Jardim Zoológico

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday September 11, 2007

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Passei dez dias em Nova York. Gastei todo o meu tempo na biblioteca pública. Sempre tive a impressão que vivemos em agrupamentos. Os melhores e mais típicos exemplos são, pela forma de organização:  Jardins Zoológicos, Hospícios e Prisões.

 

Portanto, qualquer cidade para mim é parecida. Seja na Metrópole ou na Província. É verdade que gostaria de conhecer Praga, não a  moléstia, porém para saber como viveu alguém que escreveu muito bem, a despeito de tudo e de todos, até dele mesmo. Gostaria de conhecer o Père Lachaise, claro, mas faltaria a mão de Honório para recontar a sua fundação lá no longínquo século dezenove.

 

Todos esses desejos são apenas recordações de lugares em que nunca poderei estar por exigir deles pessoas que não são mais visíveis por mim. Quem sabe um dia, uma dessas mãos me puxará para esse passeio?

 

Enquanto isso me satisfiz com a Biblioteca. Essa foto que vi hoje me lembrou imediatamente os profundos, largos, marmóreos e silenciosos corredores. O silencio do lugar é digno de ser notado. Parece o ar úmido do interior do sul continente, pode ser cortado em fatias.

O respeito do semelhante pelo seu próximo me fez buscar alguma placa com multa de cinco mil dólares por quebra de sigilo, não encontrei, mas ainda penso que isso é reflexo condicionado por anos e anos de aplicação continuada. Ela caiu e ninguém notou.

Eu fiquei intimidado com ele – o silêncio -, e não pronunciava uma única palavra em qualquer que fosse o local.

Levei comigo um professor britânico que escreveu Cidadãos: Simon Schama. Foi assim introduzido na intimidade da revolução francesa, lembro-me também que fiquei impressionado com a violência e o temperamento de Georges Couthon, uma figura secundária até então, e que graças aos massacres ordenados (Lyon) ficou gravado nas minhas memórias inúteis.

 

Infelizmente ainda não conseguirei esclarecer o motivo pelo qual  fatos bizarros e  desordenados são os que me chamam a atenção, mas fica o registro como um pedido de auxílio, num lugar mais que inapropriado. Uma mensagem numa garrafa lançada ao éter.

Chegava invariavelmente antes de estar aberta, portanto conversava com alguns visitantes seriais ou oportunistas. A primeira funcionária a chegar era sempre a mesma e a troca de olhares, incomuns – parece – na América, nos tornou amigos o suficiente para sempre receber um sorriso como cumprimento e um leve aceno de cabeça.

 

Os bibliotecários passeavam pelo salão de leitura a fim de guardar os livros que eram utilizados, e o fato de levar o meu próprio livro comigo os intrigava bastante. A ponto de procurar saber o que estava lendo, e ao ver a língua estranha, tentavam adivinhar a minha nacionalidade. O meu rosto e o passaporte devem valer uma fortuna no mercado negro de documentos, pois posso me adaptar a qualquer nacionalidade sem muito sacrifício. Desde México à França, passando pela Argentina e Alemanha. Ninguém conseguiu descobrir. Mas, posso afirmar que dez dias de convivência diária faz uma grande diferença na relação entre as pessoas. E a nacionalidade perde completamente a importância. Descobri que a policial tinha uma neta e morava no Bronx, e que sua neta não tinha o mesmo carinho pela leitura que eu.  Tentei confortá-la dizendo que as pessoas têm as mais diversas formas de lidar com a vida, a leitura, a arte em si, era apenas uma delas. A que dava maior prazer para aqueles que tivessem olhos para ver.

 

O comportamento mais corriqueiro, hoje em dia, em qualquer parte, é o de olhar para si mesmo em pequenos detalhes, deixando de lado tudo o que um painel imenso de arte quer dizer e mostrar.

Estamos sempre preocupados com o fio da nossa meia, ou a casa do botão descasado, ou ainda querendo saber o porquê do Couthon ficar tão impregnado em nossas mentes.

Ela a avó, com seu rosto risonho,  ficou como uma eterna e boa recordação.

 

Reino dos Mil Anos

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday August 28, 2007

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Escrever sobre o amor é coisa para Stendhal. Não é coisa para uma manhã inóspita de terça feira, comum como todos nós. Assim mesmo, aquele que não gosta de jogos de azar, arriscará uma ficha numa casa onde jogando sempre se  vencerá. Explico: jogando a terça inteira num quadrado vermelho ou negro, sempre o mesmo valor - ao fim e ao cabo - ganharemos.

Amor e mar. Ambos são verdadeiros. Apresentam-se em mil faces, cada uma delas guarda a lembrança daquela forma original. Mas o cinzento do mar e a beleza da face escondem muitas coisas. O que está oculto é maior do que é aparente. Somos três quartos de água e um quarto de terra.

Coisas que são aprendidas são depois desprezadas. Como terra conquistada ao mar. Portanto é melhor ignorar. A ignorância é a certeza da felicidade? Não apenas isso. Mas a ignorância nos dará o prazer contínuo da descoberta. Tornará uma friorenta terça  num festivo sábado à noite. Ainda que o sábado seja uma simples quarta. Nunca teremos um domingo fim de prazer. A mudança do mar e do rosto será sempre contínua e renovaremos nossa esperança e entusiasmo. Sempre seremos viajantes descobridores. Sem eles não se consegue viver.

Viver é vontade.

Viver é intuição.

Viver é ignorar.

Viver é sentimento.

Portanto amar é obra de uma vida inteira, pode significar o próximo ou o distante. Pode significar o sexo oposto ou o mesmo sexo. Amar, hoje, é significado de loucura. Quer saber?

Se agora mesmo, você sair para a rua e olhar para a primeira pessoa que passar e dizer:

- Eu amo você! Sorria docemente.

Ele pensará  que você é um louco manso que não oferece perigo. Com um olhar de piedade e tristeza continuará seu caminho, balançando a cabeça suavemente. Tenha cuidado de não aliar à frase um gesto. Qualquer. Arriscar-se-á a ser jogado no chão para se evitar qualquer outra ameaça.

Ao passo que, vencida essa primeira situação, se você continuar o seu trajeto e depois de alguns instantes, ao passar o próximo, se encha de coragem e diga:

Eu ODEIO você!

Ele o olhará assustado e o identificará  como pertencente a algum partido de oposição, ou partidário da situação,  viu nele algum sinal contrário. Seguirá adiante e dirá a um colega do trabalho:

- Cara; encontrei um militante que pensou que eu era seu adversário. Que maluquice, não?

Arrisco dizer que jamais se compreenderá racionalmente o que é o sentimento de amor. Ele não pode ser contado, achado e dividido. Ele pode ser sentido e intuído, jamais será explicado. Hoje ele passa por um período de desprezo tão grande que corre o risco da extinção. Poderá ser exibido nos futuros Museus de História Sentimental. O reino dos mil anos se distancia a passos rápidos e seguros.

Quem viver verá.

 

 

Véu

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday August 13, 2007

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Você já sentiu que o mundo funciona de uma maneira incompreensível? Por mais que você pondere, considere e pense as coisas e suas finalidades não fazem sentido? Exceto algumas outras, práticas, cotidianas que sempre têm a mesma rotina. O mesmo começo, meio e fim. Será que isso preenche a nossa vida? Nesse caso, ficamos mais velhos e teremos sempre uma barreira de arame farpado à frente, um pequeno fio que nos impede a passagem por medo, por ignorar, por que?Antes pensávamos deduzindo de alguma idéia guia e hoje não mais; estamos fazendo experiências como macacos?Não falta alguém que nos rasgue a cortina, rompa o véu e nos mostre o sentido disso tudo?…fazendo….”Como um pequeno rasgão no véu da vida, pelo qual espreita o nada indiferente, e naquela ocasião criou-se o alicerce de muita coisa que sucederia mais tarde.” - Robert Musil in O Homem sem Qualidades. 

Jardim do Meio Hectare

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday August 10, 2007

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Construí diversas amizades ao longo da vida. Uma delas veio do tempo da faculdade: Basil. Uma pessoa admirável. Nascido na Nigéria, na época dizia-se que ele era filho de um príncipe tribal, escolheu o Brasil para estudar e depois: viver.

Ele não sabe o que fazer para agradar o seu interlocutor. Sempre prestativo e gentil. De uma inteligência comercial fora do comum, administra seus interesses em tempo integral, é um intelectual que trabalha na Bolsa, como dizia o Ray Bradbury. Não tem aparentemente nada fora do comum, somente o seu olhar. Um olhar risonho e inteligente, qualquer que seja a situação, exceto quando se sente ameaçado pela morte.

Convivemos sempre. Sempre que podemos estamos próximos. Temos o costume de nos classificar como irmãos separados no nascimento. Fui convidado para participar de um almoço com seus amigos. Fiquei com a responsabilidade de escolher o lugar. A única exigência: não ter horário para terminar.

Escolhi um restaurante chinês, com um nome poético extraído de um texto antiqüíssimo e que traduzido para o português deu o nome, vagamente incompreensível, dessa narrativa. Fui o primeiro a chegar e pude observar certa inquietação nos gestos e olhares de todos.

Tivemos a companhia de um médico que não exerce há tempo sua profissão e sempre cuidou do pai. Alto e magro. Extremamente agradável ameno e ansioso. Incapaz de dizer qualquer coisa fora do padrão, leitor assíduo e cinéfilo confesso. E um outro mais, proprietário de uma sociedade corretora de valores e que já foi editor de sucesso. Baixo, calvo, sanguíneo, curioso e com experiência da vida suficiente para se considerar mal tratado; se confessa um  aventureiro.

Escolhi uma comida que não fosse extravagante ao nosso gosto e ao mesmo tempo não quis fazer nenhuma concessão ao tradicional prato não chinês: “chop-suey”. Escolhi verduras, cogumelos, arroz em forma de espaguete, feijão no formato de talharim, bolinhos no vapor; e – finalmente - um prato de peixe cozido. O bucho do peixe, claro. Feito com verduras. Um pouco de soja, com formato de finíssimas folhas sobrepostas e uma conserva doce de pepino como entradas.

Essa é uma boa maneira de conhecer o nosso semelhante. Colocá-lo diante de um desafio como esse. O editor que começou dizendo  que o lugar era mais ou menos comercial ficou surpreso e satisfeito com as novidades. Queria mais. O médico tentou me acompanhar na pimenta e imediatamente depois de tornar-se rubro, pediu ao garçom água ou vodca. O que fosse mais fácil, para apagar o incêndio irrompido no céu de sua boca. Lembre-se que ninguém fala português naquele lugar. Eles imaginam que falam e nós temos que imaginar que entendemos.

O Basil temeu por sua própria vida e pediu um simples camarão cozido com arroz. Ele me disse que não gostaria de comer nada que o ameaçasse tanto.

Conversamos gostosamente sobre a médica oftalmologista que atende ao nosso ex médico. Uma mulher lindíssima, que atraiu a atenção de todos. Ele  e o editor a conhecem, nós outros não. Ainda. Ela auxilia muito o programa de leitura do nosso médico. Como leva duas ou três horas para atender, a despeito do horário marcado, faz com que ele leve seu livro do momento e aguarda com a maior paciência a sua vez.  Cada vez que ela sai da sala para se desculpar, tem um gesto gentil e agradável para o paciente. Cativa-o ainda mais.

Tanto um como outro estendem o máximo possível a consulta. Para convivência e ser objeto da atenção e inteligência de uma beleza como aquela.  Nenhuma consulta leva menos que sessenta minutos.

Fomos aconselhados a procurá-la também. O Basil, após ficar pensativo um instante, perguntou se ela atendia por algum convênio.

Diante da afirmativa dos demais, respondeu:

- Tenho meu próprio médico há tanto tempo; não consigo fazer isso com ele.

Imediatamente peguei o seu nome. Não encontrei papel e não tinha lápis para anotar o telefone para a consulta.

Esse foi o tempo necessário para concluir  assim:

- Melhor não.

- Você vai se arrepender.

- Talvez – porém - … melhor não.

 

Guanabara

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday August 1, 2007

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João é o meu nome. Acabei de ler o Quixote. Sexta feira à noite viajaria para o Rio de Janeiro. Após uma semana exaustiva de trabalho e algum estudo à noite, tirava o final de semana para rever a cidade que tanto gostava.

Nasci ali, mas fugi na época das febres, doente. Meus pais nunca mais voltaram. Gostava de pegar a estrada e chegar na madrugada e ficar na praia da Barra para ver o sol nascente. Era uma imagem que sempre me dava a devida dimensão de sua vida. O sol. O nascer do sol.

Esperava um horário civilizado para chamar a Suca. Apresentada por Campos um grande amigo de escola. Tinha esse nome por ser de Campos do Jordão e ter muito orgulho disso. E o nome ficou. Não se sabia o seu nome verdadeiro. Era o Campos. Uma grande figura, com parentes na cidade servia além de amigo, como guia, como se fosse uma das colunas de um Portal.

Dario era meu grande amigo, a segunda coluna do Portal. Não saberia definir o que é ser um grande amigo. Ele era mais do que isso.  Junto com Campos formavam um guia prático de leitura da vida. Um portal no qual estava pendurada a cortina que escondia a vida, seu significado ainda oculto.  Eles sabiam afastar a cortina a meu pedido revelando os segredos buscados.

Sempre fui um leitor apaixonado e por isso mesmo pensei que sabia tudo. E quando pensava, calculava e planejava, percebia que esse tudo não era nada.

O Dario precisava traduzir para mim, coisas que não estavam nos livros. Ele é um prático. Intuía tudo, praticamente tudo. Traduzia o mundo para mim. Sorridente, alegre, sem compromisso, acompanhava-me para todos os lugares, em qualquer dia e qualquer horário. A cortina sempre se abria como seu sorriso. Ele tinha uma grande força física, um corpo treinado pelo esporte, foi pugilista. Conheci a primeira ópera com ele. Carlos Gomes. Dormiu como um santo em pleno segundo ato de “Lo Schiavo”

A cortina não se abria com a mesma facilidade para o Campos. Ele a abria, mas tinha que puxar. A perseguição o consumia. Não sei bem o porquê, até hoje. Não conseguia compreender como um poder de intuição tão grande não lhe era satisfatório. Sempre existia algum motivo atrás da própria cortina que não se revelava para ele por completo. Seu pai morreu cedo.

Nove horas.

Estacionava na Av. Nossa Senhora de Copacabana e a buscava para o nosso final de semana. Uma menina miudinha, castanha, de grandes olhos orientais, trabalhava na câmara de comércio exterior. Descendente de libaneses era minha versão da Sherazade. Sempre pronta, meiga, agradável e linda.

Disse-me, certa ocasião, que eu despertava nela atitudes que nunca havia tido. E o mesmo se passava comigo, sem que eu tivesse tido coragem para lhe dizer. Ela tomou a iniciativa. Tínhamos um completo conhecimento um do outro. Os movimentos eram simultâneos e coincidentes. Tínhamos em conjunto a mesma forma e movimento de um véu. Impossível viver melhor. Escrevia muito bem. Cartas longas e carinhosas desnudando-se mais no papel do que na atmosfera comum. Os sentimentos eram desmedidos.

Acordávamos juntos, ela sempre fresca. Parecia que não dormia. Tinha certeza que ela acordava antes para suas primeiras águas, a fim de parecer sempre fresca. Incrível.

Ao me aproximar para fazer a barba encontrava sempre uma pedra pome. Eu não sabia o que era. Perguntei e ela me esclareceu: “Em caso de cortar o rosto com a lâmina; use.”

Ela exigia muito do meu caráter, quebrou meus medos no túnel “Dois irmãos”, ensinou-me a rir e a confiar.

O Dario dormia, contava os casos e dormia. O Campos namorava com a Lúcia. Tínhamos uma vida inteiramente diferente. Eram duas existências São Paulo e Rio. Esse conjunto formava um equilíbrio perfeito; todas as nossas ambições, anseios e necessidades estavam mutuamente atendidas; o mundo se tornou inofensivo para mim, estava inteiramente integrado nele.

Precisava trazê-la para São Paulo. Queria mostrá-la para os meus. Queria fundir as duas existências numa só.

Ela compreendia que meu pensamento não era cálculo. Não se prendia àquela forma de violência institucional que era o dinheiro. Era apenas um hábito adquirido pela literatura. Ela sabia.

Assim fiz. Consegui convencê-la, com muito custo. Fui com meu pai receber a Suca. Passamos em casa todo o final de semana. Aquilo tudo era muito bom, mas algo diferente. Estava sem o meu portal. Tinha mais, tinha a impressão que ficara aberto. E lembrei-me da história da queda de Constantinopla , ocasionada por uma porta aberta.

Deixei isso de lado.

Chegou à noite; a levamos de volta para o terminal.

Voltei meu rosto para meu pai, aflito e curioso pela sua opinião, não precisei dizer nada:

“Ela não serve pra você.”

Las Vegas

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday July 26, 2007

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João Shao, esse é o meu nome. Meu pai é chinês e minha mãe é brasileira. Não falo uma palavra do idioma com o qual pareço fisicamente. E isso causa a maior confusão. Todos os chineses falam comigo sem que eu consiga responder. Todos brasileiros acham que sou japonês. Eu mesmo não sei quem sou ainda. Mas não queria visitar Las Vegas, queria visitar o Grand Canyon. Acabei visitando ambos. Vítima da minha ambiqüidade.
Morava, na época no Arizona, já que não sabia falar chinês, tentei aprender inglês, e lá fiquei um bom tempo, e de lá que resolvi partir. Scottsdale, via Sedona, cheguei ao monumento natural.


Coral é a cor que predomina. Uma vastidão imensa, essa expressão não consegue dar conta do efeito que nos é causado. Contemplar. Esse é o verbo. Nada mais fica seguro. Todas as explicações se desmaterializam, retornam ao pó de que foram construídas. Estava diante de uma interrupção não intencional da atividade espontânea da mente. Eu tive absoluta certeza da minha insignificância diante daquilo tudo. Construído apesar de nós.
Não respeitei o aviso de segurar nas cordas. Quase fui levado pelo vento. A natureza naquele local tem dimensões sobre-humanas e o vento não é exceção.
Como já disse você fita a eternidade, olho no olho. Ela não tem nada para dizer pra você. Você deveria ter alguma coisa para ela. Não tive. Hoje talvez tenha pra você, graças a esse instante.


Saí de lá em direção à Nevada. Fiz uma longa descida. Entrei na fase azul da viagem. Encontrei a represa Hoover e um espaço para estacionar, contemplei aquela imensidão de água, encerrada naquela cadeia. De um azul profundo, sem movimento aparente, calmo. Ar, água, terra e estrada. A minha presença acaba de ser notada, pelo asfalto que piso. É obra minha, de meus semelhantes. Logo mais adiante encontrei a barragem com impressionantes torres de concreto. Consegui vê-las  como uma tentativa de barrar além da água a passagem do tempo. Uma espécie de freio de mão. O tempo deveria ser controlado para não nos consumir. O melhor lugar do mundo para nossa fantasia é o deserto.

Las Vegas é cinza. Durante o dia ela é predominantemente cinza. A noite o cinza é substituído por luz, cores e intensidades. Existem hotéis para todos os bolsos. Obra totalmente humana. Não há natureza. Árida. Uma grande avenida (The Strip) com quase sete quilômetros, onde tudo acontece. Fantasia está para o deserto, assim como o jogo está para Las Vegas.
Você senta num bar para tomar alguma coisa, olhando as pessoas. Pronto. No balcão existe um jogo eletrônico sob o seu copo, basta colocar uma moeda. Os cassinos têm dimensões urbanas. Cada um deles é uma pequena vila, com quartos, diversões, restaurantes. Som e fúria. Fiquei hospedado num centro de compras onde o teto é um céu sempre azul, seja dia ou noite,  com poucas, raríssimas nuvens,  temperatura e umidade estáveis tudo controlado por computador, inclusive você. Saía pela manhã e sempre me encontrava com um cidadão (meu patrício) em pleno trabalho (jogo). Voltava à noite, e ele estava lá ainda. Dia, após dia. Encontrei caravanas com dezenas de orientais, todos em volta de um grão-mogol, com camisas brancas de seda sem gola, com os excessos de riqueza saltando nos pulsos e gargantas. Brilhando mais que as luzes de néon. Nunca me vi tão só.
A cidade é uma grande tentativa de parar o tempo. Uma vontade imensa e desesperada de que o nosso tempo na terra seja eterno, sempre feliz. Talvez por isso não tenha sorte no jogo. Não consigo esquecer que tudo é finito. Tudo é uma tentativa de retardar a ruína que o tempo exige para si.
Se me pedissem para fazer um resumo de tudo, escreveria. Coral, azul e cinza. Incessante de um para outro.
 

As gaivotas

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday July 17, 2007

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Alguém ainda não se sentiu assim? Devastado. Submetido às forças imponderáveis. Forças que não sabemos sequer de onde vem e que nos chicoteiam. Disse-me alguém que não existem problemas, existem fatos. Portanto, vamos aos fatos. O mar batendo num farol, gasto pelo tempo, e que fica impassível diante de tudo. Afinal ele foi fabricado para dar direção, apontar caminho para o viajante. Não pode se render. Agora diante desse fato: tenha bons sonhos.

Emoções descritíveis.

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday June 29, 2007

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„Se a água não se acumular suficientemente desde as profundezas, não terá forças para sustentar um grande barco. Despeje-se no chão, num vazio, uma taça d’água e pedacinhos de lixo navegarão ali como barcos. Mas ponha aí a taça e ela há de encalhar, pois a água é rasa e o barco, grande demais. Se o vento não se acumular desde as profundezas, não terá forças para sustentar grandes asas.“Chuang  Tzu (Viveu no tempo do Rei Hui (370-319a.C) de Liang e do Rei Hsüan(319-301a.C), de Ch’i) 

Olhei essa imagem de Anke Merzbach e ela não mais saiu da minha cabeça. Andei descrevendo meus êxtases. Ora dormindo, ora  acordado; eles ainda  não conseguiram encontrar a melhor ambiente para se expressar. Alerto que não possuo controle algum sobre eles.

O último que me lembro veio, veio de uma névoa fria, o de hoje veio de uma nuvem de vapor.  Saindo dela, lutando contra a falta de visão, percebendo que meu corpo se aliou a essa conspiração teimando em controlar meus movimentos, consegui distinguir uma música, um quarteto de cordas que tocava Mendelssohn. (op. Quarenta e quatro: número um e número dois)

Eles – autor e obra -  começaram a conversar comigo a respeito daquela imagem.

A música sobre mim sempre tem o efeito de despertar as emoções que estão acumuladas em meus vazios, despertar significa movimentar e ventar.

As cores são sombrias, a figura é paradoxal. Rosto jovem, barba branca. Olhar triste e brilhante. Nada é muito certo, muito definido. Parece um colecionador, um entomologista.

Um solitário que se encontra nu, peregrino exibindo sua emoção,  na altura do peito, voando desajeitada de um lado para o outro, nunca se fixou em nenhum lugar por muito tempo, para que pudesse sobreviver. Tomada pelo espanto do gesto de espanto. Pousou de lugar

em lugar. E se repetiu ao longo de sua vida  por não encontrar o uno. Aquele desejo ancestral de se reencontrar com o outro.

E o colecionador se transformou num poeta em si mesmo, aquele que cuida de entender seu semelhante e a si próprio, perdendo por isso mesmo toda a habilidade e a mestria em fazer alguma coisa outra. Tornou-se um ser esdrúxulo como todo poeta é; uma espécie de ornitorrinco com aparência de uma normalidade distante, etérea.

 

 

 

Lobo

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday June 26, 2007

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Tenho dificuldades em dizer o que fui, o que sou.

Um escritor antigo contou que apenas uma simples gota caída do maior recipiente nos serviria para identificar todo conteúdo.

No Egito o meu nome - Maat - é o princípio que se personificava na verdade ou ordem justa, representado por uma deusa-vaca Hátor,  que julgava os mortos  cujo símbolo é uma pluma.

Ouvi que antigamente o ego com sua consciência de si  era menos preciso; era aberto e recebia do passado muitas informações e sua repetição o renovava continuamente.

De fato, sempre fui um solitário. Esquivo. Exilado.Tachado de lobo, eu me escolheria como cebola.Sempre tratei bem as pessoas, indiferente à condição social, sexual ou pessoal. Sempre tratei bem quem me tratava bem, tratei mal quem me tratava mal. Mais tarde aprendi que deveria tratar bem a todos, sem qualquer distinção esquecendo-me da reciprocidade. Compreendi que isso era o melhor a se fazer. Pois não é que dessa maneira, tratar bem, fui tachado de ser um lobo?

Confesso minha libido, assim como você deverá confessar a sua. Cada um a exerce de uma forma ou de outra. Quando vivemos no meio de milhões de pessoas aquelas que saem do padrão são amarradas à força no totem do lugar comum. Sei não. Essa explicação é tão inválida quanto outra qualquer, é apenas a minha tentativa de lembrar o quanto de pelo de lobo andei deixando por aí.O mais interessante dos meus apelidos foi: deus. Aquele capaz de tudo, de trazer o final dos mundos para os dias atuais, de salvar alguém da morte, ou mesmo condenar alguém. O pai vingador? 

A humanidade lida muito mal com a segurança. Todos gostariam de tê-las, e atacam aquele que a exibe. Ao argumento da minha infalibilidade ou do meu caráter vulpino tenho como resposta a seguinte:Esse é o imenso desejo da grande maioria das pessoas.

 A construção de nossa imagem não depende  de nós, depende das expectativas que os outros têm. E essa é – no meu caso -  ruim. Jamais alguém acreditará que se pode querer ajudar, ou ter atenção  ao semelhante.Temos uma civilização baseada na raiva, na ira e no conflito. Esse conflito surdo, silencioso, me atinge muito profundamente. Paguei vários preços, em diversas cotações, sempre ascendente,  todos os anos da minha vida.

Posso me apresentar confessando-me, portanto, como cebola. Uma bela, redonda, descabelada e castanha cebola. Para se compreender a sua perfeita natureza, não se deve usar a força ou a faca. Quando isso acontece ela sempre nos avisa, fazendo-nos chorar. Deve-se usar a mão. Descascá-la é o melhor manuseio. Ela facilmente se dobrará ao gosto do manipulador. Misturada  ao gosto do alimento deixará o seu toque de acidez e doçura, quanto mais fria estiver menos ácida se apresentará.  

Esse é um segredo dos antigos construtores de pirâmides, grandes comedores de cebolas; cujo prêmio ao longo de toda a sua vida foi o de carregar as pedras que dispostas de uma certa maneira simbolizaram o mais alto sonho da humanidade de então.

Entre o lobo, a pluma e a cebola, escolherei ficar com os todos. Agora numa confissão sem tortura. Lobo consagrado pelos de hoje; outra consagrada pela deusa que fez sua escolha da pluma que é a mesma da escrita. Escrita que jamais contará a verdade, quanto muito, roçará a verdade levemente, muito levemente, esperando que estejamos preparados para vislumbrá-la. Fugaz. Fugax. Fugace.

Por último e por minha escolha pessoal, com suas camadas finas, com um pequeno núcleo sempre desprezado, por sua aparente simplicidade e grande complexidade, lembrando que se prefere jogá-la ao óleo fervente para amansar seu sabor e finalmente, prestando uma homenagem àqueles que consumidos pelo sonhos dos senhores dedicaram sua vida anônima ao desconhecido. A sua mensagem foi recebida por mim e através procurarei renová-la,  fazendo uma espiral ascendente. 

Espiral que através do arabesco da pluma de um lobo, ascendeu numa cebola.

Não existe uma resposta

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday June 13, 2007

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Não fiz da reclusão  algo refletido como uma alternativa para os meus problemas,  coisa, solução para a angústia.Foi algo assim: Tudo que eu vira até então permitia que eu tirasse a conclusão daquilo que viria e não seria melhor ou pior, seria  a repetição indefinida; prévia de um filme que é repetitivo, monótono.

Parti para o aprimoramento do meu interior, virei a luneta para o meu interior, escolhi o objetivo a ser analisado pelo microscópio, busquei uma minha via láctea, e parei com o temporal.

Parei com o efêmero, parei com o mortal.

Busco a imortalidade das coisas, busco tudo aquilo que não se desvanecerá num piscar de olhos, na ponta de um avião ou numa das palavras do chamado ‘povos dos livros’. Essa foto exprime absolutamente tudo isso. Aquela organização que gostaria de ter na mente. Um ideal inatingível.

Uma ocasião, falaram-me da minha falta de experiência, da minha estúpida reação diante de determinadas coisas singelas, corriqueiras, banais, e fiquei eu estupefato com a  constatação, com a certeira flecha que se endereçou à minha barricada.

De fato,  sou absolutamente inexperiente nas relações humanas, talvez por isso tenha sentido tanta repulsa, tanta ingratidão e tanta injustiça.

Se fosse russo, alemão, árabe ou judeu, legítimos, talvez teria outra reação, talvez fosse um terrorista, talvez fosse um assassino demente, ou alguém que por alguma atitude desse vazão à força imensa que tem dentro de si.Ou simplesmente um escritor que canalizou a sua sensibilidade tremenda numa carta ao pai, numa obra fantástica, inaugural, explosiva, com a força de mil ogivas nucleares.É pena que essa bomba é destinada aos poucos que tomam a letra e a palavra como bússolas.A maioria, a grande maioria, toma outros pontos cardeais.

Sou tão estúpido, não faço idéia do quanto.

O quanto ficar em casa, sonhando, imaginando-me isso ou aquilo outro, basta-me.O quanto de solidariedade existe dentro do meu ser, e não consigo demonstrar isso.Cansado de lutar, fiz o meu papel de executivo, de tirar aquilo que as pessoas tem dentro de si para com isso dar andamento à vida, e descobri o imenso vazio que a existência em comum proporciona à alma.Quanto o convívio é estupefaciente, entorpecedor e aflige a minha alma essa convivência.Não me isolei, fui expulso, e quando consigo encontrar algo próximo a uma alma, a uma sensibilidade em que eu possa falar e ser compreendido e não repelido, busco preservar, e me agarro como uma ostra numa pedra, agarro-me àquilo que me salvará do vácuo.Tenho uma mentalidade vitoriana, inflexível que me pune sempre, não perdoa jamais todos os deslizes, todos os sofrimentos que provoquei.Escrevi várias vezes que nasci no século passado ou retrasado, sou um produto híbrido, não conseguirei jamais me livrar dessa herança romântica…

Fui expulso do paraíso, por ter comido a maçã.

O paraíso é formado pelos livros e lá não existirá jamais uma maçã. 

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