Dobras do tempo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday July 11, 2008

 

 

 

Existe coisa mais intragável que festa de criança? Não conheço. Estou numa delas. Escondi-me ficando num canto. A casa, parece, puxa uma conversa comigo; sentamos nós três, eu, ela e o tempo. Esse último se apresenta como um tecido com várias dobras. E estas não permitem uma leitura completa.

 

Saí da estrada para encontrá-la; situa-se numa clareira de um bosque, construída com muitos, harmoniosos e recortados detalhes em nogueira formando um brusco contraste com o branco da alvenaria. Com telhados altos, mansardas, terraços com balcões, num estilo alpino.

 

Entramos numa sala de estar ampla e alta, o forro e o piso com tábuas agora de mogno, natural e sonoro, as colunas que separam os ambientes estão adornadas com gravuras, mostrando cada uma um casal. Os pisos e as paredes estão forrados com tapetes, de lã, com motivos variados, geométricos, abstratos, nenhuma forma humana. A decoração ficou acolhedora, aconchegante, despertando em mim uma emoção, uma reminiscência, uma vontade de lembrar.

 

Aos poucos fui chamado pelo tempo para um outro lugar. Como um toque suave e amistoso no ombro. Talvez a lembrança da antiga história contada pela minha avó, contando que éramos descendentes dos nórdicos – soube depois que houve uma invasão sueca nas terras alemãs – que saqueavam de sobejo a região. “Mas não, não; não eram bandidos comuns, eram ‘bons ladrões’, roubavam para si o necessário e distribuíam o excesso aos pobres”.

 

E dessa história estabeleci a conexão entre o lugar onde ela contava com este onde eu estava. Eram muito parecidos. Sim poderia ser isso.  As madeiras como lembranças da floresta sempre lembrada por ela, que abrigou meus antepassados por muitos anos, a nogueira, o mogno e o bosque de pinheiros restaram como um símbolo daquela era, que agora piscava sobre mim. Assim como a lã daqueles tapetes. Era o memento das ovelhas com sua pele de astracã atuando como coadjuvantes. Madeira e lã são lembranças de um tempo que não conheci, mas ficou em mim o mimo acolhedor de um lugar, escondido num canto que floresce agora com vigor e êxtase.  Esse mesmo que precisava de reparos para torná-lo mais claro e luminoso.  Foi dele que recebi a sensação de que pertencera ao rol dos meus sonhos também. Eu sabia de antemão quem o idealizou, conhecia a sua história e ela se entrelaçava com a minha.

Dentro da minha floresta e junto aos meus animais; soube então que havia sido um ovelheiro, guardando e cuidando para que não se perdessem ou fossem roubados; a prova ficou gravada como meu sobrenome. Estava já solidamente instalado na terra.

E fazia o que faço agora nas horas vagas, teço com o fio de lã o tapete com as imagens das minhas lembranças.

 

Detive-me para olhar as gravuras consegui ler: Macedônia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Croácia, Montenegro, Eslovênia. A descrição escrita no alfabeto latino indicava que provieram da Bósnia ou da Croácia, já que as demais regiões escreviam em cirílico. Casais em trajes típicos de cada país posando antes do início da dança.

 

Segui para a sala de refeições e encontrei como elemento decorativo duas gravatas com nós duplos presas à parede, com motivos quadriculados da mesma cor, em tons diferentes, e a minha dúvida se desfez. Estava numa casa de croatas.

 

Ao mesmo tempo ouvi uma conversa contando que o pai do dono da casa era iugoslavo. E assim o meu fio encontrou a sua agulha. E alguém de pais croatas, nascido na Bósnia, apareceu para contar uma história que também foi minha: Ivo Andric.

 

Ano Intranqüilo é o nome dela e narra a saga do patrão Ievrem que viveu numa cidade provincial da Bósnia, num tempo impreciso. Próspero agiota que dominava o comércio local, com poucas palavras, muitas informações, dinheiro e inteligência. Perdeu o movimento de metade de seu corpo e do andar superior de sua casa comandava seus múltiplos interesses, sentado sobre seu tapete. Entre os serviçais encontrou Gága. Uma ciganinha deixada para trás num êxodo provocado pela fome; recolhida, cuidada e treinada por sua mulher e por sua filha.

 

Encontrou nela a beleza. Desconhecida para ele até então. Passou a observar a mudança das cores da natureza, saber o nome dos pássaros, plantas e flores. Sabia que tudo se move e esvoaça para longe. Sabia também que tudo era passageiro. E apesar disso tudo, nutriu esperanças - jamais ditas - de retê-la consigo.

Esperanças desfeitas pela requisição do exército imperial, na pessoa do bei, de sua Gága para casamento. Pedido irrecusável, irreversível e imediato. Atrasou o quanto pode, o quanto permitia a sua reputação. Havia aprendido a lição na teoria e na prática; a entregou.

 

Esclareço: isso tudo se passou comigo, entretanto sem o ingrediente da sabedoria. Não entreguei a minha Gága, tentei prendê-la, sem perguntar da sua vontade. E ela fugiu. Aprendi sem a reflexão, com a experiência; e é esse o signo dos tempos atuais?

 

Restam pontos a esclarecer nessas dobras do tempo. Quanto mais fino o tecido mais ilegível a dobra. Saio da festa, vou a um barbeiro. Entrei no primeiro que encontro. Encontrei Pedro das Alagoas. Pergunto se é de Palmeira, lembrando de Graciliano, diz-me ser natural de Pão de Açúcar. Pergunto se tem notícias de Corisco. “Tenho” – diz – “mataram o filho dele a mando do Cel. Maria”. “Coisa de mulher”. Depois de tanto tempo, parece que nada mudou. Parece. Olho ao meu redor, um cafarnaum de objetos, dentre os quais uma fotografia com casal idoso sentado num banco, olhando os que passam. Reconheci a Aquitânia pelas suas torres oitavadas e pela flâmula com seu leão rompante. Perguntei de onde veio. “Ah! Um rapaz de Piracicaba passou vendendo. Bonito, né?”

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobretudo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday July 7, 2008

Seu nome: Ecídio Jorge Butina; tem cinqüenta anos, trabalha em São Paulo há trinta anos fazendo exatos e mesmos negócios. Talvez a sua denominação mais eficaz seja a de um burocrata mercantil. Não encontra neles nada além do meio de sobrevivência. Faz os seus como se escrevesse uma carta, entretanto com a caligrafia mais elegante possível.

Desenha-os de antemão, como se quisesse que aqueles dessem algum tipo de alegria, beleza ou serenidade para aqueles que participassem. Passava ao largo do mundo empresarial.

Teve um amigo de escola que ocupou um cargo muito importante. Era agora, como se diz uma pessoa graúda. Como naquele momento atravessava dificuldades foi pedir ajuda. Quem sabe poderia melhorar o seu desempenho com alguns pedidos novos. Não queria claro, nada demais, nada de menos. Ou talvez quisesse, não é possível saber nesse momento, ou em outro qualquer, face à impossibilidade de se penetrar na alma alheia. O mais apropriado para descrever seu desejo é relatar a sua frase ensaiada: “Quando tiver um pedido lembre do meu nome”.

Mentalizando esse percurso iniciou sua busca.

- Sim, Butina, senhorita. Nem Bolina, nem Botina.

Foi recebido no gabinete privativo e convidado para participar do café da manhã. Aceitou prontamente, mesmo já tendo tomado o seu, jamais cometeria essa indelicadeza.

Tiveram uma conversa amena, compartilhou das suas agruras num determinado momento; ganhou um gesto afetuoso de mão do amigo, que pegou num telefone e pediu uma ligação, para um publicitário famoso. Recebeu o aviso da secretária, colocou o aparelho em viva voz, após as preliminares de praxe, soltou o verbo:

- Estou aqui com o Ecídio meu amigo de escola, que faliu. Quebrou. Precisa de sua ajuda. Veja o que você pode fazer por ele.

Teve vontade de parar a conversa para explicar melhor, não, não era bem isso; teve vontade de enfiar a cabeça no chão. Teve vontade imediata de sair. Encerrou delicadamente a conversa. Despediu-se e saiu; surpreso com tal poder de síntese.

Foi ouvir o que o destino lhe reservara. Marcou a entrevista com o amigo do amigo. Ouviu um plano mirabolante que envolvia o investimento em propaganda muito acima de qualquer número razoável que lhe poderia passar pela cabeça; esse lhe pareceu o esboço da rota da sua ruína.

Ao ganhar a rua tomou a decisão de se trajar de forma diferente. Aboliu o uso da gravata. Foi a sua carta de alforria. Depois de anos servindo a ela, abdicou por inútil.

Recebeu, dias depois, um pedido do exterior. Dos Estados Unidos da América. Dessa vez de um novo cliente, indicado por um outro costumeiro e há mais de trinta anos. Esse novo cliente tem todo interesse em surfar a onda responsável no Brasil. E fez uma gigantesca proposta de compra. Valores fabulosos.

Marcou compromissos com pessoas do setor. Todas suas conhecidas. Ele sempre foi designado como alguém com um perfil suave, não destacado da maioria. Era essa a sua reputação. Estava muito em moda dizer: “Low Profile”

Notou os olhares desconfiados em suas entrevistas. Será o traje? Será a postura? Será que o pedido envolvia mesmo aqueles valores? Não seria apenas um sonho, um mito daquele representante?

Não. Não. Agora era a vez do Butina. Sentia-se bem. Ele estava agasalhado contra o pior inverno. Havia chegado à sua hora.

Percebeu na última visita daquele dia um interesse inusual daquele fabricante. O olhar era desconfiado também. Mas fez questão de mandar seu valete acompanhá-lo até o estacionamento, para abrir-lhe a porta do auto. Tudo indicava que ele aceitaria o pedido, no preço e nas condições indicadas. Chegou até o seu carro, um Honda “Civic” Preto, aprendera com seu pai que carro deve ser discreto, ano 90.

Foi almoçar feliz e voltou ao escritório, mandou um email para o fabricante, agradecendo a atenção, o tempo e desejando abrir caminho para novos e eventuais pedidos.

Quase sem surpresa recebeu uma mensagem do servidor que aquele endereço havia sido bloqueado e que a mensagem foi excluída sem leitura. Imediatamente veio-lhe o desejo de reler Gogol.

Os que pensam com a emoção estão dormindo.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday June 24, 2008

Encontrou a casa, num bairro distante, levado por um amigo espanhol da Galícia, calvo, olhos azuis, forte como um touro, tronco de triângulo isóscele, pau pra toda obra, abraço de quebrar costelas, falante, num tom anunciando briga; sempre preocupado quando alguém pensava diferente dele. Fazia de tudo para convencer o desviado para retomar o caminho certo: o seu.

A casa um sobrado, duas janelas e porta e uma entrada lateral ao lado do pequeno jardim da frente, toda simétrica; entrou pelo lado até encontrar uma porta contígua à lavanderia. Bateu à porta; entrou e encontrou a pessoa indicada.

O galego garantira que ela poderia decifrar os sonhos do amigo. Uma versão feminina do hebreu José, uma voz que surgia das profundezas e falava através daquele corpo travestido de oráculo.

Aquilo que deveria ser o recinto sagrado fugiu completamente ao previsto. Lugar sombrio, atulhado de coisas, com uma pequena mesa onde os dois se sentaram de frente para a mulher.

Uma expressão sofrida no rosto, marcado, a região dos olhos bem mais escura, fazia sobressair o falso e primitivo vermelho dos lábios.

Perguntou ao galego em que poderia ajudar, e o amigo foi apontado com o queixo quadrado e saliente.

Desviou seu olhar e curiosa; pediu para que ele falasse um pouco dele.

O consulente preferiu não dar nenhuma indicação, explicou que gostaria de saber como ela poderia compreender os sonhos que o atormentavam nos últimos dias, que mensagem deveria ler?

- Pois então, conta os sonhos.

Disse então o aconselhado:

- São três sonhos, repetitivos, uma espécie de pesadelo; desperto angustiado, e ao voltar a dormir, recomeçam de onde tinham parado.

No primeiro estou caído. Acabo de cair num saguão de elevadores. Tento me levantar e não consigo, estou nu, tento arrastar-me para apertar o botão e sair dali, e ainda assim não consigo. Os botões sobem como os andares. Tento arranjar uma forma de subir em alguns caixotes e trazer uma corda para me auxiliar. Consigo construir essa engenhoca e nada, não alcanço. Antes que eu desista o botão para de subir e aparece diante de mim um degrau. Àquela máquina tenho que acrescentar altura e não tenho nada para botar em cima. A angústia não é pelo vexame, ninguém se importa com o meu esforço, problema ou nudez. Estava esperando risos pelo fracasso. O silêncio chamou a minha atenção, todos continuam a sua vida normalmente. Como se o único que precisasse do ascensor fosse eu mesmo. Passam pelo saguão ignorando-me.

O segundo sonho leva-me a uma espécie de loja para animais. Uma loja que atendia uma pessoa por vez. Apenas com horário marcado. Neste, estava com meu cachorro e vestido.

- Quem?

- Não. Não. Eu estava vestido, não o cachorro.

Encostei-me no balcão e perguntei o motivo daquela forma singular de atendimento. Fui informado que a loja se especializara no sacrifício de animais. Um sacrifício privativo, sem dor, sem testemunhas com a privacidade que se exigia numa ocasião como essa. Eu já conhecia histórias de pessoas que se livravam dos animais indesejados colocando-os num saco e jogando-os no rio. É mais fácil, barato, tão cruel quanto, por que uma loja para isso. O senhor está enganado, nós oferecemos além de um preço convidativo e da autoria, um lugar onde o cliente pode deixar um testemunho dos motivos que o levaram a fazer isso. Os motivos estão disponíveis para consulta anônima de outros clientes

- Aliás, o senhor quer programar a sua agenda, ou sacrificar o seu animal agora mesmo? Estou disponível.

- Não, não. Obrigado. Apenas queria dar um banho nele e cortar as unhas.

- Vou indicar nossa filial mais próxima de sua casa, especializada.

O terceiro me coloca dentro de uma festa. De uma doceira. Amiga fraterna de longos papos e confidências. Faz e vende doces deliciosos. Conhecia todos os integrantes de sua família, exceto um. Este de camisa xadrez azul e branco, com um olhar hostil, transmitindo censura ou desagrado. Todos os demais já conhecidos, mas não sabia do parentesco. Descobri-o ao me aproximar do grupo para a foto comemorativa da data. Fui colocado ao lado dela. Numa posição muito honrosa. Abraçamo-nos satisfeitos com a festa, com a lembrança, com o reconhecimento. Fiquei, excepcionalmente, até o final. Todos saíram, e fiquei sentado num degrau de uma calçada de cerâmica vermelha, e percebi que estava bem fria. Estava nu. Novamente. Todos passaram e sequer olhavam para mim. Estava numa situação diferente, mas ignorado da mesma forma. Até que encontrei um amigo que bebia num bar próximo e ao me reconhecer ofereceu uma carona.

A maga aparentou perplexidade com a narrativa. Os fatos estavam claros, mas soltos, eram apenas as paredes de uma alhambra feita de sonhos, sem nenhuma cobertura, torre ou berloque. Apenas três sonhos. Apenas um cafofo. Insistiu irritada, querendo saber mais dados da vida da pessoa. Inútil. Não conseguiu nada. Ela saiu por alguns momentos. Voltou com um livro nas mãos, e disse:

- Você terá grandes problemas dentro do prazo de cinco anos; o seu melhor amigo o trairá.

- Devo pagar alguma coisa? Perguntou.

- Não, nada.

Saíram. Sentados no carro o galego indagou:

- Gostou? Ela não é fantástica?

- Continuo sem entender. Tanto o sonho quanto a mensagem. Você entendeu?


Saint Michel de Montaigne

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday June 19, 2008

“Qualquer ato nosso revela o que somos.”

Michel Eyquem, senhor de Montaigne.

“Do que é feito o vinho?” Foi a pergunta de um menino a um Diniz, o do Porto. A resposta não poderia ser mais objetiva e simples. “De uva.” Não era bem isso que ele queria saber. Era o impenetrável segredo da transformação do sabor doce da uva para o aquele outro indescritível. O interesse, talvez, tenha surgido pela admiração à valente adesão do ibérico ao líquido. Objeto de muita louvação. Algo que era formalmente proibido em sua família, onde beber era coisa de alcoólatra.

Aquele menino passou a maior parte de sua vida abstêmio. Até que um dia encontrou algumas palavras. Uma ordenada diante da outra, formando uma frase com esta reflexão: É o mesmo bêbado, tanto aquele que bebe quanto o que se abstém.

A partir de então passou a pensar na questão de uma outra forma. O embaraço e o deslocamento aumentaram quando pedia ao garçom para trocar os cálices. O de água para ele e o de vinho para a moça.

Como adulto passou, além de ler, a beber seu vinho. Nunca passou do aparecido limite que se impôs. Sutilmente, sem a sua interferência aparente. Talvez ele seja ainda uma subespécie do bêbado daquele pensamento. Bebe com medo da quantidade. E com ela controlada, exige do que bebe a embriaguez dos sentidos: o maior sabor. Daí a vontade de conhecer Bordéus.

Fez um roteiro olhando para um mapa. Escolheu Paris, por ser um destino obrigatório. Não se acomodou bem à cidade. A escassez de espaços privados, de pessoas disponíveis, de táxis, aliadas à compreensão deficiente do idioma, formavam a moldura de uma tela, ainda a ser pintada. A abundância dos preços, do tráfego, do barulho, das pessoas, das manifestações, das greves, das máquinas fotográficas e de irritação, completou a obra.

Estava perto de seus amigos escritores. Da memória deles. Porém, impedimentos do tempo, da topografia, do espaço impediram-no de visitar a casa do profícuo Balzac, do introspectivo Marcel Proust e do preciso Gustave Flaubert. Talvez escrevesse melhor por conhecer a mesa de um, a cortiça do quarto do outro ou a casa natal daquele terceiro. Ou ainda por respirar o mesmo ar. A casa de Honoré (47, rue Raynouard) estava sufocada por outras tantas. Não conseguiu entrar. Restava passear pelas mesmas ruas. O exilado Bernardo Soares o ajudou na tarefa: “Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela. … Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta.”

Ao sair de Paris, pensou em visitar Rouen e Gustave. Chegou um dia antes do previsto, não encontrou um lugar para ficar, a não ser a uns tantos quilômetros dali: Bezancourt. Tudo se transformava numa corrida de obstáculos inesperada e inevitável.

Partiu para Bordéus. Uma cidade tão grande quanto a Capital. Imaginou uma Burdígala, uma Aquitânia, encontrou uma metrópole. Acidentada. Agitada pelos estudantes, pelos bares, cafés, trens de superfície. Só queria conhecer os vinhedos e com eles o nascer do vinho.

Ainda não era ali. Ali aprenderia a beber exageradamente o vinho e aproveitar as delícias da vida moderna. Mas um verso o orientava de Francisco Quevedo: “humilde soledad verde y sonora”.

A paz veio com a paisagem, a vinha e uma nova lembrança da memória. A amizade inseparável de Montaigne com Étienne de La Boétie. Visitar a casa de um e do outro. Este legou a sua biblioteca para o outro. Lembrou-se que ele havia sido prefeito da cidade. Portanto não poderia estar muito longe dali. Encontrou a vila de Saint Michel de Montaigne, encontrou horários disponíveis, encontrou pessoas disponíveis.

Fez o trajeto com ansiedade e alegria. Foi recebido por uma alameda de cedros, dispostos simetricamente, depois perceberia que era a maneira mais comum na região de dar boas vindas aos visitantes e de fato, foi assim que ele se sentiu. Encontrou duas moças e trataram de conversar numa língua universal, mista de substantivos franceses, verbos ingleses ambos regidos pela sintaxe das mãos e seus sinais. Dali seguiu pelas vinhas até chegar ao coração do castelo.

É um espaço retangular. Entrou: à esquerda existe a residência dos senhores, queimada e reconstruída, com majestosa imponência dada pela seqüência de suas torres cônicas; à frente e à direita estão os estábulos. Deixou atrás de si o muro e a entrada principal. No ângulo entre o muro e os estábulos, existe uma outra entrada, isolada. Essa é a entrada para a torre do Montaigne. Ela conseguiu ser completamente preservada coberta por um telhado oitavado. Com uma capela, o dormitório e biblioteca.

Sentou num estrado de madeira, semi-destruído, que deveria ter servido para alguma instalação ou audição, e observou as onze árvores existentes diante das estrebarias que faziam uma proteção diante do castelo: um castanhedo (”marronniers”). Em seus troncos ele pode ver uma espécie de escara, com a mesma feição daquelas que cobrem os cetáceos, o que lhes dá força e dignidade de vencedoras; de soldados. Um gato cinzento, com os olhos azuis e desconfiados, passeia saindo do estábulo e passando ao lado do observador. Pisca intermitentemente e agita sua cauda. Parece perturbado com a intromissão.

Entrando naquela edícula se encontra todas as respostas para a fantasia material do homem; como viveu, como era sua cama, sua roupa, seus móveis, o arranjo e a disposição. Sabe-se de suas dores físicas decorrentes de cálculos renais. Dores que o acamavam por longos períodos. Nos quais não poderia presenciar a santa missa. Pediu que se fizessem aberturas nos cantos das paredes de seu quarto. De forma que pudesse, ao menos, ouvir a palavra do seu Senhor repetida pelo sacerdote. Soube também que ele andava à cavalo por longas distâncias, para refletir. Para conhecer-se. Para encontrar seu amigo, que residia na distante e ainda medieval Sarlat-La-Canéda.

A vida no castelo corria e deu tempo ao seu senhor para andar, pensar e escrever. Ele deixou algumas marcas nas madeiras que garantiam a solidez da construção, frases em latim e em grego. Para que não as esquecesse no seu uso diário, como um ensinamento?

A mesma vida ainda corre; até hoje a terra benfazeja produz as eternas uvas do vinho vendido no local. Convidado para ver a técnica de vinificação mantida intacta desde o século dezessete, o convidado prontamente recusou.

Voltou ao pátio e ficou pensativo em companhia do gato, que reviu com o mesmo olhar em outra janela, outro passeio e num último jardim, antes da volta.

Como narrador, peço desculpas pela inevitável e falha descrição do local e pelas agressões à História Natural; apropriado seria ler algumas obras sobre botânica, arquitetura, montaria, filosofia, arte e ética. Não tive o tempo de Bouvard e Pécuchet.

O avesso do cheiro

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday June 12, 2008

Sonhando através de um texto que comentava uma história, o argumento dela me chamou a atenção. É a história de um homem que num dia saiu de casa para fazer uma pequena viajem. Despediu-se de sua mulher e demorou vinte anos para voltar. Nesse período morou numa rua próxima da sua morada antiga. Não cabe aqui discutir o argumento, apenas salientar o sistema rigoroso, misterioso e interior de cada ser, talvez para compensar a confusa desordem do exterior; e sair dele, é se tornar um pária, perder o seu lugar. Essa história conta que ele volta; existem outras variantes e dependem da hora e lugar.

Não tenho experiência suficiente para não me extasiar com as coincidências que me são concedidas. Desperto e banhado ouço essa história:

A família de Ian Fleming, autor do personagem James Bond, encontrou uma nova voz que continuará a obra do seu patrono. Não pôde esperar os séculos transcorridos entre a primeira melodia cantada em persa no Rubaiyat de Omar ben Ibrahim al-Khayyam e a sua volta orgânica e contínua na voz inglesa de Edward FitzGerald. Acreditam os herdeiros que podem ver o futuro do personagem James; ele se chama Sebastian Faulks. Talvez imaginem que tenham resolvido o enigma da voz que passa de um para o outro; ou ainda que o tempo lhes foi cronicamente favorável; tudo a fim de evitar que a história se transformasse naquele pária, caso não tornasse ao prelo. Lembro que essa tentativa foi frustrada antes por outros trinta e dois escritores que escreveram exatamente como o original Ian. Agora, explica Sebastian, escreve inspirado por ele, não faz um simples pastiche. Ele conseguiu, por artes desconhecidas, fazer uma composição entre o antigo e o novo, em estimadas proporções de cinqüenta e cinco e quarenta e cinco por cento entre um e outro.

Agora em Libourne, sob as suas antigas arcadas, peço um café e olho. Sou inclinado quase à queda por cenas de amor. Amor insólito. Na forma, no conteúdo. Mas a forma… Ela é uma música. Uma nota dissonante faz com que toda melodia que percorre a partitura toda se levante.

Um pai passa com seus dois filhos. Numa lambreta completamente desarranjada com os fios à mostra, vem puxando um carrinho de madeira, em formato de caixote de madeira barata, igualmente mambembe que contém as duas crianças, em equilíbrio precário. Queimado pelo sol; rugas em profusão e profissão e um sorriso tímido em U, do mesmo formato da gola da sua camiseta, antiquada, vazada e suja. Instala-se mais adiante e fica sob o sol, brincando com os filhos. Despreocupado.

O que faz um homem vestir uma calça e camisa, colocar uma gravata listrada e atada rente ao pescoço forte e completar o traje com uma jaqueta de gabardine, com zíper? Coroa a sua vestimenta um mal equilibrado chapéu Panamá. Esse é o traje do mestre cuca da “Brasserie des Arcades”. Será o branco da cor?

Ouço, agora, três jovens moças, altas, cantando uma canção que não consigo identificar. Aproximam-se de braços dados, como as jovens fazem em qualquer lugar, ocupam toda a largura da arcada, passos sonoros que incomodam uma senhora vestida em seu traje pesado, claudicando num castão e que não responde ao meu cumprimento. O alto e bom francês das meninas, e seus acordes falaram em mim, talvez para mostrar e afirmar a alegria e desinibição do espírito, a inteligência da mente, e vocação musical do idioma. Que faz de um canto de praça um coral. Repentinamente aparece um aliado: o toque do sino daquela catedral gótica; louvando-as, a mim, ao dia e ao seu deus.

Alguém, um homem, passa e senta ao meu lado. Quieto, calvo, sobressaem-lhe os óculos, pensativo e risonho. Ri muito, das suas próprias situações, desditas ou benditas. Jamais saberemos, ele não pretende dividi-las com ninguém mais, procurou um canto isolado, simetricamente oposto ao meu, para brindar mentalmente. E esboça esse sorriso-risada como puro reflexo do pensamento. Ameaça um gargalhar com o movimento do ombro.

Talvez ainda esteja rindo dessas inúteis notas tomadas por um alguém que ele desconhece. Mas sabe que todos e tudo materialmente definido pelos sentidos não existe. É uma obra da mais pura imaginação. Talvez veja ainda a alegria causada pelas pernas à mostra de uma Lolita que passa, parecendo recém saída das páginas de Vladimir, naquele andar provocante e quase infantil.

O episódio se encerra. Alguém se sentou com ele e puxou conversa, tirando-o do êxtase em que se encontrava, brincando no seu mundo interior bagunçado e feliz.

 

 

Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday May 9, 2008

Dentro de um ambiente lotado com livros, numa aparente mixórdia que se espalhava nas três dimensões existentes, até o ponto onde restasse um único vácuo preenchido por ele e uma poltrona, sob um facho de luz. Luz que fortalecia a penumbra do ambiente. Ruud estava manuseando um grande volume com – imagino – três mil páginas de papel bíblia, e parecia muito contrariado.

Eu que estava para fazer uma matéria não achava o fio daquela meada. Resolvi falar um lugar comum: “O que o senhor está lendo?” “Um livro de história natural” foi a sua resposta. Depois de um tempo, ele começou a falar: “A mariposa não se alimenta durante a sua vida, apenas se preocupa com a procriação. Quando ela entra num ambiente e fica pousada imóvel numa parede, sabe que está irremediavelmente perdida. Não conseguirá mais sair de lá; ficará ali até o final dos seus dias, auxiliada por minúsculas garras, presa naquele canto, até que um espanador ou um vento qualquer jogue o seu cadáver numa lata qualquer. São animais belíssimos, com cores e desenhos surpreendentes.”

Enquanto contava essa história percebi que separou o volume encadernado com uma textura peculiar, parecida com linho, de um amarelo sulfúreo, com letras negras gravadas em relevo, com marcas nos lugares onde uso era constante. Apontando para ele disse, contrariado: “Tenho esse dicionário há muitos anos, e hoje, ao procurar uma palavra, quis abri-lo já na letra S. Deveria fazer como sempre, deitá-lo no meu colo, e pegando pequenos maços de páginas atingiria o vocábulo paulatinamente; primeiro C, depois o F, mais adiante o M, até atingir o lugar e daí encontrar minha palavra. Entretanto hoje o peso do volume parecia maior e colocando a lombada sobre as minhas pernas, calculei onde estaria o S e num único golpe abri o volume. Perdi o equilíbrio, o livro ameaçou cair e, instintivamente, tentei segurá-lo pela única folha que me restou e acabou rasgada.”

E me mostrou a folha rasgada onde pude ler uma palavra rapidamente: ‘solitário’. Pensei comigo, bem até que ele acertou, tem boa mira.

Assim continuou falando: “Lendo sobre as mariposas, aprendi que eu também me comporto como elas; e com esse lamentável acidente, percebi mais, que o conhecimento do nosso semelhante deve ser como a leitura de um dicionário; nunca o conheceremos inteiramente é uma tarefa impossível e quando é necessário encontrar um ponto em especial, devemos ir de pouco a pouco; ao queremos acertar imediatamente com base em nossa experiência, eventualmente acertaremos, mas ficamos com a página na mão e com o livro estragado.”

Mencionei que não havia entendido direito o que ele estava falando e pedi que abrisse o dicionário na letra certa, de uma vez por todas.

E ouvi o seguinte: “Tenho um amigo por muitos anos, ambos somos solteiros, conhecemo-nos muito bem, ele também é professor; outro dia ele me disse que encontrou um outro homem, quinze anos mais novo; e – mais - que ele não saia de sua cabeça. Havia ficado muito impressionado e emocionado com sua beleza física, com a conversa envolvente e mais do que tudo, com o interesse que ele demonstrou em conversar, trocar idéias, expandir horizontes. Tanto é que conversaram todo o tempo da festa. Ao terminar a narrativa me perguntou se por tudo isso ele é um homossexual? Depois disso, nunca mais falamos.”

Esqueci a entrevista e perguntei com curiosidade mórbida: “Mas afinal de contas, qual foi a sua resposta, professor.”

“É.”

Morlock

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 30, 2008

 

Sol queimando sobre a Califórnia. O bar estava no topo de uma ladeira em cujo final se avistava a faixa de praia como um colar para o mar azul e majestoso; mais ao longe uma baleia saltava e se exibia circense para os banhistas que se apinhavam no local. Um salva-vidas que havia feito uma ponta num seriado de tevê e reinava sobre os jovens, contando suas peripécias.

No bar a claridade não penetrava foi deixada lá fora; talvez obstruída pelas persianas ou por sua dimensão exagerada. Um odor azedo pairava no ambiente. Bem no centro uma mesa com quatro pessoas, que formavam dois pares. Um homem aparentando vinte anos mais da mulher loira, de pele muito branca e sardenta que o acompanhava. Um rapaz de seus vinte anos, magro, tatuado, com cabelo azul; e, finalmente, outro menino com cabelo vermelho, piercing na língua, um boné de lã, meio mole, largado no topo da cabeça, desafiando a gravidade; no máximo dezoito.

“Acho uma tremenda sacanagem perder o emprego por isso”, disse o azul “afinal de contas qual o problema das pessoas com o sexo, com transa, com ele?”

“Essa história é muito complicada”, disse a moça, “todos nós temos algum problema com o exibir pura e simples, eu mesma, só consigo tirar a minha roupa com ele – apontando, com o queixo, o homem– no escuro. Nele vale tudo”.

Retrucou o azul: “Mas ele não faz parte do corpo? Ele é tão bonito quanto um braço, um baço, um queixo, pinta ou uma bu…da, não há nada demais. O perigo vem da cabeça e do pensamento”.

“Olha aí, gente”, falou agora o vermelho, “não adianta nada ficar falando dessa me..da, o bonitinho aí, perdeu o emprego. Pra carreira, isso não conta nada, era um trabalho de boy, num lugar vagabundo, cheio de gente chata e burra, tudo, periferia -  tá sabendo?”

“É, e todas as meninas me ajudaram. Pensei que elas estavam gostando da brincadeira. Tiramos um monte de fotos dele, bem durinho, exibido,de todos os ângulos e pusemos num arquivo, na rede, com o nome “Histórias do Zézinho”. Todos viam e gostavam. Riram um monte, me incentivaram. Aproveitei para colocar uma foto do nosso – olhou apaixonado para o vermelho – beijo, e outras dando um rolê. Aquelas que tiramos aqui, olhando na direção do banheiro.”

“Como é que a coisa estourou?” perguntou a loira.

“O carinha que cuida da tecnologia, pegou e mostrou pro chefe. E aí, já viu né? Fui chamado pra explicar. E prometi não publicar mais isso. Meu acesso aos computadores foi cortado. E tudo bem. Aí, sem que eu soubesse … direito, meio na moita, alguém republicou com o nome Príapro, o regresso; foi a conta. Reincidência.”

“Já te falei que isso não é nada. Deixa de onda, consegui um teste num estúdio pra você. É na marra que você vai virar modelo ou ator, qualquer um dos dois. Ou ambos. É bonito, musculoso, se cuida, e sabe cuidar como ninguém. A receita é de sucesso. Eu, vermelho, você azul, a Giovana branca, juntos formamos a bandeira da América, e todos adoram, beijam e lambem, por aqui, a bandeira.”

O homem, que assistia a conversa serenamente, foi interrogado com os olhares para dar uma opinião. E o fez assim:

“Tenho temperamento feminino e preciso ser amado. Sofreria muito com isso. Vocês são masculinos gostam do hostil. A pulsão do sexo em mim também é forte demais, mas felizmente ela se manifestou como na maioria. Não creio que seja pornografia o que você fez, também não tenho nenhuma atração por corpo masculino, vejo beleza nele, mas se alguém mais estiver olhando comigo, passo rapidamente pelas imagens e me concentro naquelas que além de belas, me atraem, despertam em mim o desejo. O corpo da mulher. E assim você deverá proceder. Faça o que manda seu coração, e não compartilhe com ninguém mais, até ter a certeza de que ele é igual a você, ou respeita as opiniões alheias. Aqui, ou mesmo, de onde viemos, o respeito a opinião alheia não é muito a moda. Quem sabe isso muda.”

Abriu o livro, grosso, capa dura, papel acetinado,  que tinha consigo e mostrou uma página.

Regra dos quatro padres – séc. V: Se alguém for descoberto rindo ou fazendo piadas (…) ordenamos que, por duas semanas, este homem, em nome do Senhor, seja reprimido, de todos os modos com o látego da humildade.”

Fechou-o. Levantou-se; e convidando Giovana:

“Vamos para o Hotel, meu amor?”

Recebeu como resposta uma piscada de olhos.

 

 

Ada

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 24, 2008

Numa península, um passeio pelas alamedas. Condomínio onde mora meu irmão. Estou com minha mãe, (estudar enfermagem aos setenta; tô boba, colega) minha filha e o mar.

- Olha uma alquemila; essas folhas são sanícula-dos-montes, conhecida como quebra-pedra. Chegaram num jardim com vinhas virgens, madressilvas, clematite e hera. Essa aí perto da fonte é uma saxífraga-dourada. Que cor, né? Parece ouro e só aparece perto das fontes d’água.

(Troquei minha liberdade por um emprego mecânico, bração, poucas horas, deixa a cabeça livre pra sonhar com o vento. A oferta de pagar bem por seis horas, me raptou. Arranjei um lugar onde não se trabalha aos domingos e dobro o meu horário na sexta, para folgar no sábado; dessa forma estou livre no final de semana para velejar. Essa é a minha verdadeira paixão.)

- Mãe, como você sabe tanto nome de planta?

(Estudar? Estudei. Mais do que o suficiente. Nada que fiz me deu algo de útil para aplicar na vida. Alguma dica de psicologia. Uns truques de educação física. Nunca me importei com a imagem. Aliás, me preocupei um pouco com o físico, tenho medo quando a idade me tirar de cima da prancha.)

(Se eu fosse enfermeira quem sabe ele não teria morrido. Também pudera; como um advogado tão bem sucedido poderia subir numa Ducati Desmosedici RR, e fazer trezentos e vinte oito quilômetros por hora em linha reta? É vício em adrenalina. A filha dele é igual. Que destino, o meu. Resta-me compreender.)

- Gosto de natureza não sirvo para viver na cidade.

(Sirvo pessoas e me carimbei disso. Posso ter me impressionado com a educação das pessoas, sorridentes e afáveis. Senti; o sorriso era para que a comida chegasse logo, para que talvez eu esquecesse de anotar o pedido, e durava até chegar a conta, e o raro que vencesse a barreira do terceiro fosso, para esse o prêmio deveria ser a cama, a minha, claro. Na maior parte do tempo atendi pessoas, aparentemente ricas, com dinheiro, mas sem educação e respeito. Com uma dose de prepotência que mexeu comigo como a onda do mar, não adianta ir contra ela, se subir, subo. Se descer, desço. Faço uma tarefa como o ponteiro do relógio. E isso não basta para o cliente. Ele sempre quer mais. Devo procurar alguma coisa que não existe. O talco até que é simples. Pedir um analgésico também. Porém, não pára por aqui. Agora devo comprar cigarros, sempre mais, saber nome daquele cliente, daquela mulher. Que saco! Tentei recusar educadamente. Sorrindo. Deu certo! Só até o pagamento da conta. Ela passou a voltar sem o serviço. Trabalhava por dez por cento. Era só por isso. E perdi. Diante desse dilema tive que optar. Antes, falei com o chefe. Expliquei a situação. Ele, felizmente, concordou comigo. E disse: “Assim é o nosso ramo. Não posso fazer nada. Por isso te ensinei a venda. Você é vendedora nata, nada além; trazer e levar é disfarce. Venda. Venda. Quem diz a verdade, merece castigo. Não fui eu que inventei a roda. O público pede, se não tem: minta. Em Roma, faça como os romanos”. Putz, virei do avesso. Fiquei p u t a da vida. Saí de lá. Na hora. Fui para um lugar melhor, mais chique, cismei de tratar com a nata. Não, com a nata da nata. Investi um pouco da minha economia em novas roupas, novo fiquei confiante. Só durante os primeiros meses. Logo depois percebi que mosca mudou, a m e r d a era a mesma. De tanto lidar com nata, aumentou o meu colesterol. E, perdi meu sábado tão querido. Ao trabalhar e ouvir o vento rugindo, sentia uma dor de estômago terrível; maior do que a causada pelo ambiente servil, abjeto. Sempre dez por cento. Se quisesse mais, teria que trabalhar mais. Eu quero uma vida decente. Não quero ganhar mais.)

- Ada, você é muito egoísta, deveria pensar na menina e ficar em São Paulo, a educação e as amizades são melhores.

(Namorei um cliente. Não consegui ultrapassar a barreira do preconceito. Lá servir é pecado. Não falou do meu ofício. Era velejadora, amiga de um campeão olímpico, cujo irmão é chamado de macarrão, e caía na risada. Sem roupa somos iguais. Com roupa, não. Prefiro os meninos da praia. Todos são meninos, em qualquer idade. Incrível.)

- Mãe, depois falamos, tá? ‘Tou conversando com ela.

Disse a filha:

- E o mar - mãe - é natureza? Ou natureza é só floresta?

- Mar é liberdade. No mar cada um vive só para si. A gente só compete consigo mesma.

(Voltei ao meu emprego. Olho de fora para a minha vida. De todas que eu sou descobri e identifiquei duas. Uma que é atriz durante seis horas. Sorriso plástico. Seja lá o que aconteça, ele aparece. Corro fisicamente para pegar alguma coisa, o espírito não sai do lugar. Só o necessário para receber meu pagamento. Não consegui nenhuma experiência realmente humana nisso tudo.)

De repente, minha filha se abaixa e pega um copo plástico que um menino deixou cair – propositalmente - no chão e grita:
- Pode deixar que eu jogo no lixo…

E saiu correndo, dizendo:
- Óh mãe, não gosto daqui não, aqui é bom pra passear. É gostoso nas férias.

O irmão vestido de branco, apareceu lá em cima, emoldurado por um portal de mogno, e acenou, chamando as três para o almoço.

Pasticho

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday April 18, 2008

- Amar duas pessoas ao mesmo tempo seria moralmente inaceitável? -

Virginia desligou o telefone; “o seu pedido de aumento foi negado, estamos estudando a sua transferência, nada foi decidido”; colocou o Ipod, cruzou os pés sobre a mesa, ajeitou os óculos de lentes grossas; “recusaremos sua matrícula por atraso nos pagamentos”; afastou o seu obituário cotidiano, e passou os olhos no texto com esse título estranho, e leu:

“Não existe nenhum problema em amar duas pessoas ao mesmo tempo. Conhecemos o amor através de várias perspectivas, hoje em dia falamos do amor urbano, moderno. Essa linha do tempo foi libertando o sentimento das suas amarras, ele foi ficando mais livre, mais aceito, entre parceiros diferentes, um ou vários, do mesmo sexo, do mesmo grupo.

Creio, entretanto, que o amor requer tempo. O amor filial abrange uma vida, no tempo; é além dela. Dura a vida do homem. Não amo hoje, amo para sempre. Amamos para quando não estivermos mais aqui. Talvez tenhamos atitudes aparentemente contraditórias hoje; mas elas valem para o eterno.

O amor pelo outro, é muito mais complexo. O homem se partiu, despregou-se daquele iceberg que é a humanidade e descobriu-se: uno, indivisível, imerso. Deixou de olhar apenas em torno e passou a olhar para si mesmo. Voltou sua mira para o interior, e dentro de si encontrou outra multidão nas bordas de um rio interior. De quando em quando, convida uma delas e a incorpora. Esgota as possibilidades daquele momento e a devolve. Logo mais adiante, pega uma outra. E, não raro, elas são muito diferentes entre si. Mas todas elas têm o mesmo rosto e o mesmo corpo. É uma contradição dramática.

Essa viagem feita a dois é o resultado dessa imagem para o amor. Cada um dos ocupantes escolheu alguém para fazer parte daquele passeio. Ambos dedicam seu tempo para descobrir. E esse tempo não mira o infinito, mira o presente. O tempo cronológico não bate com o tempo de cada um. Cada um tem o seu. E é nele que os personagens têm que encaixar. Encaixe que significa prazer e felicidade.

Vários personagens, vários tempos, um único bote, um passeio que começa no interior de cada um e busca o interior do outro. A paisagem pode atrapalhar. Outros botes. São muitos os fatores que conspiram contra. Se deixarmos que o tempo resolva somos assaltados pelo tédio que um longo passeio dá. Se fizermos as contas diariamente, somos aterrorizados pela solidão de um barco vazio deixado à deriva.

Esse roteiro é uma bobagem simples. Tente você abrir as outras potencialidades dele. A questão de uma outra pessoa nos interessar simultaneamente; significará um simples passeio num outro barco; esse barco se revelará miúdo, o rio em que corre é raso, ou grande e confortável e o leito suporta o calado? Quem escolhe primeiro o barco? Ninguém sabe a resposta. Não é a moral – perdemos a imortalidade -, nem a religião, muito menos a ciência que têm a resposta. A resposta está em você, na sua viagem, no seu leito de rio. Tudo deve desaguar no oceano da felicidade. Mesmo que essa foz se revele, no mais das vezes, lodosa e ansiosa para agarrar no fundo do barco e deixá-la estagnada. Por muito tempo, tempo que, descuidadamente, não temos mais. O que posso é desejar: boa viagem.”

Parou por um instante para pensar como posso catalogar isso? “quando terei o meu próprio carro?” E jogou o papel pra lá. Vou colocar como horóscopo. É isso. A pergunta exige apenas uma resposta: O seu homem não está correspondendo? Troque; escolha outro. Ele não comparece? Troque. Isso acontece, “Cartola” simplesmente acontece. Ninguém manda no seu próprio coração. Se houver necessidade de vários, não hesite. Faça. Não sei por que as pessoas complicam tanto. Esse texto parece escrito por mulher. Vou checar.

Vi o papel assentar-se sobre um livro aberto, encadernado em couro marrom, página duzentos e noventa e quatro, sublinhada à lápis; aproximei-me para ler o texto:

levo comigo,….; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida.”

Urbano

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 10, 2008

Saiu do norte de Minas, daquela cidade que não constou do mapa quando falou para seu chefe do seu lugar de nascimento. Descobriu que era pequena e pobre. Pobre, desconfiava pela vontade de sair que o dominou a partir dos doze anos. Saiu gradativamente. Primeiro saiu da escola, tinha que ajudar a família na roça. Trabalhava apenas trabalhava. Jamais recebia. Depois da roça e passou a cavar valetas em São Paulo. Finalmente saiu deles todos; não mandava ajuda alguma. Cultivou o hábito de gostar do dinheiro. Não o gastava por nada. Só o necessário. E o necessário era muito pouco. Pouco mesmo.

Cavou durante a construção de uma avenida. Lavrando criou músculos e disposição, batia todos os colegas, apesar de ser miúdo. Era reconhecido pela resistência. Dotado de raras, mas grandes qualidades. Sorria. Sorria muito. Quando estava alegre, ou triste. A sua face era uma paisagem sorridente, em qualquer situação.

Deixou de cavar por uma fábrica. Dez anos. Trabalho fácil, para se cansar, fazia sexo, jogava bola e andava. Descobriu maneiras criativas e alegres de se cansar. A sua força e vitalidade impressionava.

Com o passar do tempo comprou uma bicicleta. Jogava futebol apenas no final de semana. Antes de partida, se aquecida dando voltas ao redor do campo. Era o seu condicionamento físico. E acabou se casando com uma mulher trabalhadora, cozinheira de mão cheia, deu-lhe muito prazer, liberdade de invenção na aeróbica da cama e, filhos. Muitos.

Graças ao seu sorriso passou a trabalhar como vendedor. Comprou um carro. Comprou uma roupa social, e tudo mudou. Tendo o carro, roupa como aliados do sorriso, não só vendia como recebia ofertas diárias de sorrisos femininos. E nunca os deixou desapontados. Namorava. Descobriu que podia namorar muitas mulheres, desde que elas não soubessem uma da outra.

Carro zero. Novas oportunidades. Inimagináveis. Trabalhava muito, só vendendo. Incansável. Não fazia esforço nenhum, o sucesso era do sorriso e da calma. Com as mulheres descobriu que a aeróbica era de principiantes; conheceu: Step, Body Fit, Localizada, Manutenção, Ginásio Musculação, Cardio Fitness, Cardio Vascular, Yôga, Funk e Street Dance. Cada professora com uma especialidade. Uma mais linda que a outra. Pagava para se cansar e se divertia como nunca.

Arrumou-se com uma professora de Tantra Yôga. Enroscou-se definitivamente. Apaixonou-se. Dividiu-se em dois. Para atender a instrutora de aeróbica e a yogini. Do segundo e simultâneo casamento teve também uma filha. A yogini sabia do todos os seus compromissos anteriores, e não exigiu a dissolução do primeiro casamento, exigiu desempenho, segurança e companhia.

Trabalhando, vendendo, comprou uma moto para os finais de semana, alemã, com muitas cilindradas e de muitos dólares. Levava a sua vida assim, feliz.

Um dia sentado no sofá de sua casa, de braços com a segunda mulher, atendeu a campainha da porta e deu de cara com a primeira. Tentou negar as evidências, para evitar o escândalo, fez com que entrassem: ela e os filhos. E ali parlamentaram. Conversaram sobre tudo. Em alto e bom som. Fúria. Raiva. Traição. Canalhices, covardias, eram as palavras que os vizinhos até cem metros podiam ouvir. Não se ouviu a voz dele. Calmo e sorridente. Esperou passar o tempo. Horas depois, a turma se separou e a primeira mulher saiu acompanhada dele.

Passado um tempo, foi chamado pelo chefe para assumir a gerência das vendas. Assumiu a melhor expressão e aceitou. Passaram a conversar a respeito do que deveria ser feito dali por diante. Subitamente, o chefe mostrou o jornal que dizia:

“BAZAR DOS BENS DE ABADIA ACABA EM CONFUSÃO.”

- Como é que pode; né?

O mineirinho leu em voz alta e titubeante aquela manchete em vermelho e negro. E as palavras bazar, bar, loja, abadia, igreja, acabar e confusão não faziam o menor sentido, juntas. Limitou-se a concordar, gesto acompanhado do seu melhor, quase uma risada.

Assumiu com sucesso a chefia, as duas famílias, duas casas, uma bem longe da outra, com escala de horários, e tabela anual de férias compartilhadas de quinze dias cada. Abriu uma empresa de comunicação para o filho mais velho, como sócio majoritário e colocou a mais nova na escola de dança da prefeitura de Osasco.

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