Yeziat

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday November 24, 2008

Afasto o véu. Sábado. Dia frio, invernal, o sol brilha entre as nuvens que teimam escondê-lo. Vento em golfadas desabando os raros chapéus. Um lugar descampado e frio, um cipreste ali, outro aqui, o campo foi subdivido em vários quadriláteros e esses foram subdivididos em lotes, cujo conjunto lembra na simetria o desenho das colônias de pingüins e albatrozes. Nestas, cada ninho de albatroz é cercado de quatro ninhos de pingüins, formando uma figura uniforme que se repete. Em nossa colônia os ninhos são apropriados ao repouso de uma ou mais pessoas deitadas. Os maiores fazem uso de mármores, ferro, tijolo, areia e cimento. Erigem mementos patéticos. A circulação dos vivos é feita por alamedas e comportam de três a quatro pessoas lado a lado.

Observo um visitante com um andar peculiar. Vem numa seqüência de passos rápidos, muito rápidos que parecem responder a um empurrão e pára de súbito. Como se o pé fosse, de repente, travado, depois o outro. A paralisação sobe pelas pernas, tronco e finalmente a cabeça. O corpo, preso ao chão, ainda balança para frente e para trás. O comando de parar foi muito rápido. Finalmente fica imóvel. A boca se abre para receber o contato da lata, que despeja seu líquido. Os olhos, detrás dos óculos, se erguem, elevam e arrastam a cabeça e ambos fazem uma prece, ofuscados pelo sol intermitente. Prece, cerveja, nova caminhada, mesmos movimentos. De costas, percebo ferramentas em seu bolso, deve ser funcionário do lugar, coveiro.

Sentados numa pedra retangular, cinza: Pérola e Ruud. Quietos, meditativos. No centro da laje um pacote aberto contendo doces formando pacotinhos quadrados, um maço de flores e um terço. Ela inicia uma conversa.

- Ele gostava tanto de paçoca. Trago toda semana. Ficamos conversando. Relembrando os nossos dias.

- Não sabia que você era católica.

- Eu não sou. Ele era. Nasceu no Rio Grande do Norte. Lá todos são. Querendo ou não. Mas quero fazer as vontades dele. Foi o homem da minha vida. Deixou-me o filho e a ternura de um tempo feliz que agora é passado. Toda semana relembro de tudo, da nossa história de amor. Não rezo, trago o terço para ele. Não gosto do ritual.

- E ele o que diz disso?

- Ele gosta tanto. Sente a proximidade de tudo, nada foi perdido. Apenas as flores restam aqui. Logo depois que eu saio, ele come os docinhos. Ele não gosta de comer na minha frente. Esfarela. Cai.

- O que você anda fazendo?

- Faculdade de ioga. Adoro a filosofia deles. Condiciono o corpo e a mente. O meu tempo vago estudo nutrição. Busco me alimentar melhor. Quero cuidar do corpo, viver mais. Freqüento a academia quatro vezes por semana. Domingo no parque pratico ginástica chinesa. Quando consigo férias, viajo. Gosto de ler para pegar no sono. Leio agora uma biografia de Alexandre. Ele tinha um namorado, sabia?

- Era comum esse costume entre os antigos. Nem sei se é certo, atribuir aos gregos. Parece ser um costume muito antigo, ter um menino de acompanhante.

- Que menino, nada, não era um menino. Ele, de fato, estava apaixonado, quase morreu ao perdê-lo. Eles tiveram uma briga. Ele gostava de ser rei e servo ao mesmo tempo. Digo, na intimidade, sei disso, sinto assim.

- Vamos?

- Sim, eu já terminei. Vamos almoçar? Conheço um lugar novo pra comermos um churrasco uruguaio. Carne de primeira. Não é necessário comer salada.

- Eu procuro não comer carne. Ela faz mal. Pra mim e pra eles, os animais.

- Bobagem, eles também servem peixes e aves. Ou você só come verde? Eles fazem saladas, por lá.

- Prefiro apenas salada.

- Eu havia combinado almoçar com Yeziat, você se importa de nos acompanhar?

- Não. Claro que não.

Ao se encaminhar para a saída, Ruud observou o rosto de Pérola. Algo estava errado e chamava sua atenção. Aquela pele muito branca estava com alguns hematomas no rosto e no colo. Apesar da tentativa de camuflá-los com maquiagem, os lobinhos eram visíveis. Deixavam o rosto disforme.

- O que aconteceu?

- Não é nada. Acidente. Nada demais.

(olhar inquisitivo) (olhos marejados) (olhar interrogador)

Yeziat saiu comigo ontem à noite. Jantamos, bebemos, nos beijamos. Ficamos. Ele é uma pessoa muito diferente. Não gosta de limites. Encantador, atroz, furioso, misterioso. Não se preocupa com mais nada que o seu próprio prazer. Violento. Rústico. Intenso. Isso tudo é muito estranho. Mas tive uma sensação - indescritível e inédita. No início fiquei apavorada. Resisti como pude. Medo. Percebi não ser esse o melhor comportamento e me entreguei. Ele é assim, exigente, franco, poucas palavras, conversa não falando. Faz. Encontrei um homem que não abdica da iniciativa. Naquela entrega o sentimento se formou em mim vindo de fora e me transformou. Modificou o mundo a partir daqui, e a partir de mim mesma; e, portanto, mesmo que isso contradiga todos os conceitos e vá ao encontro dos preconceitos, ele existe. Ao mesmo tempo aqui dentro e lá fora. Está tão entrelaçado conosco, que a questão do que é interior ou exterior perde todo o sentido. Eu me tornei naquele momento outra. Outras. Por um minuto dei uma chance ao novo e fui dominada por ele. Eu senti o mal e dele tirei o bem. Dor, amor, são idênticos no prazer.

- Acho melhor, Pérola, eu conversar com ele. Isso não se faz. Pelo menos não assim. Brutalidade. Não, não. Isso está muito errado. Bater em você desse jeito. Olhe pra você. Você se olhou no espelho?

- Não, por favor, não faça isso. Ontem, depois de me deixar em casa, eu liguei e pedi pra ele: Amanhã é a minha vez. Quero sair de novo. Hoje não; quero ficar quieta, aproveitando o momento. Quero bater também. Vou devolver cada uma dessas marcas.

- Você está preparada para negar essa individualidade – seu rótulo - e se tornar simultaneamente senhora e escrava?  Existirá alguém? Eu percorri muito da trilha e não encontrei. Encontrei apenas pessoas que gostam de posições fixas e irremovíveis. Elas variam e utilizam uma máscara de cada vez. Numa seqüência lógica e linear. Descobrir e ser duas pessoas ao mesmo tempo, abre as portas para o ser múltiplo, sem amarras. As pessoas daqui não vivem muito tempo numa cápsula espacial. A gravidade nos pregou uma peça. Ao ficarmos soltos um tempo, queremos voltar. Voltar ao centro. Ficamos tontos com essa troca constante e nos aferramos à lógica. Perdemos pouco a pouco a nossa leveza. Seremos brevemente aquele Napoleão de Hospício em busca do seu filho. Bem, posso acrescentar que sou neto de Josefina.

- Vivi um amor romântico e realizado em parte. Habituei-me a pegar sempre a primeira peça de roupa da gaveta pra meu marido. Todo o dia pegava a que estava em cima. Agora, a gaveta foi inteiramente mexida. Escolhi outra peça de roupa. Outra cor. Forma. Você me diz que existem outras gavetas, não havia percebido. Elas estão lá bem na minha frente. Não existe ordem? Pensava estar satisfeita, não estou. A partir de um momento, outro mundo de abriu diante de mim. Primeiro como ameaça e abismo e agora como atração e prazer. Quero ser uma espiã. Uma agente dupla. Escolher o melhor entre dois mundos. Se você me diz que existem outros. Quero vivê-los. Se conseguir ao mesmo tempo, melhor. Se for considerada traidora, serei morta. Eu já estava mesmo, não o sabia. Quero conversar comigo mesma.

Chegaram ao portão. As nuvens fugiram.

Do lado de fora: um sujeito emaciado, com cabelos compridos formando ondas sujas batendo no corpo margem, vestindo um paletó e calça escuros, de corte elegante, sapatos faiscantes. Sua camisa, muito folgada no colarinho, por sua vez abraçado por gravatas de nós largos e o todo colorido. O olhar obscurecia o que fitava. O semblante cinza e revolto como seus cabelos. Mãos muito longas e finas mostravam todos os tendões, um feixe deles finalizando em unhas compridas e afiadas. Abriu um sorriso amplo, simpático e calmo. Saudou:

- Vamos ter companhia para o almoço?

- Não, desculpem. Havia me esquecido de um compromisso. Não posso.

Debuxo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday October 1, 2008

O coração do homem é um abismo!

Giácomo Casanova

A casa se lança sobre mim. Construída num bloco único de concreto, lembra uma casamata, mas não é feia. Transmite uma impressão de leveza contrabalançando o cinza pretérito e presente no concreto.

Sou atendido prontamente e conduzido à presença dele: homem de estatura média, extraordinariamente comum, exceto pelo olhar. Manso. Pacífico. Penetrante. Não sei dizer. Sentamos para conversar. Percebo-o manco.

Apresento-me: Sou Felipe Alcofibras, estudo jornalismo na Faculdade da Zona Oeste há sete anos, estou no final do curso, filho do seu funcionário, o Freitas (lembra dele?), me perdi para chegar aqui, desculpe-me, o ônibus parou longe, faço meu trabalho de conclusão de curso, imaginei-o como uma entrevista com o senhor, afinal, segundo meu pai, o senhor é uma personalidade e tanto.

- O que eu posso dizer a meu respeito que seja do seu interesse de mais alguém?

- Bem, o senhor foi empresário de êxito na região. Teve fama de um grande conquistador, um Casanova. Isso chama a atenção do leitor em geral.

- Tudo isso é bobagem. Seu pai divulgou essa história. Empresário? Tive um negócio para ganhar a vida. Casanova? Não, você está enganado. Espere um pouco, lembro-me de um episódio ocorrido entre nós. Em tempos diferentes, namoramos a mesma moça. Ele deve ter concluído e espalhado muitas coisas por aí, eu não sei. Que posso declarar? Construí esta casa para morar. Planejei tudo, desde o local do terreno, o tamanho das dependências, tudo conforme as minhas necessidades. Fiz o projeto, desenhei a fachada. Levei uma vida para isso.

Dizendo isso, levantou-se e me levou para sua biblioteca. Uma grande sala, forrada com livros em todas as paredes. Não havia espaço para mais nada, além da janela dando para um jardim, um tapete vermelho e o teto azul celeste com dissimuladas nuvens.

- O senhor quer falar sobre a sua carreira?

- Não, obrigado. Não existe nada que eu possa ensinar a ninguém nesse assunto. Peço a você que converse com algumas pessoas amigas e conhecidas. Depois disso, conversaremos para esclareceu suas dúvidas e terminar o seu trabalho. Que tal?

Percebi que não tinha alternativa, apesar do tom e da expressão gentis. Concordei.

-Agradeço sua visita e seu interesse. Encaminharei alguns nomes e endereços. Dê o seu endereço, por favor.

- Claro: felipe.alcofibras@gmail.com.

E encerramos a entrevista.

Quando saíamos, perguntei-lhe:

- E seus livros? Tantos assim, o senhor já leu tudo?

- Os livros são a razão de ser da casa. Tudo foi construído e projetado em torno deles.

Olhou para os lados com orgulho.

-Agradeço sua visita e seu interesse. Um abraço.

Recebi alguns nomes com telefones e endereços e fui à luta. Bolei o seguinte questionário para poupar tempo e trabalho:

“Sou jornalista-estagiário do Popular da Tarde. Escrevo uma matéria sobre o Sr. Seingalt. Como ando sem grana, pretendo entrevistá-lo (a), por e-mail. É possível? O senhor (a) foi-me indicado (a) pelo próprio Sr. Seingalt.

A questão é simples: como o senhor (a) vê o entrevistado? Uma fonte segura (meu pai) me confidenciou que ele é um garanhão. É verdade?

Aqui estão as respostas:

A amiga.

Caro Felipe,

O trabalho de jornalista deveria ser um trabalho sério. Infelizmente, no nosso país, não é. Só num país como o Brasil um estudante de jornalismo resolve fazer seu trabalho de conclusão de curso, que supostamente deveria ser um trabalho de grande relevância em seu curriculum universitário, por email, enviando perguntas para um completo estranho (no caso, eu).

Mas isso condiz com o contexto cultural do país. O brasileiro tem por hábito fazer tudo do jeito mais fácil, menos trabalhoso, mesmo que isso comprometa o resultado. Ninguém no Brasil se preocupa com qualidade. E eu sei que isso não vai fazer diferença na sua nota final porque as faculdades pagas não estão preocupadas com a qualidade do ensino e, sim, em receber o dinheiro dos alunos.

Mas eu digresso.

Eu já dei entrevistas por email, uma delas bastante agradável, sobre chá, que é uma das minhas paixões, assim como gatos. Mas, no caso da sua entrevista, isso não vai acontecer.

Sabe por quê? Porque eu não falo sobre meus amigos a estranhos.  Amizade é uma relação que eu valorizo. Eu sou uma pessoa que não se dá a conhecer facilmente. Eu reservo isso para poucos e considero um privilégio quando uma pessoa resolve me conceder sua amizade.

Eu não vou falar do meu amigo para você porque eu não lhe conheço.

E, com relação ao comentário do senhor seu pai, ao invés de se preocupar tanto com a vida sexual alheia (outro péssimo hábito do contexto cultural brasileiro), ele deveria estar preocupado com o nível de educação que o filho dele está recebendo na faculdade. Porque, em minha opinião, um candidato a jornalista que faz o que você está fazendo está na carreira errada.

Uma ex-namorada.

Ah, parece meio maluco, estranho, ausente, muito dedicado ao próprio mundo. Vivia me trocando pelo trabalho. Ele queria uma relação tranqüila, com uma mulher calma e paciente. Passou um conto para eu ler, acho que de um húngaro (sei lá de onde, daquelas bandas), descrevendo uma cena doméstica de amor. A protagonista, uma mulher de rosto branco, que sempre dizia sim. Concordava e apoiava o seu homem em tudo. Acabei me enchendo e perguntei: É isso que você quer de mim? Sabe o que ele respondeu? Sim; é isso. Que cara de pau. Saí, batendo a porta. Ah, quer saber? Não é isso que eu queria para mim. Escolhi entre dois pretendentes e me casei com o melhor. E fui viver na Alsácia.

A ex-mulher:

Fomos casados por quinze anos, dez dos quais sem filhos. O nosso casamento se deteriorou depois do nosso filho. Ele ficou distante. Cada vez mais. Fizemos terapia de casal. A silente, muda e surda. Consultamos médicos. Um dia descobri uma nota fiscal de um hotel do interior. Perguntei-lhe o que significava isso. Ele não resistiu muito e acabou por me contar que havia estado lá com outra mulher. Brigamos. Ele prometeu que a deixaria e voltaria para mim, desde que eu nunca mais tocasse nesse assunto. Fiz o trato. Depois de alguns meses, não resisti e perguntei chorando, numa noite, se ele continuava com outra pessoa. Ele simplesmente se levantou, trocou de roupa, saiu e nunca mais voltou. Creio que ele sempre me traiu, desde o início do casamento. Definitivamente, ele é um lobo em pele de cordeiro. Não presta.

O amigo:

Cara, nem te conto. É um “galinha”. Sempre com uma mulher diferente. Dizem que é muito bem dotado. Tem um apetite insaciável. Quando conversamos, percebo que seu olhar sempre se dirige para uma mulher bonita. O pessoal do escritório conta que ele comia todas as mulheres que conhecia: funcionárias, clientes, amigas. Não deu moleza para nenhuma. A mulherada me consultava muitas vezes sobre ele, queriam dicas, informações, detalhes. Eu sempre avisei. “Cuidado, o cara é foda. Te cuida! O jogo dele só tem um vencedor: ele.” Mas não adiantava nada.

A primeira namorada

Ele me deixou curiosa e excitada. Mistura de anjo com lobo mau Metrossexual. O gostosão que comia todas. Poderoso, simpático, inteligente, admirável, sutil, meigo, apaixonante, lindo. Causa admiração, devoção, respeito, adoração, paixão, amor. Creio que ele também me admira pelos traços deixados pelo nosso tempo juntos. Sou diferente das pessoas com quem ele convive. Ele gosta de uma maneira segura, sem amarras ou comprometimentos, e tem muita confiança. Ama o suficiente para jamais perder o controle. Não consigo conquistar algo nele o suficiente pra esperar mais do que já tenho dele.

O amigo íntimo.

Estudamos juntos. No meio do curso, viajei para a Suécia, fui trabalhar e conhecer o mundo. Fiquei dois anos fora. Deixei minha namorada para ele tomar conta. Tinha muitos ciúmes dela. Depois de quatro meses, ela me deixou. Eu me senti traído na minha confiança. Achei que ela tinha me deixado para ficar com ele. Fiquei um tempo sem falar com ele. Hoje, somos novamente muito amigos. É confiável e manipulador. Conversa muito. Tem um bico muito fino, muito doce.

O funcionário.

Ele é mais que patrão, é meu amigo. Trabalhei muito tempo com ele. Trabalhador, de poucas palavras. Começava a trabalhar muito cedo e terminava muito tarde. Sério. As pessoas tinham medo dele. Uma vez, estávamos conversando e percebi que ele estava muito preocupado. Pediu uma carona, para ir até a periferia da cidade. Tomei coragem e perguntei que diabo (desculpe a palavra) ele faria lá naquela hora da noite. Ele iria conversar com uma amiga que ameaçava se matar. Respondi-lhe: Que nada, doutor, é bobeira, não existe ameaça de suicídio, existe suicídio. Ele foi mesmo assim. Quando voltou, me deu razão.

Com esse emaranhado de respostas na mão, voltei a fazer contato e marquei data e hora para uma conversa.

Ele não se dignou a ler. Observei – durante o papo e com o rabo do olho – numa mesa redonda ao lado da sua poltrona um volume das Memórias de Giacomo Casanova, um pequeno livro do Cortázar, outro do Peter Handke e três grossos volumes, dois com o nome de Octavio Paz e outro de Musil.

- O senhor não vai ler as respostas?

- Não preciso, meu caro. Nós, quando sob o efeito da cólera ou do amor, não deveríamos dar opiniões. Mas, infelizmente, é exatamente quando submetidos a ambos que ficamos mais predispostos a raciocinar e falar. Mas eu gostaria de lhe mostrar uns versos que estou a ler agora e encerrar nossa entrevista. Persone, Ezra Pound.

“Meditatio

When I carefully consider the curious habits of dogs.

I am compelled to conclude

That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man

I confess, my friend, I am puzzled.”

Fiquei num mato sem cachorro. Ainda bem que existe a internet. E segui, forçando um pouco a mão.

- Posso pedir uma pequena biografia sua para o término do meu TCC?

- Fui namorador, na mesma medida de todo homem, ou da maioria deles. Bastante tímido. Minha aparência canhota contribuiu para isso. Acima de tudo, um apaixonado pela beleza. Atraído pelas mulheres. Um amante da ordem natural das coisas. Acima de tudo, um anarquista com uma natureza de esponja. Ao me aproximar de cada pessoa, ocorria uma fusão. Por osmose. Conseguia tirar dela tudo que encontrava apoio em mim mesmo. Sentimentos. Reações. Respostas. Experiências. Conhecida e desconhecidas. Eu a vivia a pessoa como ela mesma, como se fôssemos uma única pessoa, minha personalidade se fundia na dela. Perdia-me. Eu não precisava mais ser uma pessoa. Não precisava defender minhas próprias qualidades. Ansioso por conhecer o mundo, para extrair dele uma palavra resultante dessa fusão, iluminadora e fundadora de uma ordem anárquica e contraditória. Queria realmente ser poeta. Para cantar em palavras essa experiência. Infelizmente, a natureza não me criou com talento para o ofício. O anelo de nomear realizado unicamente na poesia. Uma poesia sem compromisso com autor, só com o som. Compromissada apenas com o humano. A minha singular experiência não me bastou para fazer-me poeta. E isso é indispensável. Apenas consegui um prazer nas palavras, algumas belas, num estertor romântico ultrapassado. Apenas incentivei a vaidade alheia. Cedendo em todos os pontos, entreguei tudo que tinha. Quando me foi pedido o terceiro braço, recusei. Perdi ou decepcionei aquele que se acostumara com as “concessões”. Encontrado o primeiro sentimento sem correspondência, ocorria uma fissura. O um se transformara em dois, isolados. Sós. Ficavam apenas os corpos e o hábito. Escrevo as minhas memórias, esparsas, soltas. Não encontrei uma resposta duradoura de alguém que se fundisse ou se complementasse naturalmente. Apenas esboços momentâneos. Sendo assim, relato a minha única. Uma experiência fadada e fanada.

- Mas o senhor sempre esteve acompanhado de mulheres diferentes, foi isso que ouvi?

- É verdade, é isso que eu acabei de dizer. Conheci muitas delas. Conversava e nunca me relacionei com nenhuma com profundidade. Tudo se passava num mundo absolutamente material. Trocas de carinhos. Desejo. Todas as palavras que vinham, voltavam refeitas e lustradas por mim. Enquanto havia matéria, a troca durou, a relação perdurou. Depois, a desconfiança. Depois, o silêncio. Falência, afinal. Fim: abandono.

Tomei o ônibus para casa. Passei defronte ao MacDonald’s. Em meio ao mar de pessoas, desci. Observei um homem caminhando pelo estacionamento, o andar trôpego. Foi caindo, caindo, fazendo uma espécie de estrela fanada ou cambalhota falha, resultando num tombo. Costas no chão. Duas meninas – no máximo com dezesseis ou dezessete anos, cada – pararam, tentaram inutilmente levantá-lo do chão. Compraram um café. Sentaram na guia da calçada e deram para que ele tomasse aos poucos, até se levantar.

Arcadas

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday September 9, 2008

E aí, Italiano? Beleza? Figura destacada do Largo de São Francisco. Identificava num piscar de olhos quem era estudante cliente oferecendo uma gravata daquele mirífico acervo. Vendia por bom preço artigos copiados à perfeição dos originais europeus. O tecido remanescia do estoque veneziano acumulado pelas viagens na antiga rota da seda. Essa figura simpática e amiga foi durante todo meu tempo lá, a referência.

E o bedel. Multiplex. Exercia durante seu horário, função de mais relevo; revendedor de livros, novos ou usados, conforme o poder aquisitivo de cada aluno. Sabia o livro texto em uso na cadeira. Informando sobre se o professor seguia ou não o texto, para efeito das provas. Fazia cópias de capítulos. Tudo para pronta entrega. No período da tarde, era ascensorista num edifício. Imagem acabada da iniciativa privada.

Eu subia até o segundo andar, um átrio no final do corredor, duas salas, a minha à direita, comportava cem alunos. Uma pequena multidão. Esmaecida ao longo do tempo, acabou restrita aos que sentaram ao meu lado. Interioranos: filhos de Marias, ex-seminaristas, padres, sitiantes, comerciários; da Capital: herdeiros de sírios falidos e ricos, funcionários, corretores, e um italiano legítimo – Pasquale - com um sotaque tão ostensivo quanto seu apreço pelos estudos. Ninguém o entendia direito. A música da língua era outra. Falava italiano usando gramática e sintaxe portuguesas, acrescida por sucessivos e inóspitos “dunque”.

O professor de Direito Romano demonstrou uma didática singular. Ele foi encarregado de nos contar sobre quais escombros do antigo Direito foram montados os pilares do novo cânone. Escombros? Pilares? Prolegômenos? O latim era mais presente que a maioria dos alunos. Logo na primeira semana, o mestre foi colocado em dúvida. O instituto em questão era mesmo Romano ou seria talvez das Ordenações Manuelinas? O mestre parou, pensou e passou a falar até o final da aula no mais fluente dos latins.

Do meu lado direito, sentou-se Dimas. Mediano, magro, rosto encovado, cabelo cortado muito rente, nariz adunco, sério e objetivo. Vestia-se se excessos. Respondia às questões utilizando seu raciocínio lógico cortante. Interessado nas aulas. Vendedor de artigos de papelaria. Recém-casado. Uma filhinha de alguns meses.

À esquerda, Luciano, grandão, alto, forte, gordo, um rosto pálido que contrastava muito com o negro dos seus cabelos fartos, revoltos sobre a cabeça - pequena em relação ao corpo. Filho do dirigente da maior construtora da capital. Vivia num mundo distante, freqüentava as aulas sem regularidade, profundo conhecedor de música, não precisou de nada mais. Era conhecido como Pavarotti.

Logo mais adiante, defronte ao palco onde se apresentavam os professores - ora de costas para a classe, ora de costas para o quadro negro - na primeira fila, um colar de cabeças femininas, com cabelos prematuramente azuis e pertencentes ao Instituto Nacional da Previdência Social. Estudavam para aumentar seus rendimentos nas futuras provas e concursos. Uma brigada de recepção das mais distintas e atentas.

O fundão era habitado por uma centúria de rapazes de óculos, cabelos à militar, todos vestidos com abrigos de gabardine cáqui, fechados com zíper, mostrando o colarinho abotoado da camisa branca. Não conversavam com ninguém. Via-os caminhando com passos ensaiados, agitando alguns pavilhões vermelhos ondulantes, numa rua do centro. Gritavam palavras de ordem.

Numa parede lateral, imensas janelas com esquadrias gastas pelo tempo, vidros baços, que o tédio, perícia e imaginação faziam descortinar o glauco domo da Sé.

No segundo ano. Aula de Direito Penal. Soubemos da existência da carteira da Ordem dos Advogados, para exercício da futura profissão. Dimas, indagou e soube mais: na carteira, os dados do portador e um pequeno resumo da sua vida pregressa. Interessado, pediu exemplos. Ah, se funcionário público ou ex-presidiário, por exemplo.

Durante alguns dias o lugar dele ficou vazio. Voltou diferente. Taciturno. Perguntei se havia algo que eu pudesse fazer. Não, obrigado. Pensando bem, quero vender o meu celular. Quer comprar? Dimas, o que é que há? Fala.

Contou que fora preso, anos antes, por furto de um rádio. Condenado, pagou pelo seu crime. Saiu de lá com um curso para assalto à mão armada. Pós - graduado. Entretanto, optara por constituir família, trabalhar. Depois daquela aula percebeu que jamais conseguiria se livrar daquilo. Estava se preparando para retomar sua profissão de fato.

Conversei com o Pavarotti a respeito. Resolvemos ir até casa do Dimas. Não o encontramos. A esposa nos indicou um bilhar, naquela biboca do Jabaquara, onde ele costumava ficar, até tarde. Um lugar pequeno, encarapitado num barranco, com uma pequena mesa, que exigia do jogador que ficasse de fora - algumas vezes - para poder manejar o taco. Soubemos da sua decisão irrevogável de assalto a banco. Estava tão resoluto quanto em sala de aula respondendo às perguntas dos professores.

Dias depois, a notícia no jornal: tentativa de assalto frustrada, a morte bem na porta do banco. Procurei sua mulher para oferecer ajuda. Não estava mais lá. Desaparecera.

Contei da minha impotência ao Pavarotti. Corremos riscos o tempo todo, disse. E citou: “Viver é perigoso”. Freqüentava cinemas pornôs no centro. Na penumbra, mantinha diversas relações sexuais. Não se importando com nada, exceto estar feliz. Uma vida de sonhos que durava os noventa minutos da sessão, duas ou três vezes por semana.

Convidou-me para assistir à orquestra Filarmônica de Berlim no sábado, no Museu Metropolitano de Nova York. Mas hoje é quinta, não há tempo. Não se preocupe. Mas não tenho grana para isso. Deixa disso, não se preocupe. Mas tenho que trabalhar amanhã. Ele desistiu. E foi.

Tempos depois, soube do Luciano por um amigo. Finou-se, falência múltipla de órgãos. Durante sua agonia, a mãe lhe passava a comida pelo vão da porta do quarto, no rés do chão. Seus bens foram doados, por testamento, para uma associação que presta ajuda à classe média.

Nunca mais freqüentei aulas de Direito Penal. Obtive a carteira. Jamais advoguei. Ingressei no mestrado e não terminei. Amo música.

Paulo de Faria

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday September 2, 2008