Morlock

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 30, 2008

 

Sol queimando sobre a Califórnia. O bar estava no topo de uma ladeira em cujo final se avistava a faixa de praia como um colar para o mar azul e majestoso; mais ao longe uma baleia saltava e se exibia circense para os banhistas que se apinhavam no local. Um salva-vidas que havia feito uma ponta num seriado de tevê e reinava sobre os jovens, contando suas peripécias.

No bar a claridade não penetrava foi deixada lá fora; talvez obstruída pelas persianas ou por sua dimensão exagerada. Um odor azedo pairava no ambiente. Bem no centro uma mesa com quatro pessoas, que formavam dois pares. Um homem aparentando vinte anos mais da mulher loira, de pele muito branca e sardenta que o acompanhava. Um rapaz de seus vinte anos, magro, tatuado, com cabelo azul; e, finalmente, outro menino com cabelo vermelho, piercing na língua, um boné de lã, meio mole, largado no topo da cabeça, desafiando a gravidade; no máximo dezoito.

“Acho uma tremenda sacanagem perder o emprego por isso”, disse o azul “afinal de contas qual o problema das pessoas com o sexo, com transa, com ele?”

“Essa história é muito complicada”, disse a moça, “todos nós temos algum problema com o exibir pura e simples, eu mesma, só consigo tirar a minha roupa com ele – apontando, com o queixo, o homem– no escuro. Nele vale tudo”.

Retrucou o azul: “Mas ele não faz parte do corpo? Ele é tão bonito quanto um braço, um baço, um queixo, pinta ou uma bu…da, não há nada demais. O perigo vem da cabeça e do pensamento”.

“Olha aí, gente”, falou agora o vermelho, “não adianta nada ficar falando dessa me..da, o bonitinho aí, perdeu o emprego. Pra carreira, isso não conta nada, era um trabalho de boy, num lugar vagabundo, cheio de gente chata e burra, tudo, periferia -  tá sabendo?”

“É, e todas as meninas me ajudaram. Pensei que elas estavam gostando da brincadeira. Tiramos um monte de fotos dele, bem durinho, exibido,de todos os ângulos e pusemos num arquivo, na rede, com o nome “Histórias do Zézinho”. Todos viam e gostavam. Riram um monte, me incentivaram. Aproveitei para colocar uma foto do nosso – olhou apaixonado para o vermelho – beijo, e outras dando um rolê. Aquelas que tiramos aqui, olhando na direção do banheiro.”

“Como é que a coisa estourou?” perguntou a loira.

“O carinha que cuida da tecnologia, pegou e mostrou pro chefe. E aí, já viu né? Fui chamado pra explicar. E prometi não publicar mais isso. Meu acesso aos computadores foi cortado. E tudo bem. Aí, sem que eu soubesse … direito, meio na moita, alguém republicou com o nome Príapro, o regresso; foi a conta. Reincidência.”

“Já te falei que isso não é nada. Deixa de onda, consegui um teste num estúdio pra você. É na marra que você vai virar modelo ou ator, qualquer um dos dois. Ou ambos. É bonito, musculoso, se cuida, e sabe cuidar como ninguém. A receita é de sucesso. Eu, vermelho, você azul, a Giovana branca, juntos formamos a bandeira da América, e todos adoram, beijam e lambem, por aqui, a bandeira.”

O homem, que assistia a conversa serenamente, foi interrogado com os olhares para dar uma opinião. E o fez assim:

“Tenho temperamento feminino e preciso ser amado. Sofreria muito com isso. Vocês são masculinos gostam do hostil. A pulsão do sexo em mim também é forte demais, mas felizmente ela se manifestou como na maioria. Não creio que seja pornografia o que você fez, também não tenho nenhuma atração por corpo masculino, vejo beleza nele, mas se alguém mais estiver olhando comigo, passo rapidamente pelas imagens e me concentro naquelas que além de belas, me atraem, despertam em mim o desejo. O corpo da mulher. E assim você deverá proceder. Faça o que manda seu coração, e não compartilhe com ninguém mais, até ter a certeza de que ele é igual a você, ou respeita as opiniões alheias. Aqui, ou mesmo, de onde viemos, o respeito a opinião alheia não é muito a moda. Quem sabe isso muda.”

Abriu o livro, grosso, capa dura, papel acetinado,  que tinha consigo e mostrou uma página.

Regra dos quatro padres – séc. V: Se alguém for descoberto rindo ou fazendo piadas (…) ordenamos que, por duas semanas, este homem, em nome do Senhor, seja reprimido, de todos os modos com o látego da humildade.”

Fechou-o. Levantou-se; e convidando Giovana:

“Vamos para o Hotel, meu amor?”

Recebeu como resposta uma piscada de olhos.

 

 

Ada

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 24, 2008

Numa península, um passeio pelas alamedas. Condomínio onde mora meu irmão. Estou com minha mãe, (estudar enfermagem aos setenta; tô boba, colega) minha filha e o mar.

- Olha uma alquemila; essas folhas são sanícula-dos-montes, conhecida como quebra-pedra. Chegaram num jardim com vinhas virgens, madressilvas, clematite e hera. Essa aí perto da fonte é uma saxífraga-dourada. Que cor, né? Parece ouro e só aparece perto das fontes d’água.

(Troquei minha liberdade por um emprego mecânico, bração, poucas horas, deixa a cabeça livre pra sonhar com o vento. A oferta de pagar bem por seis horas, me raptou. Arranjei um lugar onde não se trabalha aos domingos e dobro o meu horário na sexta, para folgar no sábado; dessa forma estou livre no final de semana para velejar. Essa é a minha verdadeira paixão.)

- Mãe, como você sabe tanto nome de planta?

(Estudar? Estudei. Mais do que o suficiente. Nada que fiz me deu algo de útil para aplicar na vida. Alguma dica de psicologia. Uns truques de educação física. Nunca me importei com a imagem. Aliás, me preocupei um pouco com o físico, tenho medo quando a idade me tirar de cima da prancha.)

(Se eu fosse enfermeira quem sabe ele não teria morrido. Também pudera; como um advogado tão bem sucedido poderia subir numa Ducati Desmosedici RR, e fazer trezentos e vinte oito quilômetros por hora em linha reta? É vício em adrenalina. A filha dele é igual. Que destino, o meu. Resta-me compreender.)

- Gosto de natureza não sirvo para viver na cidade.

(Sirvo pessoas e me carimbei disso. Posso ter me impressionado com a educação das pessoas, sorridentes e afáveis. Senti; o sorriso era para que a comida chegasse logo, para que talvez eu esquecesse de anotar o pedido, e durava até chegar a conta, e o raro que vencesse a barreira do terceiro fosso, para esse o prêmio deveria ser a cama, a minha, claro. Na maior parte do tempo atendi pessoas, aparentemente ricas, com dinheiro, mas sem educação e respeito. Com uma dose de prepotência que mexeu comigo como a onda do mar, não adianta ir contra ela, se subir, subo. Se descer, desço. Faço uma tarefa como o ponteiro do relógio. E isso não basta para o cliente. Ele sempre quer mais. Devo procurar alguma coisa que não existe. O talco até que é simples. Pedir um analgésico também. Porém, não pára por aqui. Agora devo comprar cigarros, sempre mais, saber nome daquele cliente, daquela mulher. Que saco! Tentei recusar educadamente. Sorrindo. Deu certo! Só até o pagamento da conta. Ela passou a voltar sem o serviço. Trabalhava por dez por cento. Era só por isso. E perdi. Diante desse dilema tive que optar. Antes, falei com o chefe. Expliquei a situação. Ele, felizmente, concordou comigo. E disse: “Assim é o nosso ramo. Não posso fazer nada. Por isso te ensinei a venda. Você é vendedora nata, nada além; trazer e levar é disfarce. Venda. Venda. Quem diz a verdade, merece castigo. Não fui eu que inventei a roda. O público pede, se não tem: minta. Em Roma, faça como os romanos”. Putz, virei do avesso. Fiquei p u t a da vida. Saí de lá. Na hora. Fui para um lugar melhor, mais chique, cismei de tratar com a nata. Não, com a nata da nata. Investi um pouco da minha economia em novas roupas, novo fiquei confiante. Só durante os primeiros meses. Logo depois percebi que mosca mudou, a m e r d a era a mesma. De tanto lidar com nata, aumentou o meu colesterol. E, perdi meu sábado tão querido. Ao trabalhar e ouvir o vento rugindo, sentia uma dor de estômago terrível; maior do que a causada pelo ambiente servil, abjeto. Sempre dez por cento. Se quisesse mais, teria que trabalhar mais. Eu quero uma vida decente. Não quero ganhar mais.)

- Ada, você é muito egoísta, deveria pensar na menina e ficar em São Paulo, a educação e as amizades são melhores.

(Namorei um cliente. Não consegui ultrapassar a barreira do preconceito. Lá servir é pecado. Não falou do meu ofício. Era velejadora, amiga de um campeão olímpico, cujo irmão é chamado de macarrão, e caía na risada. Sem roupa somos iguais. Com roupa, não. Prefiro os meninos da praia. Todos são meninos, em qualquer idade. Incrível.)

- Mãe, depois falamos, tá? ‘Tou conversando com ela.

Disse a filha:

- E o mar - mãe - é natureza? Ou natureza é só floresta?

- Mar é liberdade. No mar cada um vive só para si. A gente só compete consigo mesma.

(Voltei ao meu emprego. Olho de fora para a minha vida. De todas que eu sou descobri e identifiquei duas. Uma que é atriz durante seis horas. Sorriso plástico. Seja lá o que aconteça, ele aparece. Corro fisicamente para pegar alguma coisa, o espírito não sai do lugar. Só o necessário para receber meu pagamento. Não consegui nenhuma experiência realmente humana nisso tudo.)

De repente, minha filha se abaixa e pega um copo plástico que um menino deixou cair – propositalmente - no chão e grita:
- Pode deixar que eu jogo no lixo…

E saiu correndo, dizendo:
- Óh mãe, não gosto daqui não, aqui é bom pra passear. É gostoso nas férias.

O irmão vestido de branco, apareceu lá em cima, emoldurado por um portal de mogno, e acenou, chamando as três para o almoço.

Pasticho

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday April 18, 2008

- Amar duas pessoas ao mesmo tempo seria moralmente inaceitável? -

Virginia desligou o telefone; “o seu pedido de aumento foi negado, estamos estudando a sua transferência, nada foi decidido”; colocou o Ipod, cruzou os pés sobre a mesa, ajeitou os óculos de lentes grossas; “recusaremos sua matrícula por atraso nos pagamentos”; afastou o seu obituário cotidiano, e passou os olhos no texto com esse título estranho, e leu:

“Não existe nenhum problema em amar duas pessoas ao mesmo tempo. Conhecemos o amor através de várias perspectivas, hoje em dia falamos do amor urbano, moderno. Essa linha do tempo foi libertando o sentimento das suas amarras, ele foi ficando mais livre, mais aceito, entre parceiros diferentes, um ou vários, do mesmo sexo, do mesmo grupo.

Creio, entretanto, que o amor requer tempo. O amor filial abrange uma vida, no tempo; é além dela. Dura a vida do homem. Não amo hoje, amo para sempre. Amamos para quando não estivermos mais aqui. Talvez tenhamos atitudes aparentemente contraditórias hoje; mas elas valem para o eterno.

O amor pelo outro, é muito mais complexo. O homem se partiu, despregou-se daquele iceberg que é a humanidade e descobriu-se: uno, indivisível, imerso. Deixou de olhar apenas em torno e passou a olhar para si mesmo. Voltou sua mira para o interior, e dentro de si encontrou outra multidão nas bordas de um rio interior. De quando em quando, convida uma delas e a incorpora. Esgota as possibilidades daquele momento e a devolve. Logo mais adiante, pega uma outra. E, não raro, elas são muito diferentes entre si. Mas todas elas têm o mesmo rosto e o mesmo corpo. É uma contradição dramática.

Essa viagem feita a dois é o resultado dessa imagem para o amor. Cada um dos ocupantes escolheu alguém para fazer parte daquele passeio. Ambos dedicam seu tempo para descobrir. E esse tempo não mira o infinito, mira o presente. O tempo cronológico não bate com o tempo de cada um. Cada um tem o seu. E é nele que os personagens têm que encaixar. Encaixe que significa prazer e felicidade.

Vários personagens, vários tempos, um único bote, um passeio que começa no interior de cada um e busca o interior do outro. A paisagem pode atrapalhar. Outros botes. São muitos os fatores que conspiram contra. Se deixarmos que o tempo resolva somos assaltados pelo tédio que um longo passeio dá. Se fizermos as contas diariamente, somos aterrorizados pela solidão de um barco vazio deixado à deriva.

Esse roteiro é uma bobagem simples. Tente você abrir as outras potencialidades dele. A questão de uma outra pessoa nos interessar simultaneamente; significará um simples passeio num outro barco; esse barco se revelará miúdo, o rio em que corre é raso, ou grande e confortável e o leito suporta o calado? Quem escolhe primeiro o barco? Ninguém sabe a resposta. Não é a moral – perdemos a imortalidade -, nem a religião, muito menos a ciência que têm a resposta. A resposta está em você, na sua viagem, no seu leito de rio. Tudo deve desaguar no oceano da felicidade. Mesmo que essa foz se revele, no mais das vezes, lodosa e ansiosa para agarrar no fundo do barco e deixá-la estagnada. Por muito tempo, tempo que, descuidadamente, não temos mais. O que posso é desejar: boa viagem.”

Parou por um instante para pensar como posso catalogar isso? “quando terei o meu próprio carro?” E jogou o papel pra lá. Vou colocar como horóscopo. É isso. A pergunta exige apenas uma resposta: O seu homem não está correspondendo? Troque; escolha outro. Ele não comparece? Troque. Isso acontece, “Cartola” simplesmente acontece. Ninguém manda no seu próprio coração. Se houver necessidade de vários, não hesite. Faça. Não sei por que as pessoas complicam tanto. Esse texto parece escrito por mulher. Vou checar.

Vi o papel assentar-se sobre um livro aberto, encadernado em couro marrom, página duzentos e noventa e quatro, sublinhada à lápis; aproximei-me para ler o texto:

levo comigo,….; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida.”

Urbano

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday April 10, 2008

Saiu do norte de Minas, daquela cidade que não constou do mapa quando falou para seu chefe do seu lugar de nascimento. Descobriu que era pequena e pobre. Pobre, desconfiava pela vontade de sair que o dominou a partir dos doze anos. Saiu gradativamente. Primeiro saiu da escola, tinha que ajudar a família na roça. Trabalhava apenas trabalhava. Jamais recebia. Depois da roça e passou a cavar valetas em São Paulo. Finalmente saiu deles todos; não mandava ajuda alguma. Cultivou o hábito de gostar do dinheiro. Não o gastava por nada. Só o necessário. E o necessário era muito pouco. Pouco mesmo.

Cavou durante a construção de uma avenida. Lavrando criou músculos e disposição, batia todos os colegas, apesar de ser miúdo. Era reconhecido pela resistência. Dotado de raras, mas grandes qualidades. Sorria. Sorria muito. Quando estava alegre, ou triste. A sua face era uma paisagem sorridente, em qualquer situação.

Deixou de cavar por uma fábrica. Dez anos. Trabalho fácil, para se cansar, fazia sexo, jogava bola e andava. Descobriu maneiras criativas e alegres de se cansar. A sua força e vitalidade impressionava.

Com o passar do tempo comprou uma bicicleta. Jogava futebol apenas no final de semana. Antes de partida, se aquecida dando voltas ao redor do campo. Era o seu condicionamento físico. E acabou se casando com uma mulher trabalhadora, cozinheira de mão cheia, deu-lhe muito prazer, liberdade de invenção na aeróbica da cama e, filhos. Muitos.

Graças ao seu sorriso passou a trabalhar como vendedor. Comprou um carro. Comprou uma roupa social, e tudo mudou. Tendo o carro, roupa como aliados do sorriso, não só vendia como recebia ofertas diárias de sorrisos femininos. E nunca os deixou desapontados. Namorava. Descobriu que podia namorar muitas mulheres, desde que elas não soubessem uma da outra.

Carro zero. Novas oportunidades. Inimagináveis. Trabalhava muito, só vendendo. Incansável. Não fazia esforço nenhum, o sucesso era do sorriso e da calma. Com as mulheres descobriu que a aeróbica era de principiantes; conheceu: Step, Body Fit, Localizada, Manutenção, Ginásio Musculação, Cardio Fitness, Cardio Vascular, Yôga, Funk e Street Dance. Cada professora com uma especialidade. Uma mais linda que a outra. Pagava para se cansar e se divertia como nunca.

Arrumou-se com uma professora de Tantra Yôga. Enroscou-se definitivamente. Apaixonou-se. Dividiu-se em dois. Para atender a instrutora de aeróbica e a yogini. Do segundo e simultâneo casamento teve também uma filha. A yogini sabia do todos os seus compromissos anteriores, e não exigiu a dissolução do primeiro casamento, exigiu desempenho, segurança e companhia.

Trabalhando, vendendo, comprou uma moto para os finais de semana, alemã, com muitas cilindradas e de muitos dólares. Levava a sua vida assim, feliz.

Um dia sentado no sofá de sua casa, de braços com a segunda mulher, atendeu a campainha da porta e deu de cara com a primeira. Tentou negar as evidências, para evitar o escândalo, fez com que entrassem: ela e os filhos. E ali parlamentaram. Conversaram sobre tudo. Em alto e bom som. Fúria. Raiva. Traição. Canalhices, covardias, eram as palavras que os vizinhos até cem metros podiam ouvir. Não se ouviu a voz dele. Calmo e sorridente. Esperou passar o tempo. Horas depois, a turma se separou e a primeira mulher saiu acompanhada dele.

Passado um tempo, foi chamado pelo chefe para assumir a gerência das vendas. Assumiu a melhor expressão e aceitou. Passaram a conversar a respeito do que deveria ser feito dali por diante. Subitamente, o chefe mostrou o jornal que dizia:

“BAZAR DOS BENS DE ABADIA ACABA EM CONFUSÃO.”

- Como é que pode; né?

O mineirinho leu em voz alta e titubeante aquela manchete em vermelho e negro. E as palavras bazar, bar, loja, abadia, igreja, acabar e confusão não faziam o menor sentido, juntas. Limitou-se a concordar, gesto acompanhado do seu melhor, quase uma risada.

Assumiu com sucesso a chefia, as duas famílias, duas casas, uma bem longe da outra, com escala de horários, e tabela anual de férias compartilhadas de quinze dias cada. Abriu uma empresa de comunicação para o filho mais velho, como sócio majoritário e colocou a mais nova na escola de dança da prefeitura de Osasco.

Memistória - “Perseguindo Nisus”

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday April 4, 2008

Episódio 8 

 

 

(Tolo romântico…..)

 

(Talvez ela tivesse razão. Imaginar que um segredo dessa natureza poderia ser vendido. E se fosse vendido que eu pudesse tirar proveito disso. E seu tirasse proveito disso, seria junto com ela).

 

- “De agora em diante meu amor, sou um romântico banguela.”

 

- “Esse tipo de humor não ajudará você em nada. Deixe de enrolação e entregue logo o que você nos roubou.”

 

- “Romântico e burro são sinônimos?  Creio que é isso que está atrás do seu pensamento. Pego uma muamba dessa e fico aqui marcando bobeira, esperando a morte que nem a Severina?”

 

- “Não estou entendendo nada.”

 

- “Inteligência nunca foi o seu forte, a pressa, a agitação e a ansiedade, em compensação é da hora. Meu amor.”

 

O patrão interrompeu e disse:

 

- “Olha aí, não estou a fim de encenar filme de James Bond, não quero perder tempo, não pretendo nada além daquilo que é meu. Essa punhetação não vai safar ninguém. Me entrega essa merda e pronto. Vão embora, juntos, separados, não me interessa. Aliás, essa sua esperteza besta já me encheu. Onde está o bagulho? – perguntou rosto colado no rosto.”

 

- “Já disse, - respondeu Nisus, seguro e frio -  não vou entregar nada se não tirar proveito disso. Pouco me importa se você ou outro. No próximo, distante ou remoto. Se oriente rapaz.”

 

- “Seu jogo de palavras enche meu saco. Sabe o que vou fazer? Largar você aí. Até que a sua fome decida por você. Espero uns dez dias. Tenho exatamente esse tempo. Vamos ver se você é macho mesmo. Fecho a porta agora, veja que ela tem um buraco na altura da sua boca. É pra você falar enquanto puder ficar de pé. Quando não puder falar alto, ou não puder colocar a boca no buraco. Está acabado pra você. Filme americano tem segundos para resolver. Você tem dez dias. Se muito.”

 

Ninguém naquela sala, ou buraco frio e gelado, falou nada. Uma borboleta borboleteando faria um ruído insuportável.

 

Passo a bola para a escritora DaniCast

Acompanhe desde o início:

Leia antes:
Episódio 1, por Alex Primo
Episódio 2, por Gabriela Zago
Episódio 3, por Marcos Donizetti
Episódio 4, por Olivia Maia
Episódio 5, por André Gazola 

Episódio 6, por Daniel Lopes

Episódio 7, por Daisy

François Villon

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday April 2, 2008

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“Que pensar bem é mais prudente,

Como Vegécio assim discorre,

Sábio romano previdente,

Ou alto risco então se corre.”

Nasci quinhentos anos depois de trazida ao mundo essa poesia, e tive como profissão ser salva-vidas. É verdade que observei de um posto camuflado; um só, não o troquei como fizeram outros, para mudar a perspectiva, ou conhecer o mundo. Resolvi, melhor dizendo, resolveram por mim, ficar no mesmo lugar, e mudei a maneira de ver; o que dará o mesmo resultado. Mudar o posto ou o ponto de vista dá no mesmo.

O menor esforço que poderia fazer era ir do catre à cadeira e o fazia cotidianamente quatro vezes. Numa delas, numa fria manhã encontrei no caminho lá pelo meu canto direito, rente à calçada, uma carroça. De madeira, sem nada de excepcional: desconjuntada, com duas rodas cobertas de borracha, cor indefinida pela passagem do tempo, dois varões de madeira. Era puxada por um homem. Magro, digno, com sua roupa velha, não muito limpa, possuía certa nobreza no andar. Fazia o movimento de tração como normalmente se observa, e de vez em quando o peso do conjunto o suspendia no ar, ele se aproveitava disso para tomar impulso para baixo e para frente, e fazia o seu trajeto. Poupava suas energias.

Carregava na caçamba uma mulher. A sua. Ela se acomodou como pode lá dentro, as pernas caindo para fora, segurava com uma mão a borda e com a outra a bolsa. Estava vestida com mais apuro, asseada passada e pronta para o trabalho. Eu o acompanhei até que ele parasse num ponto de ônibus, lotado, onde ela o deixaria com um beijo de despedida. Ele seguiu seu caminho acompanhado por um olhar de ternura dela, até desaparecer da vista.

Estava quase chegando ao meu posto e pondo em dia os meus pensamentos. Acompanhava distraidamente essas lagartas à diesel, articuladas e comprimidas de pessoas até não mais poder.

Numa esquina antes do meu posto, fui abordado por um senhor, velho, alto, com uns óculos redondos de tartaruga, rosto com barba de dois dias, uma camisa que foi imaculadamente branca um dia, abotoada até o pescoço, um colete que dançava em seu corpo, coberto por um paletó desaparelhado com a calça, um remendado, a outra cerzida. Cobria a cabeça com um gorro de lã à marinheira, desbotado e trazia à mão um coador de pano.Branco e sem uso, com aro de metal e o estendeu em minha direção dizendo:

- Será que o senhor pode me auxiliar nesse momento de dificuldade?

Olhei-o fixamente. E fiquei quieto. Estava sem ação, sem saber o que fazer.

- O senhor deve estar feliz, o Santos ganhou ontem. Sete a zero. Parecia primeiro de abril, não é?

Tinha no bolso uma nota de cinco. Ela trocou de dono. Ambos traçamos um sorriso longo, longitudinal, de orelha a orelha como de agradecimento mútuo.

O moderno José

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday March 25, 2008

 

 

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José não sabia decifrar os sinais enviados pelos sonhos, nem era belo o suficiente para atrair a atenção de alguém; mesmo assim foi vendido pelos irmãos. Exilado; restou empregar-se como cobrador de impostos, serviu-se deles para a melhor das finalidades: a própria e a do seu chefe; não resistiu às tentações da carne. Foi materialista demais para resistir aos apelos sensuais. Ter é poder. Tendo a tenda vale aprender a lenda?

 

Após seu sucesso inicial em terra estranha, chamou seus irmãos que vieram acompanhados por sua mãe. Deu-lhes uma oportunidade de fazer a sua vida também. Empregou-os. Deles continuou recebendo injúrias e desentendimentos. Não queriam oportunidades, queriam somente viver bem e sem problemas. Gostavam de aromas finos e de ar puro para encher os pneus de seus autos.

José - ah! José - após várias leituras equivocadas de sonhos e sucessivos fracassos em missões estatais, relegou-se ao convívio com os seus. Foi o que restou: as glórias imaginadas de um passado.

Cada vez mais compensava a distância do poder com as roupas caras e na moda. Precisava dos sinais exteriores de prestígio. Coninuou com companhia de feminina, uma após a outra.

Sintomaticamente passou a conviver com três simultaneamente. Sua vida transcorria nessa agitada acrobacia feminina. Uma trabalhava numa casa bancária; outra uma médica; e finalmente, uma que havia sido reservada para um futuro marido. Desde que ele tivesse poder e majestade suficiente. O futuro marido se revelou muito futuro. Num remoto e longínqüo lugar.

Assim que José soube que essa última houvera sido noiva de um ministro de Estado, ficou perdidamente apaixonado pela advogada.(Ela estudou por ser de bom tom.) Falava como se declamasse um acórdão de Tribunal. Rococó como Góngora. Cada frase poderia figurar numa Ordenação Manuelina.

Acabaram marcando o casamento, em dia e hora de conhecimento apenas dos parentes mais próximos. Temiam profundamente um escândalo das demais interessadas quando soubessem. Escândalo público eles não suportariam. Apesar dele não ter conversado com nenhuma delas a respeito do assunto. Deve-se mencionar: ao saber do ocorrido não se viu nenhuma lágrima vertida.

Os parentes ficaram em polvorosa, queriam saber do regime do casamento, afinal de contas, ele ao casar estava lidando com o seu patrimônio. Patrimônio que um dia seria deles. Ficaram desconsolados ao saber da comunhão total de bens e haveres. Foram deserdados. Tudo, tudo seria transferido para ela, a esposa. A lei.

Durante a breve vida de casado, adquiriu alguma paz de espírito. Deixou as roupas de lado, não comprou mais o carro novo todo ano. Não freqüentou mais os lugares da moda. Não queria ver, nem ser visto. E viveu em paz, sem filhos, até a que morte o encontrou. Lutou, mas já em agonia, não teve muita força. Parecia desanimado e feliz.

Após as cerimônias fúnebres, a família se reuniu para saber qual atitude tomar. Se havia alguma.

Um irmão lembrou de um fruto de aventura como solteiro. E todos correndo, foram buscar o filho, até então não reconhecido, para que abocanhasse o que lhe era devido. Encontraram um rapaz alto e bonito, formado engenheiro, e finalmente, com uma semelhança física impressionante.

 

Ele, o novo protagonista, após tomar conhecimento de todos os fatos, acompanhar atentamente o desenrolar dos dados e valores. Olhou bem para todos, um por um e disse, ao fim:

- Muito obrigado. Não tenho nenhum interesse em agir. Ele viveu o suficiente para me reconhecer. Não o fez. Ele não foi meu pai. Vocês estão enganados.

Taturana

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday March 12, 2008

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Hoje estava lendo um livro de um amigo que conta de suas andanças pela metrópole e lá fui convidado para entrar na Barnes&Noble, saber um pouco de sua história, saber como elas engolem as pequenas livrarias e os porquês de tudo. Preparem-se para um grande parêntese.O autor  é muito bom, faz ligações gostosas e perigosas, se confessa um admirador do Gay Talese. E tanto o seu texto quanto o do americano podem ser resumidos assim: começa-se a ler e não se para mais. Vou tirar um período do escritor americano para dizer que o brasileiro é, no mínimo, da mesma estirpe. Lá vai: “Quando o cavalo da estátua eqüestre de um general está com ambas as patas dianteiras levantadas, isso significa que o general morreu no campo de batalha; quando uma das patas dianteiras está no chão, o general morreu de ferimentos recebidos em combate; quando todas as patas estão no chão, é provável que o general tenha morrido na cama.”in Fama&Anonimato de Gay Talese através de Luciano Vieira Machado.Ao ler da sua experiência na livraria com um vendedor, imediatamente me lembrei de um amigo íntimo de muitos anos: Taturana.Um dos melhores seres mais aconchegantes e amáveis com os quais esbarrei e conheci, sem jamais retribuir um centésimo dos milhares que aplicou em mim; ocasionalmente vendedor de livros, e me acompanhou por muito tempo. Conseguiu edições incríveis e inacessíveis de dicionários etimológicos, edições esgotadas sem conta, dicionários de latim, grego, russo e tupi. Bastava ter curiosidade por uma obra, pronto, ele me conseguia. Autografada muitas vezes. Sempre foi mágico. Sempre foi um grande leitor também. Fazia tudo acontecer, sem traumas, problemas e complicações.

Aventurou-se por vários lugares, para conseguir algum reconhecimento do seu trabalho. Um cigano, um andarilho. Com um físico de Dom Quixote, caso você o imagine baixinho. Considerava-se um descendente dos Van der Ley dos Países Baixos, e dos Cavalcanti na linhagem original da Florença. Foi ele que me trouxe a História de Florença do Maquiavel. Para que conhecesse um pouco mais de sua história.

Numa ocasião, ele foi procurado por um jornalista que buscava saber como eram os seus clientes, suas identidades, hábitos e coisas assim. Acabei aparecendo numa folha diária, com direito a entrevista, foto e todas as formalidades de estilo. Tive o meu minuto de fama. Essa era a idéia que ele tinha de mim, de um grande amigo que lia.Sonhava muito em ter uma editora, gostaria de publicar obras bilíngües - italiano e português - com traduções soberbas. Começaria com aquela história do grande Nicolo Machiavelli.

Um belo dia apareceu com uma edição em fac-símile.

- Uma antevisão do meu paraíso – disse-me, exibindo orgulhoso aquele volume ainda um pouco desconjuntado.E o melhor de tudo isso é que você será o meu homenageado. Fiz uma poesia para você.  E mostrou-me seus versos cambaios.

Essa edição nunca viu a luz do dia.Algum tempo depois, veio me pedir conselhos a respeito do contrato de compra de uma casa. A sua casa, onde moraria com sua querida Dulcinéa. O contrato estipulava que ele pagaria uma vultosa soma, depois de certo tempo.

Arrisquei a pergunta:

- E de onde vem a grana, Tatu?

- Não há problema, falei com o Marco Maciel, que é meu amigo e aparentado lá de Olinda.

- Você nunca me falou dele como seu parente. Que ótimo. Você não acredita que seja melhor conseguir primeiro uma carta de crédito num banco qualquer, antes de você empenhar o seu dinheiro?

- Você acha que ele dará um balão assim num amigo e parente?

- Desculpe-me, falou a voz da razão, ou do medo, sei lá. Desculpe. Não quero atrapalhar. Boa Sorte.

Tempos depois recebi um telefonema de sua esposa, dizendo que o Taturana não estava bem, e que perdera o dinheiro que investira na casa. Agora posso voltar para terminar esse outro livro, com uma sensação estranha lá dentro de mim. 

Albalice

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday March 4, 2008

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Sou filha de migrantes pernambucanos. Filha entre muitos filhos fui punida com a beleza. A beleza combinada com a pobreza e religião é algo muito explosivo. Desde menina fui proibida de entrar no banheiro quando meu pai se barbeava. Fui punida cada vez que levava uma cantada. Inocentemente contava para pedir ajuda e proteção, recebia um castigo. Talvez fosse tomada por uma oferecida. Aprendi a calar. Existia uma espécie de escuridão em casa, e nela eu aparecia como uma espécie de ponto fulgurante. Brilhava para sofrer. Bastava estar presente, para ser o centro das atenções, recomendações e conselhos.

Teimosa, jamais revidei uma violência, e também jamais aprendi com conselhos. Só com meus próprios meios. Sempre fiz o meu caminho, independentemente dele estar certo ou errado. Aprendi fazendo ou não fazendo.Aos poucos fui me calando, calando, apesar de falar o tempo todo. Falava para desviar a atenção sobre mim.

Fui trabalhar para custear meus estudos, apaixonei-me pelo patrão, silenciosamente. Ganhei coragem e me declarei. Ele não acreditou. Fui mandada embora.Trabalhei, trabalhei, namorei pouco. Aprendi a fazer bem o que faço. Tudo que consegui foi trabalhando. Amor e dinheiro.

Casei com um colega do trabalho.Ele: descasado com dois filhos e trabalhava o suficiente para pagar a pensão deles. Parece esperar a herança de alguém.Bebia muito, ouvia Pink Floyd quando estava pra baixo e Bach quando estava alegre. Inteligente, calado, tímido.Toda vez que a parte alegre da minha natureza despontou fiquei desapontada.

Casada há vários anos, tive a idéia de me pintar, arrumar o cabelo, ficar bonita e nua em pêlo coberta com meu melhor casaco desci as escadas e fiquei parada no patamar. Esperando a sua ereção, aliás, sua reação. Olhou-me, com um ar indeciso entre surpreso e alegre; tirei meu casaco, abri os braços e pedi por ele, derretida em méis pela esperança fulgurante daquele olhar.

Ouvi:- Qui que é isso Alba? Isso não é coisa de mulher honesta.

Depois de algum tempo, consegui minha filha. Depois de mais algum tempo, consegui me separar. Sem alegria, com peso na consciência, levei três meses tomando coragem para falar.

Hoje estou só. Tentando lidar com a escuridão que me envolve. Aquela força contida em mim, que iluminava tudo a minha volta, ora some, ora aparece. As coisas a minha volta me prendem, me puxam, para um lugar que não conheço.

Aprendi a gozar sozinha. Tenho um sonho de poder compartilhar isso com um companheiro, sem ser chamada de vagabunda.

Alguma coisa ficou estampada em mim, que não permite que eu saia do lugar. Preciso encontrar alguém que também não saia do seu lugar e seja feliz, alguém que não seja possuído pela ira.

Aos poucos percebo que a ira não é boa conselheira, ela me torna ainda mais medrosa. Com a raiva que sinto de mim, por não conseguir sair do lugar, consigo forças para ter raiva do outro que se aproveita de mim. E a raiva do outro volta com a força de um contato desfeito, de uma queda do pago, do sumiço do mercado.

Tocou o telefone. Esqueci de dizer que agora estou bem melhor, tenho um namorado virtual.

Iólipo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday February 27, 2008

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Finis. Fim. Lipo. Iólipo. Deitado e descarnado. A pele olivácea coloriu-se do tom do pó. Foi conhecido durante a sua vida por Lipo. Jazia ali como um dejeto de rio, aqueles que ficam na curva do caminho, sem seu fim natural: a foz e o mar. O ambiente que deveria aparentar tristeza, aparentava indiferença. Os poucos parentes sentados de costas para as paredes recebiam os seus poucos amigos.

Não que o Lipo não tivesse amigos, os tinha e em grande número, mas todos eles, sem exceção, não se conectavam com a sua família. Ele durante sua vida viveu em diferentes conjuntos sendo o único ponto de contato entre eles.

Filho caçula de uma viúva de vinte e sete anos, com mais quatro irmãos. Fruto de um casamento proibido entre um dentista comunista - morto na prisão por subversivo - e uma mocinha sonhadora de pai imigrante e sírio.

Recebeu da mãe todo o carinho destinado a si e aos outros. Todos tiveram que trabalhar desde cedo para prover o seu próprio sustento, sem tempo para cafuné; menos ele; não tinha idade.Todos o tachavam: mimado.

Os irmãos seguiam suas carreiras: o mais velho de jornaleiro se tornou funcionário público, a irmã casou-se logo e se excluiu do rol das despesas, o outro se tornou, na falta de tempo, dinheiro e disposição para estudar, político da situação, daquela situação subserviente, dos cretinos fundamentais, dos ‘sim senhor’.

Ele cresceu e viveu à margem; uma terceira margem. Não conseguia compreender aquela hostilidade, aquela avareza, aquele rancor que se distribuía ao seu redor. Aprendeu a conhecer Noel Rosa, sabia quase todo o seu repertório de cor, inclusive ‘Sai da tua alcova’. Passava horas ouvindo suas músicas, aprendeu a beber.

Com a bebida ele se tornava mais leve, as pessoas perdiam aquela dureza, os sorrisos afloravam mais facilmente, via grandes momentos de ternura e amor, o medo saía dali e o fundo triste daquelas almas aparecia, boiava. Um ou outro ficava valente e era deixado de lado. Não aborreciam ninguém, eram tratados como professores e deixados de lado.

O político lhe arranjou um emprego estável, onde não precisava trabalhar, não ganhava quase nada, mas deixou para sempre afastado o rótulo de vagabundo. A mãe arranjou um casamento com uma moça que praticava ‘johrei’; o pai chamado Von Zurück havia sido um grande grileiro de terras e mãe, dona-de-casa, cuidava de ambos. Marido e genro. Nada poderia ser mais diferente dele do que essa família. Em comum tinham apenas o gosto pela caninha e pelo filme ‘O Crepúsculo dos Deuses’, que assistiam diariamente. Mas essa congruência era com o sogro, não com a menina. Passaram juntos infindáveis seis meses. Aumentou a bebida até encontrar o nível insuportável para todos. O sogro foi o primeiro que caiu em coma alcoólica, finalmente, quando ele caiu, a noiva também caiu…fora.
Mudou-se para o centro da cidade. Vivia com motoristas de praça, biscateiros de uma forma geral, companheiro de bebida nos bilhares, lia João Antonio às vezes.
Encontrou muito amor, carinho, compreensão e isolamento. Ficou doente, muito doente, com úlcera. Teve tempo de dizer para o sobrinho empedernido:
- Ta vendo? Nada de cirrose. Isso é que é saúde. Não te falei?
Morreu sem receber alta.
De repente dentro do silêncio um murmúrio, um clamor, um alvoroço digno de velório, sem fúria, lotado de olhares enviesados. Três moças entraram silenciosamente, olhando para o corpo e para o chão. Vestidas com capas de chuvas, ao se movimentar desnudavam suas carnes, seus rostos tinham ainda restos das cores da noite, do amor comprado, exagerado, fácil de receber, difícil de dar.
Recatadas. Olharam e viram apenas homem com um sorriso no rosto, dirigiram-se para ele. E uma delas disse baixinho:
- Você pode me emprestar as chaves do apartamento dele, pra gente tirar nossas coisas?
O tio - funcionário público - se aproximou para ouvir a conversa, se intrometeu:
- Infelizmente não podemos.
O sobrinho - o do sorriso -, respondeu:
- Tio, me dê as chaves, eu me responsabilizo. Po’ deixar.
De posse do molho, entregou às moças e pediu que elas as devolvessem em sua casa.
E o Lipo foi embora com quatro declarações de amor ao natural, sem álcool, para sedimentar sua parte neste mundo, vasto mundo.

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