Ganja

scriptu em Penso? by Djabal Friday October 31, 2008

A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão a ponto de dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético.
Borges

 

Lâmpada: este é meu nome. Colocada num plinto de mármore.  A forma redonda, diferente das demais. Quando acesa, não consigo ver e tampouco ser vista. As possibilidades da memória e relato vêm quando desligada. A memória é transmitida pelo bocal. Ele arquiva a experiências das antecessoras. A visão é dada pelos filamentos.

Estou numa sala retangular. O recinto é uma célula de uma biblioteca. Uma das paredes é inteiramente de vidro, as demais repletas de livros dispostos numa ordem simétrica. Duas poltronas e um sofá sobre tapetes antigos completam a decoração. Entre os estofados uma mesa de apoio e sobre ela: eu e a campainha, colocada agora. Provavelmente chegará alguém para visitar o homem do Povo do Livro.

É calmo. Nove décadas de vida. A única indicação da idade é o cajado com castão que o acompanha. No mais é jovial. Viúvo. Os olhos expressivos, mansos, acompanham o sorriso permanente e enigmático. Prático e sábio. Começou a colecionar livros aos oito anos, e continua. Só os príncipes têm senso de medida; é rigoroso nos horários.

Diariamente, durante duas ou três horas, a moça lê em voz alta, uma obra escolhida. Posso dizer que a minha existência é longeva quanto a dele. Fico acesa por pouco tempo. Descanso a maior parte do tempo. Ele perdeu a visão, num azar do acaso, segundo ele mesmo sempre diz. A hipótese do excesso de uso, não poderia ser descartada. Hoje o tempo é de reflexão e calma. Ele já viu tudo que o homem foi destinado para ver.

Chega seu amigo. São duas e trinta horas. Conversam um pouco, perguntas recíprocas sobre a saúde. Cafés sem açúcar para ambos.

Durante a conversa escapa do amigo a visita à torre de Montaigne. “Ah, você esteve em Bordeaux?” “Sim, fui até lá e visitei também a casa de La Boétíe, em Sarlat”. “Esse é um dos meus autores prediletos, você sabe, não?” “Sei. Você escolheu uma frase dele para seu ‘ex-líbris’”. “Você tem uma boa memória. A minha está um tanto danificada, principalmente no departamento dos nomes próprios. A cada dia que passa, tenho mais dificuldades para lembrar-me deles. Nada que o tempo não resolva. Tenho a primeira edição dos Ensaios. Uma aquisição saborosa. O que traz aqui?” “Venho trazer-lhe um presente. Um livro de um amigo. Ele é  uma voz íntegra e original da literatura atual.” “Do que fala ele?” “Fala do amor, das formas que assume em geral; da família, das montagens e remontagens sucessivas pelas quais ela passa.” “Sim, sim, como ele se chama?” “É o ramo português da família ‘ Ponce de Leon’: André de Leones.” “Será mesmo?” “Nem sei. Mas a imagem de alguém procurando a fonte da juventude é bem sugestiva para mim.” Riram.

Descobriram amigos e professores em comum. Freqüentaram a mesma escola. Confessou que lia durante a aula. Conversaram sobre a premiação de escritores.
“O senhor conhece Le Clézio, o premiado com o Nobel desse ano?” “Não, não o conheço.” “Você o conhece?” “Li alguma coisa dele.” “E que tal?” “Eu, particularmente gosto. Ele fala, defende e mostra o ponto de vista dos excluídos. Uma literatura que estende a mão para o diálogo. Ilustra as diferenças. E justamente por esse motivo foi alvo de muitas críticas. Peixe Dourado conta a viagem de uma órfã pelo norte da África e Europa. Mistura as culturas diferentes. Quarentena não é uma leitura fácil, com tantas informações, exige um grande conhecimento do seu leitor, ou – no mínimo - curiosidade. Vai de Rimbaud à Botânica; das Ilhas Maurício à Plate, Gabriel, Pigeon House Rock, Gunner’s Quoin e Coin de Mire; do Almíscar ao massacre de Fourmies; de Aldebarã (Rohini) aos cães famintos de Aden; do Heliotrópio à rebelião dos Sepoys. Uma história narrada em várias camadas de tempo. Foi uma premiação justa.”

- “Meu amigo, hoje em dia os leitores querem sentimentos e emoções”, pontuou.

Tomaram seu segundo café, agora com leite.  

“Eu tive muita sorte. Minha mulher adorava ler. Ela foi um grande incentivo para formar a minha biblioteca. Às vezes, tínhamos problemas de dinheiro ao final do mês e ela sempre me apoiou. Iniciei minha coleção em vinte e três. São oitenta anos de leitura. Todas as dependências da casa estão tomadas, e quando terminou o espaço, aluguei um apartamento aqui na frente.”

Eles saíram para ver a primeira edição dos Ensaios de Montaigne; o manuscrito do Grande Sertão: Veredas; a primeira poesia concreta (impressa em forma de cálice) publicada em livro, na época de Gutenberg, e uma série de outras raridades. Ele apanha todas as obras, de memória, no lugar exato da estante. Abre o livro exatamente na página objeto da conversa.

Sentam-se.

 “Agora incentivo o Mário a ler. Ele me conduz para todos meus compromissos e, não raro, fica horas me esperando. Dei-lhe de presente Memórias Póstumas.” “E então, ele apreciou?” “Creio que não. Ele começou e não terminou.” “E se o senhor começasse pelas Memórias de um Sargento de Milícias, não teria mais sucesso?” “É verdade, não havia pensado nisso. Ele é mais divertido, mais próximo do nosso tempo. Farei isso.”

A conversa segue adiante até se extinguir. O visitante sai é acompanhado até a porta. O homem volta, senta, toca a campainha. Aparece uma moça e inicia a leitura. Pela sexta vez lê Proust.

Acompanho a cena. Perco-me em recordações. Vivo num paraíso. Um lugar calmo, cercado de todos os pensamentos deixados por escrito pelos homens. Ouvi uma boa parte deles. Gosto de ouvir o Quixote. Também ouço as histórias de outros, jamais as experimentarei. Experimentar é diferente de ver, é saber sem compreender. Mas estou livre de todas as infâmias que ouço existirem fora daqui. Apesar de fixa, a minha curiosidade tornou-me nômade.

Viajei por todos os continentes, conheci quase todas as nacionalidades, numa viagem a roda da minha sala. Essa viagem foi pouco aleatória, foi planejada e seguiu uma ordem. Escapou de mim o imprevisto. A conversa de agora há pouco, por exemplo. Ela foi mais vívida, mais tocante e possuidora de uma tinta diferente da que impregna a folha branca.

Há dúvidas que não consegui resolver. Buscas que resultaram infrutíferas. Saboreio um grande quebra cabeças, vejo cenas esparsas, compreensíveis em si mesmas. Entretanto, os vazios existentes, nublam o plano geral. Existem muitas perguntas sem respostas. Talvez as mais importantes. Qual o valor das coisas? Qual o valor das idéias?

As coisas são fascinantes. Todas tendem a permanecer. A permanência do homem se dá pela destruição das coisas. O fascínio do destruir, de apagar, do recomeçar.

Na coleção que habito encontrei a história de um príncipe chinês contemporâneo de Aníbal. Ele destruiu todas as bibliotecas existentes em seu reino. Livros acumulados desde há três mil anos. Raciocinou iniciar uma nova era e se denominou o Primeiro Imperador. Intentava iniciar uma dinastia infinita e fazer de todo aniquilador de bibliotecas um discípulo seu. A história não soube dizer qual sentimento assaltou o comandante cartaginês. Sabemos apenas que hesitou na destruição da capital do Império. Foi destruído por Roma.

A queima de livros é uma destruição muito particular. Mais desilusão que engenho. Auto-de-fé. Acompanhei a narrativa de um professor que viveu encerrado entre seus livros. Apenas recebia a luz do sol por uma clarabóia no teto. Acreditava que todos os espaços, deveriam ser utilizados para estantes. Considerava a leitura uma carícia. Uma forma de educação sentimental. Todas as pessoas letradas seriam bem educadas. Cansado de enfrentar os problemas práticos, resolveu casar-se. O casamento abriu a caixa de Pandora. Conheceu um lado desconhecido da vida e o descompasso entre a realidade literária e a prática. Resolveu imolar-se juntamente com sua paixão.

Por que o homem do Povo do Livro não queima a sua biblioteca?

 

 

Balandra

scriptu em Penso? by Djabal Thursday October 16, 2008

Por isso

O homem em plena maturidade…

Ocupa-se do denso e não do diluído

Ocupa-se do real e não da florescência

Portanto

Afasta o ali             agarra o aqui.

Dao De Jing

Laozi

Venho do Rio. Meu nome é Josué. Chego bem cedo. Estou com enfisema. O esforço para os menores percursos é grande. Tomei o hábito de sair muito cedo, chego antes e aguardo as pessoas. Ou saio por último, para não atrasar ninguém. Passo despercebido.  Estou de licença médica, trabalho numa empresa americana.

Trinta anos de formados, trinta e cinco anos desde o primeiro dia. Apesar dos jantares ocorridos nesse meio tempo. Esse é o primeiro encontro coletivo. Um reencontro de escola, de sala de aula.  Na qual convivemos cinco anos todos os dias juntos, durante, no mínimo, quatro horas. Os professores tentaram sem sucesso atrapalhar as conversas. Felizmente, não foram completamente bem sucedidos.

Combinamos de nos ver num local próximo à cidade de São Paulo, uma fazenda ocupando uma terra improdutiva, alugada para reuniões de empresas, de apreciadores de vinhos. Essa é a forma de os proprietários, derivados do mesmo tronco original, pagar os impostos.

O percurso é rápido, quarenta e cinco minutos desde a Capital.

O roteiro é preciso. Saio da estrada, entro numa estrada de terra. Após alguns minutos, o motorista encontra a placa indicativa: Fazenda Imperial.

O local é agradável, uma vaca ali, outra mais adiante. Entediadas. Raras pessoas atravessam o caminho. Uma senhora negra e bamboleante de lenço na cabeça, oferece a oportunidade para o motorista dizer:

- Já sabemos quem vai cozinhar.

Um telescópio à Janela Indiscreta nos recebe e espreita, sentados na varanda da sede num conjunto de cana da índia. Dali se descortina à frente, uma lagoa – espelho cinzento e liso - abraçando todo o horizonte, exceto numa das pontas, à direita. Ali, ruínas paralelas à sede estavam já cobertas pelo mato. Este, organizado, cobria cada resto de tijolo, com muito cuidado, querendo apagar todo e qualquer vestígio de construção.

Mais próximo, à esquerda, um paiol transformado num local de recreação, para eventuais hóspedes infantis. Ao lado do paiol, piscina, cadeiras de descanso, estofados, mesas e cadeiras formavam uma grande área servida por uma churrasqueira faminta. A piscina, solitária, foi medida e avaliada por um dos presentes: onze metros de largura e quinze de comprimento.

A sede branca com janelas e portas azuis lembrava séculos passados. Composta por dois segmentos retangulares: o primeiro com salas de estar e jantar, amplas, decoradas com esmero, e três quartos, ocupados pelos visitantes, segundo a democrática ordem de chegada; no prédio ao lado – separado por um pedaço de terra - vinha o cortição, transformado em mais sete quartos, um paralelo ao outro, e uma pequena biblioteca, conjugada com uma sala para a tevê.

Assim foram chegando, em fila indiana, um após o outro. Como peregrinos.

O primeiro casal. O melhor aluno da classe. O mais estudioso e aplicado. Hoje gestor do capital alheio. Fez poucas e boas sociedades.  Olhar indagador e submisso. Anseia a aprovação alheia. Restou jovem no olhar. Perdeu seus poucos cabelos, mas não seus tiques.

Chega o jogador de basquete. Casado com a mesma esposa, desde aquele tempo. Sorocaba pode se orgulhar de seu filho. Aberto, franco, sorridente e – de longe – demonstra mais inteiramente a satisfação de estar junto. Espalhafatoso e de largos gestos, cria uma área de atração a sua volta. É uma espécie de ímã.

De Brasília vem o professor. Rosto redondo, quieto, observador, esquivo. Trabalhou no Banco Central, agora dá aulas, estuda e escreve. A sua primeira reação é o sorriso, por simpatia, ou vergonha. Apresenta uma tese sobre o comportamento da Bolsa. Uma análise grafista. Foi recusado por vários orientadores, não desistiu até encontrar um. Conseguiu.

Uma visita inesperada. Desacompanhada. Cumprimenta alegremente a todos. Explica que deveria trabalhar, mas conseguiu alguém para substituí-lo, pelo menos por hoje. É auditor. Trabalha a favor da desconfiança e precisão alheia.  É funcionário registrado desses sentimentos. Revelou-se um cantor. Intrigou a todos com o repertório e o fôlego.

O Príncipe Valente, assim chamado pelo corte de cabelos, aparece em seguida, e é ofuscado pela inebriante mulher que o acompanha. Ela é descendente de árabes tem deles o sentido da hospitalidade, sem a seriedade das antigas tribos e clãs, ri muito. Talvez algum ódio. Humor fino, às vezes, corrosivo. Viveu um bom tempo na Alemanha. Hamburgo e adora St. Pauli. Tinha muitas saudades do Brasil. Quando estava triste e insegura, procurava obras, para saber da sua audiência junto aos pedreiros. Decepcionou-se com o lugar e os homens, esses não assobiavam ou faziam qualquer tentativa de elogiar sua bunda. Uma legítima bunda libanesa.

Chegou Bartolomeu Malthus acompanhado de Catarina. Aquele parece o mentor da reunião. Uma criança adulta. Cultiva, incentiva e promove a convivência ao longo de todo esse tempo. Acabou me encontrando aqui no Rio. Eu, na época, era militar. E isso causava um mal estar tremendo. Ditadura, perseguições, prisões, SNI supervisionando tudo e todos. Não era confiável para eles. Catarina veio de Curitiba. Grandão. Chamava atenção pelo tamanho de sua mão. Parecia uma maleta executiva prendendo outra. Com todo aquele tamanho era freqüente sua presença junto às meninas orientais, pequenas e tímidas. Número total de mulheres na classe. Cinco. Orientais: três.

Estamos numa espécie de oásis gramado. A um canto, duas palmeiras imperiais nos guardam como sentinelas. A terra destinada à lavoura apresenta um aspecto desolado e nu. Esgotada pelo excesso de produção ou falta de incentivo. Os administradores não sabiam distinguir. Nenhum deles de fazenda, aliás, apenas o gestor, executivo de uma usina de álcool. E foi ele que pontuou: A terra é ruim, veja como as árvores crescem tortas, se fosse boa elas cresceriam em ângulo reto. Eu não entendi, apesar da extensa explicação.

Por não haver mais espaço, caminhamos até a churrasqueira.  Imediatamente se formam dois grupos. Homens e mulheres. Acomodo-me no meio da roda feminina. Conto alguns causos, todas se riem, parecem estar à vontade, Mais tarde, chega um, logo depois, outro, até que o grupo feminino se transforma num exclusivamente masculino.

Percebo que todos estão dando voltas na churrasqueira, supervisionando os trabalhos. Matando a fome e a curiosidade. O proprietário nos deixou algumas pessoas para organizar o almoço e nos deixar despreocupados. Davam voltas para cá e para lá. Uma ciranda.

Homens num grupo, o meu. Mulheres em outro. Alguns casais permanecem juntos e não se fixam em nenhum lugar. Mais tarde se cria um local para os casais, deitados em redes, sentados em cadeiras largas, juntos, namorando. Relembrando. Não compartilham suas confidências.

Chega o poeta. O maior sucesso entre nós. Namorou a menina mais linda da classe, que acabou deixando a escola pra freqüentar aulas de dança. Ele a conquistou com sua poesia e sua música. Tive a impressão que naquele momento todos queríamos ser artistas. Continua magro e alto. Perdeu alguns cabelos, continua um homem com um olhar de quem ouviu um grande segredo e almeja convencer alguém.

Também revejo o político. Calça alparcatas, calças largas de ginástica, miúdo, leve, cabeça totalmente branca. Os cabelos continuam indomáveis apesar de cansados. Foi bem sucedido na carreira política. Manejou milhões de moedas e pessoas. Hoje está fora do poder. Talvez percebesse tudo mudando para restar na mesma. Concluiu que a sua luta não resultaram em nada. Só matéria. Restou o valor que dá a um copo de vinho, a uma cigarrilha? Adotou a Fé Bahá-í, originária na antiga Pérsia. Pelo que me explica a esposa dele, não existe templos, sacerdotes, dogmas, ritos. Acreditam que fomos criados para levar adiante uma civilização em constante evolução.

O poeta e o auditor pegam seus violões, aproximam-se do microfone, afinam seus instrumentos e atacam de Álbum Branco. Fazem uma espécie de dupla. Separam-se aos poucos, aquele atacando também bossa nova, tropicalismo e este música popular brasileira e arriscando um sertanejo aqui e ali.

Todos param. Ouvem. Uma catarse. A busca das raízes e razões que nos fizeram sair cada um de lugar para nos encontrar numa sala de aula. Quantas coisas estão por detrás disso? Tudo se convertendo numa letra de música (Honey Pie, Savoy Truffle, Cry Baby Cry, Good Night)

 

” Your inside is out, and your outside is in
Your outside is in, and you inside is out”

Pausa. Tomar um fôlego. Oferecem o microfone para alguém que deseje falar dos motivos da escolha do curso de administração de empresas.

Um executivo dos mais procurados e bem pagos na cidade e antigo “contato publicitário”, hoje comanda uma imensa fábrica. Começa a balbuciar alguma coisa e não consegue, emocionado. É a vez de um nordestino de Mossoró, apelidado carinhosamente de Zélão, hoje possui um curso de treinamento de executivos voltados à área de finanças. Galhardo e próspero. Casou com uma gaúcha. Comenta que o pai não conseguiu pagar a sua mensalidade de cursinho. A primeira foi paga com uma ‘vaquinha’, após isso não precisou mais. A mesma sensação que batera no executivo bateu nele. Deixou de falar, teve a voz truncada e a visão nublada.

Um professor de Lian Gong assumiu a posição. Calmo, oriental na atitude e visão de vida, conseguiu explicar com uma tranqüilidade plácida coisas que procurávamos sem o saber. A beleza das coisas simples da vida. O nascer, o comer, o viver e o morrer. Da inexistência dos problemas e da existência de fatos. Fatos encarados como problemas. Como se fôssemos algo de relevante no mundo.

Pegou o microfone Malthus, era corretor, e é até hoje. Tem cara de pau, para falar como se fosse o Ministro do Trabalho. Horas sem dizer nada de memorável. Apenas situações elaboradas com musicalidade nas palavras destinadas a acalmar ou anestesiar o ouvinte como se ele fosse um cliente em potencial de alguma coisa. E tonto ou cansado de ouvir, acedesse ao seu desejo.

Ficamos até tarde da noite. Duas da manhã. Fiquei parado na varanda, ouvindo e esperando para entrar na sede. Lembrei de uma ocasião que viajamos para Ubatuba. Um pequeno grupo. Alugamos uma casa para o final de semana. Muita gente, pouco espaço. Fui com minha namorada, colega de classe. Eu e o gestor fomos destinados a dormir na sala. Nós fizemos um arranjo para não acordar ninguém e poder namorar. Fomos bem sucedidos. O gestor que estava no canto oposto ao nosso, ressonou e não ouviu nada. Com essa cena em mente, caminhei em direção ao seu quarto. Do lado de fora não ouvi nada além do exercício natural que o casal pratica em noites de amor e tesão. Hoje eu estou só. Ele está com sua nova esposa. Há nove anos. Adotou como suas, as duas meninas do primeiro casamento dela, enquanto o seu – do primeiro casamento - está na Itália.

(Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
all your life
you were only waiting for this moment to be free)

Todos foram dormir. Tudo está calmo, silencioso. Penso numa tropa de soldados da razão, saída das trevas para iluminar o mundo. Passamos anos aprendendo suas explicações. Doutrinamo-nos. E cada um seguiu o seu caminho. Enfrentou a batalha no campo da cidade, lutou contra a paralisia do medo.  Agíamos como candidatos a uma posição que não sabíamos qual, numa empresa que não conhecíamos e com uma característica singular; todos são selecionados. Assim, aos poucos, alguns atenuaram a aquela fé original. E, hoje, encontramos músicos, cantores, políticos, professores, crentes e escritores. 

Em “Navegação da Casa” Rubem Braga me indica que devo procurar o fogo. Encontro-o fenecido no forno de pizza, avivo-o, assopro-o, para afastar o frio da madrugada, aquele homicida involuntário de tantas ternuras, a labareda engorda como uma flor da cor da laranja que ruge e sussurra. Minhas mãos se dirigem a ele, procurando conforto e abrigo. Vejo-me agora como um animal, simples, descubro em meus amigos presentes e passados, diversos “eus”, sucessivos e solitários, unidos num momento único para festejar o vinho e o pão, repartido e comido por todos. Volto no tempo, vôo para o futuro, olho por sobre os ombros e os encontro com as mãos estendidas em direção àquela eterna e universal flor cálida.

Cidade concreta

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday September 17, 2008

“Chove, e eu sinto subitamente a opressão imensa de ser um animal que não sabe o que é, sonhando o pensamento e a emoção, encolhido, como num tugúrio, numa região espacial do ser, contente de um pequeno calor como de uma verdade eterna.” Fernando Pessoa.

 

 

 

Pego uma carona com o amigo. Vou ao centro da cidade.

 

(Aquele apinhado de prédios. Lá onde mora o dinheiro grande. Existem três caminhos. O primeiro e mais antigo é composto de duas linhas retas, quebradas na metade do caminho num ângulo de quarenta e cinco graus.)

 

(Sinais por toda parte, retardam a chegada. A estrada que era de barro batido recebeu pedras e agora asfalto. Foi a primeira ligação entre a antiga cidade, hoje bairro, de Santo Amaro e a Capital do Estado. )

 

(Saímos da “Cabeça Chata”, uma mercearia. Num só lugar, apertado, encontramos arroz, réstias de alho e cebola, carne seca, rapadura, mandioca. Oferecidas e prontas para colecionadores saudosos. E chegamos ao Mercado Municipal, antigo paiol de armas, hoje templo do prazer. Uma enciclopédia exibindo seus verbetes vivos. Alimentos classificados por gêneros, qualidades e procedência. Chás da Taprobana. Queijos da Aquitânia. Cervejas da Boêmia. Vinhos do Principado de Balaton. Bacalhaus de Portugal. Geléias da Trácia. Cohibas de La Havana de Cubanacan.)

 

(A segunda rota, uma linha radial, que foi aberta cortando a cidade. Três pistas para ir, três para voltar. Um empreendedor inglês, falido, transformou o espaço numa auto-estrada de concreto com quilômetros de comprimento, estendendo-se até uma cidade satélite, Interlagos, passando por um aeroporto. (Saudades da Inglaterra.) A avenida sai da ‘Chácara Flora’. Um loteamento residencial mais exclusivo da cidade, cerca de trezentas moradias, construídas sobre uma área mínima de três mil metros quadrados. Ponto de chegada: O Fórum. Sessenta mil metros quadrados destinados a distribuir justiça e conservar a paz. Deve seu nome ao líder do partido conservador, nascido em Caxias no Maranhão, formado em Olinda.)

 

(Terceira via: já nasceu moderna. São duas marginais do rio (extinguindo-se na mesma proporção que recebia o lixo da cidade e os dejetos da indústria) chamadas memória. Perdeu a função original e hoje enfeita uma espécie de anel de betume em torno da cidade. Varia de três a seis pistas num sentido e noutro. Sustenta dezesseis complexos viários. Faz a ligação entre Jurubatuba (“pardo” ou “sujo” em língua Tupi.), um bairro industrial em decadência e a rodovia Ayrton Senna ou rodovia dos Trabalhadores, que nos dá acesso ao interior do país. Essa rodovia é a mais longa e a mais rápida. Entre os dois pontos, saindo na ponte das Bandeiras atingi-se o centro. Estima-se que setenta por cento dos moradores da cidade façam essa escolha para o trajeto.)

 

Qual caminho você quer fazer? – ouvi.

 

Avenida Santo Amaro. Seguir por ela é passear por um museu a céu aberto.  Em suas margens as construções são objetos aguardando sua catalogação.

 

 

(Escolho sempre o mais demorado: a estrada original. Cujo trânsito é mais intenso, os carros são mais velhos e têm mais vida. O anda e pára do tráfego mostra os rostos das pessoas. Uma espécie de sutil e indireta interação. Olhar o rosto das pessoas é suficiente. Passo por uma estátua, um clube de ex-funcionários, hoje aceitando sócios, pagando apenas a manutenção, diversas casas transformadas em clubes noturnos. Tenho tempo para contar: quinze. Viaduto. Saída para Santos. Ouço contos, aprendo a música das palavras. Uma decadência coerente.)

 

(Não é difícil entender o alcance da imaginação, basta olhar ao redor. Lembro da história do imperador dos tártaros recebendo Marco Polo. Mandou cortar as árvores de um bosque para construir um pavilhão de caça. Um poeta, quatrocentos anos depois, acompanhou num sonho essa mesma construção. Soube que a obra obedeceu a uma música. Publicou-a em forma de poesia, lida com risos de incredulidade. Ah, como sonham os poetas. Algum tempo depois de morto o poeta, o que leu todos os livros, foi publicada uma História Universal por um persa. Nela havia algo tão maravilhoso quanto seu poema.  O persa escrevera sobre o mesmo pavilhão e afirmava: ele havia sido inspirado inteiramente por um sonho do cã.)

 

(Para esse trajeto jamais escolho a radial. Ela é um atordoar de carros, em baixa velocidade, com vidros escuros, sem nenhum contato humano, exceto em caso de acidente, rodeada de grandes construções, quase nenhum espaço aberto. Você volta para dentro de si. Obrigatoriamente, e nem sempre é isso que você quer. Só o escolho quando – como o inglês – quero sair daqui voando. Para o norte, sul. Descubro que jamais fui para o oeste. Um dia talvez. Acre. Arre.)

 

(O caminho ao longo do rio é o nosso Saara cinzento. Sem outra cor. A linha máxima do horizonte fica a duzentos metros: a outra ribeira do rio, coberta de carros faiscantes ao sol. Imensa lagarta metálica. O calor intenso nubla a imagem, torna-a trêmula. Uma miragem. Não há oásis, só mais carros. Não há água, apenas o leito enfermo. Não há palmeiras, apenas tratores retirando lixo. Não há camelos, mas uma ou outra capivara sendo salva da sua ousadia mortal. Foi notícia de jornal a sobrevivência de um jacaré, saído sabe-se lá de onde. Toda vez que pretendo ir para o interior do Estado, essa é a minha escolha. A velocidade, salvo quando entramos nos gargalos, é alta, e a sinalização,  ruim. A escolha sempre errada. Fico indo e voltando para encontrar a minha direção. Encontro, depois de três ou quatro tentativas. Eu me perco nas ruas internas. É uma tristeza. Informação, velocidade, escolha não são os componentes mais adequados para uma decisão certa.)

 

(Devo adquirir um GPS para encontrar o melhor caminho entre dois pontos. Não gosto de ficar ao sabor do momento. Um substituto de bússola. Com ela me perderia nas mãos e contramãos do tráfego.)

 

- O que é viver, para você? – pergunta.

 

Minha vida é repetir. Minhas escolhas compõem o meu ser. Sou a soma delas, ao longo do tempo.

 

Viver não é só isso.  É pegar o caminho da marginal, passar admirando o presídio, parar na Estação Rodoviária, e ficar por ali, dissolvido na multidão, escolhendo meu itinerário, entre: Aiuruoca, Bonito, Jijoca de Jericoacoara, Holambra, Piracanjuba, Rio Claro, Xique-Xique, Caldas Novas, Buriti, Caculé ou Mar de Espanha. Descobrir essas camadas tão longínquas.

 

É descobrir que há alternativas. Existe o sul. O imenso, agreste sul. Caminhando nessa direção encontro a mata, encontro o Mar. Da Pedra à pluma e água. Kublai Kan ouve as histórias de Marco Polo e suas cidades invisíveis, sabendo existir nelas um tecido mais fino, inconsútil. Lembra de seus nomes: Diomira. Isidora. Dorotéia. Zaíra. Tamara. Anastácia. Pentesiléia. Icária. Tamoé. Oceana. Harmonia.

 

Viver é algo assim. Pedaços de textos, palavras, nomes, histórias, sentimentos, sabores, sonhos, ventos, todos desconectados. Uma espécie de caos,no qual procuro encontrar algum nexo, como se fora um brinquedo brilhante que dará muita alegria.

 

É descobrir que não houve tempo antes e não haverá depois.

 

 

 

 

Sangue Negro

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday August 5, 2008

 

 

 

 

Um grande filme. Uma grande atuação, cercada de muitas-todas outras. Conta a história de um homem obstinado. Obcecado. Que confessa: odiar todos os seus semelhantes; saber deles - de cara - qual é sua intenção; ser um viciado em competição.

 

Não é muito diferente das demais obras que cuidam da vida e obra dos grandes “tycoons” americanos. Assistimos já muitos deles. Mas existe uma diferença, e essa diferença está no autor do roteiro e diretor Paul T. Anderson.

 

Ele já havia criado um personagem inesquecível em “Embriagados de Amor” e agora repete a dose.

 

Uma história dura, de um sucesso buscado a qualquer preço, com um esforço quase sobre humano, que nunca abandona o seu objeto. A primeira frase demora-se muito para se mostrar. São mostrados apenas – sem explicações - os atos formadores da educação sentimental do protagonista. Ao longo de todo filme acompanhamos, com interesse, surpresa, asco, todas as suas opções.

 

Podemos discordar de algumas delas, mas são indispensáveis ao seu sucesso. De um mineiro miserável e alquebrado a um magnata do petróleo. Sua história se confunde com a história da América. Uma como alegoria da outra. Tive a impressão de Mr. Plainview como uma das nascentes daquele Danúbio que foi a exploração do petróleo. A nascente da espoliação, da cobiça incomensurável, apenas sem o retoque do bom - mocismo. A visão é crua, não há um Tonto, um Sargento Garcia, para acompanhar o Zorro. A iluminação do filme é sombria e magnífica. “A treva e a luz sempre haviam coexistido, ignorando-se, e quando finalmente se viram a luz só olhou de relance e se desviou, mas a escuridão enamorada se apoderou do seu reflexo ou lembrança e esse foi o princípio do homem”.

 

Existe uma luta entre irmãos, entre a fé e o negócio, ambos visando o dinheiro.  São duas faces da mesma moeda da ambição, da vontade de poder.

 

O que dá um toque de beleza extraordinária ao filme é a habilidade com que o diretor dosa a complexidade do personagem, por um lado com um ódio inaudito e um amor filial incompreendido por todos, inclusive pelo filho e que fica escondido. Aparece de uma forma vacilante, envergonhada ou doida e embriagada.

 

Uma das cenas marcantes é a da explosão. Naquele local se encontra seu filho “H.W.” (Dillon Freasier). Imediatamente o pai sai em sua busca, encontra-o, aconchega-o no peito e corre com ele para uma distância segura. Constata que o filho está relativamente bem, e o deixa chorando, com os braços estendidos pedindo: fique. Não, ele vai tentar salvar algo do que resta. Volta para o seu negócio. O negócio, sempre o negócio.

 

Não há dúvida que Daniel é um apaixonado. Tanto de amor quanto de ódio. E essas manifestações são parecidas em seu antagonismo. A abjuração da fé do pastor, seu carrasco e agora vítima, é um grande clímax e desmascara qualquer poder religioso.

Enfim, é uma das histórias da América revisitada por um homem de grande talento. Ele resiste a comparações com qualquer filme. É único, diferente, cruel e sensível. Explica ao nosso tempo – o nascimento da força do petróleo; se trocarmos o protagonista por um país restará uma explanação didática do que é necessário se fazer para sair vencedor dessa competição.

 

Esta obra continua o diálogo iniciado com Cidadão Kane, Era uma vez na América, O Poderoso Chefão, com competência, dignidade e emoção.

 

 

 

 

 

 

 

 

Blade Runner

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday July 23, 2008

 

 

Alô, alô; daltônicos. Vou sair com luvas vermelhas. Optei ficar ou lembrar Sean “Rachael” Young em Blade Runner.  Tenho uma balada hoje. Devo sair depressa, não tenho tempo para mais nada. Gosto de fazer tudo rapidamente.

 Sou muito atrevida. Tenho vontade de dominar a situação. Não costumo esperar por nada. Avanço. Disfarço o tremendo medo que sinto, correndo, avançando, como se estivesse sendo empurrada por algo que não sei bem o que é, e para uma direção desconhecida. Antes de saber, ataco, termino, aprofundo, salto e sobrevivo dando a primeira pancada. Servindo ao meu vetor.

E agindo assim é justo concluir: os homens estão muito sensíveis. Como a mim tudo os assusta. Deve ser uma coisa do tempo, ou dos tempos. Mas eu vou em frente o ataque é a melhor defesa. Eles – os meus pelo menos – ficam tristes e saudosos. E a angústia me assalta, como se a morte estivesse muito próxima.

Tudo hoje é signo. Tudo é aparência. Estamos perdendo a capacidade de conversar. Cada um de nós conversa só, mesmo acompanhado de outras pessoas; as conversas são cortinas de água, verticais e paralelas, somente respingos se tocam.

Ouvi uma história sobre um carinha que solucionava questões de matemática antes mesmo que a calculadora o pudesse fazer. Rápido. Abissal. Abismal. Batia os olhos e o resultado, saltava como pipoca no micro-ondas. Como ele teve o infortúnio de nascer na Índia, foi levado para a matriz de então; lá depois de muito tempo de observação, foi liquidado. Nenhum de nós está – aparentemente - preparado para uma afronta dessa, muito menos um mistério desses.

Conversei com um mestre de xadrez. Aprendi que o talento natural para o jogo está naquele que vê o tabuleiro como um todo, e conforme a posição das peças sabe de imediato quem vai ganhar a partida, se tudo continuar naquela direção.

Assim procuro agir. Ouço bastante. Tento ver a paisagem completa, no menor tempo possível. E a nossa paisagem está caminhando para um mundo como o das formigas, especializado, lógico, inexorável como a globalização.

Percebo também que nós temos uma recordação viva do período anterior ao nascimento. A forma da orelha.  O lóbulo figura a cabeça. O contorno e as quinas do ouvido são representações da espinha da nossa posição fetal. Sei como fui enquanto feto. E sei disso do meu homem também, se nasceu mirradinho ou não. Escolho pelo sinal. Pelos feromônios?

O lugar das relações monogâmicas é o museu, ou laboratório de análise psicológica, talvez o apropriado  é um centro de estudos de paleontologia. Vivemos num período de mudança profunda. Caminhamos novamente para o matriarcado. Nessas rotineiras e constantes voltas que o universo dá.

Conversei com um entomologista, ouvi a sua admiração pelas formigas, pelas especializações que escolhem, pelo arranjo das cidades, mas fiquei impressionada com o fato do espécime macho da sociedade nascer apenas para fecundar a rainha, numa determinada época e depois morrer. Quando acordei a formiga em mim ainda estava lá. Eu sabia da história, mas ouvi-la agora prestes a sair, trouxe-me tudo de volta com muita força. Algo como gostar de um sapato de couro de crocodilo, não sabendo o porquê, colocar uma roupa de couro negra.

Sim, parece que é isso. Somos as mais fortes, temos mais senso prático, abominamos a violência, a não ser e verbal e eventual. E por isso mesmo. Depois do prazer mútuo, o macho vai deslizando suavemente rumo ao rio do esquecimento. Não o matamos mais, nem carece. Ele se suicida como presença na vida comum. É assim.

Esses meus pensamentos são, talvez, originais. Poderão causar a mesma repulsa que causa uma demonstração de mau humor. Uma resposta malcriada. Uma rejeição. Como algo feio, pernóstico ou doidivanas. Uma alucinação. Mas foi com esses pensamentos tirei do doutor “Hearsay” que pude concluir como se fosse uma jogadora talentosa; e, mais com esse pensamento pude entender a beleza dessa pequena maravilhosa, que se convencionou chamar de conto.

“Quando acordou,
o dinossauro ainda estava lá”.

Augusto Monterroso

 

Além dos explícitos, dou meus créditos: A fênix apoplética,

Alfred Schnittke,Bernard WerberCristina Sampaio, DaniCast, ElfenQueen, François RabelaisRenata Miloni, Thorstein Klapsch

 

“Paris é claramente Paris”.

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday July 1, 2008

Lembrando dessa afirmação de Clarice, entre Montparnasse e Marais. Sentado. Olhando. Conversando com Rajen, possuidor de um sorriso luminoso, abundante e perfeito, míope, alegre, bilíngüe e falante; nascido nas Ilhas Maurício, descoberta pelos portugueses e palco de batalhas entre franceses e ingleses pela sua posse; País do tamanho de Ilha Bela; é através dele que ouço a descrição dessa cena, ocorrida por ocasião de sua chegada, sentados no mesmo lugar de antes.

“Um casal idoso, ela tem menos idade que ele, ou aparenta ter. Ele está curvado, a espinha não está mais ereta, os braços estão paralelos e juntos do corpo; o antebraço e a mão formam um ângulo de noventa graus. A mão dele está fechada, apontando à frente. Anda colado com a mulher. A cabeça está olhando para baixo, irremediavelmente. O trajeto do casal colide com outra mulher, amiga da esposa. Param os três, as duas trocam beijos e conversam, conversam sobre assuntos ignorados, pela distância. Mas observo que o homem esforça-se para levantar a cabeça em direção à recém chegada e põe adiante os dedos da mão, esboçando um comprimento e, talvez, esperando o beijo. Olha fixamente para a visitante, e não consegue ser visto. Os seus dedos ficam distendidos por um longo tempo, numa oferta ignorada e se recolhem após ter perdido suas últimas esperanças. Nota-se em seu olhar algo estranho, jovial.

Ao seu lado aproxima-se um outro casal jovem, saído de alguma estação próxima do metrô, creio estrangeiro, olhando para os lados, até encontrar um painel com o mapa do local. Isso é muito comum, por aqui. Não há pessoas disponíveis. Tudo está escrito. Enfrentam a batalha do idioma, fala inglesa – sim são estrangeiros – e conversam sobre o local do hotel, após tê-lo encontrado, aqui próximo, se é ou não adequado. Afinal de contas, parece que o local é despovoado, são poucos os que passam. Eles não têm segurança de ter feito uma boa escolha. Retiram-se, provavelmente, em busca de um outro, em local mais povoado.”

Somos atendidos depois de algum tempo por um garçom, peço e ofereço um cálice de vinho, observo o rótulo, para anotar seu nome: Domaine de La Solitude, 2004, Passac-Leognan.

Continua Rajen.

“Meu olhar vagueia pela rua dividida em duas por uma ilha arborizada, em um dos lados encontro uma moça loira com cabelos grossos, com olhos claros, rosto oval. Nova. Muito vestida. Com uma quantidade de roupas próprias para inverno; entretanto o dia está fresco, primaveril, sem vento. Tem uma pele um pouco escurecida. Um bronzeado sujo. Está sentada e brinca com as flores do canteiro. Olha para o outro lado, depois à direita e à esquerda, parece estar esperando alguém. E ele chega. Alto, com os cabelos longos, rastafári, com tranças grossas, com sapatos sendo usados como chinelos, dando uma instabilidade no andar, um grande cobertor lhe cobre o corpo, seu anoraque pós-moderno; acompanha o tipo seu cão, sem raça definida, com os ossos à mostra. Ele atravessa a rua dirigindo-se ao encontro daquela moça. Os dois trocam um beijo apaixonado, jovem e público. Caminham agarradinhos. No sentido oposto aos outros dois.

Passa uma africana com sua roupa orgulhosa, de um colorido intenso e variado, com excesso de panos, cobrindo o seu largo corpo, com a cabeça vestida por um ‘foulard’ e falando ruidosamente num celular; percebo um ar de reprovação no tom de sua fala, e não consigo distinguir o conteúdo, nem a origem do seu acento.

Sai da confeitaria uma hare krishna com sua túnica laranja, cabelos quase inteiramente raspado, magro e apressado, abocanhando um doce do tamanho da sua palma e levando sob os braços uma baguete. Noto o cíngulo atravessado em sua cintura e nele está pendurada a escudela.”

Assim termina a descrição da sua Paris, ao fim agradece a oferta, e precisa ir. Está de viagem marcada para sua terra natal. É casado com uma francesa e precisa colocar os presentes para seus familiares na bagagem dela. Explica que a alfândega mauriciana é muito rígida com os locais e vasculha inteiramente a bagagem em busca de tributos, mas são respeitosos com os franceses. Pisca o olho, matreiro.

Abraçamo-nos fraternalmente, continuo pensando nas histórias que ele me contou, abro o livro que carrego e encontro:

“Nicópolis. Perto desta cidade sobre o Danúbio, hoje reduzida a aldeia, o sultão Bajazé o Raio, aniquilou, em 1396, o exército cristão comandado pelo rei Sigismundo da Hungria; os cronistas da época e o testemunho do aventureiro Schiltberger, o Marco Pólo bávaro, sublinham sobretudo a displicente elegância com que a cavalaria francesa, indiferente aos planos estratégicos, se atirou de ponta-cabeça e em formação cerrada, na derrota.”

Creio não ser desnecessário esclarecer o nome do autor: Cláudio Magris.

Deserto

scriptu em Penso? by Djabal Thursday May 15, 2008

Talvez se eu pudesse colaborar, eu colaboraria para aumentar as dúvidas, em seu Momento Reflexivo. As suas e as minhas. Não as certezas, pois entre umas e outras existe o movimento. Acredito que nele nos assemelharíamos aos bêbados. Apesar de não nos darmos conta disso.

Quando estamos parados, estamos como alguém numa poça d’água e água parada gera a peste. Já que temos que nos movimentar. Descreveria o movimento assim:

Quando escrevemos dizemos o que pensamos a respeito de alguma coisa, fato ou questão; de tal maneira que aquele que lê, tira as sua impressão decorrente daquela nossa, e esta por sua vez será fruto de ambas, nem uma, nem outra. Numa espécie de movimento circular inesgotável.

Em resumo, quando eu escrevo descrevo a mim mesmo. Você quando lê, lê a si própria. Entre essa rachadura ficamos nós, os de bom senso, curiosos, aborrascados, aflitos, para encontrar pontos nas bordas daquele rio que é uma miragem.

Um rio que brotasse miraculosamente desse deserto e que nos conduziria até um lugar onde recebêssemos como troco de uma bebida comprada, aquela moeda de vinte centavos, (el zahir). Ela de tanto ser manuseada perderia a diferença entre as diferentes faces e quem sabe nos revelaria o que não pode ser revelado.

Meme

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday May 13, 2008

Meu amigo Julio do Digestivo Cultural fez essas perguntas e sugeriu um meme. É uma ótima oportunidade para que todos façam o mesmo em seus blogs. Será uma forma agradável e sugestiva de conhecer melhor a nós próprios e aos nossos semelhantes.

1 - Qual o seu começo de livro inesquecível?

“O vermelho e o negro” de Stendhal


2 - Qual foi o livro da sua infância?

Infância: Irmãos Grimm, Monteiro Lobato; Adolescência: Giselle, a espiã nua que abalou Paris (escrita sob pseudônimo por David Nasser), Aluízio Azevedo: Comecei com “O Cortiço”

3 - Qual o livro que mais o perturbou?
Livro do Desassossego do Fernando Pessoa, através do Bernardo Soares

4 - Qual o livro que você mais releu?

Auto-de-Fé de Elias Canetti e Vidas Imaginárias de Marcel Schwob

5 - Que livro considerado clássico você abandonou antes do fim?

Mínima Moralia de Theodor W. Adorno (tecnicamente não abandonei, estou lendo desde 92- [!!?]). Por princípio, não abandono a leitura de nada que começo.

6 - Que livro você acredita que deveria ser conhecido por um maior número
de leitores e não é?

Paisagem Pintada com Chá de Milorad Pávitch; “A neve do Almirante” de Álvaro Mutis; “A linguagem dos Pássaros” de Farid ud-Din Attar; “O Partido das Coisas” de Francis Ponge.

7 - Cite um título de livro inesquecível*
“Viagem ao redor do meu quarto” de Xavier de Maistre e “Cabra Vadia” de Nelson Rodrigues

8 - Que livro prometia uma coisa pelo título e, ao ler, você percebeu que era outra coisa?

“A Sangue Frio” de Truman Capote e O Livro dos Peixes de William Gould

9- Que livro você gostaria de ter escrito?

“Austerlitz” de W.G.Sebald ou “José e seus irmãos” de Thomas Mann

10 - Que livro você está lendo agora?

Mímesis de Erich Auerbach


Quem tem medo dos blogues, Mr. Albee?

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday May 7, 2008

O blog é uma abertura imensa para o diálogo. Diálogo pertinente, impertinente, culto, inculto, sobre coisas sérias ou nem tanto. Mas diálogo. Ainda se cultiva muito a ofensa pessoal, a irreflexão, o elogio puro e simples e imerecido, a vingança na forma de um texto de resposta ou comentário. Porém, acredito tudo isso é um grande e inovador exercício que se aprenderá praticando, lendo e ouvindo o que o outro tem a dizer. Tentar responder com argumentos, moderados pela possibilidade latente de bloqueio puro e simples, é uma questão relevante cujo mecanismo incentiva esse exercício. Aquela resposta como desabafo, como uma reação veterinária e passional ainda continuará, mas acabará perdendo a força. Em suma é inútil. E o argumento tentará convencer até o limite de sua tolerância, que pouco a pouco será expandida. Não que eu espere que ela tenha a dimensão da nebulosa da Águia na constelação da Serpente, mas a simples dimensão humana paulatina ainda que errática já será divina.

É evidente que a possibilidade de se colocar no ar, a um custo acessível qualquer texto, também ajudará a aumentar a confusão de fontes, de dados, e de pseudos. Mas não precisamos dar importância ao que é irrelevante. Uma pesquisa consistente elimina todas as impurezas. Ler e desconfiar são atos siameses.

De outro lado não espero nenhuma modificação no fator humano, não é isso que estou tentando argumentar ou prever. É apenas uma nova possibilidade diante da qual teremos que tomar uma decisão. E é inteiramente nova.

No começo da literatura, chamando de literatura tudo que se relaciona com a palavra; sabíamos da história de um ou outro príncipe, nobre ou assemelhado, contada por algum maluco para que servisse de lição, de paradigma. Hoje temos a possibilidade de saber a história de tudo e de todos, contada por uma série imensamente maior de pessoas, que por sua vez a abordará dos mais diversificados, inesperados e obsessivos ângulos. E esse aspecto é determinante.

Se a imensa maioria das histórias e pontos de vista são repetitivas ou tediosas; - pena, assim é que nós somos vistos da janela de um foguete. Mas quem garimpar e tiver paciência para se aproximar do planeta e escolher, não será frustrado. Terá uma ótima oportunidade de alargar o seu horizonte.

Escrevi sobre tolerância e paciência e não sei se isso adiantará, pois os modernos têm pressa. Mas essa é uma janela, grande, imensa, com mais de cento e vinte duas vidraças emolduradas por chumbo – como existe no Observatório de Greenwich – janela, que ajudará a diminuir a imensa zona de sombra que nos avassala.

Suburbano

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday April 16, 2008

Subúrbio. Rua Rosa e Silva. Grajaú. Rio de Janeiro. Essa é a melhor introdução para apresentar essa pessoa. Distante do centro, filho de um Rosa e de uma Silva, com influências indígenas, morando numa cidade com o nome de rio que não era rio, parecia um. Assim era ele. Emergiu de uma peste com algumas seqüelas, saiu dali para São Paulo. Cresceu. E nunca mais saiu.

Sancho foi seu primeiro amigo. Trabalhador; incansavelmente atrapalhado em tudo que fazia. Pronto em todas as horas. Trabalhavam juntos. Uma liberdade integral, em tempo integral. Conheceram as primeiras namoradas. Sancho foi traído pelo amigo. O suburbano não resistiu à tentação, ao mel do sexo, à luxúria. Caiu sem trinta dinheiros.

Voltou ao estudo. E na faculdade encontrou seu segundo amigo. Nascido em Caxambu, filho de família dona de muitas terras que despachou seu filho para estudar na capital do seu mundo. Sempre com sua maleta de executivo, possuía uma expressão desconfiada que não o abandonava, em nenhuma circunstância. Conheceram as segundas e outras namoradas, agora mais reservadamente. Cada um no eu canto. Os encontros conjuntos escassearam. Tinham mais o que fazer. Conheceram todos os motéis da barra.

Estudavam e trabalhavam quando necessário. Passeavam todo o tempo disponível. Voltaram ao Rio. O suburbano conheceu uma cidade desconhecida. Encantou-se com Copacabana. Túnel dois irmãos.

Repentinamente lembrou de Sancho e prometeu-se jamais cometer outra traição. Talvez motivado pelos olhares femininos, ou pelo olhar do enviesado do amigo. Ou ambos.

O segundo amigo conseguiu trancar a matrícula e se mudou para a Suécia. Foi trabalhar. Numa fábrica de papel em Göteborg. Deixou a namorada da ocasião, para o suburbano cuidar; ficaria apenas alguns meses e, estava profundamente apaixonado.

Assim fizeram e combinaram. Suburbano pediu ajuda ao Sancho e viveram alguns meses passeando pelos teatros da cidade. Conviveram sempre em três. E, ainda assim, na correspondência trocada tiveram uma briga tremenda. Essa situação de passeio era suspeita. O amigo sabia da vida, essa balela de amizade e passeio em três era conversa pra boi dormir.

Terminou o compromisso por carta assim como deu um basta na amizade.

Voltou depois de tempos, após passear pelo interior da França, gastar todas as economias num cassino clandestino em Londres; procurou seu amigo do subúrbio e o convidou para sua casa e apresentou sua primeira mulher. Uma paraense que encontrou na vindima.

Brigou com ela também, ruidosamente, atabalhoadamente. Saiu para estudar na América; durante sete anos, licenciado, mestre, doutor na filosofia da coisa. Casou novamente. Precisou de dinheiro para isso tudo e pediu ao amigo. Quando voltasse tudo iria se arranjar. Como de fato se arranjou.

Agora de volta, retomaram a amizade de antigamente. Acertaram os ponteiros, ouviu e concordou com a versão do amigo suburbano. Não se sentiu mais traído. Aquiesceu.

Assim que tivesse uma folga nas finanças devolveria todo o dinheiro que emprestou. Estava tudo anotado. Não havia motivo de preocupação, afinal de contas a dívida era em dólares, não desmancharia com o tempo.

Encontraram-se para conhecer as mulheres. Trocar impressões familiares. Afinal de contas, agora eram homens. Conseguiu um emprego de professor doutor numa universidade, aliás, em várias, para poder manter um padrão digno de vida. Demitiu-se de uma quando se viu obrigado a aprovar um aluno autista. Trocou por outra no interior.

Passou a ser um taxista do ensino, levava o conhecimento para os mais distantes pontos e recebia por isso.

Retomaram o ritmo de anos atrás, mas conversavam sozinhos; contou toda a sua aventura em Nova York, das amizades que fez, dos lugares que estudou, das dificuldades que enfrentou. Ao final de cada conversa, retomava a questão da dívida, e o amigo dizia que não se preocupasse com isso.

Falou do seu frágil inglês, apropriado para aulas em sindicatos, nunca em escolas. Contou da beleza das mulheres no verão norte-americano. Na quinta avenida, por exemplo, ele se lembrava de Ipanema. As roupas eram apenas um detalhe esvoaçante cobrindo os corpos semidespidos. E, como de regra, a dívida era retomada e o assunto afastado pelo amigo.

Conseguiu participar e depois promover congressos ao redor do mundo, Inglaterra, Índia, Estados Unidos; e almoçava com o amigo. Trazia o vinho e conversavam, trocavam reminiscências, do clima entre professores. Das disputas. Dos concursos feitos para que um só ganhasse.

Os vinhos que tomavam vinham das vinhas da África do Sul, local do seu último congresso. Aquele ar de desconfiança aos poucos desapareceu.

Nunca mais falaram do assunto da dívida.

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