Taturana

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday March 12, 2008

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Hoje estava lendo um livro de um amigo que conta de suas andanças pela metrópole e lá fui convidado para entrar na Barnes&Noble, saber um pouco de sua história, saber como elas engolem as pequenas livrarias e os porquês de tudo. Preparem-se para um grande parêntese.O autor  é muito bom, faz ligações gostosas e perigosas, se confessa um admirador do Gay Talese. E tanto o seu texto quanto o do americano podem ser resumidos assim: começa-se a ler e não se para mais. Vou tirar um período do escritor americano para dizer que o brasileiro é, no mínimo, da mesma estirpe. Lá vai: “Quando o cavalo da estátua eqüestre de um general está com ambas as patas dianteiras levantadas, isso significa que o general morreu no campo de batalha; quando uma das patas dianteiras está no chão, o general morreu de ferimentos recebidos em combate; quando todas as patas estão no chão, é provável que o general tenha morrido na cama.”in Fama&Anonimato de Gay Talese através de Luciano Vieira Machado.Ao ler da sua experiência na livraria com um vendedor, imediatamente me lembrei de um amigo íntimo de muitos anos: Taturana.Um dos melhores seres mais aconchegantes e amáveis com os quais esbarrei e conheci, sem jamais retribuir um centésimo dos milhares que aplicou em mim; ocasionalmente vendedor de livros, e me acompanhou por muito tempo. Conseguiu edições incríveis e inacessíveis de dicionários etimológicos, edições esgotadas sem conta, dicionários de latim, grego, russo e tupi. Bastava ter curiosidade por uma obra, pronto, ele me conseguia. Autografada muitas vezes. Sempre foi mágico. Sempre foi um grande leitor também. Fazia tudo acontecer, sem traumas, problemas e complicações.

Aventurou-se por vários lugares, para conseguir algum reconhecimento do seu trabalho. Um cigano, um andarilho. Com um físico de Dom Quixote, caso você o imagine baixinho. Considerava-se um descendente dos Van der Ley dos Países Baixos, e dos Cavalcanti na linhagem original da Florença. Foi ele que me trouxe a História de Florença do Maquiavel. Para que conhecesse um pouco mais de sua história.

Numa ocasião, ele foi procurado por um jornalista que buscava saber como eram os seus clientes, suas identidades, hábitos e coisas assim. Acabei aparecendo numa folha diária, com direito a entrevista, foto e todas as formalidades de estilo. Tive o meu minuto de fama. Essa era a idéia que ele tinha de mim, de um grande amigo que lia.Sonhava muito em ter uma editora, gostaria de publicar obras bilíngües - italiano e português - com traduções soberbas. Começaria com aquela história do grande Nicolo Machiavelli.

Um belo dia apareceu com uma edição em fac-símile.

- Uma antevisão do meu paraíso – disse-me, exibindo orgulhoso aquele volume ainda um pouco desconjuntado.E o melhor de tudo isso é que você será o meu homenageado. Fiz uma poesia para você.  E mostrou-me seus versos cambaios.

Essa edição nunca viu a luz do dia.Algum tempo depois, veio me pedir conselhos a respeito do contrato de compra de uma casa. A sua casa, onde moraria com sua querida Dulcinéa. O contrato estipulava que ele pagaria uma vultosa soma, depois de certo tempo.

Arrisquei a pergunta:

- E de onde vem a grana, Tatu?

- Não há problema, falei com o Marco Maciel, que é meu amigo e aparentado lá de Olinda.

- Você nunca me falou dele como seu parente. Que ótimo. Você não acredita que seja melhor conseguir primeiro uma carta de crédito num banco qualquer, antes de você empenhar o seu dinheiro?

- Você acha que ele dará um balão assim num amigo e parente?

- Desculpe-me, falou a voz da razão, ou do medo, sei lá. Desculpe. Não quero atrapalhar. Boa Sorte.

Tempos depois recebi um telefonema de sua esposa, dizendo que o Taturana não estava bem, e que perdera o dinheiro que investira na casa. Agora posso voltar para terminar esse outro livro, com uma sensação estranha lá dentro de mim. 

Albalice

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday March 4, 2008

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Sou filha de migrantes pernambucanos. Filha entre muitos filhos fui punida com a beleza. A beleza combinada com a pobreza e religião é algo muito explosivo. Desde menina fui proibida de entrar no banheiro quando meu pai se barbeava. Fui punida cada vez que levava uma cantada. Inocentemente contava para pedir ajuda e proteção, recebia um castigo. Talvez fosse tomada por uma oferecida. Aprendi a calar. Existia uma espécie de escuridão em casa, e nela eu aparecia como uma espécie de ponto fulgurante. Brilhava para sofrer. Bastava estar presente, para ser o centro das atenções, recomendações e conselhos.

Teimosa, jamais revidei uma violência, e também jamais aprendi com conselhos. Só com meus próprios meios. Sempre fiz o meu caminho, independentemente dele estar certo ou errado. Aprendi fazendo ou não fazendo.Aos poucos fui me calando, calando, apesar de falar o tempo todo. Falava para desviar a atenção sobre mim.

Fui trabalhar para custear meus estudos, apaixonei-me pelo patrão, silenciosamente. Ganhei coragem e me declarei. Ele não acreditou. Fui mandada embora.Trabalhei, trabalhei, namorei pouco. Aprendi a fazer bem o que faço. Tudo que consegui foi trabalhando. Amor e dinheiro.

Casei com um colega do trabalho.Ele: descasado com dois filhos e trabalhava o suficiente para pagar a pensão deles. Parece esperar a herança de alguém.Bebia muito, ouvia Pink Floyd quando estava pra baixo e Bach quando estava alegre. Inteligente, calado, tímido.Toda vez que a parte alegre da minha natureza despontou fiquei desapontada.

Casada há vários anos, tive a idéia de me pintar, arrumar o cabelo, ficar bonita e nua em pêlo coberta com meu melhor casaco desci as escadas e fiquei parada no patamar. Esperando a sua ereção, aliás, sua reação. Olhou-me, com um ar indeciso entre surpreso e alegre; tirei meu casaco, abri os braços e pedi por ele, derretida em méis pela esperança fulgurante daquele olhar.

Ouvi:- Qui que é isso Alba? Isso não é coisa de mulher honesta.

Depois de algum tempo, consegui minha filha. Depois de mais algum tempo, consegui me separar. Sem alegria, com peso na consciência, levei três meses tomando coragem para falar.

Hoje estou só. Tentando lidar com a escuridão que me envolve. Aquela força contida em mim, que iluminava tudo a minha volta, ora some, ora aparece. As coisas a minha volta me prendem, me puxam, para um lugar que não conheço.

Aprendi a gozar sozinha. Tenho um sonho de poder compartilhar isso com um companheiro, sem ser chamada de vagabunda.

Alguma coisa ficou estampada em mim, que não permite que eu saia do lugar. Preciso encontrar alguém que também não saia do seu lugar e seja feliz, alguém que não seja possuído pela ira.

Aos poucos percebo que a ira não é boa conselheira, ela me torna ainda mais medrosa. Com a raiva que sinto de mim, por não conseguir sair do lugar, consigo forças para ter raiva do outro que se aproveita de mim. E a raiva do outro volta com a força de um contato desfeito, de uma queda do pago, do sumiço do mercado.

Tocou o telefone. Esqueci de dizer que agora estou bem melhor, tenho um namorado virtual.

Iólipo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday February 27, 2008

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Finis. Fim. Lipo. Iólipo. Deitado e descarnado. A pele olivácea coloriu-se do tom do pó. Foi conhecido durante a sua vida por Lipo. Jazia ali como um dejeto de rio, aqueles que ficam na curva do caminho, sem seu fim natural: a foz e o mar. O ambiente que deveria aparentar tristeza, aparentava indiferença. Os poucos parentes sentados de costas para as paredes recebiam os seus poucos amigos.

Não que o Lipo não tivesse amigos, os tinha e em grande número, mas todos eles, sem exceção, não se conectavam com a sua família. Ele durante sua vida viveu em diferentes conjuntos sendo o único ponto de contato entre eles.

Filho caçula de uma viúva de vinte e sete anos, com mais quatro irmãos. Fruto de um casamento proibido entre um dentista comunista - morto na prisão por subversivo - e uma mocinha sonhadora de pai imigrante e sírio.

Recebeu da mãe todo o carinho destinado a si e aos outros. Todos tiveram que trabalhar desde cedo para prover o seu próprio sustento, sem tempo para cafuné; menos ele; não tinha idade.Todos o tachavam: mimado.

Os irmãos seguiam suas carreiras: o mais velho de jornaleiro se tornou funcionário público, a irmã casou-se logo e se excluiu do rol das despesas, o outro se tornou, na falta de tempo, dinheiro e disposição para estudar, político da situação, daquela situação subserviente, dos cretinos fundamentais, dos ‘sim senhor’.

Ele cresceu e viveu à margem; uma terceira margem. Não conseguia compreender aquela hostilidade, aquela avareza, aquele rancor que se distribuía ao seu redor. Aprendeu a conhecer Noel Rosa, sabia quase todo o seu repertório de cor, inclusive ‘Sai da tua alcova’. Passava horas ouvindo suas músicas, aprendeu a beber.

Com a bebida ele se tornava mais leve, as pessoas perdiam aquela dureza, os sorrisos afloravam mais facilmente, via grandes momentos de ternura e amor, o medo saía dali e o fundo triste daquelas almas aparecia, boiava. Um ou outro ficava valente e era deixado de lado. Não aborreciam ninguém, eram tratados como professores e deixados de lado.

O político lhe arranjou um emprego estável, onde não precisava trabalhar, não ganhava quase nada, mas deixou para sempre afastado o rótulo de vagabundo. A mãe arranjou um casamento com uma moça que praticava ‘johrei’; o pai chamado Von Zurück havia sido um grande grileiro de terras e mãe, dona-de-casa, cuidava de ambos. Marido e genro. Nada poderia ser mais diferente dele do que essa família. Em comum tinham apenas o gosto pela caninha e pelo filme ‘O Crepúsculo dos Deuses’, que assistiam diariamente. Mas essa congruência era com o sogro, não com a menina. Passaram juntos infindáveis seis meses. Aumentou a bebida até encontrar o nível insuportável para todos. O sogro foi o primeiro que caiu em coma alcoólica, finalmente, quando ele caiu, a noiva também caiu…fora.
Mudou-se para o centro da cidade. Vivia com motoristas de praça, biscateiros de uma forma geral, companheiro de bebida nos bilhares, lia João Antonio às vezes.
Encontrou muito amor, carinho, compreensão e isolamento. Ficou doente, muito doente, com úlcera. Teve tempo de dizer para o sobrinho empedernido:
- Ta vendo? Nada de cirrose. Isso é que é saúde. Não te falei?
Morreu sem receber alta.
De repente dentro do silêncio um murmúrio, um clamor, um alvoroço digno de velório, sem fúria, lotado de olhares enviesados. Três moças entraram silenciosamente, olhando para o corpo e para o chão. Vestidas com capas de chuvas, ao se movimentar desnudavam suas carnes, seus rostos tinham ainda restos das cores da noite, do amor comprado, exagerado, fácil de receber, difícil de dar.
Recatadas. Olharam e viram apenas homem com um sorriso no rosto, dirigiram-se para ele. E uma delas disse baixinho:
- Você pode me emprestar as chaves do apartamento dele, pra gente tirar nossas coisas?
O tio - funcionário público - se aproximou para ouvir a conversa, se intrometeu:
- Infelizmente não podemos.
O sobrinho - o do sorriso -, respondeu:
- Tio, me dê as chaves, eu me responsabilizo. Po’ deixar.
De posse do molho, entregou às moças e pediu que elas as devolvessem em sua casa.
E o Lipo foi embora com quatro declarações de amor ao natural, sem álcool, para sedimentar sua parte neste mundo, vasto mundo.

Pombinha

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday February 14, 2008

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Decorridos quarenta dias do seu primeiro dia de trabalho recebeu o salário do mês. Quatro notas novinhas tiradas do bolso do patrão, depois de uma pergunta encabulada. Todo o seu empenho coube num bolso de uma calça. Pela primeira vez conseguiu compreender o significado da expressão: falta mês no fim do salário.

 
Esse conto começou num pedido de alguns contos para o seu pai. Ele ouviu o pedido num misto de surpreso e alegre. Dando toda a impressão que o atenderia. Convidou o filho para tomar café da manhã, no dia seguinte, antes que ele saísse para o trabalho. O rapaz antes de dormir lembrava-se de ter esfregado as mãos de contentamento. Estava cansado de fazer escambo. Trocava os seus brinquedos por livros de bolso no jornaleiro da esquina. Desenvolveu, por cobiça à leitura, seu senso comercial. Trocou uma pista de carros de corrida pela coleção completa de uma espiã nua que abalou Paris. Seu melhor negócio. O brinquedo foi entregue sem a embalagem que serviu como sua primeira estante e esconderijo. Histórias escritas por David Nasser disfarçado sob um pseudônimo.  Dali pulou para a cama de Pombinha, personagem de Aluísio Azevedo. A sua iniciação se deu na literatura. Uma grande fuga, provocada pela proibição paterna, por ser literatura adulta. Proibir foi o primeiro degrau, os demais a qualidade do texto e contexto ajudaram a subir.

Estava cansado da vida de comerciante. Tomava tanto tempo, sempre se sentia num mercado persa, mais, sempre tinha impressão que havia feito um mau negócio. Não foi feito pra isso. Gostava de ler.

 

Tomou o café, comeu sua torrada, café com leite. Nada. O pai não deu um pio a respeito do assunto material e principal. Terminado, ofereceu uma carona ao filho e o levou a um escritório próximo e o apresentou para o seu patrão.

 

“Decorridos trinta dias você receberá o seu salário e o gastará da melhor maneira possível. Você é uma pessoa de sorte, nem todos conseguem emprego assim tão fácil.”

 

Com seu salário no bolso, convidou o velho para tomar uma cerveja. Foram a uma choperia alemã muito famosa, e que sabia ser do gosto dele. O velho era um grande conhecedor de cerveja. Ficaram bebendo uma boa parte da noite, contando as novidades. Aliás, o filho só bebeu água mineral. Abstinente. O pai de temperamento austero e de pouco falar, assim permaneceu durante todo tempo. Apenas abanando a cabeça, parecia compartilhar do entusiasmo do filho.

Saíram tarde, estavam num bairro muito movimentado da cidade, as luzes todas acesas, das casas, da rua, e dos automóveis, faziam o papel das estrelas. Uma confusão a qual o filho não estava habituado. Ficou com a visão ofuscada como se tivesse saído do cinema; mas não a ponto de não ver uma pessoa abrir a porta e entrar no carro do pai. Virou-se e se dispôs a fazer algo para tentar evitar o furto. Sentiu a mão pesada dele em seu ombro e a voz disse:

 “Deixa menino, ele só está fazendo o trabalho dele. Vamos ligar para a fábrica que eles mandarão outro. O seguro toma conta do resto, pra que estragar a noite?”

 “Por quantos livros poderia trocar um carro de verdade?” Foi o primeiro pensamento que veio à cabeça do garoto.


João-Ninguém

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday December 28, 2007

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“Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas em sua imagem existe alguma coisa que se coaduna com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em diferentes latitudes e idades.“ Jorge Luis Borges, in O livro dos seres imaginários. 

Por que colocou no seu blog ser um João Ninguém? Credo! Fica parecendo que nem você mesmo acredita na sua existência. … Quando vi a primeira vez, levei um susto. Depois, estranheza… 

Ainda não sei exatamente como responder sua pergunta. Propositalmente não quero revisitar o texto em que isso está declarado.  Creio que a declaração feita, poderia ser remetida aos autores alemães do início da última centúria de tempo, adeptos da inclusão de todos nós numa única unidade, onde todos teriam que ser fraternos, iguais e livres.

Esse sonho foi, pouco a pouco, sendo materializado. Hoje nós temos a mostra mais acabada da nossa perfeição, harmonia e liberdade. Tudo aquilo que estava nos livros, tocado pelo humano, se tornou real. Nós tivemos os nossos Quixotes, quantos não sei, mas deles e da sua luta, restaram farrapos que conseguimos ver, letras que conseguimos ler e, realidades que conseguimos sentir.

E o sentido do joão-ninguém também se transformou, passando daquele ser integrante do formigueiro racional, ao fluido como a brisa. Tanto um como outro são absolutamente irreais. São formas pertencentes ao universo cujo sentido não sabemos.

Portanto, para responder a uma parte da sua questão, posso dizer que eu mesmo não acredito na minha existência, como algo que tenha um objetivo, ou sentido, escolhido por mim.

Passei por vários caminhos, sempre tentando permanecer, nunca isso me foi permitido. Algo maior que a minha vontade, fazia-me movimentar, quer física, quer espiritualmente. É verdade, estou apenas passando por uma fase temporária, onde me preocupei em deixar uma descendência, para que ela siga a minha busca. 

Que ela encontre a resposta daquilo tudo que não consegui. Não pretendo ensiná-la. Nem posso. Pretendo apenas dar o meu exemplo de leitor assíduo, do conquistador do Nada.

A matéria foi gradualmente mostrando o seu valor. Um valor que diminuía com o tempo, parece que inversamente proporcional à importância que todos os físicos e metafísicos lhe emprestam.

Um sábio chinês não conseguiu descobrir ao sonhar com uma borboleta, quem era ele; o homem que estava sonhando ou a borboleta que sonhou ser um homem dormindo. Esse é o ponto mais alto da fuga do real que consegui admirar.  Jamais consegui atingir.

Quem sabe conseguirei?Você poderá perceber que sou otimista. Quis deixar um legado que não fosse o da minha miséria. 

Ônibus

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday December 6, 2007

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Acordou sentado num ônibus. Olhando de lado encontrou alguns semelhantes, outros à frente, muitos atrás. Não sabia para onde estava indo, parecia que a ansiedade de movimento tomava o pensamento de todos os presentes, a possibilidade de parar é aterrorizante. Em cada grupo de pessoas uma sempre predominava, tomando dos demais as palavras e os gestos, semelhava-se ao rival vencedor. Rei da mímica. Ficou assim estipulado, tínhamos várias federações que possuíam em comum o nada.

Levantou-se para percorrer, constatar, entender.

Encontrou o motorista atarefado em manter o volante e para isso precisava conversar com os que estavam próximos. Pedia que se mantivessem todos em paz, engendrava histórias para tal.

Também percebeu alguns passageiros hábeis em acumular seus objetos; outros que os trocavam, vendiam, compravam, mantinham-se muito ocupados. Tudo num espaço exíguo, finito e num equilíbrio instável. Talvez fosse algo necessário para escapar da inutilidade e do sem sentido da viagem.

Alguns outros sem muita habilidade para as coisas do comércio, fugiam dessa realidade com qualquer coisa que os mostrasse dignos de admiração, valor e de ação. A grande maioria não conseguia compreender os porquês. Imitava loucamente e não conseguia obter nada. Sentiram que não era apenas questão de imitação. Passaram a cobrar.  Nascemos sem pedir; foi o máximo argumento que ouviu.

Alguns desocupados liam. Tentavam explicar, contar histórias, fazer parábolas e paralelos. Eram desconsoladamente ouvidos. Ganhavam alguns trocados e reduziam-se os ouvidos disponíveis, por falta de sentido prático.

Ouviu-se um disparo. Forte. Ensurdecedor. Espalhou-se uma névoa de pólvora. O motorista enviou um lugar tenente para tranqüilizar o ambiente de qualquer forma.  A única foi liquidar o autor.

Todos ficaram em silêncio por alguns minutos, logo após, a conversa voltou pouco a pouco nos diversos aglomerados. A revolta foi abafada e não liquidada. Todos queriam tudo.

Pararam para comer. Todos desceram, houve uma única exceção. Depois de algum tempo gasto na digestão, o movimento recomeçou. A morte do líder foi o estopim de outra névoa - agora - de insatisfação.  O clima se acirrou, o medo se alastrou. Tudo parecia se encaminhar para o rancor coletivo. 

Para a exceção - o desperto -  só restou uma alternativa: O exílio. Quem sabe poderia encontrar um lugar onde se abrigar do sol e da chuva e viver sem intenções, desejos e idéias?  O seu cabelo cresceu foi abandonado suavemente por tudo, e o resultado disso foi – até agora – uma volta para uma forma original, despojada de tudo que lhe foi pespegado.

Ainda tem vontade de achar a direção do ônibus para contar. Foi a única posse remanescente;  essa dia a dia vai também desaparecendo.

Desculpe-me. 

Ruud

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Saturday November 17, 2007

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Ruud nasceu destinado ao silêncio. Falava pouco, o indispensável, sabia que nada de útil pode ser ensinado. Seus pais fugiram da pobreza européia, do darwinismo social que imperava, chegaram separadamente; um da Holanda outro da Alemanha. Casaram-se aqui. A família de sua mãe voltou; a de seu pai se aclimatou, criou raízes.

Acreditava tremendamente na palavra. Sua diversão preferida era procurar palavras que se encaixavam completamente na definição pedida. Sem dúvidas, sem outros sentidos. Conhecia as mais estranhas palavras e as mais exóticas ações. Zorro para ele significava andar de gatinhas; aquele período que sucede o despertar pela manhã, misto de sonho e a realidade, se chama hipnopômpico. Tinha facilidades com línguas estrangeiras, aprendia a música  do idioma rapidamente, e falava várias línguas e dialetos.

Acreditava no trabalho por herança familiar e social. Tudo girava em torno do trabalho. De outro lado, ao sair para a rua, sentia muita dificuldade em compreender o lugar onde havia nascido. Tudo era mais solto, leve, não tão comprometido com a eficiência, com a rigidez. Cresceu e viveu nessa contradição entre a casa e a rua. Ambos eram antagônicos em princípios e comportamento.

Sua mãe era fervorosa devota de Lutero. Sentia saudades de algo que não sabia bem o que era, ao ver um filme, um documentário da sua terra. Matavam as saudades através da língua. Conversavam apenas em alemão em casa, traziam muito de perto a cultura e os hábitos da terra natal. Sua casa era um pequeno estado alemão. Tinham constituição, direitos, deveres, horários, escalas e tudo mais, um completo sistema legal paralelo.

Casou-se contra a vontade de todos com uma nativa. Brasileirinha da Silva. Filha de imigrantes árabes e colonizadores portugueses, uma reminiscência da invasão árabe na península. Logo após o casamento viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar numa empresa do seu pai.

Sua mulher era completamente despreparada para a casa. Emancipada, moderna ou pobre, trabalhava fora, preferiu aprender tudo com a família que adotou, para atender aos não ditos desejos do marido. Essa inexperiência foi lida, vista e entendida como ignorância.

Tiveram o primeiro fruto, filho parecido com o avô paterno, loiro, forte, olho azul; parecia que tudo caminhava para uma acomodação dos costumes quando a cidade e o casal enfrentaram uma epidemia silenciosa de poliomielite, a maior conhecida até então. Não saíram ilesos; o filho contraiu o vírus. Sobreviveu à febre intensa. Sobraram as seqüelas físicas, emocionais e conjugais.Fizeram de tudo que a emoção pedia e podia sugerir para voltar no tempo. Nada o vírus veio para ficar.

O filho cresceu, claudicou muitas vezes, olhava para o pai que, por sua vez, observava o carinho inestimável da mãe;  e ele parecia sempre insatisfeito, aliás, a palavra correta é preocupado.

Sobre os seus sentimentos falou algumas vezes, duas marcantes. Foi com o filho assistir a uma partida de futebol. Uma paixão de ambos. O filho caiu, numa tentativa de sentar-se na arquibancada. Todos correram para acudi-lo, e o pai disse severamente:

- Pode deixar, obrigado; ele caiu, ele levanta.

- Mas ele pode ter se machucado – retrucou alguém.

- Creio que não, ele precisa aprender a se defender sozinho.  A vida seguiu normalmente, o filho começou a trabalhar ao precisar do primeiro dinheiro; aprendeu a ganhar sua vida, ter uma vida regular, alegre, saudável e prosperou ao lado do pai. Quieto, sério, sempre fazendo suas palavras cruzadas.Passado o tempo, a família enfrentou uma segunda grande crise. Enfisema. O pai adquiriu, e mesmo assim jamais perdeu o hábito de fumar. Foi aconselhado pelo médico para deixar o vício. Respondeu:

- Prefiro viver meu tempo com alegria, seja ele quanto for; não quero passar anos que me foram reservados, tristes como os carneiros.

Após vários pneumotóraces, já exausto; numa das visitas do filho, disse:

- Não quero trabalhar mais, meu filho.

- Claro pai, considere-se desempregado e feliz.

O filho saiu feliz dessa conversa, pela intimidade com que foi tratado, com o fato de poder pela primeira vez, ajudar ao seu pai; que parecia ter recomeçado outra vida no hospital, assistindo às mais incríveis partidas pela TV, relembrando a várzea, adorava a gelatina que lhe era servida. Um homem forte, após tantos anos de trabalho, começou a gozar a vida como sempre vira acontecer nas ruas em que andava.

Algumas noites depois, no meio de uma, o filho recebeu um telefonema do hospital pedindo sua presença. Saiu rapidamente, talvez seu pai houvesse esquecido algo, talvez precisasse de algo mais, chegou rapidamente, encontrou sua mãe, sua irmã e foi informado de que ele não suportara a doença. Descansou. Sem minha ajuda 

Teorema da cadela

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday October 24, 2007

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Ele provara a elegância da teoria; restou a imagem do olhar daquela cadela recém parida no canto do portão solitário amamentando sua prole.

Casa

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday October 17, 2007

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Sempre morei em casa e tinha uma atração pelos cantos solitários, da janela do meu quarto via um panorama degradado, dos fundos de outras casas, terreno de um pequeno sítio urbano com galinhas d’angola e fábricas. Preferia ficar deitado e olhar para o céu. O sossego e o céu foram as molduras visuais e auditivas dos meus devaneios.

 

Fiquei fechado nele durante quarenta dias, sem sair para nada, absolutamente nada. Estava estudando para atingir o meu objetivo. Cursar uma boa escola, uma que fosse imbatível na opinião de todos. Sempre gostei de ser desafiado, o fracasso das minhas tentativas apenas me deixava com mais interesse de vencer o obstáculo. Nenhum deles conseguiu me vencer. Todos que coloquei pela frente foram demolidos.

 

O que não sabia era o que fazer com a vitória? Cursei a universidade e daí? Sou gerente de clube. Tenho um amigo que fez o mesmo para conseguir se graduar, e cursou todo o curso de direito em poucos meses de clausura. Conseguiu? Não sei, parece que sim, porém conseguiu mais do que isso, escreveu a sua experiência e a transformou num livro.

 

Soube o que fazer com o que tinha acumulado. Eu, entretanto, sou fadado a consumir todo o acumulado porque tenho uma visão de pardal das coisas. Não sei o que fazer com as vitórias, qualquer resultado me satisfaz.

 

Esse meu amigo bebia. Bebia muito, aprendeu a beber com cinco anos de idade, e tomava pileques homéricos. Homérico por quebrar pratos, garrafas e urinar na lareira em dias de festas que dava em sua casa, como uma forma de homenagem aos seus convidados.

 

Eu, também, claro.  Sempre fui um bêbado da abstenção. Jamais bebi nada a não ser água. As minhas bebedeiras sempre foram as bebedeiras brancas. Aquelas que nos fazem perder o controle sem nenhuma artimanha que as justifique a não ser o próprio descontrole emocional. Nasci para ser bêbado. Nunca soube.

 

Tinha um belo porão na casa da minha avó, onde passava a maior parte do meu tempo, e ele não possuía altura suficiente para um homem ficar de pé só um menino. Eu passava grande parte do meu tempo, na porta, sem entrar até o fundo, brincando com velhas carteiras, objetos e dejetos familiares cheios de pó. Pó do qual fui contaminado, como já contei pra vocês.

 

Jamais saí de dentro da minha casa, a minha primeira janela com horizonte foi na serra gaúcha, uma vista deslumbrante para o cânion, verde, mavioso, intenso, próximo e sensual. Ela ficou repercutindo dentro de mim.

 

Falando do branco. A bebedeira branca vocês já conhecem. A lógica branca decorre dela, seja fisiológica ou espiritual. É do branco que falo agora.

E a cor branca sempre foi algo que provocou em mim arrepios. Apesar de ser considerada e bem considerada por muita gente, ela sempre me representou o nada. O infinito que não se consegue mirar. Aquela absurda falta de apoio que o homem normalmente se vê e enfrenta. Ou não.

 

A natureza vista sem nenhuma cor, sem nenhum enfeite, pois o branco é ausência visível da cor ou a soma de todas. Não sei bem. A Antártida representa bem o universo paralisado.

 

E para minha alegria encontrei uma narrativa de uma viagem ao pólo sul onde na última vila habitada tudo era negro, até os dentes dos indígenas, e à medida que se avançava para o sul, tudo ficava branco, os animais, as aves, e o próprio mar.

 

Paradoxalmente a temperatura da região não caiu, pelo contrário, subiu, causando um vapor muito denso. O diário de bordo acusava a data de nove de março quando atravessou uma imensa cortina sem nenhum som. O próximo registro é o do dia vinte e um, registrando uma espessa escuridão.

 

Informo que nasci aos quinze de março, esclareço: não sei se foi nessa viagem.

Zelig

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday October 15, 2007

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Sou uma espécie de zelador de um clube. O clube dos desconfiados. Foi apresentado nele por Carlos, e obtive o emprego. Um clube com um número enorme de associados e com uma freqüência baixíssima.  E pela maciça ausência acabei por criar um emprego que completasse as minhas parcas moedas. Eu vivo de contar histórias aqui.

As histórias mais contadas são aquelas referentes aos bens materiais. São essas as mais procuradas e as mais repetidas, rendem as melhores gorjetas.  Afinal de contas temos a sina de nos repetir e de acumular. Isso não é novidade para ninguém. Entretanto, as que mais gosto de contar são aquelas das coisas imateriais. Eu as acumulo,  elas acabam puxando as umas às outras. Ficam se enovelando.

Ontem à noite sonhei que havia encontrado uma amiga desconhecida que mora em Northumberland e no sonho fui indagado do significado de alguns números, o dois, o cinco, no que me saí bem, até encontrar o número dez.  Ele foi o  motivo do meu despertar.  Não sabia dar a nenhuma resposta e envergonhado, acordei.

Acordei, dia de folga, sentei-me e comecei a ler uma história de outro zelador, e ele me contou que jogou durante muitos anos pôquer com cinco parceiros, e dentre eles o mais próximo faleceu em onze de setembro. Chamava-se Rumsey e tinha o hábito de ver os pés descobertos das mulheres enquanto andava, e sempre os via contando até o número dez.  Encontrava repetidamente o mesmo resultado e disse que buscava o número onze, não queria o seis. Naquele momento pediria a moça do número onze em casamento.

Falando em onze.Parece que o barro que me construiu foi feito de pó enamorado. Um pó que serve para o ofício de zelador e de homem-bomba.O terrorista ao explodir deixa naqueles que sobrevivem pequenos pedaços de si no corpo dos outros, descobertos dias depois, quando aparecerem os primeiros calombos nos corpos. São os chamados estilhaços orgânicos.

Não foi a alternativa de emprego que me atraiu, foi a história desses estilhaços; o verdadeiro contador de histórias espalha seus estilhaços orgânicos nas mentes dos ouvintes, sem nenhuma violência,  sem nenhum calombo ou rejeição. Pena que a minha profissão de zelador de um clube sem presenças, não me dará muito chance de espalhar grande coisa. Mas o acúmulo não é algo que se deve buscar incessantemente. 

 

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