anotado; portanto, a recomendação para se tomar esse vinho, deve vir seguida do alerta: ele não foi envelhecido em tonel ou barril.

 Envelheceu-se a uva no tempo e foi recolhida após ter sido atacado pela botrytis, e por isso sem o devido preparo deve ser tomado somente na sobremesa.  Mesmo uma uva estragada pode dar vinho. 

Creio que devo acrescentar uma terceira chave: o bilhete que acompanhava o CD pedia ajuda para que ele pudesse continuar e terminar o seu curso - como irmão dela - de literatura latino-americana.  

Epifania

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday October 23, 2007

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Etimologia da palavra, segundo nos ensina Antonio Houaiss em seu dicionário:”gr. epipháneia,as ‘aparição, manifestação’, pelo lat. epiphanía,ae ‘aparição…” 

Ouvi uma cantata catalogada com  o número duzentos e dois na obra de Bach. Tornei-me leve como uma pluma; tirou-me com a sua mão doce e sutil tudo me cerca e transtorna. Levitei no curto espaço de tempo em que ouvi: “Dissipai-vos ó sombras tristes”. A voz dança por sobre o pentagrama dando-me de beber, saciou-me. Uma gota tão diáfana aplaca minha sede de trinta anos. Razão não existe para esse efeito.

Logo em seguida lendo sobre Conselheiro Acácio encontro o mesmo número - 202. Como o número de sua residência nos Campos Elíseos. Número que não existe  em Paris, entretanto;  vejo esta obra de Olivier Culmann e com ela recebo a aparição do conhecimento inútil  acumulado em nossa massa cinzenta, o pequeno espaço que destinamos às nossas emoções, tudo regado pelo tempo que descasca a nossa pele e indica a nossa ruína. 

 

Quisera

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday October 8, 2007

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Quisera ter a palavra. A palavra que a tirasse do lugar, a levasse criar coragem, não dependesse de mais nada nem de ninguém, perdesse o medo.

Tomasse do sol o resto da força que elas não deram, mudasse de rumo completamente, antes que a lua chegasse e tirasse a sua coragem.

No começo de tudo era palavra autora; hoje não mais.

O princípio é a atitude. Uma  maneira covarde de manifestar o pensamento. Mas é apropriada aos dias de agora: rápida, incerta, medrosa; agrada a todos, incluindo os dessentidos e sonolentos.

Talvez esteja ébrio de infelicidade, mas certo da incerteza do nosso destino.

Infeliz e soturno.

mania a potu

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday October 4, 2007

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“Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que falou da morte e da política local“.  Fernando Pessoa. 

Saída de um conto plausível a palma folhuda e carnosa foi instalada num jardim e pode presenciar um almoço de três amigos. Duas mulheres e um homem. Com tempo disponível para aproveitar o dia azul claro da fresca  primavera. O clima era cordial, a comida era farta e o vinho soltava paulatinamente as línguas. Num determinado momento uma contou do seu casamento de vinte anos com um homem mais velho outro tanto. Namorou muito tempo, cinco anos, e como não teve nenhuma outra oportunidade, casou. Aliás, houve uma proposta na época da faculdade. Proposta de se juntar o que se ganhava para lutar por vida melhor. Autor e proposta ambos recusados imediatamente. Indagada se fora feliz, respondeu: “ele acabou de me criar, não suportava mais viver em casa.”Enlevado pelo momento o homem tomou a palavra para dizer que: “algo semelhante ocorreu comigo, casei com uma mulher inteligente e brilhante” Você a amava?“Casei tomado pela angústia da rejeição, a que amei dormia comigo.” “Qual o problema?”  Interrogaram as mulheres.“A questão é que dormia comigo enquanto eu falava ao telefone. Sempre falei muito.” – respondeu envergonhado.

A terceira que parecia a mais tímida, tomou coragem para dizer do seu casamento: “Casei com o homem que escolhi.” Não conseguiu disfarçar um ar de superioridade, florescendo num sorriso suave.“Escolheu por amor?” disse a outra.“Escolhi por estar cansada de viver sozinha.”

O almoço transcorreu até o final entre sorrisos e demonstrações de afeto mútuo. Descobriram-se admiradores de Marylin Manson,  da dança e da filosofia, não nessa ordem, e sim sem nenhuma.

E a planta que costumava conversar com as outras, disse para sua vizinha, ao ver que a reunião se findava: “ Dessa vez  não seremos regadas.” 

A terceira margem do rio

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday September 28, 2007

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O meu comportamento com você é exatamente igual ao comportamento que tenho com todos, portanto, por absoluta incapacidade de ser claro, direto, e de demonstrar com alguma sabedoria meus sentimentos sempre me sentirei afastado, excluído.

A idéia do sêmen como condutor de meu código de conduta e de seu decodificador; como o verdadeiro legado dos citas, fenícios, árabes, portugueses, visigodos, suevos, francos, suecos, holandeses, alemães, nobres e vassalos, emigrados e bandeirantes, é a prova da minha maior incompetência, a incompetência de comunicar o vasto emaranhado de emoções que ficarão deslizando em minha mente sinuosamente, como a terceira margem do rio,  a procura do pescador.

Quem sabe um dia existirá um pescador? Que saberá empunhar a vara, calçar os chinelos, e esperar à margem a sua hora. Que tenha paciência para ver o fluir do tempo ? Para encontrar as respostas daquilo que seu antepassado tanto buscou, confundindo a tudo e a todos como um simples curioso à toa?

Quem sabe…? 

Jardim Zoológico

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday September 11, 2007

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Passei dez dias em Nova York. Gastei todo o meu tempo na biblioteca pública. Sempre tive a impressão que vivemos em agrupamentos. Os melhores e mais típicos exemplos são, pela forma de organização:  Jardins Zoológicos, Hospícios e Prisões.

 

Portanto, qualquer cidade para mim é parecida. Seja na Metrópole ou na Província. É verdade que gostaria de conhecer Praga, não a  moléstia, porém para saber como viveu alguém que escreveu muito bem, a despeito de tudo e de todos, até dele mesmo. Gostaria de conhecer o Père Lachaise, claro, mas faltaria a mão de Honório para recontar a sua fundação lá no longínquo século dezenove.

 

Todos esses desejos são apenas recordações de lugares em que nunca poderei estar por exigir deles pessoas que não são mais visíveis por mim. Quem sabe um dia, uma dessas mãos me puxará para esse passeio?

 

Enquanto isso me satisfiz com a Biblioteca. Essa foto que vi hoje me lembrou imediatamente os profundos, largos, marmóreos e silenciosos corredores. O silencio do lugar é digno de ser notado. Parece o ar úmido do interior do sul continente, pode ser cortado em fatias.

O respeito do semelhante pelo seu próximo me fez buscar alguma placa com multa de cinco mil dólares por quebra de sigilo, não encontrei, mas ainda penso que isso é reflexo condicionado por anos e anos de aplicação continuada. Ela caiu e ninguém notou.

Eu fiquei intimidado com ele – o silêncio -, e não pronunciava uma única palavra em qualquer que fosse o local.

Levei comigo um professor britânico que escreveu Cidadãos: Simon Schama. Foi assim introduzido na intimidade da revolução francesa, lembro-me também que fiquei impressionado com a violência e o temperamento de Georges Couthon, uma figura secundária até então, e que graças aos massacres ordenados (Lyon) ficou gravado nas minhas memórias inúteis.

 

Infelizmente ainda não conseguirei esclarecer o motivo pelo qual  fatos bizarros e  desordenados são os que me chamam a atenção, mas fica o registro como um pedido de auxílio, num lugar mais que inapropriado. Uma mensagem numa garrafa lançada ao éter.

Chegava invariavelmente antes de estar aberta, portanto conversava com alguns visitantes seriais ou oportunistas. A primeira funcionária a chegar era sempre a mesma e a troca de olhares, incomuns – parece – na América, nos tornou amigos o suficiente para sempre receber um sorriso como cumprimento e um leve aceno de cabeça.

 

Os bibliotecários passeavam pelo salão de leitura a fim de guardar os livros que eram utilizados, e o fato de levar o meu próprio livro comigo os intrigava bastante. A ponto de procurar saber o que estava lendo, e ao ver a língua estranha, tentavam adivinhar a minha nacionalidade. O meu rosto e o passaporte devem valer uma fortuna no mercado negro de documentos, pois posso me adaptar a qualquer nacionalidade sem muito sacrifício. Desde México à França, passando pela Argentina e Alemanha. Ninguém conseguiu descobrir. Mas, posso afirmar que dez dias de convivência diária faz uma grande diferença na relação entre as pessoas. E a nacionalidade perde completamente a importância. Descobri que a policial tinha uma neta e morava no Bronx, e que sua neta não tinha o mesmo carinho pela leitura que eu.  Tentei confortá-la dizendo que as pessoas têm as mais diversas formas de lidar com a vida, a leitura, a arte em si, era apenas uma delas. A que dava maior prazer para aqueles que tivessem olhos para ver.

 

O comportamento mais corriqueiro, hoje em dia, em qualquer parte, é o de olhar para si mesmo em pequenos detalhes, deixando de lado tudo o que um painel imenso de arte quer dizer e mostrar.

Estamos sempre preocupados com o fio da nossa meia, ou a casa do botão descasado, ou ainda querendo saber o porquê do Couthon ficar tão impregnado em nossas mentes.

Ela a avó, com seu rosto risonho,  ficou como uma eterna e boa recordação.

 

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